Muito bom!

Os limites da cognição política, um dos conceitos mais elegantes da filosofia

luiz felipe pondé – 06/11/2017

 

Tempos ruins. Grande parte da “nova direita”, infelizmente, deu pra imitar a direita “cultural” americana e está indo para a guerra cultural, combatendo exposições de arte que “uma multidão de dez pessoas” frequenta. Nesse caso, a nova direita segue de perto a “new left”, também americana, obcecada também, como a nova direita, por sexo, penetração, crianças gozando, bebês trans, boquetes em público, sexo anal no jardim, enfim, tudo isso que inteligentinhos dizem ser uma “construção social”.

Uma das tragédias da discussão política hoje é que grande parte da inteligência pública é parte da histeria. A verdade é que a “inteligência” política está sempre aquém da política. O que isso quer dizer? Isso quer dizer que, na política, como em tudo mais, não temos capacidade cognitiva pra armazenar e processar tanta informação ou dados.

Com isso não quero me colocar ao lado daqueles que, quando ouvem a palavra “algoritmoooooo”, têm orgasmos múltiplos. Nem daqueles que pensam que a política será resolvida pela “Singularity University” porque geladeiras conversarão com fogões num mundo ideal. Nem daqueles que sonham com um algoritmo como líder máximo.

Um dos conceitos em filosofia política ou ciências políticas que mais me parece elegante é o de “cognição política”. “Elegância” em filosofia (ou epistemologia, para os que estão mais habituados com o repertório filosófico) significa (de forma grosseira, mas correta), segundo Guilherme de Ockham (1285-1347), seu criador, “dizer muito sobre a realidade do mundo, de modo preciso e da forma mais curta possível”. Quanto mais uma teoria ou conceito é simples na expressão e amplo na compreensão dos fenômenos, mais elegante ele é. Esta é a “navalha de Ockham”.

A verdade é que não temos capacidade de lidar com o montante de dados que a política produz, logo, humildade, e não utopia, é a melhor atitude epistemológica aqui -e não apenas ética ou política.

Epistemologia é a parte da filosofia que estuda o conhecimento, logo, a cognição e seus modos de organização. Dizer que temos limites cognitivos pra entender a política significa dizer que nossa capacidade de armazenar e processar dados políticos está aquém da quantidade de dados que a realidade política produz. Dito de forma simples: nunca sabemos ao certo o que está acontecendo na política, tampouco os políticos.

Esse fato não implica a inviabilidade da política como saber ou prática, mas implica visões distintas da política, sua ciência e sua prática. Outro fator complicador é que a política se mistura com moral, psicologia e psicopatologias diversas, neurociências, sociologia, religião, marketing, mentiras banais, vaidades, economia, sexo. Enfim, uma infinidade de realidades que tornam impossível uma ideia clara e distinta sobre elas e suas relações.

Mas calma! Não entre em pânico por conta dessa neurose de “engenharia das coisas” que nos afeta, pior do que tesão pela “internet das coisas”. Dizer que nossa capacidade de cognição política não suporta tantos fenômenos não quer dizer incapacidade total, quer dizer cuidado com visões de mundo que implicam uma crença numa percepção perfeita da política e dos homens. Proponho que você leia “Conflito de Visões”, de Thomas Sowell, publicado entre nós pela É Realizações.

Crer na capacidade plena de nossa cognição política é ter uma “visão irrestrita” do homem (nos termos de Sowell), é crer em sua perfectibilidade infinita via engenharia social e política. É crer na política como esfera de soluções para problemas claramente compreendidos. Uma mistura de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) com René Descartes (1596-1650). É crer em nossa capacidade irrestrita de ação racional no mundo.

Uma “visão restrita” do homem é crer que sua cognição é limitada e que tudo que podemos fazer são “trade-offs” (negociar) com os problemas que conhecemos “mais ou menos”. É uma mistura de David Hume (1711-1776) com Adam Smith (1723-1790).

Se você for um cético como eu, deverá preferir David Hume e Adam Smith aos delírios do andarilho solitário Rousseau.

