Interessante

Paz entre judeus e palestinos? Nunca comprei essa fantasia

Depois de escutar Mahmoud Abbas, só confirmei as minhas reservas nesse investimento

João Pereira Coutinho – 4.mai.2018

 

No papel, seria fácil resolver o impasse: dividir o território entre os dois povos, partilhar Jerusalém como capital dos respectivos Estados —e, sobre os refugiados palestinos (tradução: os descendentes dos descendentes dos refugiados originais de 1948 e 1967), a maioria seria recolocada no novo Estado palestino.

Toda a gente conhece esse “roteiro para a paz”. Palestinos inclusos. O motivo pelo qual nunca comprei a fantasia dos “dois Estados” resume-se na palavra “antissemitismo”.

Calma, povo. Concordo que os assentamentos israelenses na Cisjordânia não ajudam à causa. Concordo que Benjamin Netanyahu já não está interessado em negociar com ninguém. Concordo que vários governos israelenses cometeram grandes erros ao longo dos anos —e até podemos discutir se ocupar Gaza e a Cisjordânia depois de 1967 foi a opção estratégica mais inteligente.

Mas ao longo do conflito é impossível não ver o fio de antissemitismo que percorre várias lideranças palestinas. Atenção: não falo do Hamas, um grupo islamita que nunca enganou a plateia e que fez do antissemitismo o seu programa principal. Falo também da secular OLP. O escândalo recente com as declarações de Mahmoud Abbas são apenas mais do mesmo.

Aconteceu na segunda-feira (30), em discurso no conselho nacional palestino. Nas palavras de Abbas, os judeus mortos no Holocausto não foram vítimas do ódio antissemita do Terceiro Reich. Os judeus foram mortos por causa do “comportamento social” dos seus membros, ou seja, pelas suas atividades financeiras ligadas à banca e aos juros.

As palavras, repito, não têm nada de original. Por dois motivos.

Em primeiro lugar, porque elas se limitam a repetir o velho mantra antissemita que olha para os judeus como um corpo parasitário na sociedade, manobrando na sombra para espoliar a riqueza dos gentios.

Abbas repete, no fundo, o que Hitler já tinha escrito no seu “Mein Kampf” contra os “agiotas” da República de Weimar, embora Hitler não se ficasse apenas pela condenação da “usura”: a paranoia rácica também já lá estava e Abbas sabe disso.

Em segundo lugar, as palavras de Abbas, por mais odiosas que sejam, parecem-me menos graves do que as suas afirmações no início de 2018.

Dizia ele em janeiro que os judeus da Europa preferiram a violência e a morte durante a Segunda Guerra Mundial do que a emigração para a Palestina.

​Insinuação de Abbas: foram os líderes sionistas que obrigaram os judeus europeus a “colonizar” a Palestina depois da guerra. Que a Palestina, durante a guerra, estivesse fechada para os judeus (por imposição do chamado “British White Paper” de 1939), eis a verdade histórica que Abbas propositadamente oculta.

Volto ao início: paz entre judeus e palestinos? Nunca comprei essa fantasia. Depois de escutar Mahmoud Abbas, só confirmei as minhas reservas nesse investimento.

 
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Parecer bonito para ser bonito?

Todo mundo mente

Quando questionadas por suas preferências, as pessoas querem parecer inteligentes

Luiz Felipe Pondé – 30.abr.2018

 

“Todo mundo mente” é a tradução de uma frase famosa do personagem Dr. House da série homônima. Ele dizia: “Everybody lies”. E é também um livro singular com o mesmo nome, escrito pelo ex-engenheiro do Google Seth Stephens-Davidowitz (HarperCollins, 2017).

Trata-se de um daqueles trabalhos escritos a partir de pesquisa em cima do Big Data, essa gigantesca plataforma de dados, cada vez mais processada por algoritmos sofisticadíssimos (“bots”, para os íntimos). Davidowitz é um “data scientist” (cientista de dados).

A chamada “física social”, disciplina criada pelo também “data scientist” do MIT Alex Pentland, autor de um clássico de 2014 na área, “Social Physics”, se constitui numa ciência social a partir dos rastros deixados por nós na rede. O “físico”, aqui, seria esse rastro que pode ser organizado como qualquer outro dado concreto de uma “hard science” (“ciência dura”, e não vaga, como as “humanas”).

