Vale a leitura:

Cursos preparam jovem herdeiro para assumir empresa familiar

Por Nathália Larghi – 13/11/2017

 

Após a morte de seu pai, Renato Mendes precisou assumir sozinho a empresa da família aos 24 anos. Formado em administração de empresas, o jovem imaginou que o desafio seria grande, mas não pensou que precisaria profissionalizar um negócio que já existia há mais de duas décadas. Ao perceber essa necessidade, ele procurou um curso voltado para executivos com foco em planejamento estratégico e gestão empresarial.

A demanda de jovens herdeiros como Mendes – ou até mesmo de seus pais – por preparação para assumir as empresas da família tem crescido no Brasil, país em que apenas 6% das companhias familiares chegam até a terceira geração, segundo dados da consultoria PwC. Por isso, estabelecimentos e institutos educacionais e até gestoras de fortunas têm investido em programas de formação para ajudar esses futuros executivos e acionistas a cuidar não só da empresa como de todo seu patrimônio.

A Fundação Dom Cabral é uma das escolas que oferecem programas para herdeiros. Com experiência de   13 anos dedicados à profissionalização de empresas familiares, a instituição se uniu recentemente à    gestora de patrimônios GPS e passou a oferecer um curso exclusivo para herdeiros de clientes da casa.

Com duração de oito sábados ao longo do ano, o projeto visa desenvolver o lado empreendedor dos alunos e apresentá-los aos desafios tanto do mundo corporativo como do ambiente de gestão.

“A gente fez uma trilha de aprendizado de coisas bem importantes, como propósito pessoal, ética, projeto de vida, empreendedorismo social, liderança, marketing digital e, obviamente, a parte de finanças”, explica Rogério Zanin, sócio da GPS.

A primeira turma, que se encerra no fim do ano, conta com 18 participantes de 16 a 21 anos. Os alunos, segundo o executivo, são filhos de clientes convidados pela gestora. A seleção desses jovens, segundo Zanin, aconteceu de maneira natural, de acordo com a disponibilidade dos jovens e o interesse dos pais.

“Muita gente estava ou iria para o exterior e só poderia fazer quatro módulos, aí vetamos, porque é uma trilha de aprendizado. Pensamos ‘dando certo, vai ter o segundo [curso]'”, diz o executivo. Ele conta que só entre os que não participaram desta edição por falta de agenda já daria para formar uma outra turma.  E a demanda, segundo Zanin, segue crescente. “Eu me arrisco a dizer que na próxima turma terá um    número [de alunos] ainda maior do que essa primeira”, afirma.

O curso conta com professores da Dom Cabral e convidados externos indicados pela fundação, que já   tem experiência nesse tipo de projeto com turmas anteriores. Renato Mendes, por exemplo, foi um dos alunos já treinados pela instituição. Um ano depois de assumir a Higicop, empresa de distribuição de produtos de limpeza e escritório, após a morte de seu pai, ele investiu no programa da fundação     chamado “Parceiros pela Excelência”, em que a fundação ajuda o presidente e os diretores ou gerentes    de uma empresa a criar um planejamento estratégico.

“Agora tenho uma empresa mais bem preparada, com gestores que me ajudam. Como a maioria das empresas familiares que começam com um patriarca, normalmente o poder é centralizado e isso atrapalha principalmente no processo de mudança de gestão”, afirma Mendes. Ele diz que, desde que começaram a fazer o acompanhamento com a fundação, ele dividiu o peso das escolhas com os outros gerentes que estão igualmente preparados e podem trazer novas ideias para a companhia. “Isso me ajudou muito. Eu não tomo mais decisões sozinho. Agora, tenho líderes ao meu lado”, afirma.

A falta de planejamento estratégico, como acontecia na empresa de Mendes, é um dos principais fatores      a brecar a evolução das empresas familiares no Brasil, segundo Silvia Martins, gerente de governança da consultoria PwC. Ela afirma que, quando bem estruturado, esse plano ajuda a organizar de que forma      será feita a sucessão, como promover inovação e como identificar e atingir os propósitos traçados para a companhia. Por isso, o aumento da oferta de cursos como o de que Mendes participou podem ajudar a mudar esse cenário.

