O ano decisivo:

O PT na lata de lixo da história

O partido apenas acrescentou à corrupção endêmica certos tons de populismo

Luiz Felipe Pondé – 23.abr.2018

 

O PT é uma praga mesmo. Ele quer fazer do Brasil um circo, já que perdeu a chance de fazer dele seu quintal para pobres coitados ansiosos por suas migalhas. Nascido das bases como o partido de esquerda que dominou o cenário ideológico pós-ditadura, provando que a inteligência americana estava certa quando suspeitava de um processo de hegemonia soviética ou cubana nos quadros intelectuais do país nos anos 1960 e 1970, comportou-se, uma vez no poder, como todo o resto canalha da política fisiológica brasileira.

Vale lembrar que a ditadura no Brasil foi a Guerra Fria no Brasil. Quando acabou a Guerra Fria, acabou a ditadura aqui. E, de lá pra cá, os EUA não têm nenhum grande interesse geopolítico no Brasil nem na América Latina como um todo (salvo imigração ilegal). Por isso, deixa ditadores como Chávez e Maduro torturarem suas populações, inclusive sob as bênçãos da diplomacia petista de então.

O PT apenas acrescentou à corrupção endêmica certo tons de populismo mesclado com a vergonha de ter um exército de intelectuais orgânicos acobertando a baixaria. Esses fiéis intelectuais, sem qualquer pudor, prestam um enorme desserviço ao país negando a óbvia relação entre as lideranças do partido e processos ilegítimos de tráfico de influência. Esse exército vergonhoso continua controlando as escolas em que seus filhos estudam, contando a história como querem, criando cursos ridículos do tipo “golpe de 2016”.

Qualquer um que conheça minimamente os “movimento revolucionários” do século 19 europeu, e que também conheça o pensamento do próprio Karl Marx (1818-1883), sabe que mentir, inventar fatos que não existem ou contá-los como bem entender fazia parte de qualquer cartilha revolucionária.

Acompanhei de fora do Brasil o “circo do Lula” montado pelo PT e por alguns sacerdotes religiosos orgânicos,na falsa missa. Esses sacerdotes orgânicos do PT envergonharam a população religiosa brasileira, fazendo Deus parecer um idiota. Estando fora do país, pude ver a vergonhosa cobertura que muitos veículos internacionais deram do circo do Lula, fazendo ele parecer um Messias traído por um país cheio de Judas.

Eis um dos piores papéis que jornalistas orgânicos fazem: mentem sobre um fato, difamando um país inteiro. Esculhambam as instituições como se fôssemos uma “república fascista das bananas”. Nossa mídia é muito superior àquela dita do “primeiro mundo”.

A intenção de fazer do Lula um Jesus, um Mandela, um Santo Padim Pade Ciço é evidente. Para isso, a falsa missa, com sacerdotes orgânicos rezando para um deus que pensa que somos todos nós cegos, surdos, estúpidos e incapazes de enxergar a palhaçada armada pelo PT foi instrumento essencial para o circo montado.

A própria afirmação de que Lula não seria mais um mero humano, mas uma ideia, é prova do delírio de uma seita desesperada. Um desinformado pensaria estar diante de um Concílio de Niceia (325) perdido no ABC paulista. Se nesses concílios tentava-se decidir a natureza divina e humana de Jesus, cá no ABC tentava-se criar a natureza divina de Lula. Lula, humano e divino, o redentor. Essa tentativa, sim, é típica de uma república das bananas.

Penso que em 2018 o país tem a chance de mostrar de uma vez por todas que não vai compactuar com políticos que querem fazer do Brasil um circo para suas “igrejas”. A praga em que se constituiu o PT pode ser jogada na lata de lixo da história neste ano.

Ninguém aqui é ingênuo de pensar que apenas o PT praticou formas distintas e caras de tráfico de influência. Todas elas são danosas e devem ser recusadas em bloco nas eleições deste ano. Mas há um detalhe muito importante no que se refere ao PT como um tipo específico de agente único de tráfico de influência sistemático no Brasil. Você não sabe qual é? Vou te dizer.

O PT é o único partido que é objeto de investigação por corrupção a contar com um exército de intelectuais, artistas, professores, diretores de audiovisual, jornalistas, sacerdotes religiosos, instituições internacionais, apoiando-o na sua cruzada de continuar nos fazendo escravos de seus esquemas de corrupção. Esse exército nega frontalmente a corrupção praticada pelo PT e destruirá toda forma de resistência a ele caso venha, de novo, a tomar o poder.

No ano de 2018 o país pode, de uma vez por todas, lançar o PT à lata de lixo da história e amadurecer politicamente, à esquerda e à direita.

 
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Ótimo texto

Quanto mais raros os filhos, maior a precariedade psíquica deles

Luiz Felipe Pondé – 19.fev.2018

 

Se você anda pela cidade e presta atenção nas coisas, especialmente no movimento do mercado, e lê sobre isso, perceberá três fenômenos, aparentemente sem relação uns com os outros, mas que falam diretamente do futuro. Ao mesmo tempo que cresce o número de pet shops, cai o de maternidades, no mesmo passo que sobe o número de casas de repouso pra idosos. Qual a relação entre os três fenômenos?

O aumento de pet shops indica a opção de afeto que os mais jovens estão fazendo: melhor cachorros do que filhos, estes duram muito e custam muito mais caro. A falência das maternidades é fruto direto dessa racionalização por parte dos casais mais jovens: ter filhos é um mau negócio. Não ter filhos é índice de autonomia e emancipação, só mulher sem “opção” teria filhos. O terceiro, por sua vez, aponta para o envelhecimento da população, acompanhado pela solidão derivada da atomização das famílias. Os idosos viverão muito, mas abandonados em depósito para idosos.