Enquanto Pentland é um claro “integrado” à ideia de que isso tudo fará o mundo melhor, Davidowitz é mais dialético na sua abordagem.

A ideia central do livro é que “everybody lies”. E a razão desta mentira generalizada é que queremos parecer melhor do que somos no Face (nada que santo Agostinho, vivendo entre os séculos 4 e 5, não soubesse, sem o suporte, claro, da “data science” pra provar). A outra razão da mentira é o marketing do bem, que resolveu construir uma grande mentira a serviço da ideia de que o bem é algo que se cria numa start-up cheia de millennials livres do mal.

A comparação entre, por exemplo, o que se posta no Face (fruto de nossa intenção de parecer ótimos, felizes, inteligentes e engajados) e o material que, de fato, “googamos”, em busca de respostas ou, pelo menos, de mais dados sobre o tema que nos interessa, revela que todos mentimos. Os dois conteúdos não batem.

Como alguém, por exemplo, que diz que o marido é ótimo e a ama apaixonadamente no Face, pode, no Google, se perguntar tanto “como saber se meu marido é gay?” ou “o que fazer se meu marido não quer fazer sexo comigo?”. Sim, essas são duas das maiores questões que atormentam as mulheres. O homens, por sua vez, postam que estão “evoluídos”, principalmente os mais jovens, mas continuam atormentados por questões como “ela está tendo um caso?” ou “como aumentar meu pênis?”.

Fala-se muito de empoderamento feminino, e as mulheres mais jovens ficam cada vez mais fálicas (e sozinhas, diante de homens jovens amedrontados). Mas, se olharmos para as buscas delas no Google, o que vemos é o desejo de ver material erótico em que mulheres são violentadas, humilhadas, tratadas como vadias e similares. Enquanto a histeria do assédio toma conta de Hollywood e do mundo da mídia, muitas mulheres ficam vendo vídeos em que mulheres são assediadas e acabam gozando.

A Netflix aprendeu uma dura lição. Quando buscou fazer os menus de seus consumidores a partir da lista que estes informavam, jogou dinheiro no lixo. Quando questionadas por suas preferências, as pessoas elencavam filmes inteligentes, europeus, iranianos, alternativos, documentários. Mas, na verdade, ninguém usava o menu.

Enquanto projetavam um perfil de amantes de filmes inteligentes, na verdade, viam filmes de terror, crimes, romances, comédias idiotas e super-heróis bobos. A Netflix resolveu então perguntar ao algoritmo, nosso oráculo. O algoritmo sabe de mim mais do que eu sei de mim mesmo. Outra vez, santo Agostinho. Só que, para este, era Deus quem sabia mais de mim do que eu sabia de mim mesmo.

E aí chegou ao que precisava. Nós mentimos, o algoritmo não. Rastreando os tipos de filmes realmente vistos, a Netflix chegou à solução: não pergunte para as pessoas do que elas gostam, porque elas mentem (provavelmente, para si mesmas), olhe para o que elas fazem de fato. De novo, nada que a filosofia moral já não soubesse.

Quer mais? Apesar de as pessoas afirmarem que são contra julgar os outros (está na moda amar todo mundo), na verdade, o que os rastros dizem é que muita gente adora julgar os amigos, os colegas de trabalho, e falar mal deles.

Apesar de dizerem que querem ser informadas e, por isso, veem noticias de manhã, na verdade, as pessoas adoram acompanhar fofocas sobre celebridades transando fora do casamento.

Apesar de se condenar, veementemente, a violência, as pessoas adoram assistir a filmes de caras ricos fazendo sexo violento com alunas da faculdade. O mundo nunca foi uma farsa maior do que é hoje.

Brilhante mais uma vez.

Médicos e monstros

Apagar o passado que nos ofende é uma missão paranoica e infinda

João Pereira Coutinho – 24.abr.2018

 

Se o leitor viajar para Nova York e der um passeio no Central Park, a estátua de J. Marion Sims já não está no lugar. Quem?

Entendo. Também eu desconhecia o nome e nunca prestei atenção à estátua nas minhas deambulações por lá. Mas parece que o dr. Sims foi um importante médico do século 19 e, abreviando a história, é considerado “o pai da ginecologia moderna”.