“É importante que eles [herdeiros] tenham uma escola básica de formação de acionista responsável,  entender o que é o negócio, o legado da família e o que precisa ser feito para contribuir para que isso siga perene”, afirma Silvia.

Os dados da PwC mostram que as empresas familiares constituem 80% das 21 milhões de companhias existentes no Brasil, além de ocuparem 60% da força de trabalho e representarem 40% do PIB nacional. Essa importância foi o que fez o Insper também investir em cursos semelhantes. E a demanda por eles, segundo Rodrigo Amantea, coordenador da Educação Executiva do instituto, tem sido crescente.

Em 2011, ano de estreia do curso Gestão de Empresas Familiares, a instituição formou apenas uma     turma. Esse número foi crescendo ano a ano até chegar a quatro edições em 2014. Nesse mesmo ano, o Insper lançou outra modalidade de aula, voltada para grupos familiares específicos. “O Build To Last  [como foi batizado o novo curso à época] é feito para grupos de uma mesma família. Ele aborda desafios    a serem discutidos para aquele negócio. Ele até pode ter mais de uma família, mas tem uma parte do     curso que é individual, voltado para ajudar aquela empresa específica”, conta Amantea.

O aumento da procura dos herdeiros, segundo o coordenador do Insper, também tem sido evidente. A última turma do curso de gestão, encerrada no fim de outubro, tinha 27 alunos, sendo a grande maioria formada por sucessores de empresas familiares.

Felipe Del Moro é um dos jovens que buscou o programa do Insper para compreender melhor a     dinâmica de uma companhia familiar. Junto com dois irmãos e sete primos, todos herdeiros da rede de supermercados da família, ele participou de uma das turmas do curso de gestão.

Diferentemente de Mendes, que só teve experiência profissional na companhia fundada por seu pai, Del Moro trabalhou em outras empresas antes de assumir o cargo de diretor jurídico no negócio da família. Assim, o curso o ajudou a entender a estrutura de uma empresa familiar e os desafios para mantê-la saudável.

“Eles trabalharam muito o conceito de ‘salas’, onde seriam trabalhados os interesses da família em si e       os da empresa, de uma forma que os negócios não sejam dirigidos de acordo exclusivamente com as necessidades da família”, conta Del Moro. “O objetivo maior é a manutenção da harmonia da família e a perpetuação e crescimento do próprio negócio. Então, a família deve ser ouvida para que a ‘sala dos    sócios’  e  o  conselho  de  administração  possam  definir  as  estratégias  e  prioridades  da  empresa”, acrescenta.

No caso da companhia de Del Moro, além dos sucessores que trabalham na empresa, existem outros que seguiram direcionamentos diferentes. Por isso, algumas instituições oferecem ainda cursos para aqueles que, no papel de herdeiros, serão acionistas ou sócios da empresa, mas sem envolvimento profissional direto com ela.

É o caso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que organiza três tipos de cursos: governança para empresas familiares, preparação para conselheiros e formação de acionistas. “Existe aquela pessoa que quer trabalhar em outra área, então, criamos o curso para acionistas. Você só consegue ser um acionista que não trabalha na empresa se confiar na governança dela. O curso mostra qual o papel do conselho de administração e o da gestão e também como eles podem ser monitorados”, diz Adriane de Almeida, superintendente de desenvolvimento do IBGC.

A ideia, segundo Adriane, é que todos os membros da família se preparem para ajudar a manter a saúde      e longevidade do negócio, trabalhando diretamente nele ou não.

O empresário aposentado Antonio Carlos Vidigal, que também vem de uma família empresária, explica que os cursos são bons, mas não o suficiente. “Eu mesmo já dei palestras na Dom Cabral, na FGV e em outras instituições. Mas muitos pais não estão interessados e muitos filhos crescem encostados”, diz.