O que fazer com esse efeito colateral da longevidade? O mercado, na sua “infinita sabedoria”, percebe que a tendência é a gradual substituição dos vínculos afetivos por serviços que esses vínculos garantiam no passado. Serviços que visam preencher o vácuo das famílias serão um grande negócio no futuro.

É interessante perceber que ao lado da decisão de reduzir a quase zero a reprodução humana, o grau de atenção neurótica sobre os poucos rebentos que caminham sobre o mundo cresce. Coitados desses jovens que viverão na condição de espécie em extinção. Pais que querem ganhar o prêmio de mais divertidos, participativos e atenciosos beiram o ridículo nos espaços de lazer para esses seres em extinção, as crianças. Os pais, então, competindo com as mães, buscando o direito de serem reconhecidos como portadores de um “útero social”, são patéticos.

A proporção entre você ser um pai neuras ou uma mãe neuras e ter “projetos” sobre a educação dos seus filhos é quase direta. Quanto mais você tiver “certeza” que a escola deve formar seu filho para ser uma pessoa melhor, pior será o grau de ansiedade dele ao virar adolescente. Filhos, hoje, quando existem, são projetos narcísicos dos pais, que, no fundo, prefeririam não tê-los.

De onde surgiu essa ideia idiota de que pais devem ser pais 24 horas por dia? Neuróticos que usam câmeras de vídeo pra vigiar a respiração dos rebentos a distância. Esse “excesso” de cuidado é sintoma do desejo de que os filhos não existissem.

Há uma relação direta entre melhorar de vida e recusar a maternidade. A vida sem filhos é mais segura, mais autônoma, mais barata. Quando você decide que para você é melhor não ter filhos, e isso atinge impacto estatístico, você não está consciente desse impacto. A relação entre riqueza e não ter filhos é direta.

Há aquelas pessoas que agem assim simplesmente porque acham que tem gente demais no mundo. Um argumento falsamente social, mas de teor radicalmente individualista. Arriscaria dizer que quanto mais você se vê como alguém que quer “salvar o mundo”, maior a chance dessa intenção estar assentada na mais pura natureza narcísica. A revolução moral moderna (o egoísmo) condena a condição de pai e mãe a obstáculo contra competitividade. O mundo corporativo diz que não, mas mente.

À medida que os filhos se tornarem mais raros, a condição de precariedade psíquica deles se radicalizará. Como toda espécie em extinção, o blábláblá sobre a importância deles crescerá à sombra da sua inexistência real. Se já sabemos que os jovens hoje são mais ansiosos, inseguros e incapazes de viverem vínculos afetivos consistentes, é porque os efeitos colaterais da extinção já estão em curso. A ampliação “oficial” da adolescência até os 24 anos de idade, determinada no Reino Unido, indica a incapacidade do amadurecimento, agora já na forma da lei.

Assim como especialistas em macacos em extinção, especialistas em jovens serão profissionais que estudarão, ainda que negando, esse processo inexorável. O futuro pertence a idosos solitários cheios de aplicativos para divertimento em seus dias vazios.

Há virtudes nas emendas

Dados mostram canalização virtuosa da verba de emendas

CARLOS PEREIRA – 23/01/2018

 

A imagem de que as relações entre o Executivo e o Legislativo no Brasil não são republicanas é difundida largamente na sociedade. Ideia sustentada na percepção de que os acordos partidários não seriam baseados em programas ou agendas políticas coerentes, mas em ganhos de troca que beneficiariam fundamentalmente os políticos às expensas da sociedade, que ao fim é quem paga um alto custo de governabilidade.

Essa imagem é ainda reforçada pela evidência da literatura especializada que demonstra uma clara conexão eleitoral entre apoio legislativo às iniciativas do Executivo e acesso a recursos monetários e de poder controlados e distribuídos de forma discricionária pelo presidente.

Esse jogo “sujo” de “toma lá, dá cá” seria coroado com o maior índice de reeleição dos parlamentares mais fiéis ao presidente. Esses teriam acesso a mais recursos orientados para alimentar as suas redes municipais de interesse e beneficiar suas bases eleitorais.

As chances de renovação da representação parlamentar, logo, seriam assim obstruídas por um “conluio” entre presidente, legislador e rede local de interesses.

Políticas locais que beneficiam bases eleitorais são conhecidas como “pork barrel” (barril de porco) e amplamente utilizadas na política americana. Essas supostamente teriam conotação extremamente negativa por serem associadas a ineficiências, patronagem, clientelismo, compra de votos, ou mesmo corrupção. Existem ainda argumentos de que pork barrel seria sinônimo de desigualdade e pobreza, perpetuando um ciclo vicioso de exclusão.

Em uma ampla pesquisa que acaba de ser publicada no periódico internacional “Governance”, artigo intitulado “Pork is policy: dissipative inclusion at local level”, em coautoria com Frederico Bertholini e Lúcio Rennó, contrariamos esse “senso comum”. Demonstramos que a execução das emendas dos parlamentares tem um impacto direto de melhora na qualidade de vida dos cidadãos brasileiros que vivem em localidades beneficiadas, assim como também apresentam maior desenvolvimento de suas economias locais.

A análise é baseada em um extenso banco de dados original que cobre a execução de emendas dos parlamentares em todos os municípios brasileiros por um período de dez anos (1999-2010). Utilizamos técnicas de pareamento dos municípios controlando por características demográficas, indicadores de desenvolvimento social e econômico local, dados de desigualdade, de competição política e as demais transferências intergovernamentais para os municípios.

