C é de ‘correria’

As lições da antropóloga que traduz a classe C

PS: Ela diz que o ‘C’ é de ‘correria’

Natalia Viri

 

Uma distribuidora de energia que atende parte do Rio de Janeiro se via às voltas com uma pergunta que lhe tirava dezenas de milhões de reais: por que os moradores da periferia fazem ligações ilegais de energia?

Hilaine Yaccoub foi contratada para a missão. Sem fazer ideia da resposta, Hilaine alugou uma casa numa comunidade pobre, mobiliou tudo com móveis populares e viveu lá por oito meses.

A antropóloga do consumo estava aplicando um dos conceitos básicos da etnografia: a ‘observação participante’. Dormia, acordava, comia e vivia junto com as pessoas que utilizavam as ligações ilegais e com os ‘gateiros’ — muitas vezes, funcionários da própria distribuidora de energia. Sentindo-se sozinha numa comunidade diferente, adotou um gato persa para lhe fazer companhia. O bicho virou sensação e a ajudou a se aproximar dos moradores. O gato ajudou entender os gatos.

A conclusão do trabalho foi que, na hierarquia de gastos, a conta de luz — entendida como bem público — estava abaixo das prestações das Casas Bahia, o sonho privado que se materializava.

Para sua tese de doutorado, Hilaine viveu mais três anos na Barreira do Vasco, uma favela de cerca de 7 mil residências na zona portuária do Rio. Virou parte da comunidade e passou a entender como poucos a lógica e as escolhas de quem tem pouco dinheiro e não pode contar com o Estado.

Desde então, trabalha como consultora para uma carteira de clientes que inclui Nestlé, SmartFit/Bioritmo, Natura, DuPont, Intel, Positivo e diversas agências de publicidade.

Hilaine recebeu o Brazil Journal para um papo sobre os anseios do brasileiro médio (pós boom do consumo) e das próprias empresas na era da disrupção.

Você morou em comunidades pobres e na favela em pleno boom do consumo e ascensão da ‘nova classe média’. O que você notou nesse processo?

Primeiro, que não existe essa tal da ‘nova classe média’. Classe média não é só renda. É uma lógica de pensamento, é uma construção de um estilo de vida. Você não se transforma em classe média automaticamente. Isso passa por um longo processo, através de gerações e de diversos fatores, como escolaridade, sociabilidade, educação informal — como viagens –, aí você começa a ter um pensamento lógico de classe média. Eu chamo de consumo popular emergente, de consumidor emergente, classe C emergente.

E você acha que as empresas brasileiras entendem essa classe C?

Um pouco. Acredito que algumas empresas conhecem as camadas populares, mas ainda é minoria. Há um forte entendimento de índices, jornadas de compra, mas estar de perto e olhar por dentro de uma forma empática ainda é bem incipiente. O modo de pensar da classe trabalhadora é muito próprio, e é preciso uma relação íntima para entendê-lo.

A classe C perdeu renda e emprego. O sonho acabou?

O sonho nunca acaba para o consumidor médio brasileiro. Essas pessoas podem ter perdido poder de compra e trabalho com carteira assinada, mas no dia seguinte foram fazer empada pra vender na praia. O pensamento projetivo é uma realidade para este grupo. Eles têm fé no trabalho, na saúde e em um Deus que provê o batalhador honesto. O C da Classe C é de ‘correria’. Não sobra tempo pra quase nada, mas o sonho sempre será a cenoura.

Você se debruçou muito na questão das ligações ilegais de energia. Como as pessoas decidem qual conta elas não vão pagar?