Para ele, o fundamental é que os herdeiros trabalhem e comecem sua trajetória profissional em cargos mais baixos. “O cara que também acha que vai mudar tudo na empresa, que vai ser diferente, pode    piorar [o negócio]. O importante é trabalhar. É ‘botar a barriga no balcão e atender o cliente'”, afirma.

Anúncios

Interessante!

iGen: Jovens em agonia

luiz felipe pondé – 13/11/2017

 

O conceito de geração, criação bem sucedida do marketing americano desde os chamados baby boomers, ganhou “credencial” científica.

A pesquisadora americana Jean Twenge, em seu último livro “iGen, Why Today’s Super-Connected Kids Are Growing Up Less Rebellious, More Tolerant, Less Happy -and Completely Unprepared for Adulthood” (Geração i, por que os jovens de hoje, superconectados, estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes -e completamente despreparados para idade adulta), lançado pela Atria Books, constrói, a partir de um arsenal de pesquisas, um perfil dos jovens nascidos entre 1995 e 2012.

O universo é o americano, mas, podemos aplicá-la com razoável segurança aos jovens brasileiros das classes A e B.

Vale esclarecer que “i” (internet) aqui se refere ao “i” do iPhone, logo, a autora está dizendo que esses jovens vivem com um iPhone nas mãos. E também “i” para “individualismo”, traço marcante da iGen.

Trabalho com jovens entre 18 e 20 há 22 anos. E posso perceber enormes semelhanças entre o que ela descreve e o que vejo no dia a dia, não só em sala de aula mas também graças ao contato alargado com jovens via mídias sociais.

Muitas dessas características são quase universais, devido à ampla rede de comunicação e distribuição de bens criada pelas mesmas mídias sociais.

Escolas e famílias, muitas vezes, são parte do problema, e não da solução. Ambas se atolam em modas de comportamento e iludem a si mesmas e aos jovens por conta, seja do marketing das escolas, seja das projeções vaidosas dos pais sobre seus filhos. O marketing das escolas é desenhado a partir dessas mesmas projeções vaidosas dos pais em relação aos seus filhos, ou seja, clientes das escolas.

Algumas dessas projeções são: os jovens de hoje são mais evoluídos afetivamente, são mais preocupados com temas sociais, mais tolerantes com o diferente, mais seguros com relação ao que querem, menos submetidos à moral “imposta” pela sociedade, mais sensíveis a desigualdade social, mais conscientes de uma alimentação equilibrada e, no caso das meninas, mais autônomas, independentes e donas do seu corpo.

Algumas dessas projeções não são, necessariamente, falsas.

O discurso da tolerância entre os jovens aumentou de fato, principalmente no tema gay/lésbica/transgênero (associado a questão “cada um é cada um”).

A preocupação com a desigualdade social também aparece, mas, principalmente, limitado ao campo das mídias sociais ou intercâmbios caros pra cuidar de crianças sírias na Alemanha, claro, aprendendo alemão junto e conhecendo jovens do mundo inteiro.

A realidade e o clichê não se recobrem totalmente.

Segundo a pesquisa de Twenge, nunca houve jovens tão infelizes na face da Terra. Consumidores de ansiolíticos em larga escala, a iGen busca “safe spaces” nas instituições de ensino a fim de não sofrerem com “frases” que causem desconforto emocional. Se são cuidadosos com os riscos físicos, esse mesmo cuidado no âmbito emocional indica a quase total incapacidade de lidar com a realidade.

Percebe-se facilmente que os jovens, “cozidos” no discurso psi da “vulnerabilidade”, vão se tornando mais medrosos. Inseguros, morrem de medo de qualquer ideia que coloque em xeque seus “direitos à felicidade”.

O mundo não ajuda. Ainda mais com essa gente que mente por aí dizendo que o capitalismo está ficando consciente ou espiritual. Eles sabem muito bem que o mundo deles será pior: mais incerto, mais violento, mais competitivo. A agonia com o futuro é crescente.

Se esses jovens desconfiam do mundo, têm razão em fazê-lo. Muitos pais e professores optaram por um discurso infantil, muitas vezes querendo “aprender” com os mais jovens -quando deviam apenas pedir ajuda com o iPhone.