A execução de emendas ao orçamento anual de autoria dos parlamentares foi tratada como um choque exógeno em nossa análise, ao gerar um novo fluxo de recursos estimulando a economia local. Mapeamos o impacto da chegada de pork barrel em indicadores sociais (como mortalidade infantil e performance escolar) e econômicos (emprego formal, renda etc.) nos anos subsequentes.

Consistente com as expectativas da teoria democrática, a pesquisa confirmou que municípios que apresentaram maior competição política tendem a receber mais recursos. Por outro lado, quanto maior a riqueza dos municípios, menor a probabilidade de receberem recursos provenientes dos parlamentares, sugerindo uma canalização virtuosa de recursos para municípios que mais precisam.

Como pode ser observado no infográfico, os municípios que receberam mais recursos por mais tempo reduziram mortalidade infantil, além de aumentarem a oferta de emprego formal e de renda. Resultados semelhantes foram também encontrados na área de educação, com redução de distorções entre série e idade, e melhoria geral das condições de saúde.

Esses resultados sugerem que a lógica descentralizada de alocação de recursos públicos, via emendas parlamentares, pode gerar maior inclusão e diminuição da desigualdade.

Entretanto, a depender da política pública analisada, os efeitos positivos de pork nos municípios brasileiros não se sustentam ao longo do tempo, sugerindo um perfil dissipativo de inclusão. Esse perfil fica evidente em relação à mortalidade infantil, pois os efeitos positivos de pork só são significantes até o quinto ano de recebimento dos recursos.

Como a alocação de pork segue a lógica de sobrevivência do parlamentar e não necessariamente da necessidade do município, ela tende a ser sub-ótima, pois locais em que o parlamentar não tem conexão eleitoral são praticamente “esquecidos”, enquanto as suas principais bases eleitorais são desproporcionalmente abastecidas.

CARLOS PEREIRA é professor titular da EBAPE/FGV

 

Juízes fora de controle

Entre a moralidade e o caos

hélio schwartsman – 12/01/2018

 

Perdoem-me por dizê-lo, mas, se juízes querem agir como revolucionários ou grandes reformadores, escolheram a profissão errada. Deveriam ter abraçado a guerrilha ou, ao menos, a política.

Gostemos ou não, o Judiciário foi concebido para ser o mais conservador dos Poderes da República. Sua missão institucional não é a de promover mudanças sociais, mas sim de dar segurança jurídica, isto é, um horizonte de previsibilidade aos diversos agentes sociais. Juízes mais do que quaisquer outros atores deveriam ter alergia a provocar grandes guinadas. Esse papel, que é importantíssimo, cabe a políticos e a movimentos da própria sociedade.

Até acho que existe espaço para o chamado ativismo judicial, mas ele deve limitar-se à ampliação de direitos individuais já contidos em princípios gerais enunciados na Carta que o Parlamento, por alguma razão, não consegue atualizar. Um bom teste prático é olhar para direitos que já tenham sido consolidados num bom número de democracias mais maduras, como a despenalização do consumo de drogas e do aborto. Em casos assim, creio que as cortes podem “inovar”, optando pela autocontenção nas demais situações.

Parece-me especialmente contraproducente quando tribunais “inovam” ao tomar decisões sobre o processo político, por mais nobres que pareçam seus motivos. Infelizmente, é o que vem acontecendo numa escala cada vez mais preocupante. Juízes já não hesitam em inventar e desinventar regras para prender políticos e afastá-los de seus cargos e começaram a palpitar até na nomeação de ministros, antigamente uma atribuição do Executivo.

É verdade que o artigo 37 da Constituição diz que todos os atos da administração pública devem ser pautados pela moralidade. Mas existem quase 20 mil juízes no país. Se cada um deles se sentir livre para impor a sua concepção de moralidade, teremos o caos e não a moralidade.

 

Excelente!

‘Pobreza e tirania são o problema, não desigualdade’

Por Sergio Lamucci – 24/11/2017

 

A americana Deirdre McCloskey não se cansa de repetir: a pobreza e a tirania são os grandes problemas a serem combatidos, e não a desigualdade. Professora emérita da Universidade de Illinois, em Chicago, McCloskey é entusiasta do capitalismo e do livre mercado. Para ela, o governo deve ficar fora da economia, evitando regulamentações que atrapalhem a livre iniciativa e a capacidade de inovação. Esse é o caminho para a prosperidade das nações, na visão de McCloskey.

Mas mesmo um país desigual como o Brasil não deve dar prioridade a essa questão? “Não se concentrem na desigualdade. Tirem o governo da economia. Não tenham políticas [governamentais]. Políticas são ideias terríveis. Deixem as pessoas sozinhas”, responde McCloskey, que esteve no país no começo do mês para participar do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento e para lançar o livro “Os Pecados Secretos da Economia”, pela Ubu Editora.

McCloskey se diz favorável a programas de transferência de renda para os mais pobres, como o Bolsa Família. “É muito sensato.” Ao mesmo tempo, é contra o salário mínimo. “Deveríamos aboli-lo.” O piso salarial é algo a ser pago pelo empregador, encarecendo contratações, segundo ela. “Você tem que se livrar de todas as coisas que tornam não lucrativo contratar pessoas, ou você acaba como a África do Sul,       o Brasil ou a minha cidade, Chicago, onde há desemprego maciço especialmente nas áreas de população negra. Há o salário mínimo, proteções para o emprego, há zoneamento, há medidas que tornam difícil abrir negócios, há muita taxação sobre as empresas.”