As pessoas têm uma construção de cidadania e de direitos completamente às avessas — o que dá pra entender num lugar onde o Estado praticamente não chega. O que é público é visto como de todo mundo — ou seja, é de ninguém. E a energia não é percebida como prioridade. A Ampla [distribuidora que a contratou, hoje chamada Enel] achava, na época, que a telefonia era a grande ameaça, porque as pessoas pagavam o telefone antes da energia. Na minha pesquisa, eu vi que não é: a rival era as Casas Bahia. O pessoal foi lá, comprou tudo, enfiou na tomada. As pessoas têm o direito de ter? Claro que tem, só que não fazem conta. Mas elas estão aprendendo. Anos depois do meu trabalho na Ampla, fui na casa de uma mulher. Ela tinha cinco grills na bancada, um de cada cor. Ela me explicou que cada um era para uma coisa: um para carne, outro para peixe, outro pra sanduíche e assim vai. Na verdade, eram todos iguais. Perguntei: “E você usa esses grills?”. E ela: “Não, porque puxa muita luz”. O grill virou um enfeite na casa dela, a modernização da casa, um símbolo.

No seu doutorado, você fala muito sobre a ‘economia de compartilhamento’ das favelas. O que é isso?

Na favela, o gato de energia ou outros serviços são apenas um componente de uma economia local, que eu classifiquei como ‘economia de compartilhamento’. As pessoas compartilham energia, sinal de TV, água… Mas não só isso. Compartilham também os serviços: cuidados de criança, de idosos. Nem sempre é remunerado e quando é remunerado é o preço que você pode pagar. São redes de assistência que se resolvem sozinhas. É uma economia local que muitas vezes se sobrepõe à economia global, que é a de mercado. Hoje em dia se fala de economia de compartilhamento e se pensa na Noruega, em ‘coliving’. No Brasil isso acontece desde que a favela é favela.

Você é uma especialista em ‘classe C’ ou seu trabalho vai além disso?

Não. Apesar de toda minha trajetória de pesquisa estar focada nos grupos populares minha formação é clássica. Estudo qualquer grupo, tribo urbana, faixa etária etc. Já desenvolvi trabalhos sobre a cultura fitness, sobre inovação, sobre o pós-luxo para uma marca de roupas slow fashion, sobre sistema financeiro e relação das pessoas com bancos, sobre ativismo de mães nas redes sociais. Há uma elasticidade para atuação do antropólogo nos dias de hoje. Trabalho inclusive estudando culturas organizacionais para diminuir tensões de gerações em ambiente de trabalho. É teoria somada a aplicabilidade prática o tempo todo.

Você usou a observação participativa quando morou na favela. Tem outros exemplos de ‘imersão’ para resolver problemas trazidos pela empresa?

São vários e depende muito do espaço e do tempo que cada empresas tem para o processo. O Grupo Smartfit/Bioritmo chegou pra mim com uma questão: ‘as atividades físicas outdoor podem comprometer meu modelo de negócio?”. E eu passei a frequentar a academia e os diversos tipos de atividades esportivas a céu aberto: corrida, bikers, mahamudra… E passei a conhecer as linguagens, as posturas de cada grupo. Isso impactou o posicionamento do grupo, que passou a envolver mais os alunos em aulas coletivas e focar mais em comunidade de marca.

A Positivo me contratou para um estudo bem aprofundado, de sete meses, para entender o lugar do computador e o lugar do mobile. Eles se orgulhavam muito lá de ter o melhor pós-vendas. Na pesquisa, acompanhei muitas pessoas, várias que não saíam de perto do celular. Uma menina me falou: “O celular faz parte do meu corpo, é como se fosse um dente”. Respondi: “Como assim, um dente?”. E ela: “Um dente da frente: como eu vou sorrir sem ele?”. Fui apresentar o resultado e disse pro diretor: “você sairia de casa sem o dente da frente?”. Ele, claro, respondeu que não. Mostrei que o pós-vendas, mesmo eficiente, não valia de nada, se a pessoa tivesse que ficar sem o celular que fosse por um dia.

Um outro case que tenho muito orgulho foi um trabalho para a Publicis, que estava na concorrência da conta do Bradesco. Uma das perguntas que me fizeram foi justamente sobre o consumidor médio e a crise econômica. Era o começo da onda de crise econômica, e, sem pensar muito, com base no meu repertório, disse: “pobre não tem tempo de pensar em crise, pobre sempre pensa pra frente”. Foi justamente com o slogan ‘pra frente’ que a agência conseguiu ganhar a concorrência. Lá eles me chamam de a “antropóloga do ‘pra frente’”.