 

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Reinações de Rodriguinho

Um homem forte na sucessão de 2018

Por Rosângela Bittar – 18/10/2017

 

Um grupo de políticos, mais da metade constituído por aliados do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), envolvido na formulação de uma chapa para a sucessão presidencial, almoçou nesta segunda- feira com o governador Geraldo Alckmin (PSDB), em São Paulo, no Bandeirantes. À mesa sentaram-se Heráclito Fortes (PSB), Rubens Bueno (PPS), Jorge Bornhausen (sem partido, ex-DEM), Roberto Brant (DEM), Benito Gama (PTB), Pimenta da Veiga (PSDB), entre outros que não foram citados. A conversa, embora genericamente definida como “situação do Brasil”, chegou a algumas conclusões concretas.

Para aquele grupo, como João Doria (PSDB) não é mais candidato, chegou o momento de agir de forma mais objetiva, definindo claramente pelo menos uma das chapas na sucessão presidencial de 2018. A     razão  de  afastarem  Doria  do  espectro  sucessório  foi  sua  entrevista,  dada  em  Milão  e  publicada,  na mesma segunda, por “O Estado de S. Paulo”. Ao analisá-la, consideraram que o prefeito “jogou a toalha”. Assim sendo, chegou o momento da candidatura Alckmin.

Essa  resolução  inclui  apenas  uma  das  hipóteses  de  futuro  político  em  que  aposta  o  presidente  da Câmara,  Rodrigo  Maia.  Para  quem  está  fora  das  articulações,  da  conspiração  –  por  que  não,  eles detestam dar essa impressão, mas é óbvia -, não se compreende o que quer Rodrigo Maia, ora ao lado do presidente Michel Temer, ora o atacando, absolutamente reativo, mercurial e até às vezes juvenil.

Desde ontem, porém, Maia vestiu um novo figurino, mais de acordo com suas variadas chances de poder político. Uma delas, a primeira em três opções, é a Presidência da República.

Na hipótese de o Ministério Público ter sucesso com a denúncia contra Michel Temer, Rodrigo Maia assume o cargo de presidente da República. Isso lhe abre duas opções de poder político: ser candidato à reeleição, em 2018, o que é mais difícil de alcançar, ou ser candidato a vice-presidente na chapa de   Geraldo Alckmin.

As conversas do almoço de segunda-feira foram mais amplas e não chegaram a definir cargos ou chapas fechadas, mas as soluções ficaram latentes.

No período em que assumisse para completar o mandato de Temer, Maia faria correções de rumo no governo, no Ministério e em um conjunto de “procedimentos”, como se definem os métodos e meios na sua equipe de conselheiros.

A segunda hipótese, também de assumir o Executivo, seria Temer permanecer, embora um pouco mais fraco – o cálculo no grupo é que teria nesta segunda denúncia menos 40 votos do que teve na primeira — mas de qualquer forma levando seu mandato até o fim. Em 2018 Rodrigo Maia poderia tanto ser    candidato a presidente, pelo novo DEM, como também vice-presidente de Alckmin.

A terceira saída para Maia seria pela via do Legislativo, a menos ambiciosa porque já está na mão: candidata-se a deputado e disputa a presidência da Câmara, onde comanda um poder com força nos dois primeiros anos do novo governo e novo presidente da República, a quem teria apoiado na campanha.

Nessa hipótese, as vitórias de Maia são hoje previsíveis, devido ao apoio que conseguiu reunir na Câmara, embora a renovação esperada seja devastadora.

Qualquer desses caminhos, pelos quais não é necessário optar agora, mas estão bem amarrados, exige distanciamento prudente de Michel Temer, do atual governo e, sobretudo, de embates temperamentais que o façam perder as vantagens agora constatadas. Ou seja, Maia não pode errar.

As duas primeiras condições Maia as atende, facilmente. Mas a terceira… O problema de Rodrigo é seu temperamento. Os amigos tentam evitar que entre de cabeça em discussões tão ácidas quanto inúteis, deixe de lado a nervosia, mantenha o controle da resposta, transfira alguns embates com o governo para os aliados. A maioria das brigas de Maia são incompreensíveis para os mais racionais por isso: ele encrespa a pele sem razão. O problema agora é colocar radar em todos os lugares para não deixá-lo sem monitoramento.