McCloskey diz que a esquerda costuma ignorar um fato extraordinário ocorrido nos últimos séculos, por   ela  chamado  de  “Grande  Enriquecimento”.  De  1800  para  cá,  a  renda  per  capita  do  trabalhador  nos países ricos teve um crescimento de 3.000% termos reais (descontada a inflação), afirma.

Em artigo publicado no “New York Times”, McCloskey escreveu que o “Grande Enriquecimento” ocorreu “não  pela  exploração  dos  pobres,  não  pelo  investimento,  não  pelas  instituições  existentes”,  mas  por causa de uma “mera ideia” – o liberalismo. “Dê às massas igualdade perante a lei e igualdade de dignidade social e as deixe sozinhas, que elas se tornam extraordinariamente criativas e enérgicas”,    afirmou ela, para quem a ideia liberal se deveu a “alguns acidentes felizes” no noroeste da Europa de       1517 e 1789 – a Reforma, a Revolta Holandesa, as revoluções da Inglaterra e da França e a proliferação da leitura.  McCloskey  diz  acreditar  que  o  fenômeno  continuará  a  ocorrer,  destacando  o  crescimento ocorrido na China a partir de 1978 e na Índia a partir de 1991, quando medidas econômicas liberais passaram a ser adotadas por esses países.

A economista reitera que, para ela, os problemas fundamentais a serem combatidos são a pobreza e a tirania, que “em geral andam juntas”. “Resolva a questão da pobreza e torne as pessoas livres.”

Cingapura e China seriam duas exceções, segundo McCloskey. “Os dois países, no entanto, têm uma substancial liberdade econômica, apesar da prática lamentável de prender opositores políticos”, escreveu ela, num artigo publicado no site do Institue for Free Trade.

PhD por Harvard, a economista foi professora da Universidade de Chicago de 1968 a 1980. Em 1995, McCloskey, que se define como uma liberal cristã, decidiu mudar de gênero. Donald tornou-se Deirdre. O temor de que poderia perder a carreira não se concretizou. A grande oposição foi da família. A irmã tentou interná-la quatro vezes. McCloskey nunca mais viu Joanne, a mulher com quem viveu por 30 anos, e os dois filhos. “Tenho três netos que nunca vi.”

Ao falar dos EUA, McCloskey não poupa o presidente Donald Trump, a quem vê como um “criminoso” e um “fascista”. Para ela, a vitória do republicano nas eleições do ano passado se deveu a uma reação cultural a ideias progressistas, como o direito dos gays, das mulheres e dos negros, e não a um efeito colateral da desigualdade nos EUA. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: A sra. tem uma visão otimista sobre a economia global. Em artigo no “New York Times”,    escreveu que “o mundo é rico e vai se tornar ainda mais rico. Pare de se preocupar”. O que as pessoas subestimam ou não entendem quando acham que o mundo está piorando e é um lugar ameaçador?

Deirdre McCloskey: Um motivo é que as pessoas gostam de ser pessimistas. Elas acham que isso é sofisticado. É difícil – na verdade, impossível – prever o futuro da tecnologia. Quem poderia cogitar em  1980 sobre a internet? Era inconcebível. O meu amigo Robert Gordon [professor da Universidade de Northwestern] escreveu um livro influente no ano passado, e Bob tem uma visão pessimista sobre o  assunto. Um outro amigo, também de Northwestern, Joel Mokyr, é um otimista como eu. Joel diz: “Pare com isso! Como você sabe o que ocorrerá na área de pesquisa médica ou de ciência dos materiais, por exemplo?” Se você se guiar pela história, desde 1800, porque nós temos sociedades liberais, em que progressivamente mulheres são liberadas, pobres são liberados, negros são liberados, “queers” são  liberados, todos são liberados, estão todos freneticamente buscando inovações, pequenas e grandes.

Valor: O que causou o que a sra. chama de o “Grande Enriquecimento”? Pode dar alguns exemplo de  como a nossa vida mudou?

McCloskey: É muito simples. A magnitude é crucial. É um aumento de 3.000% em bens e serviços para       o cidadão médio [dos países ricos]. 3.000%! Isso faz a redistribuição e o problema da desigualdade parecerem triviais. Faz os programas do governo parecerem tolos. São todas as inovações que melhoram     as nossas vidas. A luz elétrica, o ar condicionado, a universidade moderna.

Valor: Esses 3.000% são um aumento da renda per capita?

McCloskey: É da renda per capita em termos reais, ou seja, descontada a inflação. No negócio em que você trabalha, uma das grandes invenções do século XIX foi a impressora a vapor. Nos anos 1700, os jornais tinham circulações muito pequenas. A invenção da impressora a vapor fez com que a circulação pudesse atingir meio milhão de exemplares por dia. Isso mudou completamente o papel dos jornais na sociedade. Subitamente, os jornais puderam se sustentar com anúncios e se tornaram independentes de partidos políticos. Há centenas e centenas dessas invenções. Por que elas não ocorreram antes? Há uma explicação muito simples: o liberalismo. Igualdade de oportunidades. Sem hierarquias. Todo mundo se tornou maluco por inovação.

Valor: E esse processo vai continuar?