Aplausos?

Nem por isso. Segundo os especialistas, as proezas científicas do dr. Sims foram testadas em mulheres escravas que nunca deram o seu consentimento para serem ratinhos de laboratório. Antes de ser médico, o dr. Sims foi um torturador.

A Prefeitura de Nova York, confrontada com as denúncias, decidiu remover a estátua. Hoje, os admiradores do dr. Sims devem rumar ao cemitério de Green-Wood, no Brooklyn, onde está a sua sepultura —e onde estará a infame figura.

Perante este caso, a pergunta óbvia não é saber se o dr. Sims foi um monstro moral. Qualquer pessoa com a sanidade em dia responde afirmativamente sem hesitar. O mesmo poderia ser dito sobre outro médico, Hans Asperger, que pelos vistos não se limitou a dar o seu nome a uma perturbação autista. Soube-se agora que também enviou muitas crianças com deficiência para o matadouro do Terceiro Reich.

A questão é outra: será que devemos remover da paisagem estátuas, monumentos ou edifícios que surgem manchados pela ignomínia do passado? Com a devia vênia à sensibilidade histérica dos contemporâneos, penso que não. Por dois motivos.

O primeiro é prático: apagar o passado que nos ofende com seu cortejo de horrores seria uma missão paranoica e infinda. Não falo da estátua. Falo das mil provas materiais que ficaram para os vindouros e que, analisadas à lupa, revelam sempre uma mácula qualquer, cometida sobre algo ou alguém.

Quando o leitor, turista extasiado, tira fotos nas pirâmides de Gizé ou no coliseu de Roma, será preciso lembrar que na sua “selfie” vão também os escravos egípcios e os cristãos devorados?

Não sou um fã incondicional de Nietzsche. Mas como discordar da sua premissa trágica de que a toda a civilização contém em si sementes de barbárie?

Ironicamente, as patrulhas de esquerda ou de direita tendem a reagir de formas igualmente falsas perante essa evidência. A esquerda, reduzindo a civilização aos seus atos de barbárie; a direita, extirpando a barbárie de qualquer relato glorioso sobre a civilização. Como é evidente, é possível acomodar essas duas dimensões para explicar o que somos —e fomos: bárbaros e civilizados.

Outro autor que verdadeiramente aprecio —Robert Louis Stevenson— já nos tinha revelado isso com outro médico e outro monstro: os famosos Dr. Jekyll e Mr. Hyde, que conviviam no mesmo corpo em tensão permanente.

A história do Ocidente é a história dessa tensão. Pretender um mundo higienizado, onde nenhuma memória nos agride, remeteria os homens para o deserto do Saara. Isso, claro, se esquecêssemos os rios de sangue que um dia cobriram aquelas areias aparentemente imaculadas.

Mas existe um segundo problema com a pretensão de negar o passado: é não aprender nada com ele.

Disse que o médico e o monstro habitam o mesmo corpo em tensão permanente. Isso significa que a singularidade da civilização ocidental não está na capacidade para produzir monstros –um talento extensível a qualquer outra civilização conhecida.

A singularidade está na capacidade para suplantar esses monstros. Creio que era o filósofo Pascal Bruckner quem avisava: não podemos falar da inquisição sem falar do iluminismo. Não podemos falar da escravidão sem lembrar os movimentos abolicionistas. Não podemos falar dos totalitarismos políticos sem lembrar as democracias liberais.

Criamos venenos e curas para eles. E isso só será possível pela exposição dos nossos males, não pela sua piedosa ocultação. Não passaria pela cabeça de ninguém arrasar Auschwitz-Birkenau e construir por cima um campo de golfe.

A estátua de J. Marion Sims deveria ter ficado onde estava. Com uma explicação pública e suplementar sobre o médico: ali também havia maldade humana.

De resto, essa opção seria a única forma de prestar uma verdadeira homenagem às vítimas. Quem remove estátuas incômodas também leva para o silêncio quem não merece o esquecimento.