Fazem menos sexo, ao contrário do que o blá-blá-blá da liberação sexual diz até hoje. Têm medo de contato físico e veem em tudo a ameaça de assédio sexual. A simples demonstração de desejo é assédio.
Pensar em ter filhos, jamais! Filhos, como eles, custam caro, duram muito e nunca querem virar adultos. Melhor cachorros e gatos.

 

Interessante

Para os ‘anti-natalistas’, procriar é cometer um dano sobre os filhos

joão pereira coutinho – 07/11/2017

 

Para os “antinatalistas”, procriar é cometer um dano sobre os filhos.

O leitor pensa em ter filhos? O filósofo David Benatar não aconselha. Benatar é um representante da corrente “antinatalista” e a sua mensagem é fulminante: existir é sempre um dano; donde, procriar é cometer um dano sobre os filhos.

O ensaio foi publicado no excelente “Aeon” (repito: o site é um paraíso para quem gosta de massa cinzenta) e o argumento de Benatar merece leitura.

O autor sabe que não está a ser original. Lamentações sobre a existência fazem parte da própria existência. Lemos o Eclesiastes, Schopenhauer, Cioran —e essa lamentação encontra expressão literária contundente.

E, nas nossas vidas correntes, quando as infelicidades suplantam as felicidades, qualquer cristão olha para o céu (ou para os pais) e questiona se valeu a pena ter nascido.

O problema, afirma David Benatar, é que uma análise empírica da vida comprova que infelicidades são sempre maiores do que felicidades.

Eis o seu primeiro argumento antinatalista: somos muitas vezes ignorantes sobre as “assimetrias empíricas” que definem a nossa condição. Exemplo: as nossas piores dores serão sempre superiores aos nossos melhores prazeres. Como questiona o autor, alguém está disposto a suportar um minuto de tortura para ter uma uma hora de puro deleite?

Igual raciocínio pode ser aplicado à vida banal: há pessoas que sofrem dor crônica; mas ainda não apareceu ninguém para falar de prazer crônico.

E, quando subimos a escala da infelicidade, a vida não é um filme de Hollywood. Todos, em maior ou menor grau, seremos vítimas de injustiças, invejas, humilhações. Alguns serão vítimas de coisas piores —doenças graves, acidentes, crimes, guerras. Sem falar do óbvio: se a morte é o maior dano, ninguém escapa a essa fatalidade.

Esse último pensamento pode soar bizarro: para quem defende que o melhor é não existir, a morte deveria ser a suprema consolação.

David Benatar argumenta, e bem, que existe uma diferença importante entre “desejar nunca ter nascido” e “desejar morrer”. E oferece um caso trivial: podemos assistir a um mau concerto sem abandonar a sala. Mas, se soubéssemos antecipadamente que o concerto seria ruim, não teríamos entrado.

E para os que têm a sorte de levar vidas satisfatórias ou até boas?

David Benatar não se demove ou comove: mesmo vidas satisfatórias ou boas serão sempre inferiores ao ideal de uma vida feliz.

Admiro a agilidade utilitarista de Benatar. Mas a lógica do seu raciocínio só funciona se partilharmos a sua “concepção de vida”. Não partilho. David Benatar sofre de duas limitações óbvias.

A primeira é a crença de que a vida é uma questão de tudo ou nada: ou obedece ao ideal ou não merece existir. Pois bem: o fato de uma vida não obedecer a um ideal de perfeição não demonstra, “ipso facto”, que a falha está na vida; pode demonstrar o inverso —o erro está no ideal.

Mas a segunda limitação é mais relevante que a primeira: Benatar não acomoda a possibilidade de existirem vidas que suplantam o velho cálculo hedônico de dores/prazeres.

Pois bem: a história —ou o cotidiano— é a refutação desse cálculo. Quantos seres humanos já não sofreram (longamente) e morreram (brutalmente) por amor a uma causa, a uma família —a alguém?