McCloskey:  Eis  por  que  eu  acredito  nisso:  China  e  Índia.  Esses  dois  países  estão  crescendo  muito, muito mais rapidamente do que o Brasil ou a África do Sul, dois países com os quais eu me preocupo.      São taxas de crescimento que transformam um país em pouco tempo. Numa geração de 20 anos, se não cometer erros, a China poderá ter a renda média que os EUA têm hoje. Em duas gerações, se continuar a fazer o certo, a Índia terá a renda dos EUA. No Brasil, isso levará cinco gerações. Na África do Sul, nove gerações. É um desastre. Isso ocorre porque Brasil e África do Sul persistem em políticas econômicas      não liberais. Há restrições para as negociações salariais, protecionismo para o emprego, protecionismo contra bens estrangeiros, é muito caro começar um negócio etc, etc. Não há nenhum motivo pelo qual esses países não possam ter taxas notáveis de crescimento. Isso resolve problemas de desigualdade, analfabetismo, todo tipo de coisa.

Valor: A sra. diz que a pobreza é o grande problema, e não desigualdade. Por que o foco na discussão tem recaído muito mais na desigualdade do que na pobreza?

McCloskey:  Pobreza  e  tirania  são  os  problemas,  e  não  desigualdade.  O  foco  está  na  desigualdade porque essa é a agenda socialista. O socialismo é muito natural. A família é uma iniciativa socialista. “A cada um de acordo com as suas necessidades e de cada um de acordo com suas capacidades.” É assim      que uma família amorosa funciona. É assim que a amizade funciona. Mas, na economia de mercado, tem  que funcionar de outro modo. O jogador de futebol brilhante atrai muitas pessoas. Ele tem que ganhar milhares de vezes mais do que você. O médico tem que ser mais bem pago que o lixeiro, para atrair    pessoas para a medicina. Você tem que ganhar mais do que um varredor de rua. Eu sou uma cristã       liberal. Acho que, nós, como cristãos, temos uma obrigação com os pobres. Eu e você devemos ser    taxados para apoiar um programa de renda mínima. Mas deveríamos abolir o salário mínimo.

Valor: A sra. é favorável a uma programa de renda básica?

McCloskey: Renda básica apenas para os pobres. Não para mim ou para você. Valor: Algo como o Bolsa Família?

McCloskey: Exatamente. É algo OK para mim, é muito sensato. E você tem que se livrar de todas as coisas que tornam não lucrativo contratar pessoas, ou você acaba como a África do Sul, o Brasil ou a minha cidade, Chicago, onde há desemprego maciço especialmente nas áreas de população negra. Há o salário mínimo, proteções para o emprego, há zoneamento, há medidas que tornam difícil abrir negócios, há muita taxação sobre as empresas. Todas essas coisas tornam não econômico contratar pessoas.

Valor: Então um programa de transferência de renda faz sentido, mas não o salário mínimo?

McCloskey: Sim, porque eu e você pagaremos [pelo programa de transferência de renda], ao passo   que, no caso do salário mínimo, nós dizemos: “Nós não vamos pagar por isso. Nós vamos fazer o empregador pagar por isso.” É de graça para nós. Nós nos sentimos bem, tomando o segundo cappuccino pela manhã, lendo o “New York Times”: “Eu sou a favor do salário mínimo, desde que o empregador pague por ele.” Pobreza é um problema e tirania é um problema. E elas em geral andam juntas. Há exceções como Cingapura – e a China.

Valor: A sra. escreveu uma crítica muito divertida e ácida de “Capital no Século XXI”, o livro de Thomas Piketty. Quais são os principais erros cometidos por Piketty, em sua visão, e por que o livro se tornou tão popular?

McCloskey: Acho que ele é um homem sério. O livro se tornou popular porque ele expressa todos os preconceitos da esquerda, no que parece uma forma científica. Mas há muitos, muitos erros no livro. Um erro muito importante é que ele ignora o capital humano. O modo como eu e você ganhamos nossas   vidas se deve principalmente ao que temos entre as orelhas. Não é a nossa força física, como faziam os nossos ancestrais. Ele olha apenas para o capital físico. Isso é um grande erro, porque o capital humano  é muito mais igualmente distribuído do que o capital físico. Outro erro é que ele está falando sobre o      futuro, sobre o que pode ocorrer. Na verdade, os únicos países no grupo de nações a respeito dos quais   ele fala que tiveram aumento de fato da desigualdade foram os EUA, Reino Unido e Canadá. Depois ele abandona o Canadá. Os terríveis exemplos são os países anglo-saxões – os EUA e o Reino Unido. É tudo hipotético. Vai ocorrer porque “r” [o retorno do capital] é maior que “g” [o crescimento econômico], o       que por si mesmo é um argumento ridículo, um argumento tolo. Mas o maior erro do livro é não reconhecer o crescimento econômico moderno. Não reconhece esse crescimento de 3.000% na renda          dos trabalhadores desde 1800. Ele ignora o Grande Enriquecimento. E as pessoas fazem isso    rotineiramente na esquerda.

Valor: A sra. criou o termo?

McCloskey: Sim, eu que criei. Eu o chamei por algum tempo de o “Grande Fato”, mas não ia ao ponto. E “Grande Enriquecimento” é o que ocorreu. Se não reconhecermos isso, vamos dizer: “Ah, tudo o que importa é redistribuição, a desigualdade é o problema”. Não, não é. O problema é a pobreza. Resolva a questão da pobreza e torne as pessoas livres. Pobreza e tirania são os problemas. As pessoas devem     poder expressar a si mesmas e mudar para outros empregos.

Valor: O Brasil tem um nível elevadíssimo de desigualdade, com um índice de Gini na casa de 0,52. Mesmo nesse caso, o foco deve ser na redução da pobreza, e não da desigualdade?

McCloskey: Não se concentrem na desigualdade. Tirem o governo da economia. Não tenham políticas [governamentais]. Políticas são ideias terríveis. Deixem as pessoas sozinhas. Não tenham políticas de redução de desigualdade. Deixem as pessoas sozinhas. É assim que nos tornamos ricos, por meio do liberalismo.