 

O ano decisivo:

O PT na lata de lixo da história

O partido apenas acrescentou à corrupção endêmica certos tons de populismo

Luiz Felipe Pondé – 23.abr.2018

 

O PT é uma praga mesmo. Ele quer fazer do Brasil um circo, já que perdeu a chance de fazer dele seu quintal para pobres coitados ansiosos por suas migalhas. Nascido das bases como o partido de esquerda que dominou o cenário ideológico pós-ditadura, provando que a inteligência americana estava certa quando suspeitava de um processo de hegemonia soviética ou cubana nos quadros intelectuais do país nos anos 1960 e 1970, comportou-se, uma vez no poder, como todo o resto canalha da política fisiológica brasileira.

Vale lembrar que a ditadura no Brasil foi a Guerra Fria no Brasil. Quando acabou a Guerra Fria, acabou a ditadura aqui. E, de lá pra cá, os EUA não têm nenhum grande interesse geopolítico no Brasil nem na América Latina como um todo (salvo imigração ilegal). Por isso, deixa ditadores como Chávez e Maduro torturarem suas populações, inclusive sob as bênçãos da diplomacia petista de então.

O PT apenas acrescentou à corrupção endêmica certo tons de populismo mesclado com a vergonha de ter um exército de intelectuais orgânicos acobertando a baixaria. Esses fiéis intelectuais, sem qualquer pudor, prestam um enorme desserviço ao país negando a óbvia relação entre as lideranças do partido e processos ilegítimos de tráfico de influência. Esse exército vergonhoso continua controlando as escolas em que seus filhos estudam, contando a história como querem, criando cursos ridículos do tipo “golpe de 2016”.

Qualquer um que conheça minimamente os “movimento revolucionários” do século 19 europeu, e que também conheça o pensamento do próprio Karl Marx (1818-1883), sabe que mentir, inventar fatos que não existem ou contá-los como bem entender fazia parte de qualquer cartilha revolucionária.

Acompanhei de fora do Brasil o “circo do Lula” montado pelo PT e por alguns sacerdotes religiosos orgânicos,na falsa missa. Esses sacerdotes orgânicos do PT envergonharam a população religiosa brasileira, fazendo Deus parecer um idiota. Estando fora do país, pude ver a vergonhosa cobertura que muitos veículos internacionais deram do circo do Lula, fazendo ele parecer um Messias traído por um país cheio de Judas.

Eis um dos piores papéis que jornalistas orgânicos fazem: mentem sobre um fato, difamando um país inteiro. Esculhambam as instituições como se fôssemos uma “república fascista das bananas”. Nossa mídia é muito superior àquela dita do “primeiro mundo”.

A intenção de fazer do Lula um Jesus, um Mandela, um Santo Padim Pade Ciço é evidente. Para isso, a falsa missa, com sacerdotes orgânicos rezando para um deus que pensa que somos todos nós cegos, surdos, estúpidos e incapazes de enxergar a palhaçada armada pelo PT foi instrumento essencial para o circo montado.

A própria afirmação de que Lula não seria mais um mero humano, mas uma ideia, é prova do delírio de uma seita desesperada. Um desinformado pensaria estar diante de um Concílio de Niceia (325) perdido no ABC paulista. Se nesses concílios tentava-se decidir a natureza divina e humana de Jesus, cá no ABC tentava-se criar a natureza divina de Lula. Lula, humano e divino, o redentor. Essa tentativa, sim, é típica de uma república das bananas.

Penso que em 2018 o país tem a chance de mostrar de uma vez por todas que não vai compactuar com políticos que querem fazer do Brasil um circo para suas “igrejas”. A praga em que se constituiu o PT pode ser jogada na lata de lixo da história neste ano.

Ninguém aqui é ingênuo de pensar que apenas o PT praticou formas distintas e caras de tráfico de influência. Todas elas são danosas e devem ser recusadas em bloco nas eleições deste ano. Mas há um detalhe muito importante no que se refere ao PT como um tipo específico de agente único de tráfico de influência sistemático no Brasil. Você não sabe qual é? Vou te dizer.

O PT é o único partido que é objeto de investigação por corrupção a contar com um exército de intelectuais, artistas, professores, diretores de audiovisual, jornalistas, sacerdotes religiosos, instituições internacionais, apoiando-o na sua cruzada de continuar nos fazendo escravos de seus esquemas de corrupção. Esse exército nega frontalmente a corrupção praticada pelo PT e destruirá toda forma de resistência a ele caso venha, de novo, a tomar o poder.

