Em nome do bem:

O liberalismo moderno se transformou numa nova inquisição

João Peira Coutinho20/06/2017

 

Será que um cristão pode fazer política? Não falo de um fundamentalista que pretende aplicar os preceitos bíblicos a toda a sociedade. Falo de um cristão “moderado”, que sabe distinguir os princípios morais que regem a sua vida e os valores seculares que regem a vida da comunidade.

Falo, enfim, de um cristão que conhece o preceito bíblico de dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César –uma distinção crucial para a emergência do liberalismo e, claro, inexistente no Islã. Haverá lugar para essa criatura?

Maquiavel tratou da questão com brutalidade: não, não há. Para recuperar a influente interpretação de Isaiah Berlin sobre o florentino, o cristianismo é uma religião estimável, até admirável. Mas funciona apenas para os assuntos privados.

Na esfera pública, exige-se ao príncipe certas virtudes que obviamente colidem com a mensagem bíblica. Virtudes “pagãs”, digamos assim, embora eu sempre tenha duvidado dessa conclusão de Berlin. Lemos Maquiavel e só por piada as “virtudes pagãs” dos seus tratados poderiam ser partilhadas por Cícero. As “virtudes” de Maquiavel são um capítulo novo na história da política e não uma nostalgia clássica. Mas divago.

Ou não divago. Porque a pergunta inicial aflorou nos últimos dias com a demissão de Tim Farron, o líder dos Liberais Democratas no Reino Unido.

Já tudo foi escrito sobre as eleições britânicas. O colapso dos conservadores, a espantosa ressurreição dos trabalhistas. Mas que dizer do destino de Tim Farron?

Leio no “Wall Street Journal” um artigo de Sohrab Ahmari que relata esse destino. Tim Farron, cristão evangélico, tem visões conservadoras sobre certos temas sociais. Como a homossexualidade. Como o aborto. Comecemos pelo primeiro. Será a homossexualidade um pecado?

A pergunta foi feita em 2015 e Tim Farron respondeu: “Todos somos pecadores”. Não foi suficiente uma tal exibição de humildade. Durante a campanha, o fantasma regressou e Farron tentou enterrá-lo. Não, a homossexualidade não é um pecado, disse ele.

Também não foi suficiente. Se a homossexualidade não era um pecado, por que motivo Tim Farron demorou tanto tempo a reconhecê-lo?

Sem falar do aborto. Em 2007, parece que o “Guardian” encontrou uma frase de Farron na qual ele declarava que “o aborto é errado”. Essa espantosa declaração, nunca antes vista na história da humanidade, provocou a tempestade respectiva.

Pergunta: as opiniões de Farron estão certas ou erradas?

Um fanático formula essa pergunta. Mas ela não faz sentido do ponto de visto político. A pergunta certa é saber se os valores religiosos de Tim Farron se sobrepõem aos consensos democraticamente estabelecidos no Reino Unido.

O próprio Farron foi claro: voltar a proibir o aborto seria um plano “impraticável”. E abolir o “casamento gay” não estava na agenda.

Nada feito. Como escreve Sohrab Ahmari, não era suficiente que o aborto ou o casamento gay estivessem liberados. Tim Farron deveria aplaudir ambas as leis, prescindindo das suas convicções mais íntimas. Foi o fim de uma carreira.

Eis a suprema perversão do liberalismo moderno. Tempos houve em que a proposta liberal procurava separar a política da religião. Não cabe ao Estado legislar sobre a alma dos homens, escrevia John Locke. Em matérias de consciência, o indivíduo é soberano. De igual forma, não cabe à alma dos homens determinar os destinos da “polis”.

Hoje, o caso de Tim Farron apenas mostra como o liberalismo moderno se transformou numa forma de religião. E de inquisição: quem discorda da cartilha é um herege que merece a fogueira das vaidades progressistas. A política não é uma arena de consensos entre visões distintas do bem comum. É um tribunal onde os pecadores devem confessar os seus crimes (de joelhos) e abraçar a Verdade (com maiúscula).

O problema desta visão medieval das coisas não está apenas na “intolerância” que ela revela. Muito menos na quantidade de “homens vazios” que ela promove: criaturas destituídas de qualquer vida interior, que debitam como se fossem robôs o “software” da moda.

O problema é mais vasto: aqueles que destroem a consciência individual em nome do “bem coletivo” estão a destruir a última barreira contra o poder arbitrário. Uma barreira de que eles podem precisar um dia se o pêndulo do fanatismo mudar de direção.