Que tipo de empresa vem te procurar e em que situações?

São gestores que buscam detalhamento, querem aumentar o conhecimento sobre seu cliente ou consumidor. Hoje há uma tendência pela busca de conhecimento genuíno e aprofundado sobre produtos, serviços e consumidores e a antropologia tem meios para aumentar o repertório analítico dos tomadores de decisão. Com isso eles podem gerir as empresas com mais propriedade e segurança. Eu faço esse papel.

No entanto, infelizmente as marcas me procuram em momentos de emergência, quando algo dá muito errado, os números estão no vermelho. Eu costumo dizer que vivo apagando incêndios. Não deveria ser assim. Pesquisa é investimento e não despesa.

Você já trabalhou em campanha eleitoral?

Na última eleição, trabalhei com um presidenciável. Minha tarefa era transmitir minhas percepções sobre o que as pessoas assistiam no horário eleitoral de todos os candidatos. Fiz isso seis vezes por semana durante todo o horário político.

Em todos os programas do PT, quando a Dilma aparecia na TV as pessoas olhavam para o relógio. O programa era longo, não tinha dinamismo e ela era percebida como chata e enfadonha. Apesar de reclamarem das promessas, o povo de modo geral quer ver performance justamente nesse campo, o das promessas. Uma promessa bem feita e crível vale diamante na corrida pelo voto.

Conheça o Brazil Journal no Instagram e no YouTube.

 

Anúncios

Mundo moderno:

Cambridge Analytica explorou informações com estilo

Por John Gapper – 22/03/2018

 

É preciso indiferença e ambição para explorar duas instituições globais da maneira como Alexander Nix, o executivo-chefe da Cambridge Analytica, fez com o Facebook e a Universidade de Cambridge. Mas eles ensinam autoconfiança no Eton College, a escola que Nix frequentou, assim como vários primeiros- ministros do Reino Unido.

Nix, que foi suspenso do cargo na terça-feira, é agora “persona non grata” no Facebook, depois de expor os controles frouxos da rede social sobre os dados pessoais de 2 bilhões de usuários. Ele também não é popular na universidade cujo nome sua empresa adotou e cuja pesquisa ajudou em seu trabalho para a campanha eleitoral de Donald Trump.

Uma lição do caso é que é preciso tomar cuidado com executivos com sotaques chiques e bons ternos. “É muito lisonjeiro que… as pessoas possam nos ver como pessoas que têm esses poderes incríveis”, disse Nix ao Parlamento inglês no mês passado. Talvez, mas foi ele que conjurou essa ilusão.

Não fosse Nix, teria sido alguém igualmente insolente. Assim que o Facebook encontrou uma maneira de entrar na mente dos consumidores – e eleitores -, e pesquisadores da Universidade de Cambridge tivessem mostrado como esse acesso podia ser explorado, uma confusão era inevitável.

A quantidade de informações on-line sobre o comportamento e a personalidade das pessoas explodiu, não só no Facebook, mas também via corretoras de dados como Acxiom, Datatrust, Experian, Infogroup – e a lista prossegue. Nix embrulhou tudo muito bem, com a ajuda do ex-assessor de Trump, Steve Bannon, e Robert Mercer, o bilionário investidor na Cambridge Analytica que apoiou Trump.

Cambridge Analytica é um nome simpático para o que é basicamente uma agência de propaganda, evocando pesquisas acadêmicas desinteressadas em vez de o negócio hipercompetitivo de convencer as pessoas a comprar coisas ou votar em seu cliente. No mundo do “Big Data”, o material de dissertação de uma pessoa é a ferramenta de direcionamento de anúncios de outra.