Valor: Nos EUA, as ideias de livre comércio enfrentam um momento difícil. Donald Trump é um protecionista. Como a sra. avalia Trump e como vê essa ascensão de ideias protecionistas?

McCloskey: Donald Trump é um idiota completo e um criminoso. Acredito que ele terminará na cadeia. Ele é um fascista. A minha única preocupação é que a instituição com maior prestígio nos EUA na sociedade são os militares. Depois do Vietnã, o prestígio deles era muito baixo. Hoje, é muito alto. Com Donald Trump no poder, isso é um perigo. Acho que há uma pequena chance de um golpe militar nos EUA, talvez em torno de 5%. Quanto ao protecionismo, veja, o capitalismo, o livre mercado, no mundo não é um jogo de soma zero, como Donald Trump pensa, porque ele é um idiota. É um jogo de soma positivo. Acabei de fazer um discurso em Londres no 200º aniversário do livro “Princípios de Economia Política e Tributação”, de David Ricardo, em que ele enunciou o princípio das vantagens comparativas. E vantagens comparativas se baseiam no princípio da cooperação. As pessoas esquecem que nós, maciçamente, cooperamos por meio do comércio.

Valor: Como a sra. vê a ideia de que o que levou à vitória de Donald Trump nos EUA é um efeito colateral da crescente  desigualdade?

McCloskey: Não acho que seja isso. O que há é uma reação cultural a ideias progressistas que eu apoio, como os direitos dos gays, das mulheres, dos negros etc, etc. Foi uma eleição muito apertada, apesar das afirmações ridículas feitas por Trump, e ele perdeu no voto popular por 3 milhões de votos. Foi uma   eleição por homens brancos contra negros, mulheres e “queers”.

Valor: A sra. está preocupada com o impacto da automação sobre o emprego?

McCloskey: Não. Todos anos, nos EUA, 14% dos empregos desaparecem para sempre. Em 2000, 130     mil pessoas estavam empregadas nos EUA em videolocadoras. Esses empregos desapareceram para  sempre. E o que as pessoas fazem? Ficam nas esquinas? Não, eles vão para outros lugares. Se o conto de fadas do desemprego tecnológico fosse verdadeiro, em pouco tempo nós teríamos uma taxa de  desocupação de 50%.

Valor: Então a destruição criativa vai resolver o problema?

McCloskey: A destruição criativa sempre resolveu o problema. É verdade que é um jogo em que se      ganha, ganha, ganha e alguém perde. Alguém perde pela mudança. Se você não quer nenhuma mudança,    há algo bastante simples a fazer: basta ordenar que, no Brasil, todos façam hoje o que fizeram ontem. Se você não quer o progresso, vá em frente. Mande todo mundo fazer o que fazia antes. Há esse medo de   robôs e inteligência artificial. Mas, veja: todo aparelho é um robô. A câmera da fotógrafa é um robô, o      seu gravador é um robô, automóveis são robôs. Eu não estou nada preocupada.

Valor: Assim como o vencedor do Nobel deste ano, Richard Thaler, da Universidade de Chicago, a sra. também tem uma visão crítica do conceito do “homo economicus” (que considera os humanos como seres racionais e dotados de grande autocontrole). Há algo em comum entre a sua visão de economia e a economia comportamental?

McCloskey: A visão dele, com base psicológica, é de que as pessoas são dominadas por erros. A minha  visão  é  de  que  nós  somos  seres  morais,  éticos.  Não  somos  apenas  prudentes,  como  o  “homo economicus”. Eu quero uma “humanomics”, que trate as pessoas como atores éticos. Mas quero que elas sejam  pessoas  livres.  Não  quero  que  elas  sejam  governadas  por  Thaler.  Ele  quer  dar  um “empurrãozinho” [“nudge”, em inglês] nas pessoas. “Eu sei o que é melhor para você. Eu sou do governo, estou aqui para ajudá-lo.” Essa é a ideia. Sobre as ideias de Thaler, digo que elas são a teoria aplicada do fascismo. É um convite para a tirania.

Valor: Então vocês dois são críticos do “homo economicus”, mas a partir de pontos de vista completamente diferentes?

McCloskey: Completamente diferentes. Ele é um fascista. Eu sou liberal.

Valor: Há um aumento da intolerância nos EUA. A sra., como mulher trans, sofreu preconceito ou discurso de ódio nos últimos anos?

McCloskey: Não, não substancialmente. Como saberia se fui discriminada? Sou uma professora, uma pessoa de classe média alta, tenho todas as proteções. Pessoas que apanham no Recife ou são mortas por serem gays, como [ocorre] algumas vezes em São Paulo. Bem, nesse caso, você sabe que elas estão sendo discriminadas.

Valor: E na sua carreira?

McCloskey:  Até  onde  posso  ver,  não,  mas  como  posso  saber?  Talvez  tenha  havido  uma  oferta  de Harvard para a qual não fui convidada porque sou “queer”. Não sei. Não percebi. Achei que ia perder a minha carreira, e tinha disposição para fazê-lo, em 1995. Sou uma pessoa muito orientada pela carreira,  mas não me importava. Se não pudesse ser uma mulher, não me importaria.

Valor: A sra. sofreu mais resistência da sua família, não?