No ano de 2018 o país pode, de uma vez por todas, lançar o PT à lata de lixo da história e amadurecer politicamente, à esquerda e à direita.

 

Atenção:

Rigor fiscal com private equity é alerta para outros fundos

Por Adriana Cotias – 18/04/2018

 

As autuações da Receita Federal a fundos de private equity que falharam em abrir a identidade de cotistas estrangeiros acendeu o alerta de outras casas que recebem capital internacional. Do anseio do Fisco de capturar falsos não residentes nas estruturas que compram participações em empresas ficou a leitura de que qualquer fundo, de ações, multimercados ou renda fixa, que capte recursos fora do Brasil por meio de veículos “offshore” está potencialmente exposto.

Não há, por ora, notícias de autuações que extrapolem o universo dos fundos de participações, mas a narrativa construída pela Receita Federal em torno dessas estruturas é potencialmente aplicável a outros portfólios, alerta Guilherme Cooke, sócio responsável pela área de mercado de capitais do escritório Velloza Advogados. “Teoricamente, isso pode ser estendido para qualquer offshore que invista no país e que é isento, como os fundos de renda fixa que atraem estrangeiros não só para o risco Brasil, mas também pela isenção”, diz. “Cada vez mais a gente vê cristalizando um outro problema que vai pesar na percepção de risco soberano e possivelmente até nos fluxos de capitais.”

Ele cita que é irrazoável imaginar que uma gestora brasileira que tenha como investidor uma fundação ou um “endowment” com milhares de beneficiários por trás consiga identificar todos os investidores. Outro exemplo é um fundo de fundos que compre cotas de uma carteira de ações dedicada a emergentes e que pode ter papéis brasileiros no seu mix, uma situação praticamente impossível de saber quem é o investidor pessoa física no último nível.

“Com essa exigência, o Brasil vai na contramão do mundo porque a predisposição do fundo estrangeiro para dar essa informação para um administrador aqui é baixa, porque ele também tem dever de confidencialidade e isso não é exigido em nenhuma outra jurisdição.”

O gestor não tem como saber quem é o beneficiário final de um fundo de pensão lá fora, assim como não é no Brasil, compara o executivo de uma gestora de ações que tem parte do patrimônio formada por estrangeiros.

Apesar de entender que tal exigência tende a ser revertida quando avaliada nas instâncias judiciais é grande a insegurança. “Hoje é definido que o administrador é o responsável tributário, mas a Receita quando argumenta que se trata de interesse econômico pode alcançar todo mundo, o gestor e o administrador.”

Os fundos de private equity são em geral formados por outros fundos fora do Brasil que não têm como regra abrir seus investidores, até por questões de sigilo, diz Roberto Barrieu, sócio do Cescon, Barrieu & Flesch Advogados. Numa estrutura dessas, o investidor podia potencialmente se beneficiar do diferimento fiscal, que é adiar o pagamento do imposto. Mas ao trazer o dinheiro para o Brasil, o contribuinte seria onerado na alíquota de 27,5%.

“Tem uma situação em que o investidor, de fato, tenta burlar a regra da isenção. Mas tem outra em que ele tem dinheiro fora e, ao enxergar oportunidades, decide entrar com outros estrangeiros num FIP que investe no Brasil. Nesse caso, não houve intenção clara de criar um mecanismo para se beneficiar indevidamente da isenção.”

Cooke, do Velloza Advogados, argumenta que o brasileiro que eventualmente investisse no país por meio de uma offshore teria um resultado financeiro pior do que se fizesse a aplicação diretamente. “Não era visto como algo irregular porque no final o contribuinte, ao trazer o dinheiro de volta, vai ter um evento fiscal. Aos olhos da Receita, o problema é o diferimento”, diz. Ele exemplifica que, tanto num fundo de ações local quanto num offshore, se o investidor deixasse o dinheiro investido por 20 anos teria o mesmo benefício, só pagando o imposto na hora do saque.

A auditora Marcia Cecilia Meng, chefe da delegacia especial de maiores contribuintes de São Paulo (Demac) da Receita Federal, tem repetido que não existe uma série de ações contra fundos porque a seleção da fiscalização é sempre impessoal, mas que algumas situações chamaram atenção pela artificialidade, como foi o caso dos não residentes.