A base intelectual do trabalho da Cambridge Analytica para políticos americanos como o senador do Texas Ted Cruz foi uma pesquisas no Centro de Psicometria da Universidade de Cambridge. Lá, Michal Kosinski e outros constataram que os perfis psicológicos das pessoas podiam ser identificados analisando suas contas nas redes sociais, incluindo as marcas em que elas dão “curtidas” no Facebook.

Como o professor Kosinski, hoje em Stanford, rapidamente percebeu, bastou um pequeno passo a partir daí para reverter a engenharia do Facebook e desferir múltiplos anúncios voltados precisamente para as esperanças e os medos dos usuários. Outros também perceberam isso, incluindo a companhia de Nix, a SCL Group, que contratou Aleksandr Kogan, um professor de psicologia de Cambridge, para recolher dados dos usuários do Facebook.

Nix alega que os esforços para integrar os dados de Kogan aos serviços de sua própria companhia foram “infrutíferos” e, assim, usou outras fontes. Em todo caso, a SCL criou uma subsidiária americana chamada Cambridge Analytica, para oferecer modelos de definição de perfis e propaganda que devem muito às pesquisas da Universidade de Cambridge. Com justiça, a universidade não está satisfeita com a confusão de marca.

Enquanto isso, Nix extraiu o máximo do Facebook. Kogan obteve dados com o consentimento de 270 mil usuários, que também lhe deram o direito de coletar informações sobre seus amigos, elevando o total para 50 milhões. Desde então, o Facebook endureceu suas políticas para evitar que o segundo ponto aconteça.

É notável a facilidade com que a maioria de nós se dispõe a compartilhar informações em troca de serviços gratuitos. Igualmente notável é o fato de o Facebook ter poucos meios eficazes de impedir o mau uso de dados, a não ser pedir àqueles que rodam aplicativos em sua plataforma que se comportem bem, ou suspendendo-os se perceber comportamentos impróprios. O Facebook nunca implementou salvaguardas correspondentes ao poder da máquina de dados que criou.

Mas o Facebook não é o único banco de dados. Os Estados Unidos são um território fértil para qualquer um com dinheiro que queira reunir os tipos de informações pessoais, demográficas e sobre gastos das pessoas, que movimentam os modelos da Cambridge Analytica e outras. A alegação de Nix de que ele tem entre 4 mil e 5 mil pontos de dados sobre cada adulto americano deveria ser inconcebível, mas não é.

Assim como pioneiros correram para San Francisco na Corrida do Ouro, a corrida dos dados atrai os “Nixes” da vida. A Cambridge Analytica pode ter violado algumas regras, mas seu legado é mostrar a influência que se pode exercer sem violá-las. Enquanto Nix protesta, muitas outras organizações usam, silenciosamente, métodos parecidos. Mas poucas os vendem ao velho estilo de Eton. Este é o problema com a propaganda: ela desperta atenção.

Interessante:

O equilíbrio da governança em empresas familiares

Por Vicky Bloch – 22/03/2018

 

O papel de liderança nos negócios familiares ganhou contornos bem mais complexos nos últimos tempos. Afinal, o macroambiente está redesenhando não apenas os negócios, mas também a sociedade e a família. O ritmo das mudanças disruptivas, da inovação e da competitividade está se acelerando de uma forma jamais vista na história, acompanhado do compartilhamento dessas informações em tempo real, e isso exige da liderança do empreendimento familiar enormes quebras de paradigmas e a necessidade urgente de entender esses novos fenômenos.

Na semana passada, tive o prazer de assistir a uma apresentação do professor John Davis, professor da área de “family business” do MIT, que esteve no Brasil falando para um grupo seleto de empresários sobre o papel do CEO e do presidente do conselho de empresas familiares.

O público do evento era composto somente por membros de famílias empresariais e que ocupam um destes postos na governança. Com anos de experiência nessa área, o professor Davis mostrou como o exercício desses papéis vai além das clássicas atividades de avaliação de CEO, aprovação do orçamento, planejamento estratégico, políticas de recursos humanos, monitoramento de riscos e compliance, decisões de investimentos e desinvestimentos.