McCloskey:  A  minha  irmã  tentou  me  internar  em  instituições  psiquiátricas  quatro  vezes  e  conseguiu duas. Consegui sair, porque podia contratar advogados. A grande tragédia é que a minha mulher, que    ainda é o amor da minha vida, com quem fui casado por 30 anos, e meus filhos se voltaram contra mim.  Não falo com eles há 21 anos. Tenho três netos que nunca vi. Eu continuo tentando, modestamente, mas  eles não respondem. [Mas] Se eu continuasse a ser Donald, eu seria muito infeliz.

Muito bom!

Os limites da cognição política, um dos conceitos mais elegantes da filosofia

luiz felipe pondé – 06/11/2017

 

Tempos ruins. Grande parte da “nova direita”, infelizmente, deu pra imitar a direita “cultural” americana e está indo para a guerra cultural, combatendo exposições de arte que “uma multidão de dez pessoas” frequenta. Nesse caso, a nova direita segue de perto a “new left”, também americana, obcecada também, como a nova direita, por sexo, penetração, crianças gozando, bebês trans, boquetes em público, sexo anal no jardim, enfim, tudo isso que inteligentinhos dizem ser uma “construção social”.

Uma das tragédias da discussão política hoje é que grande parte da inteligência pública é parte da histeria. A verdade é que a “inteligência” política está sempre aquém da política. O que isso quer dizer? Isso quer dizer que, na política, como em tudo mais, não temos capacidade cognitiva pra armazenar e processar tanta informação ou dados.

Com isso não quero me colocar ao lado daqueles que, quando ouvem a palavra “algoritmoooooo”, têm orgasmos múltiplos. Nem daqueles que pensam que a política será resolvida pela “Singularity University” porque geladeiras conversarão com fogões num mundo ideal. Nem daqueles que sonham com um algoritmo como líder máximo.

Um dos conceitos em filosofia política ou ciências políticas que mais me parece elegante é o de “cognição política”. “Elegância” em filosofia (ou epistemologia, para os que estão mais habituados com o repertório filosófico) significa (de forma grosseira, mas correta), segundo Guilherme de Ockham (1285-1347), seu criador, “dizer muito sobre a realidade do mundo, de modo preciso e da forma mais curta possível”. Quanto mais uma teoria ou conceito é simples na expressão e amplo na compreensão dos fenômenos, mais elegante ele é. Esta é a “navalha de Ockham”.

A verdade é que não temos capacidade de lidar com o montante de dados que a política produz, logo, humildade, e não utopia, é a melhor atitude epistemológica aqui -e não apenas ética ou política.

Epistemologia é a parte da filosofia que estuda o conhecimento, logo, a cognição e seus modos de organização. Dizer que temos limites cognitivos pra entender a política significa dizer que nossa capacidade de armazenar e processar dados políticos está aquém da quantidade de dados que a realidade política produz. Dito de forma simples: nunca sabemos ao certo o que está acontecendo na política, tampouco os políticos.

Esse fato não implica a inviabilidade da política como saber ou prática, mas implica visões distintas da política, sua ciência e sua prática. Outro fator complicador é que a política se mistura com moral, psicologia e psicopatologias diversas, neurociências, sociologia, religião, marketing, mentiras banais, vaidades, economia, sexo. Enfim, uma infinidade de realidades que tornam impossível uma ideia clara e distinta sobre elas e suas relações.

Mas calma! Não entre em pânico por conta dessa neurose de “engenharia das coisas” que nos afeta, pior do que tesão pela “internet das coisas”. Dizer que nossa capacidade de cognição política não suporta tantos fenômenos não quer dizer incapacidade total, quer dizer cuidado com visões de mundo que implicam uma crença numa percepção perfeita da política e dos homens. Proponho que você leia “Conflito de Visões”, de Thomas Sowell, publicado entre nós pela É Realizações.

Crer na capacidade plena de nossa cognição política é ter uma “visão irrestrita” do homem (nos termos de Sowell), é crer em sua perfectibilidade infinita via engenharia social e política. É crer na política como esfera de soluções para problemas claramente compreendidos. Uma mistura de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) com René Descartes (1596-1650). É crer em nossa capacidade irrestrita de ação racional no mundo.

Uma “visão restrita” do homem é crer que sua cognição é limitada e que tudo que podemos fazer são “trade-offs” (negociar) com os problemas que conhecemos “mais ou menos”. É uma mistura de David Hume (1711-1776) com Adam Smith (1723-1790).

Se você for um cético como eu, deverá preferir David Hume e Adam Smith aos delírios do andarilho solitário Rousseau.

 

Reinações de Rodriguinho

Um homem forte na sucessão de 2018

Por Rosângela Bittar – 18/10/2017

 

Um grupo de políticos, mais da metade constituído por aliados do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), envolvido na formulação de uma chapa para a sucessão presidencial, almoçou nesta segunda- feira com o governador Geraldo Alckmin (PSDB), em São Paulo, no Bandeirantes. À mesa sentaram-se Heráclito Fortes (PSB), Rubens Bueno (PPS), Jorge Bornhausen (sem partido, ex-DEM), Roberto Brant (DEM), Benito Gama (PTB), Pimenta da Veiga (PSDB), entre outros que não foram citados. A conversa, embora genericamente definida como “situação do Brasil”, chegou a algumas conclusões concretas.

Para aquele grupo, como João Doria (PSDB) não é mais candidato, chegou o momento de agir de forma mais objetiva, definindo claramente pelo menos uma das chapas na sucessão presidencial de 2018. A     razão  de  afastarem  Doria  do  espectro  sucessório  foi  sua  entrevista,  dada  em  Milão  e  publicada,  na mesma segunda, por “O Estado de S. Paulo”. Ao analisá-la, consideraram que o prefeito “jogou a toalha”. Assim sendo, chegou o momento da candidatura Alckmin.