Outra recomendação: evitar, de qualquer maneira, a volta do tema da traição, do quinta coluna, do conspirador. Preferem chamar esse conjunto de sentimentos ruins de “insatisfação”, e essa está grande e forte na Câmara, especialmente entre os mais fiéis a Maia, embora não consigam também ligar o nome à pessoa e dizer insatisfação com o que.

Depois de três semanas de tensão, ameaças veladas e, sem medo da palavra, conspiração, Rodrigo Maia ontem deu uma entrevista para declarar sua imparcialidade, cancelar viagem ao Chile durante a votação     da denúncia e exaltar o seu respeito ao presidente da República. Só não fez reconhecer que alguém, sob   seu comando, publicou irregularmente no site da Câmara a delação do doleiro Lúcio Funaro, contra   Temer, que estava sob sigilo decretado pelo STF. Essa “defesa” dos seus funcionários os ofendidos   tiveram que engolir.

Temer, por sua vez, foi a um almoço com rodriguistas, na casa do maior deles, Heráclito Fortes. Foram muitos movimentos da terça em desdobramento do almoço do Bandeirantes e precedidos de um jantar,     na segunda, e um café da manhã, na própria terça, encontros nos quais a nova ordem foi detalhada e digerida por Maia.

Que precisa criar um discurso, um projeto de governo, reunir apoiadores no mercado financeiro, empresários amigos e um partido forte para entrar como protagonista, ao lado de Alckmin (o mais provável) ou não, na sucessão.

Maia não fará força para tirar Temer. No seu grupo afirma-se que não é hora de pular do barco, pois    ainda não há outro construído e podem cair no mar. Mas se Temer sair, ele é o favorecido. Rodrigo vive hoje a mesma situação que o presidente viveu há um ano, com vantagem. Temer não tinha as opções de futuro à disposição de Maia.

O time de Rodrigo Maia extrapola o grupo que esteve com Alckmin e inclui: Jovair Arantes (PTB-GO), Alexandre  Baldy  (PTN-GO),  Fernando  Monteiro  (PP-PE),  Pauderney  Avelino  (DEM-AM),  José  Carlos Aleluia (DEM-BA), Efraim Filho (DEM- PB), Paulo Azi (DEM-BA), Heráclito Fortes (PSB- PI), Evandro Gussi  (PV-SP),  Orlando  Silva  (PCdoB-SP),  Elmar  Nascimento  (DEM-BA),  Rubens  Bueno  (PPS-PR) Benito Gama (PTB-BA).

 

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras E-mail: rosangela.bittar@valor.com.br

O Contexto e as Alternativas

A farinha do prefeito

17/10/2017

 

SÃO PAULO – Pegue comida quase estragada, moa-a até compor um farelo em que todos os elementos se tornem irreconhecíveis e dê para os pobres. Com essa descrição, acho que até a mulher do prefeito João Doria ficaria contra o composto alimentar que o alcaide pretende distribuir a famílias em dificuldades econômicas em São Paulo. Resta saber se essa é mesmo a melhor descrição.

Humanos gostamos de pensar as questões que nos são apresentadas em termos abstratos e recorrendo a tipologias essencialistas, nas quais expressões como “estragado”, “comida irreconhecível” e “para os pobres” tendem a se sobressair, praticamente definindo o juízo de valor que extrairemos. Muitas vezes, essa abordagem purista é válida, mas nem sempre.

Especialmente quando falamos de políticas públicas, é preciso considerar o contexto e as alternativas. Para que famílias a tal da farinha doriana se destinaria? Por quanto tempo seria utilizada? Como essa família está se alimentando hoje? A prefeitura tem estrutura e orçamento para adotar um programa que inclua alimentos “in natura”?

Sem ter pelo menos uma ideia das respostas a essas perguntas, parece-me precipitado condenar a farinha em termos absolutos como muitos vêm fazendo. É claro que Doria, que pode ser descrito como um mestre do improviso, obcecado pela Presidência e que se pauta apenas pelo marketing, não ajuda ao esconder os detalhes do programa.