Para garantir que o negócio continue e possa crescer, o líder de um empreendimento familiar precisa garantir o equilíbrio entre três círculos fundamentais: o negócio, a sociedade/propriedade e a família. Ele deve liderar ações que tornem o negócio competitivo, com uma gestão capacitada e alinhada para enfrentar complexidades, tendo acionistas leais e capazes de manter uma família unida.

Para fazer isso, no entanto, Davis afirma que é preciso existir um forte alinhamento entre o CEO, o presidente do conselho, o conselho de administração, o conselho de acionistas e o conselho de família, de forma que todos os fóruns de governança da empresa familiar estejam alinhados ao propósito e à visão, e trabalhem na estabilidade do patrimônio.

O conselho de família, vale ressaltar, é um fórum importantíssimo nas empresas familiares. É ali que se procura unir a família em torno da missão e da política família-empresa, que envolve identificação de talentos, preparação para as próximas gerações, resoluções de conflitos e discussões estratégicas sobre o futuro desta família empreendedora.

Nesse contexto, a moderna família empresarial começa se deparar com questões relevantes como o fato que hoje as novas gerações são mais móveis e menos confinadas geograficamente; são menos apegadas ao seu país de origem ou a suas matrizes; tornaram-se mais multinacionais, buscando no mundo a melhor educação; querem a segurança econômica e parceiros de crescimento; são mais leais consigo e com seus projetos do que com a família estendida. Alguns líderes dessas famílias empresárias têm feito movimentos de despertar a atenção dos jovens da família, incentivando startups e investimentos desafiadores e trazendo para o time familiares efetivamente trabalhadores.

Isso nos leva a ver o tamanho e a complexidade dessa função do líder da empresa familiar, que precisa lidar ao mesmo tempo com a gestão e a estratégia do negócio em si, com as rupturas necessárias, com a gestão geracional, com a identificação dos talentos dentro e fora da família, com a sucessão, com a proteção do patrimônio familiar e tantas outras frentes. E com a diferença que, enquanto um executivo de mercado pode pedir demissão a qualquer momento para buscar outro desafio, quando falamos de um CEO ou presidente do conselho que é membro da família a história é completamente diferente.

Ser uma liderança da família no empreendimento em um ambiente de tantas disrupturas requer capacidades importantes como a de saber correr riscos, entender o contexto econômico e social, reavaliar posições e decisões, saber ouvir todos stakeholders, saber pedir ajuda quando necessário e ter sempre um olho para a sucessão. O papel de herói não cabe mais e tampouco é benéfico para o empreendimento. É preciso encontrar seu papel numa sociedade ambígua, diversa e por consequência conflituosa, mas que pode também trazer grandes frutos e satisfações.

 

Vicky Bloch é professora da FGV, do MBA de recursos humanos da FIA e fundadora da Vicky Bloch Associados

Mais um caso:

Ação pede divisão dos bens da Vicunha

Por Renato Rostás – 22/03/2018

 

A disputa societária envolvendo os dois ramos da família Steinbruch, controladora da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), foi parar na esfera jurídica. Ontem, primos de Benjamin Steinbruch entraram com ação contra ele e seus irmãos Ricardo e Elizabeth na 2ª Vara Empresarial de São Paulo. O caso está nas mãos do juiz Eduardo Pellegrinelli.

A CFL Participações, holding de Léo e Clarice Steinbruch, protocolou uma ação contra a Rio Purus Participações, que representa os interesses dos três primos. A petição pede a venda de todos os ativos sob o guarda-chuva do grupo Vicunha. Isso inclui a própria CSN e participações em controladas – de ferrovias, portos, geração de energia e de mineração de ferro -, a Vicunha Têxtil, o Banco Fibra, fazendas, uma securitizadora, entre outros bens.