Aliás, não é preciso ser tão dramático: basta aceitar, teoricamente que seja, que os nossos filhos podem ter uma visão distinta das suas existências. Eles vão sofrer; eles vão morrer.

Mas, ao contrário do que argumenta Benatar, para alguns deles o fato de terem vivido —e de terem encontrado, brevemente que seja, momentos de felicidade— pode ser mais importante do que as misérias majoritárias. Quem confunde a vida com a matemática não entende grande coisa da vida (ou da matemática).

O próprio Benatar, em comentário sobre o homicídio, aceita esse “direito à subjetividade”. Diz ele: é proibido matar, mesmo por razões altruístas, porque nunca saberemos se a outra pessoa lamenta mesmo a sua vida. O que é válido para o “homicídio altruísta” é válido para a procriação: somos apenas juízes de nós próprios –e nem sempre com a competência desejável.

“O que é belo há de ser eternamente / Uma alegria”, escreveu John Keats na tradução de Augusto de Campos. “Não morre; onde quer que a vida breve / Nos leve”.

Pelos filhos devemos brindar: que pelo menos encontrem algo de belo, onde quer que a vida breve os leve.

 

Muito bom!

Os limites da cognição política, um dos conceitos mais elegantes da filosofia

luiz felipe pondé – 06/11/2017

 

Tempos ruins. Grande parte da “nova direita”, infelizmente, deu pra imitar a direita “cultural” americana e está indo para a guerra cultural, combatendo exposições de arte que “uma multidão de dez pessoas” frequenta. Nesse caso, a nova direita segue de perto a “new left”, também americana, obcecada também, como a nova direita, por sexo, penetração, crianças gozando, bebês trans, boquetes em público, sexo anal no jardim, enfim, tudo isso que inteligentinhos dizem ser uma “construção social”.

Uma das tragédias da discussão política hoje é que grande parte da inteligência pública é parte da histeria. A verdade é que a “inteligência” política está sempre aquém da política. O que isso quer dizer? Isso quer dizer que, na política, como em tudo mais, não temos capacidade cognitiva pra armazenar e processar tanta informação ou dados.

Com isso não quero me colocar ao lado daqueles que, quando ouvem a palavra “algoritmoooooo”, têm orgasmos múltiplos. Nem daqueles que pensam que a política será resolvida pela “Singularity University” porque geladeiras conversarão com fogões num mundo ideal. Nem daqueles que sonham com um algoritmo como líder máximo.

Um dos conceitos em filosofia política ou ciências políticas que mais me parece elegante é o de “cognição política”. “Elegância” em filosofia (ou epistemologia, para os que estão mais habituados com o repertório filosófico) significa (de forma grosseira, mas correta), segundo Guilherme de Ockham (1285-1347), seu criador, “dizer muito sobre a realidade do mundo, de modo preciso e da forma mais curta possível”. Quanto mais uma teoria ou conceito é simples na expressão e amplo na compreensão dos fenômenos, mais elegante ele é. Esta é a “navalha de Ockham”.

A verdade é que não temos capacidade de lidar com o montante de dados que a política produz, logo, humildade, e não utopia, é a melhor atitude epistemológica aqui -e não apenas ética ou política.

Epistemologia é a parte da filosofia que estuda o conhecimento, logo, a cognição e seus modos de organização. Dizer que temos limites cognitivos pra entender a política significa dizer que nossa capacidade de armazenar e processar dados políticos está aquém da quantidade de dados que a realidade política produz. Dito de forma simples: nunca sabemos ao certo o que está acontecendo na política, tampouco os políticos.

Esse fato não implica a inviabilidade da política como saber ou prática, mas implica visões distintas da política, sua ciência e sua prática. Outro fator complicador é que a política se mistura com moral, psicologia e psicopatologias diversas, neurociências, sociologia, religião, marketing, mentiras banais, vaidades, economia, sexo. Enfim, uma infinidade de realidades que tornam impossível uma ideia clara e distinta sobre elas e suas relações.