Meu argumento é, no fundo, simples. Se a farinha do prefeito for segura e evitar que famílias recolham comida do lixo, pode ser uma boa alternativa. Se ela tiver um valor nutricional maior do que o dos alimentos que essa família consegue adquirir hoje por conta própria, idem.

E, antes que leitores de esquerda imprequem contra mim, lembro que esse é um conceito muito semelhante ao da redução de danos em drogas, que é aplaudido por nove entre dez progressistas.

 

Em nome do bem:

O liberalismo moderno se transformou numa nova inquisição

João Peira Coutinho20/06/2017

 

Será que um cristão pode fazer política? Não falo de um fundamentalista que pretende aplicar os preceitos bíblicos a toda a sociedade. Falo de um cristão “moderado”, que sabe distinguir os princípios morais que regem a sua vida e os valores seculares que regem a vida da comunidade.

Falo, enfim, de um cristão que conhece o preceito bíblico de dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César –uma distinção crucial para a emergência do liberalismo e, claro, inexistente no Islã. Haverá lugar para essa criatura?

Maquiavel tratou da questão com brutalidade: não, não há. Para recuperar a influente interpretação de Isaiah Berlin sobre o florentino, o cristianismo é uma religião estimável, até admirável. Mas funciona apenas para os assuntos privados.

Na esfera pública, exige-se ao príncipe certas virtudes que obviamente colidem com a mensagem bíblica. Virtudes “pagãs”, digamos assim, embora eu sempre tenha duvidado dessa conclusão de Berlin. Lemos Maquiavel e só por piada as “virtudes pagãs” dos seus tratados poderiam ser partilhadas por Cícero. As “virtudes” de Maquiavel são um capítulo novo na história da política e não uma nostalgia clássica. Mas divago.

Ou não divago. Porque a pergunta inicial aflorou nos últimos dias com a demissão de Tim Farron, o líder dos Liberais Democratas no Reino Unido.

Já tudo foi escrito sobre as eleições britânicas. O colapso dos conservadores, a espantosa ressurreição dos trabalhistas. Mas que dizer do destino de Tim Farron?

Leio no “Wall Street Journal” um artigo de Sohrab Ahmari que relata esse destino. Tim Farron, cristão evangélico, tem visões conservadoras sobre certos temas sociais. Como a homossexualidade. Como o aborto. Comecemos pelo primeiro. Será a homossexualidade um pecado?

A pergunta foi feita em 2015 e Tim Farron respondeu: “Todos somos pecadores”. Não foi suficiente uma tal exibição de humildade. Durante a campanha, o fantasma regressou e Farron tentou enterrá-lo. Não, a homossexualidade não é um pecado, disse ele.

Também não foi suficiente. Se a homossexualidade não era um pecado, por que motivo Tim Farron demorou tanto tempo a reconhecê-lo?

Sem falar do aborto. Em 2007, parece que o “Guardian” encontrou uma frase de Farron na qual ele declarava que “o aborto é errado”. Essa espantosa declaração, nunca antes vista na história da humanidade, provocou a tempestade respectiva.

Pergunta: as opiniões de Farron estão certas ou erradas?

Um fanático formula essa pergunta. Mas ela não faz sentido do ponto de visto político. A pergunta certa é saber se os valores religiosos de Tim Farron se sobrepõem aos consensos democraticamente estabelecidos no Reino Unido.

O próprio Farron foi claro: voltar a proibir o aborto seria um plano “impraticável”. E abolir o “casamento gay” não estava na agenda.

Nada feito. Como escreve Sohrab Ahmari, não era suficiente que o aborto ou o casamento gay estivessem liberados. Tim Farron deveria aplaudir ambas as leis, prescindindo das suas convicções mais íntimas. Foi o fim de uma carreira.

Eis a suprema perversão do liberalismo moderno. Tempos houve em que a proposta liberal procurava separar a política da religião. Não cabe ao Estado legislar sobre a alma dos homens, escrevia John Locke. Em matérias de consciência, o indivíduo é soberano. De igual forma, não cabe à alma dos homens determinar os destinos da “polis”.