 

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Lado B

A democracia tem uma vocação irresistível ao populismo

luiz felipe pondé – 12/06/2017

 

O populismo é a vocação mais antiga da democracia. Sim, a democracia tem uma vocação irresistível ao populismo. As mídias sociais são a ferramenta mais poderosa que o populismo jamais teve. E uma das causas mais poderosas a favor do populismo é a busca da democracia perfeita.

Dizer isso nada tem a ver com preferir regimes antidemocráticos, como pensam os inteligentinhos quando falam de política. Pelo contrário, prestar atenção ao “lado B” da democracia é uma forma essencial de evitar regimes antidemocráticos.

Conhecer o “lado B” da democracia é essencial se quisermos proteger seu “lado A”. Ao contrário do que pensa nossa vã filosofia do bem (produção inteligentinha), é o reconhecimento das sombras que garante alguma luz mínima sobre as coisas e nas coisas.

Como diria o filósofo Darth Vader: só o olhar direto nos olhos do lado escuro da força nos faz compreende-lo e saber como ele pode se tornar irresistível.

Alexis de Tocqueville (1805-1859), em seu essencial “Democracia na América”, chama atenção para o fato de que “o cidadão da jovem democracia americana” ficava irritado quando ouvia uma crítica ao seu regime político.

E assim é até hoje, traço característico da relação dogmática que temos com o que os pesquisadores Achen e Bartels descrevem em seu “Democracy for Realists”, da editora Princeton University Press, como “folk theory of democracy” (teoria popular da democracia).

Não vou seguir precisamente os autores aqui, nem o que estou dizendo sobre o lado B da democracia é necessariamente o que os autores pensam, mas a leitura desse livro pode ajudar a você não cair nesse lado B da democracia de forma tão ingênua.

Esta teoria “folk” acredita em mitos como crescimento da consciência política mediante a educação. Ou que as pessoas estão interessadas em política. Esta lenda da democracia crê que as pessoas não só estão interessadas em política como se informam para ter mais consciência política. Não. Elas raramente buscam informação e, quando o fazem, o fazem pra reforçar seus próprios pressupostos e não para relativiza-los.

As mídias sociais deixam isso muito claro: não existe debate, existe ódio. E o ódio, sabemos, é uma das formas mais perenes da alma se reconhecer viva.

E os intelectuais, professores ou profissionais ligados a política, apenas pregam suas próprias concepções políticas. Quanto mais engajado, mais fiel e fanático.

Professores, em grande parte, não produzem nenhuma “consciência política ou histórica”, produzem, apenas, intolerância intelectual a bibliografias que não gostam. Logo, não são “motores” de nenhuma suposta consciência política.

Jornalistas e artistas seguem de perto a tendência à intolerância intelectual movida por adesão a dogmáticas políticas.

E qual a razão da democracia ter vocação irresistível ao populismo? Fácil de responder. A busca de conhecimento não é algo evidente em nós. A vida é muito dura para nos darmos a esse luxo.

O que buscamos, na maior parte das vezes, como diz o filósofo Woody Allen em seu maravilhoso “Crimes e Pecados” são racionalizações que justifiquem nossos desejos.

O populismo se alimenta de nossa infantilidade. Queremos soluções claras e distintas para a confusa realidade em que vivemos. “Alguém que coloque Brasília em ordem”, “alguém que faça justiça”.

O trono por excelência do amante do populismo é a cadeira da sua sala em casa, na frente da televisão, xingando todo mundo.

O populista mais “contemporâneo” tem um novo trono: as redes sociais, através da qual distribui seus xingamentos. Nas redes ele abraça seus “conteúdos de pós-verdade” e os distribui “generosamente” ao mundo a sua volta.

A vocação primeira da democracia é o populismo. Só com muito esforço resistimos a ele porque a política é confusa, ambivalente, sombria, retórica, suja, enfim, humana, demasiadamente humana. Quem pede plebiscito o tempo todo é um populista disfarçado de ovelha.

Não há sabedoria alguma no povo. A sabedoria está nos detalhes e a fúria política popular não tem vocação aos detalhes, mas apenas a shows, fogueiras e linchamentos.

 

Coronéis de Esquerda:

Juízes se julgam deuses, procuradores santos e advogados, a ética pura

luiz felipe pondé – 05/06/2017

 

A política é um circo. Quanto menos você tiver esperança política, menos você se iludirá sobre a realidade política. O ceticismo em filosofia sempre aconselhou uma postura mais conservadora e cuidadosa quanto às promessas políticas. Desde que a política se tornou objeto de fé, passamos a ter expectativas salvacionistas através da política. E a política não passa da conquista, gestão, manutenção e distribuição do poder.