Segundo Ricardo Tepedino, sócio do escritório Tepedino, Migliore, Berezowski e Poppa Advogados – assessor jurídico da CFL -, a decisão final sobre judicializar a briga societária foi tomada depois que, em assembleia realizada na segunda-feira (19), Benjamin e os irmãos, Ricardo e Elisabeth, expulsaram os primos da administração das fazendas.

“Benjamin Steinbruch e seus irmãos passaram a desrespeitar normas de governança em todas as empresas do grupo Vicunha”, afirmou Tepedino.

Na petição inicial, o advogado argumenta que o acordo fechado em 1994 entre os pais de ambos os lados é um “condomínio”. Na época, Mendel – do lado da Rio Purus – e Eliezer – da CFL -, decidiram que seus bens seriam divididos em comunhão, segundo uma participação pré-estabelecida. As controladoras da Vicunha Têxtil e da CSN seriam 60% da Rio Purus e a parte de agronegócio e outros, 55%. O requerimento de Tepedino é que a Justiça ordene a venda dos bens desse condomínio.

Segundo o advogado, pedir para vender todos os bens de uma sociedade é um caso muito peculiar e sem precedentes.

“Mas também temos um pedido subsidiário, caso a Justiça entenda que o acordo de redistribuição não é um condomínio”, disse Tepedino. Nesse caso, solicita que todas as holdings sejam dissolvidas e dividas na proporção exata do acordo original: parte em 60% a 40%, outra parcela em 55% a 45%.

No caso da CSN, 49,21% das ações estão em poder da Vicunha Aços. Assim, 29,5% iria para Benjamin e os irmãos e 19,7%, para Léo e a irmã. Mais 0,36% do capital social pertence à Vicunha Têxtil – 0,22% para um lado e 0,14% para o outro. A família de Benjamin ainda tem 4,19% da siderúrgica, por meio da Rio Iaco Participações, e a CFL tem mais 0,29%.

A CSN, terceira maior fabricante de aços planos do país, é o principal ativo do grupo Vicunha. Teve receita bruta de R$ 19,78 bilhões em 2016. Os dados do ano passado ainda não foram divulgados.

A briga societária entre os filhos de Mendel e Eliezer se deu na hora de fazer a partilha das participações de ambos. Tepedino observa que Benjamin volta atrás e pede mais vantagens no acordo entre os dois lados quando o mesmo está em vias de ser assinado.

Em dado momento, no fim do ano passado, no calor da disputa, Benjamin começou a expulsar Leo e Clarice dos conselhos de administração das companhias, disse o advogado. Todavia, o acordo de redistribuição, firmado em 1994, definia que os dois irmãos teriam paridade de representantes nos conselhos.

Tepedino afirmou que, como nenhum lado (CFL e Rio Purus) tem fôlego financeiro para a comprar a parte do outros, as condições de negociações se deterioraram no fim de 2017.

A Rio Purus, segundo Paulo Lazzareschi, do escritório LHB&R Advogados, que defende os interesses de Benjamin e seus irmãos, não tinha conhecimento da ação que foi proposta pela CFL. Por essa razão, afirmou, nada tinha a declarar e que só iria se pronunciar depois que tivesse acesso ao conteúdo da ação da CFL. Steinbruch, que preside a CSN, não comentou. (Colaborou Ivo Ribeiro)

Madalenas Arrependidas

Os publicitários decidiram que vão salvar a humanidade

Campanhas de ‘branded content’ associam marcas a histórias fofas de superação

Luiz Felipe Pondé – 19.mar.2018

 

Se você está se perguntando o que quer dizer “branded content”, eu já vou lhe contar. Mas, antes, uma velha piada.

Há muitos anos se comparavam jornalistas e publicitários da seguinte forma: ambos vão para o inferno, mas o jornalista não sabe. Isso mudou. Agora, os jornalistas estão encarando o inferno de forma mais natural, à medida que veem seus empregos se dissolverem em água, enquanto os publicitários decidiram que merecem o céu.