Hoje, o caso de Tim Farron apenas mostra como o liberalismo moderno se transformou numa forma de religião. E de inquisição: quem discorda da cartilha é um herege que merece a fogueira das vaidades progressistas. A política não é uma arena de consensos entre visões distintas do bem comum. É um tribunal onde os pecadores devem confessar os seus crimes (de joelhos) e abraçar a Verdade (com maiúscula).

O problema desta visão medieval das coisas não está apenas na “intolerância” que ela revela. Muito menos na quantidade de “homens vazios” que ela promove: criaturas destituídas de qualquer vida interior, que debitam como se fossem robôs o “software” da moda.

O problema é mais vasto: aqueles que destroem a consciência individual em nome do “bem coletivo” estão a destruir a última barreira contra o poder arbitrário. Uma barreira de que eles podem precisar um dia se o pêndulo do fanatismo mudar de direção.

 

Lado B

A democracia tem uma vocação irresistível ao populismo

luiz felipe pondé – 12/06/2017

 

O populismo é a vocação mais antiga da democracia. Sim, a democracia tem uma vocação irresistível ao populismo. As mídias sociais são a ferramenta mais poderosa que o populismo jamais teve. E uma das causas mais poderosas a favor do populismo é a busca da democracia perfeita.

Dizer isso nada tem a ver com preferir regimes antidemocráticos, como pensam os inteligentinhos quando falam de política. Pelo contrário, prestar atenção ao “lado B” da democracia é uma forma essencial de evitar regimes antidemocráticos.

Conhecer o “lado B” da democracia é essencial se quisermos proteger seu “lado A”. Ao contrário do que pensa nossa vã filosofia do bem (produção inteligentinha), é o reconhecimento das sombras que garante alguma luz mínima sobre as coisas e nas coisas.

Como diria o filósofo Darth Vader: só o olhar direto nos olhos do lado escuro da força nos faz compreende-lo e saber como ele pode se tornar irresistível.

Alexis de Tocqueville (1805-1859), em seu essencial “Democracia na América”, chama atenção para o fato de que “o cidadão da jovem democracia americana” ficava irritado quando ouvia uma crítica ao seu regime político.

E assim é até hoje, traço característico da relação dogmática que temos com o que os pesquisadores Achen e Bartels descrevem em seu “Democracy for Realists”, da editora Princeton University Press, como “folk theory of democracy” (teoria popular da democracia).

Não vou seguir precisamente os autores aqui, nem o que estou dizendo sobre o lado B da democracia é necessariamente o que os autores pensam, mas a leitura desse livro pode ajudar a você não cair nesse lado B da democracia de forma tão ingênua.

Esta teoria “folk” acredita em mitos como crescimento da consciência política mediante a educação. Ou que as pessoas estão interessadas em política. Esta lenda da democracia crê que as pessoas não só estão interessadas em política como se informam para ter mais consciência política. Não. Elas raramente buscam informação e, quando o fazem, o fazem pra reforçar seus próprios pressupostos e não para relativiza-los.

As mídias sociais deixam isso muito claro: não existe debate, existe ódio. E o ódio, sabemos, é uma das formas mais perenes da alma se reconhecer viva.

E os intelectuais, professores ou profissionais ligados a política, apenas pregam suas próprias concepções políticas. Quanto mais engajado, mais fiel e fanático.

Professores, em grande parte, não produzem nenhuma “consciência política ou histórica”, produzem, apenas, intolerância intelectual a bibliografias que não gostam. Logo, não são “motores” de nenhuma suposta consciência política.

Jornalistas e artistas seguem de perto a tendência à intolerância intelectual movida por adesão a dogmáticas políticas.

E qual a razão da democracia ter vocação irresistível ao populismo? Fácil de responder. A busca de conhecimento não é algo evidente em nós. A vida é muito dura para nos darmos a esse luxo.

O que buscamos, na maior parte das vezes, como diz o filósofo Woody Allen em seu maravilhoso “Crimes e Pecados” são racionalizações que justifiquem nossos desejos.