Não há nenhuma dimensão “ética” na política, nem nunca houve. O que há são sociedades mais ricas em que seus políticos destruíram outras sociedades no mundo para garantir o aspecto de santos nas suas próprias (e a população goza dessa santidade na mesma medida).

Eu, pessoalmente, espero o mínimo da política. Que não nos atrapalhe em demasia, por isso, que seja mínima.

O erro crasso de quem espera uma redenção política é não prestar atenção na política mais próxima dele. É comum grandes canalhas cotidianos agirem de modo politicamente canalha nas instituições em que trabalham, mas sustentarem um discurso “ético” na “grande política” (esse mito de gabinete).

Por exemplo, mentir, manipular o cotidiano institucional, usurpar ganhos alheios, destruir carreiras de colegas em universidades, igrejas, sindicatos de classe, grupos artísticos, corporações de todos os tipos, enfim, fazer política real. Mas quando se trata de falar da “grande política”, enche os olhos de lágrimas em nome da justiça social.

A redenção do mundo via política virou um mercado para canalhas específicos. Pense bem e verá que há um perto de você.

O mundo não é perfeito, claro. Mas o Brasil parece, nos últimos tempos, trabalhar duro para destruir nosso cotidiano. O homem é um animal frágil moralmente, sempre foi e sempre será. Mas vivemos agora, de fato, a ruína moral dos Poderes no país.

Em matéria de Poderes da República no Brasil, o Executivo sempre teve vocação getulista, ou seja, a vocação de ser o “pai ou mãe dos pobres”. A miséria no país sempre foi um importante capital para correntes coronelistas-populistas como a do PT.

O Legislativo é a representação perfeita do fisiologismo corrupto. Trabalha para si mesmo. Basta ver a corrida dos insetos em busca das misérias pós-Temer. Dane-se a estabilidade econômica. Querem a miserável Presidência por alguns meses.

A economia é a única coisa que importa nisso tudo, mas, infelizmente, semiletrados de todos os tipos pensam que, quando se diz que é a economia que importa, estamos a defender “O Capital”. Chega a ser ridícula a força desse mito (“Das Kapital”) no pensamento.

Não, “economia” aqui significa que você perde o emprego, deixa de comprar coisas, e os outros perdem o emprego porque você deixou de comprar coisas. Estágios são fechados, lojas também. Tudo para de circular. Mas você, que acredita em Papai Noel, ainda não entendeu que é a economia que sustenta tudo, inclusive coisas fofas, como os direitos humanos. E o dinheiro nunca foi produzido pela Chapeuzinho Vermelho.

E o Poder Judiciário? Esse mesmo que até pouco tempo muita gente pensava ser um produto real da Marvel. Uma mistura de Batman, Super-Homem, Capitão América, Homem de Ferro e Thor. Não. O Poder Judiciário não é um monólito de pureza.

Se o Executivo tem vocação ao populismo, e o Legislativo à corrupção pedestre, o pecado do Judiciário é a arrogância e a onipotência. Juízes se julgam deuses, procuradores santos, advogados representantes da ética nacional. Risadas?

Para ingênuos talvez, mas não para quem já leu mais do que dois livros na vida. O Poder Judiciário, inclusive, ou principalmente o STF, é também um poder “político” na medida em que sofre a mesma pressão para articular, privilegiar, perseguir, em nome dos interesses materiais ou ideológicos de seus membros.

E em meio a isso tudo, vem a moçada das diretas já, como num surto de gozo dos anos 1980. Como se a maioria desses (afora os ingênuos) não fossem os fanáticos da soberania popular “pura” ou não fossem os coronelistas do PT apostando na ressurreição do seu Drácula de bolso.

 

A realidade prevalece:

Intelectuais de esquerda perdem influência

Por Michael Stothard – 20/04/2017

 

Tomando um café no Le Rouge Limé, no centro de Paris, Michaël Foessel, professor de filosofia da École Polytechnique, lembra o tempo quando intelectuais de esquerda realmente importavam.

Ficou no passado, disse, o tempo em que Pierre Bourdieu podia liderar greves dos ferroviários, em que Michel Foucault debatia a reforma das prisões ou Emile Zola fazia um apelo à Justiça durante o caso Dreyfus (escândalo político do fim do século XIX).

“Não somos mais os líderes intelectuais deste país”, disse o professor, de 42 anos. “Na mídia são as vozes conservadores que têm um grande impacto. Na política, são os tecnocratas.”