Essa  resolução  inclui  apenas  uma  das  hipóteses  de  futuro  político  em  que  aposta  o  presidente  da Câmara,  Rodrigo  Maia.  Para  quem  está  fora  das  articulações,  da  conspiração  –  por  que  não,  eles detestam dar essa impressão, mas é óbvia -, não se compreende o que quer Rodrigo Maia, ora ao lado do presidente Michel Temer, ora o atacando, absolutamente reativo, mercurial e até às vezes juvenil.

Desde ontem, porém, Maia vestiu um novo figurino, mais de acordo com suas variadas chances de poder político. Uma delas, a primeira em três opções, é a Presidência da República.

Na hipótese de o Ministério Público ter sucesso com a denúncia contra Michel Temer, Rodrigo Maia assume o cargo de presidente da República. Isso lhe abre duas opções de poder político: ser candidato à reeleição, em 2018, o que é mais difícil de alcançar, ou ser candidato a vice-presidente na chapa de   Geraldo Alckmin.

As conversas do almoço de segunda-feira foram mais amplas e não chegaram a definir cargos ou chapas fechadas, mas as soluções ficaram latentes.

No período em que assumisse para completar o mandato de Temer, Maia faria correções de rumo no governo, no Ministério e em um conjunto de “procedimentos”, como se definem os métodos e meios na sua equipe de conselheiros.

A segunda hipótese, também de assumir o Executivo, seria Temer permanecer, embora um pouco mais fraco – o cálculo no grupo é que teria nesta segunda denúncia menos 40 votos do que teve na primeira — mas de qualquer forma levando seu mandato até o fim. Em 2018 Rodrigo Maia poderia tanto ser    candidato a presidente, pelo novo DEM, como também vice-presidente de Alckmin.

A terceira saída para Maia seria pela via do Legislativo, a menos ambiciosa porque já está na mão: candidata-se a deputado e disputa a presidência da Câmara, onde comanda um poder com força nos dois primeiros anos do novo governo e novo presidente da República, a quem teria apoiado na campanha.

Nessa hipótese, as vitórias de Maia são hoje previsíveis, devido ao apoio que conseguiu reunir na Câmara, embora a renovação esperada seja devastadora.

Qualquer desses caminhos, pelos quais não é necessário optar agora, mas estão bem amarrados, exige distanciamento prudente de Michel Temer, do atual governo e, sobretudo, de embates temperamentais que o façam perder as vantagens agora constatadas. Ou seja, Maia não pode errar.

As duas primeiras condições Maia as atende, facilmente. Mas a terceira… O problema de Rodrigo é seu temperamento. Os amigos tentam evitar que entre de cabeça em discussões tão ácidas quanto inúteis, deixe de lado a nervosia, mantenha o controle da resposta, transfira alguns embates com o governo para os aliados. A maioria das brigas de Maia são incompreensíveis para os mais racionais por isso: ele encrespa a pele sem razão. O problema agora é colocar radar em todos os lugares para não deixá-lo sem monitoramento.

Outra recomendação: evitar, de qualquer maneira, a volta do tema da traição, do quinta coluna, do conspirador. Preferem chamar esse conjunto de sentimentos ruins de “insatisfação”, e essa está grande e forte na Câmara, especialmente entre os mais fiéis a Maia, embora não consigam também ligar o nome à pessoa e dizer insatisfação com o que.

Depois de três semanas de tensão, ameaças veladas e, sem medo da palavra, conspiração, Rodrigo Maia ontem deu uma entrevista para declarar sua imparcialidade, cancelar viagem ao Chile durante a votação     da denúncia e exaltar o seu respeito ao presidente da República. Só não fez reconhecer que alguém, sob   seu comando, publicou irregularmente no site da Câmara a delação do doleiro Lúcio Funaro, contra   Temer, que estava sob sigilo decretado pelo STF. Essa “defesa” dos seus funcionários os ofendidos   tiveram que engolir.

Temer, por sua vez, foi a um almoço com rodriguistas, na casa do maior deles, Heráclito Fortes. Foram muitos movimentos da terça em desdobramento do almoço do Bandeirantes e precedidos de um jantar,     na segunda, e um café da manhã, na própria terça, encontros nos quais a nova ordem foi detalhada e digerida por Maia.

Que precisa criar um discurso, um projeto de governo, reunir apoiadores no mercado financeiro, empresários amigos e um partido forte para entrar como protagonista, ao lado de Alckmin (o mais provável) ou não, na sucessão.

Maia não fará força para tirar Temer. No seu grupo afirma-se que não é hora de pular do barco, pois    ainda não há outro construído e podem cair no mar. Mas se Temer sair, ele é o favorecido. Rodrigo vive hoje a mesma situação que o presidente viveu há um ano, com vantagem. Temer não tinha as opções de futuro à disposição de Maia.

O time de Rodrigo Maia extrapola o grupo que esteve com Alckmin e inclui: Jovair Arantes (PTB-GO), Alexandre  Baldy  (PTN-GO),  Fernando  Monteiro  (PP-PE),  Pauderney  Avelino  (DEM-AM),  José  Carlos Aleluia (DEM-BA), Efraim Filho (DEM- PB), Paulo Azi (DEM-BA), Heráclito Fortes (PSB- PI), Evandro Gussi  (PV-SP),  Orlando  Silva  (PCdoB-SP),  Elmar  Nascimento  (DEM-BA),  Rubens  Bueno  (PPS-PR) Benito Gama (PTB-BA).

 

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras E-mail: rosangela.bittar@valor.com.br