Mas calma! Não entre em pânico por conta dessa neurose de “engenharia das coisas” que nos afeta, pior do que tesão pela “internet das coisas”. Dizer que nossa capacidade de cognição política não suporta tantos fenômenos não quer dizer incapacidade total, quer dizer cuidado com visões de mundo que implicam uma crença numa percepção perfeita da política e dos homens. Proponho que você leia “Conflito de Visões”, de Thomas Sowell, publicado entre nós pela É Realizações.

Crer na capacidade plena de nossa cognição política é ter uma “visão irrestrita” do homem (nos termos de Sowell), é crer em sua perfectibilidade infinita via engenharia social e política. É crer na política como esfera de soluções para problemas claramente compreendidos. Uma mistura de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) com René Descartes (1596-1650). É crer em nossa capacidade irrestrita de ação racional no mundo.

Uma “visão restrita” do homem é crer que sua cognição é limitada e que tudo que podemos fazer são “trade-offs” (negociar) com os problemas que conhecemos “mais ou menos”. É uma mistura de David Hume (1711-1776) com Adam Smith (1723-1790).

Se você for um cético como eu, deverá preferir David Hume e Adam Smith aos delírios do andarilho solitário Rousseau.

 

Interessante

Desapegar-se em Noronha? Nunca um mosquito custou tão caro

luiz felipe pondé – 30/10/2017

 

Não acredito na possibilidade de desapego no mundo contemporâneo, em que desapego é em si um produto. Por exemplo: que tal desapegar um pouco no Butão? Ou em Noronha? Belo espaço natural. Nunca um mosquito custou tão caro.

Desapegar no mundo da eficácia e do resultado é coisa de gente fina. Mortal mesmo vende a mãe para desapegar um pouco no domingo. Sei que está na moda o desapego e que os tontos ficam nas redes sociais falando disso. Como falam também que “Gratidão!” (com as mãozinhas juntas) faz você dormir bem à noite.

Qualquer pessoa minimamente treinada no repertório das grandes religiões e suas distintas formas de espiritualidade (das quais vêm ideias como gratidão e desapego) sabe que, se você pratica uma dessas virtudes “para dormir bem à noite”, você não as está praticando de verdade. Ninguém é grato para conseguir algo ou desapega viajando de “business class”.

A ideia de desapego é bem séria, seja na espiritualidade, seja na filosofia, a começar pela grega. No grego, “aphalé panta” significa essa ideia de “desapegar-se de tudo que é ou tudo que existe” no chamado neoplatonismo.
Palavras como “apathéia” ou “ataraxia” estão muito próximas dessa noção de desapego no estoicismo e no ceticismo. No budismo, no cristianismo, no hinduísmo, a mesma temática. Na mística medieval cristã ou islâmica, ideias como “desprendimento” ou “aniquilamento” também retomam a mesma temática do “prazer” que seria se desapegar das coisas do mundo. Na literatura de peso, Liev Tolstói (1828-1910) é um representante importante dessa busca. Em seu último romance, “Ressurreição”, o personagem principal, Nerhliudov, passa todo o romance em busca do desapego, sonho do próprio Tolstói.

Quando se fala de desapego das coisas do mundo, a primeira ideia que vem à mente é o desapegar-se das coisas materiais. E, aí, em se tratando de nosso mundo contemporâneo, já fica difícil, uma vez que quase tudo que importa passa pela aquisição de um bem material, mesmo que este seja uma passagem para a Mongólia. Ou uma pousada na praia. Tudo pago em diárias, o que significa que você tem que pagar para desapegar. Porque, lembremos, quem mora embaixo do Minhocão não é um desapegado.

A busca do desapego deita raízes no fato de que o mundo cansa. Numa sociedade em que o cansaço é um grande “passivo psicológico” como a nossa, desejar o desapego é absolutamente normal. O problema é que, como em toda demanda de verdade, o mercado captura a própria demanda “natural” e devolve como commodity. Precifica a busca e vende para você de volta.