Da antiga imagem de que vendiam a própria mãe usando o que havia de mais criativo, agora os publicitários são mais santos do que inúmeras Madalenas arrependidas.

É isso mesmo que você leu: os publicitários decidiram que vão salvar a humanidade vendendo Coca-Cola, tênis e iPads. Os milênios creem veementemente na própria redenção via coisas como marketing de causa. As agências de publicidade agora têm mais hipócritas do que as igrejas.

Mas, afinal, o que é “branded content”? Tecnicamente, esse termo descreve o que seria um conteúdo produzido pelas marcas. Mas que conteúdo seria esse?

Do ponto de vista do jornalista, muitos críticos pensam, trata-se de você se “vender” para uma marca produzindo um conteúdo sobre crianças da África (crianças da África têm uma vantagem enorme sobre as crianças em sua casa: as da África estão longe, do outro lado do oceano!) e, ao final, aparecerá o nome da marca da farmacêutica ou da loja de diamantes. África e diamantes são uma mistura especialmente emocionante.

Esse conteúdo seria de forte conotação política e melodramática (“branded content” adora conteúdos melodramáticos porque publicitários, quando decidem que merecem o céu, ficam mais sensíveis do que meninas apaixonadas), mostrando imagens jornalísticas (leia-se verdadeiras, nada de “fake news”) colhidas na África.

Quem não se emociona vendo crianças chorando? Principalmente quando essa emoção não se transforma em realidade próxima de você. Aquele tipo de realidade que estraga sua autoimagem de quem merece o céu.

Para o jornalista, fica confusa a ideia de que ele esteja produzindo um conteúdo pago por uma empresa “interesseira”, já que o jornalista sempre se viu como um santo na luta pela justiça, pela verdade e pela independência dos interesses do mercado. Mas como todo mundo tem que viver e pagar contas…

Para o publicitário, além de ver no “branded content” sua chave para a redenção, tem um outro problema. Com o crescimento das mídias sociais e a queda da TV “tradicional”, o receptor das mensagens (este é o nome técnico para telespectador, ouvinte, leitor, seguidor, enfim, todo mundo que está na outra ponta da tríade “emissor, mensagem, receptor” em comunicação) se tornou “empoderado” (acho esse termo ridículo).

O publicitário se vê diante do desafio de convencer alguém a não tirar da sua tela de computador ou celular uma propaganda pentelha qualquer. O receptor logo procura onde está o “x” que manda aquela propaganda para o inferno. E como o publicitário evita isso?

Produzindo uma história fofa sobre pessoas que venceram dificuldades (todo mundo é mais ou menos infeliz e se identifica com fofos que vencem dificuldades). Ou “informando” o receptor sobre uma injustiça em algum lugar do mundo, ou sobre como as baleias lutam pela sobrevivência contra pequenos capitalistas selvagens.

Ao final, a logomarca dizendo para você que aquela marca está do lado das pessoas que venceram dificuldades, dos injustiçados e das baleias. Milênios se emocionam com essas coisas, de fato.

A verdade é que esses mesmos milênios vivem sob o facão do crescente capitalismo chinês que “avalia” cada gesto dele em seu trabalho, dando a ele notas infernais. A ansiedade que essas avaliações causa é uma verdadeira bênção para as farmacêuticas que produzem ansiolíticos para esses mesmos milênios que se emocionam com o “branded content” que produzem.

E você, leitor, assiste, de camarote, à fusão inexorável entre jornalismo e publicidade, realizada como forma de “crítica social”. Risadas? E os cursos de publicidade aumentam, assim, o contingente de bobos na face da Terra.

 

Vale a leitura:

Estatísticas de desigualdade não mostram tudo

vinicius mota – 25/09/2017

 

Vem do provocador Nassim Taleb, especulador das finanças e pensador da incerteza, a ideia de que o mundo contemporâneo se divide entre Mediocristão, de um lado, e Extremistão, do outro.