As eleições deste ano na França foram marcadas pela ascensão da líder populista de extrema direita Marine Le Pen, que, por meio de uma mistura de nativismo e nacionalismo econômico, deu voz a boa parte da classe trabalhadora marginalizada, antes representada pela esquerda.

Após cinco anos do impopular governo socialista do presidente François Hollande, Benoît Hamon, o candidato do partido, deve ficar em quinto lugar neste domingo, segundo as pesquisas. Durante a campanha, o debate se concentrou em questões conservadoras: identidade e segurança.

O exame de consciência dos intelectuais de esquerda, como o professor Foessel, espelha o mesmo processo das elites liberais no Ocidente, que tentam entender a onda populista que levou Donald Trump à vitória, na eleição presidencial nos EUA, e ao Brexit.

Mas essa reflexão é mais aguda na França, onde intelectuais progressistas, desde Jean-Jacques Rousseau no século XVIII, têm sido autoridades morais com influência sobre a sociedade e políticos.

Quando Jean-Paul Sartre foi preso por desobediência civil, durante os tumultos de maio de 1968, o presidente Charles de Gaulle o perdoou, dizendo: “Você não prende Voltaire.”

Mesmo no século XXI, os presidentes têm se aconselhado com os intelectuais. O filósofo Bernard Henri-Lévy esteve envolvido na decisão da França para enviar tropas à Líbia, em 2011. Ele fez lobby junto ao seu amigo, o então presidente Nicolas Sarkozy, para intervir.

“Há uma longa tradição de poder e influência da esquerda intelectual na França”, disse o escritor Sudhir Hazareesingh. “Mas a sua influência vem diminuindo nos últimos anos.”

A França se moveu para a direita, acrescentou, com os eleitores mais preocupados com a imigração e a identidade nacional.

São os intelectuais de direita, como Alain Finkielkraut, que dominam o cenário midiático, argumentando que a França está sendo esmagada pelos islamistas em nome da tolerância e do liberalismo.

Marc Crépon, diretor do curso de filosofia da Ecole Normale Supérieure, diz que a esquerda tem fracassado em responder as questões de identidade e imigração. Pensadores como Zola, Jacques Derrida, Albert Camus e Sartre eram líderes morais que defendiam os pobres e os fracos, disse. “A esquerda precisa reencontrar sua voz e seu poder”.

50 tons de povo

A periferia e o PT

Por José de Souza Martins – 20/04/2017

 

A Fundação Perseu Abramo, instituição de estudos do Partido dos Trabalhadores, acaba de divulgar os resultados de uma pesquisa qualitativa sobre as mudanças de mentalidade social e política na periferia de São Paulo que levaram à decadência da mítica do partido e à sua derrota nas últimas eleições.

A pesquisa reflete o binarismo ideológico do PT e, no geral, do impolítico partidarismo brasileiro. Basicamente, a análise propõe que, no apogeu do petismo, a população da periferia era orientada por horizontes “associativistas e comunitaristas”. Com a expansão e o avanço do ciclo econômico, “novos valores (…) foram gestados entre as camadas populares, que passaram a se identificar mais com a ideologia liberal que sobrevaloriza o mercado”.

Com “descenso e retração do ciclo econômico essa camada da população passou a reagir informada (…) mais por diretrizes marcadas pelo individualismo e pela lógica da competição, com uma tônica acentuada do mérito nos discursos”. Esse dualismo metodológico e seu materialismo pobre facilitaram a conclusão de que a periferia acabou se identificando com o neopentecostalismo.

A análise se baseia num retrocesso teórico à polarização comunidade e sociedade, que já passou pela crítica teórica e por densas reelaborações na sociologia brasileira.

O processo de desagregação da sociabilidade comunitária, entre nós, é antigo e lento de mais de meio século. A periferia tem sido a região urbana de assentamento de migrantes originários do campo e socializados no mundo dos valores vicinais e comunitários da roça. Com o desaparecimento das relações tradicionais de trabalho, como a do colonato das fazendas de café e a dos moradores das fazendas de cana-de-açúcar, a migração trouxe para a periferia da capital essas populações residuais de uma sociabilidade em declínio. Perderam as referências culturais que tinham sem que a cidade lhes tivesse oferecido novas referências societárias e propriamente urbanas. Isso começou muito antes da irresistível ascensão do PT ao poder e da implantação de sua política social limitada e limitante.