A literatura de autoajuda é a forma mais banal desse processo, prometendo a você que, na compra do livro X ou na participação no workshop Y, você conseguirá o tal do desapego. Evidente que mentem. O desapego é um processo doloroso que implica, na maioria dos casos, perdas profundas. Não é coisa que sirva ao papinho da “vida é feita de escolhas”. Está mais para experiência avassaladora do fracasso do que para o tédio do sucesso. Desapegar-se é próximo da “calma trágica”, descrita em personagens como Etéocles (filho de Édipo), da trilogia tebana de Ésquilo, ou Antígona (filha de Édipo), da tragédia que carrega seu nome no título, de Sófocles. Ésquilo viveu entre os séculos 5 e 6 a.C. e Sófocles no século 5 a.C..

O desapego fala do cansaço do desejo. E nosso mundo gira ao redor do desejo. Fala do perder-se, não da obsessão por uma alimentação balanceada. O “objeto” mais importante no desapego (aquilo de que você deve desapegar-se se quiser pensar a sério em fazê-lo) é o próprio Eu. E, aí, a coisa pega. “Ser você mesmo” cansa mais do que escalar o Everest. O Eu é um eterno adolescente chato em busca de autoestima. Aliás, a economia da autoestima é sinal de apego.

O filósofo Emil Cioran (1911-1995) escreveu em seu diário “tornar-se modesto por cansaço, por falta de curiosidade”. Isso é desapego. Algo a que você chega não pela vontade soberana, mas pela exaustão fisiológica. Aliás, parafraseando o próprio Cioran sobre a preguiça, eu diria que desapego “é o ceticismo da matéria”. Boa semana.

 

Casos de família:

Viúva obtém vitória no STF em ação sobre herança de Fábio Steinbruch

23/10/2017 – Por Alex Ribeiro

 

O Supremo Tribunal Federal (STF) deu uma nova vitória para a viúva de Fábio Steinbruch, Fabiane, numa disputa judicial sobre a herança em um ramo da família, que detém participação relevante em empresas do grupo Vicunha, incluindo  o  banco  Fibra  e  a  Companhia  Siderúrgica Nacional (CSN).

O caso foi julgado pela segunda turma do STF, que por unanimidade rejeitou um recurso dos irmãos de Fábio, Leo e Clarice Steinbruch. O extrato da decisão do STF prevê a aplicação de uma multa aos apelantes que, pela legislação citada, se aplica quando “o agravo interno for declarado manifestamente inadmissível ou improcedente em votação unânime”.

A disputa envolve o inventário de Fábio Steinbruch, primo de Benjamin Steinbruch, que é o principal executivo do grupo Vicunha, além de presidente do conselho e da diretoria da CSN. Fábio morreu em dezembro 2012 num acidente de motocicleta, sem deixar filhos. Desde então, a viúva, Fabiane, e os dois irmãos de Fábio – Clarice e Leo – discutem na Justiça como dividir a herança. Fabiane é uma ex- funcionária do Banco Fibra, com quem Fábio se casou em 2006.

Antes, o recurso já havia sido rejeitado em decisão monocrática do ministro Edson Fachin. Há pouco mais de um ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) deu ganho de causa para Fabiane. O STJ rejeitou a tese dos irmãos de que Fabiane tinha direito a tão-somente R$ 20 milhões deixados por Fábio em um testamento.

Dessa forma, o tribunal reconheceu que Fabiane é herdeira necessária em espólio declarado em R$ 380 milhões, mas cujo valor exato ainda é desconhecido, pois envolve bens ainda em avaliação.

Para Clarice e Leo, Fabiane não tinha direito na partilha de bens porque era casada em separação de   bens com Fábio. Já o entendimento de Fabiane, que foi reconhecido pela turma do STJ, é que existem duas situações jurídicas distintas, que não se confundem.

Uma é o regime de bens relativo ao casamento, que vale enquanto marido e mulher estão vivos. Outro é      o chamado direito sucessório, ou de herança, que passa a governar as relações jurídicas em caso de      morte. O direito sucessório trata a viúva como herdeira necessária. Fabiane sustentou no processo que o testamento não faz nenhuma ressalva contrária à sua condição de herdeira necessária.