“Não é um problema ser não residente. Mas passa a ser um problema quando você vai analisar a situação de vários não residentes e percebe que na verdade são brasileiros”, diz.

Desafinado

Triste é viver na solidão

E precisa apoiar João Gilberto neste momento em que o tempo e seu eco estão sendo implacáveis

Nizan Guanaes – 10.abr.2018

 

Fernando Alterio, o empreendedor que transformou o show business em “business” no Brasil, e eu, como investidor, fizemos o Credicard Hall, o primeiro “hall” de espetáculos mega e profissional como São Paulo.
O Credicard Hall foi feito em tempo recorde. Quando ele ficou pronto, em 1999, caímos na besteira de fazer a inauguração com João Gilberto.

Digo besteira porque João é João. A ideia era boa, mas totalmente perigosa. Eram João e Caetano para uma plateia poderosa. Estava lá todo o mundo de mais influente no Brasil. E foi um desastre total.

Quem fez uma obra sabe que quando ela fica pronta ela nunca está pronta. E o som não estava 100%. Uma pessoa normal contornaria a situação. João foi implacável. Refém de seu ouvido absoluto e de sua sensibilidade absoluta, ele passou a noite toda da inauguração reclamando da qualidade do som. “O pato sou eu”, disse ele depois de cantar “O Pato”. Foi um vexame.

Eu estava sentado ao lado de Mário Covas, o governador de São Paulo na época, e queria morrer. Não sabia onde colocar a minha cara e passei a noite colocando a minha cara dentro de copos colossais de uísque.

João reclamou uma vez, duas, três. Caetano ali na saia justa. Até que uma parte da plateia começou a vaiá-lo. E aí João saiu com a frase genial: “Vaia de bêbado não vale”. Daí em diante a noite se dividiu entre “lovers” e “haters”.

Foi um desastre total. Mas foi tão desastre que foi bom. Saiu em todo lugar. No Fantástico, nas primeiras páginas dos jornais, reportagens imensas. A impagável foto de João Wainer na Primeira Página desta Folha com João mostrando a língua para os poderosos é antológica.

Apesar de previsões catastróficas, do tipo “Credicard Hall: o Titanic naufraga em São Paulo”, a casa não naufragou. Consertamos o som, o Credicard Hall virou um ícone e está aí brilhando até hoje sob nova bandeira.

Eu sou baiano e amo João. Apesar de João, tive a presença de espírito de dizer que é mais fácil consertar o som do que “consertar” o João. O som foi consertado. João não se consertou.

Mas o Brasil lhe deve muito.

O baiano de Juazeiro, que se banhava no São Francisco, criou com Tom Jobim no Rio de Janeiro um som novo para um Brasil novo que gente no mundo inteiro entendeu e gostou. A bossa nova é sofisticada e agradável, cerebral e balançada, brasileira e global. Seu disco “Amoroso” está na lista dos preferidos de grandes músicos do planeta. É puro “soft power” brasileiro.

A versão em inglês de “Garota de Ipanema”, com Tom, Stan Getz, João e sua mulher à época, Astrud, chegou ao quinto lugar na parada americana da Billboard em 1964 e permaneceu na lista por 12 semanas. Tornou-se um dos hits daquele verão nos EUA ao lado de canções dos Beatles, dos Beach Boys e de Barbra Streisand. Foi hit também em vários outros países.

Ruy Castro, grande cronista de nossa música, definiu as dificuldades de João hoje numa coluna de novembro passado intitulada “A Vida Desafina”: “Em sua obsessão pelo controle, João Gilberto tinha como ambição apenas parar o mundo para exercer sua arte. Diante do microfone, conseguiu. Fora do palco, foi o contrário —nunca teve controle sobre sua vida”.

Imaginá-lo aos 86 anos trancado num apartamento do Leblon é triste viver na solidão.

O Brasil deve muito a João Gilberto. E precisa encontrar formas para apoiá-lo neste momento em que o tempo e seu eco estão sendo implacáveis com ele.

 

Sobre o monopólio do pensamento:

Gelo no coração

Quem tem ambições literárias deve ser de esquerda (em público) e de direita (na obra)

João Pereira Coutinho – 10.abr.2018

 

Não dou conselhos. Exceto quando me pedem. Aí, depois de cobrar meu salário, digo sempre o mesmo a uma audiência mais jovem: quem tem ambições literárias deve ser de esquerda (publicamente) e de direita (literariamente).