Nada houve de idílico e comunitário nos bairros da periferia. Ao contrário, esses bairros se caracterizam, desde há muito, pela criminalidade alta e por extrema violência. Há neles uma significativa ocorrência de linchamentos, sobretudo como modalidade de justiçamento da precária beira de cidade que os acolhe. É o mundo em que não obstante a subsistente cultura da vizinhança, os vizinhos já não se conhecem nem se ajudam. É em nome da mentalidade tradicional que a violência do justiçamento se instaura, expressão da marginalidade social urbana, o que indevidamente foi e vem sendo definido como exclusão social. Na verdade, inclusão excludente no peneiramento cruel da ascensão social de alguns e marginalização de outros.

O que a pesquisa do PT define como associativismo e comunitarismo está na concepção ideológica que as pastorais sociais da Igreja Católica aplicam ao mundo restrito das comunidades eclesiais de base, que tiveram grande importância na gestação das bases do PT. Mas essa era a realidade muito limitada da paróquia e das CEBs, cuja animação dependia daqueles padres que esperavam encontrar no Brasil uma realidade propícia à renovação da igreja. Essa base declinou a partir da ascensão de Karol Wojtyla ao trono de São Pedro. Sua oposição à Teologia da Libertação levou-o a nomear bispos não identificados com essa orientação ideológica e a redefinir a orientação geral do catolicismo no Brasil.

A igreja optou pelo reforço de sua orientação eclesial e tratou de banir os desvios político-partidários dos chamados leigos engajados. Em face dos abusos evidentes, os bispos passaram a recusar a promiscuidade da religião com a política. Com a crise do mensalão, que atingiu política e moralmente o governo Lula e o petismo, os agentes de ligação do governo com a igreja, responsáveis pela estruturação de programas como o Bolsa Família, abandonaram seus postos em 2004. Ruiu a estrutura do comunitarismo ideológico.

A pesquisa do PT reflete o derretimento desse véu de ocultação, o da mera racionalização que cegara os militantes. Por fatores outros, a influência cultural e ideológica das igrejas neopentecostais, que já vinha de longe, deu-se a ver. A evangélica teologia da prosperidade desafiou com êxito a bela e católica teologia da opção preferencial pelos pobres.

Não foi o mercado que venceu a comunidade, mas a comunidade que consumou sua adesão incondicional à sociedade de consumo, o que já vinha acontecendo desde muito antes dos governos petistas. O consumismo levou as camadas populares para a religiosidade de resultados, bem longe do PT.

 

José de Souza Martins é sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras e autor de A Sociologia como Aventura (Contexto), dentre outros. Escreve neste espaço semanalmente

Remédio amargo:

Por favor, enrolem

hélio schwartsman – 04/04/2017

 

SÃO PAULO – O TSE deve dar início hoje ao julgamento da chapa Dilma-Temer por abuso de poder econômico. Para além do eterno flá-flu entre partidários e adversários do grupo que está no poder, há duas formas de analisar esse juízo, que correspondem grosseiramente a duas formas de encarar a própria Justiça.

Para a primeira corrente, que podemos chamar de principista, os juízes devem apenas considerar as provas nos autos e fechar os olhos para possíveis efeitos adversos de sua decisão. Se não há dúvida de que a chapa vencedora em 2014 se beneficiou de recursos ilegais, ela deve ser cassada. Nesse quesito, não faz sentido separar as contas de Dilma e Temer, já que ambos teriam sido eleitos valendo-se de vantagem indevida.

Se ficar provado que os então candidatos tinham conhecimento da origem ilícita do dinheiro, podem ser declarados inelegíveis por oito anos. Aqui, cabe a separação, já que cada um pode ter tido acesso a essa informação independentemente do outro —embora pareça um insulto à inteligência de ambos pensar que eles pudessem crer que o jogo era limpo.

A outra linha, pragmática, que é a mais aceita pela doutrina contemporânea, sustenta que os juízes precisam levar em conta também as consequências de suas decisões. Aqui, a senha é “por favor, enrolem”. Se o julgamento se prolongar pelos próximos meses, como provavelmente ocorrerá —basta um ou dois pedidos de vista e um par de embargos de declaração—, chegará um ponto em que tirar Temer se tornará contraproducente. Fazê-lo só criaria marola e levaria a uma eleição indireta pelo Congresso, que escolheria alguém muito parecido com Temer, senão o próprio, para tocar o país pelo pouco tempo restante até o pleito de 2018.

No mais, não interessa nem ao PT tirar Temer agora. O ideal para Lula é opor-se à reforma da Previdência, mas torcer para que ela passe, ou o país se tornará ingovernável a partir da metade do próximo mandato.