O populismo se alimenta de nossa infantilidade. Queremos soluções claras e distintas para a confusa realidade em que vivemos. “Alguém que coloque Brasília em ordem”, “alguém que faça justiça”.

O trono por excelência do amante do populismo é a cadeira da sua sala em casa, na frente da televisão, xingando todo mundo.

O populista mais “contemporâneo” tem um novo trono: as redes sociais, através da qual distribui seus xingamentos. Nas redes ele abraça seus “conteúdos de pós-verdade” e os distribui “generosamente” ao mundo a sua volta.

A vocação primeira da democracia é o populismo. Só com muito esforço resistimos a ele porque a política é confusa, ambivalente, sombria, retórica, suja, enfim, humana, demasiadamente humana. Quem pede plebiscito o tempo todo é um populista disfarçado de ovelha.

Não há sabedoria alguma no povo. A sabedoria está nos detalhes e a fúria política popular não tem vocação aos detalhes, mas apenas a shows, fogueiras e linchamentos.

 

Coronéis de Esquerda:

Juízes se julgam deuses, procuradores santos e advogados, a ética pura

luiz felipe pondé – 05/06/2017

 

A política é um circo. Quanto menos você tiver esperança política, menos você se iludirá sobre a realidade política. O ceticismo em filosofia sempre aconselhou uma postura mais conservadora e cuidadosa quanto às promessas políticas. Desde que a política se tornou objeto de fé, passamos a ter expectativas salvacionistas através da política. E a política não passa da conquista, gestão, manutenção e distribuição do poder.

Não há nenhuma dimensão “ética” na política, nem nunca houve. O que há são sociedades mais ricas em que seus políticos destruíram outras sociedades no mundo para garantir o aspecto de santos nas suas próprias (e a população goza dessa santidade na mesma medida).

Eu, pessoalmente, espero o mínimo da política. Que não nos atrapalhe em demasia, por isso, que seja mínima.

O erro crasso de quem espera uma redenção política é não prestar atenção na política mais próxima dele. É comum grandes canalhas cotidianos agirem de modo politicamente canalha nas instituições em que trabalham, mas sustentarem um discurso “ético” na “grande política” (esse mito de gabinete).

Por exemplo, mentir, manipular o cotidiano institucional, usurpar ganhos alheios, destruir carreiras de colegas em universidades, igrejas, sindicatos de classe, grupos artísticos, corporações de todos os tipos, enfim, fazer política real. Mas quando se trata de falar da “grande política”, enche os olhos de lágrimas em nome da justiça social.

A redenção do mundo via política virou um mercado para canalhas específicos. Pense bem e verá que há um perto de você.

O mundo não é perfeito, claro. Mas o Brasil parece, nos últimos tempos, trabalhar duro para destruir nosso cotidiano. O homem é um animal frágil moralmente, sempre foi e sempre será. Mas vivemos agora, de fato, a ruína moral dos Poderes no país.

Em matéria de Poderes da República no Brasil, o Executivo sempre teve vocação getulista, ou seja, a vocação de ser o “pai ou mãe dos pobres”. A miséria no país sempre foi um importante capital para correntes coronelistas-populistas como a do PT.

O Legislativo é a representação perfeita do fisiologismo corrupto. Trabalha para si mesmo. Basta ver a corrida dos insetos em busca das misérias pós-Temer. Dane-se a estabilidade econômica. Querem a miserável Presidência por alguns meses.

A economia é a única coisa que importa nisso tudo, mas, infelizmente, semiletrados de todos os tipos pensam que, quando se diz que é a economia que importa, estamos a defender “O Capital”. Chega a ser ridícula a força desse mito (“Das Kapital”) no pensamento.

Não, “economia” aqui significa que você perde o emprego, deixa de comprar coisas, e os outros perdem o emprego porque você deixou de comprar coisas. Estágios são fechados, lojas também. Tudo para de circular. Mas você, que acredita em Papai Noel, ainda não entendeu que é a economia que sustenta tudo, inclusive coisas fofas, como os direitos humanos. E o dinheiro nunca foi produzido pela Chapeuzinho Vermelho.