No primeiro, onde vive a maioria dos humanos, riquezas não brotam nem desaparecem num átimo. Ganhos e perdas são graduais e limitados por barreiras físicas, como a incapacidade de trabalhar, digamos, mais de 20 horas por dia. As médias descrevem bem esse país imaginário.

No Extremistão, o trabalho se emancipou da natureza. Algumas horas de dedicação a uma canção podem fazer do seu intérprete um milionário instantâneo. Três cliques no mouse e lá se foi uma fortuna na Bolsa. Essa terra congrega um punhado de gigantes, uma multidão de anões e ninguém entre as duas categorias. As médias, mais que inúteis, iludem.

Estatísticas sobre desigualdade de renda e patrimônio, em franco aprimoramento após trabalhos como o de Thomas Piketty, tratam esses dois mundos como se fossem um. Extremistão domina Mediocristão. Sorteie 215 mil norte-americanos e apure sua riqueza média. Se Mark Zuckerberg for um deles, o resultado será o dobro do que é para o conjunto dos EUA.

A melhora do termômetro não significa que vejamos tudo de importante por meio dele. A mesma lógica de escalabilidade que produz fortunas pessoais inimagináveis provavelmente também favorece o mais abrangente avanço nas condições de vida que a humanidade testemunhou.

No caso do Brasil, há problemas adicionais. Digamos que se consiga, com impostos, retirar metade da renda dos 10% mais ricos. Ainda assim, seria preciso arrancar dos outros estratos algo próximo de dez pontos percentuais do PIB para satisfazer necessidades do gasto público.

Os 40% logo abaixo, dos quais viria o grosso da arrecadação faltante, ganham só 15% da renda média dos mais ricos.

Perdendo a noção:

É mais fácil adotar uma ratazana do que um defensor de ratazanas

joão pereira coutinho – 08/09/2017

 

Os defensores dos “direitos” dos animais sempre tiveram um problema: como sentir empatia por criaturas que não fazem parte da nossa paisagem humana?

Vários autores sublinham esse ponto: a empatia que sentimos por um cão, um gato, um porco ou uma galinha não surge por acaso. Empatizamos porque humanizamos. Reconhecemos que o bicho faz parte da família e, para imaginações mais febris, esperamos que ele comece a falar e a dançar sapateado.

Mas como humanizar uma pulga? Um percevejo? Uma mosca? Bem sei que os filmes da Disney têm dado um contributo inestimável para o processo. Mas, aqui entre nós, quem estaria disposto a defender publicamente os direitos das ratazanas -sim, ratazanas infectas e repulsivas?

A essa eu respondo: os parisienses, claro. Leio no “Daily Telegraph” que Paris vive uma das piores crises de rataria das últimas décadas. As ratazanas vieram para a rua. Passeiam impunemente pelas calçadas. Vão tomar café ao “Les Deux Magots” e até discutem filosofia existencialista ao sabor de Gitanes.

Perante essa invasão, as autoridades resolveram agir. Começaram por interditar parques e outros recintos para evitarem a propagação de doenças. E preparam um plano maciço (e caríssimo) de desratização.

Azar. Se as ratazanas são “seres sencientes”, ou seja, capazes de sentir prazer e dor, então nada justifica o “genocídio” em curso. Uso a palavra “genocídio” porque já existe uma petição, com dezenas de milhares de assinaturas, que tenta evitá-lo.

Mais: políticos da cidade juntaram-se ao coro dos indignados e um deles, Jacques Boutault, prefeito do segundo distrito de Paris, formulou a questão que se impunha: “Mas por que motivo temos de matar as ratazanas?”.

Meu querido Jacques, não temos. Para evitar o “genocídio”, basta que os subscritores da petição se ofereçam voluntariamente para adotar duas ou três ratazanas. É só confirmar os nomes, encontrar os endereços -e entregar os roedores para que possam fazer parte da dinâmica familiar. Não é fácil?

Talvez não seja. Mas, acredite, é mais fácil adotar uma ratazana do que um defensor de ratazanas.