Em público, persiste ainda a ideia bizarra de que a esquerda tem um “pedigree” cultural mais elevado. A história do modernismo desmente essa fantasia. Mas a fantasia sobrevive —e, acredite, é mais confortável fazer carreira sem correr maratonas. Relaxe, seja de esquerda, tudo fica mais fácil.

Literariamente falando, ninguém escreve grandes obras com “bons sentimentos”. Muito menos com uma visão otimista da condição humana. Nesse quesito, faço minhas as palavras de Graham Greene: um grande autor tem sempre “uma farpa de gelo no coração”.

O próprio Greene ilustrava essa máxima como grande escritor de direita que era (apesar de se dizer de esquerda, claro). Lembrei-me de tudo isso quando lia o suntuoso ensaio de Alfonso Berardinelli, “Direita e Esquerda na Literatura”, publicado pela Editora Âyiné.

Berardinelli, professor da Universidade de Veneza, começa por recusar dois clichês sobre o assunto. Primeiro, que a literatura possui um grau de pureza intocado pelas discussões ideológicas. Segundo, que os escritores são uma raça à parte, incapazes de “legislar” para a humanidade.

Concordo com o autor: se entendemos a política no seu sentido mais amplo —uma visão do indivíduo e da sociedade como eles são e como gostaríamos que eles fossem—, tudo é política.

E esse entendimento tornou-se central entre 1700 e 1900, ou seja, com o Iluminismo continental e seus herdeiros. A literatura não se limitava a produzir belas formas. Era também o palco onde o passado e o futuro, a autoridade e a razão, o arcaísmo e o progresso se enfrentavam com violência singular.

Para Berardinelli, a Revolução Francesa só aprofundou esse cisma, ao transformar a política na “grande obsessão ocidental”. Depois de 1789, a literatura foi permanentemente contaminada pelo vírus revolucionário (ou contrarrevolucionário) —e o escritor, mesmo o mais eremita, foi “arrastado” pelo caudal ideológico.

O historicismo foi uma dessas forças que sequestraram o ofício dos literatos, entendendo-se por “historicismo” toda a teoria que procura reconstituir e antecipar o sentido da história humana. Muitos marcharam pelo partido do progresso, como se fossem soldados de uma guerra heroica.

Mas os autores que hoje lemos pela sua importância literária são sobretudo aqueles que questionaram esse progresso inexorável. Nomes como Leopardi, Baudelaire, Flaubert ou Dostoiévski.

E não deixa de ser irônico que o repúdio do progressismo ideológico tenha implicado novos e modernos meios de expressão. Os revolucionários da forma eram os antirrevolucionários por definição.

O mesmo no século 20. O historicismo transmutou-se na causa marxista-leninista. Mas os escritores que sobreviveram ao tempo não foram aqueles que marcharam ao som de Moscou. São aqueles que frontalmente se opuseram à “nova fé soviética” (Orwell, Camus, Koestler) —ou lhe viraram as costas (Proust, Joyce, Kafka). Existe alguma lição nas lições do passado?

Alfonso Berardinelli acredita que sim, retomando o “gelo” de que falava Graham Greene (literalmente).

Em 1912, o Titanic naufragou ao colidir com o iceberg. Mas, em sentido metafórico, todos viajamos no Titanic, diz ele. Porque todos vivemos iludidos pela grandeza e perenidade da nossa civilização; e cegos para a mera possibilidade de um iceberg terminar com a festa.

Os candidatos a escritores que aspiram a algo mais do que a mera “poeira da glória” não são aqueles que embarcam euforicamente na última moda ideológica. Ou, pior ainda, que se submetem a ela com as certezas dos grandes fanáticos.

Pelo contrário: são aqueles que questionam todas as causas triunfantes, possuindo aquilo que Henry James designava como “imaginação do desastre”.

Ou, para usar as palavras do próprio Berardinelli, “não é aconselhável cultivar a ilusão de que o mar da realidade, no qual navegamos, esteja sob controle”.

Essa atitude cética e irremediavelmente trágica não produz best-sellers. Mas um dia, quem sabe, talvez produza algo mais raro: uma grande obra.