E o Poder Judiciário? Esse mesmo que até pouco tempo muita gente pensava ser um produto real da Marvel. Uma mistura de Batman, Super-Homem, Capitão América, Homem de Ferro e Thor. Não. O Poder Judiciário não é um monólito de pureza.

Se o Executivo tem vocação ao populismo, e o Legislativo à corrupção pedestre, o pecado do Judiciário é a arrogância e a onipotência. Juízes se julgam deuses, procuradores santos, advogados representantes da ética nacional. Risadas?

Para ingênuos talvez, mas não para quem já leu mais do que dois livros na vida. O Poder Judiciário, inclusive, ou principalmente o STF, é também um poder “político” na medida em que sofre a mesma pressão para articular, privilegiar, perseguir, em nome dos interesses materiais ou ideológicos de seus membros.

E em meio a isso tudo, vem a moçada das diretas já, como num surto de gozo dos anos 1980. Como se a maioria desses (afora os ingênuos) não fossem os fanáticos da soberania popular “pura” ou não fossem os coronelistas do PT apostando na ressurreição do seu Drácula de bolso.

 

A realidade prevalece:

Intelectuais de esquerda perdem influência

Por Michael Stothard – 20/04/2017

 

Tomando um café no Le Rouge Limé, no centro de Paris, Michaël Foessel, professor de filosofia da École Polytechnique, lembra o tempo quando intelectuais de esquerda realmente importavam.

Ficou no passado, disse, o tempo em que Pierre Bourdieu podia liderar greves dos ferroviários, em que Michel Foucault debatia a reforma das prisões ou Emile Zola fazia um apelo à Justiça durante o caso Dreyfus (escândalo político do fim do século XIX).

“Não somos mais os líderes intelectuais deste país”, disse o professor, de 42 anos. “Na mídia são as vozes conservadores que têm um grande impacto. Na política, são os tecnocratas.”

As eleições deste ano na França foram marcadas pela ascensão da líder populista de extrema direita Marine Le Pen, que, por meio de uma mistura de nativismo e nacionalismo econômico, deu voz a boa parte da classe trabalhadora marginalizada, antes representada pela esquerda.

Após cinco anos do impopular governo socialista do presidente François Hollande, Benoît Hamon, o candidato do partido, deve ficar em quinto lugar neste domingo, segundo as pesquisas. Durante a campanha, o debate se concentrou em questões conservadoras: identidade e segurança.

O exame de consciência dos intelectuais de esquerda, como o professor Foessel, espelha o mesmo processo das elites liberais no Ocidente, que tentam entender a onda populista que levou Donald Trump à vitória, na eleição presidencial nos EUA, e ao Brexit.

Mas essa reflexão é mais aguda na França, onde intelectuais progressistas, desde Jean-Jacques Rousseau no século XVIII, têm sido autoridades morais com influência sobre a sociedade e políticos.

Quando Jean-Paul Sartre foi preso por desobediência civil, durante os tumultos de maio de 1968, o presidente Charles de Gaulle o perdoou, dizendo: “Você não prende Voltaire.”

Mesmo no século XXI, os presidentes têm se aconselhado com os intelectuais. O filósofo Bernard Henri-Lévy esteve envolvido na decisão da França para enviar tropas à Líbia, em 2011. Ele fez lobby junto ao seu amigo, o então presidente Nicolas Sarkozy, para intervir.

“Há uma longa tradição de poder e influência da esquerda intelectual na França”, disse o escritor Sudhir Hazareesingh. “Mas a sua influência vem diminuindo nos últimos anos.”

A França se moveu para a direita, acrescentou, com os eleitores mais preocupados com a imigração e a identidade nacional.

São os intelectuais de direita, como Alain Finkielkraut, que dominam o cenário midiático, argumentando que a França está sendo esmagada pelos islamistas em nome da tolerância e do liberalismo.

Marc Crépon, diretor do curso de filosofia da Ecole Normale Supérieure, diz que a esquerda tem fracassado em responder as questões de identidade e imigração. Pensadores como Zola, Jacques Derrida, Albert Camus e Sartre eram líderes morais que defendiam os pobres e os fracos, disse. “A esquerda precisa reencontrar sua voz e seu poder”.