Clarisse, Leo e Fábio são filhos de Eliezer Steinbruch, que fundou nos anos 1940 a Fábrica Têxtil  Elizabeth no interior de São Paulo com o irmão, Mendel, o pai de Benjamin Steinbruch, mais o sócio   Jacks Rodrigues Rabinovich. Juntos, eles construíram a Vicunha, uma gigante no setor têxtil, e    ampliaram a atuação, adquirindo o controle da CSN – que foi privatizada em 1993 – e fundando o Banco Fibra, uma instituição financeira de médio porte. Em 1997, por meio da CSN, o grupo participou do consórcio que arrematou o controle da então Vale do Rio Doce. Eliezer morreu em 2008, deixando os   bens para os três filhos.

O Valor procurou as partes envolvidas na disputa, por meio de seus advogados, mas nenhum deles havia se pronunciado até o fechamento desta edição.

O ocaso da energia fóssil

Energia alternativa no radar das petroleiras

23/10/2017 – Por Renato Rostás

 

Um consenso enfático em torno da busca por energias alternativas apareceu pela primeira vez dentre os interesses dos executivos de petróleo e gás no mundo todo.

Levantamento feito pela consultoria A.T. Kearney durante o primeiro semestre – e ainda inédito no Brasil – com o setor mostra que para 22% a construção de um portfólio com energias alternativas ganhou significância neste ano.

É a maior proporção de respondentes dentre uma série de motivos pelos quais as companhias e investidores buscariam fusões e aquisições em 2017. Em segundo lugar, aparecem empatados os temas “assegurar capital para projetos com vendas de ativos” e “melhorar      a estrutura de capital e a liquidez com vendas de ativos”, com 16% – dois temas recorrentes desde que o preço do petróleo começou a desabar.

“É uma tendência para o futuro”, explica Sergio Eminente, diretor da consultoria para o setor no Brasil.    “O negócio principal vai continuar sendo a exploração e produção de petróleo, mas já começa a se  desenhar o desejo de trocar matriz fóssil por elétrica, energias mais limpas. Como se preparar para    investir nisso?”

Se for levado em conta que outra questão com alta importância no estudo é a de vendas de ativos para levantar fundos, talvez haja até troca de portfólio – mesmo que ainda tímida. Os agentes do mercado também estão em busca de novas capacidades, como, por exemplo, o uso de processos digitais. Dos entrevistados, também 16% viram esse tema com maior relevância em 2017.

O estudo da A.T. Kearney mostra que o ritmo de fusões e aquisições em petróleo e gás atingiu seu maior ritmo desde 2014 durante 2017. Naquele ano e no seguinte, depois que a cotação do barril do Brent foi      de US$ 112 para US$ 57, diversas transações foram canceladas. Segundo o levantamento, operações valendo até US$ 106 bilhões foram completamente abandonadas em vista da falta de perspectiva de estabilização dos preços.

“Agora,  parece  que  há  mesmo  um  reequilíbrio  de  oferta  e  demanda.  Não  temos  nenhuma  projeção formal, mas trabalhamos com um cenário de preços entre US$ 40 e US$ 50 daqui para frente”, diz o    diretor da consultoria. “A curva de desaceleração do consumo de petróleo provavelmente não será muito rápida.”

O cenário mais pessimista é do “think tank” do setor RethinkX, que prevê pico da demanda mundial em 2020.  Já  as  gigantes  produtoras  veem  fôlego  até  a  década  seguinte.  A  britânica  BP,  por  exemplo, acredita que o pico chegará só após 2040.

No levantamento, a A.T. Kearney mostra que os grupos que aparecem com mais interesse neste ano para buscar  ativos  são  fundos  soberanos  e  de  participações.  Pelo  menos  metade  dos  fundos  de  “private equity”  acredita  que  vai  adquirir  mais  em  2017.  Já  as  gigantes  multinacionais  do  setor  e  as independentes maiores voltam ao mercado atrás de um processo de consolidação.

“Os fundos de private equity, inclusive, já estão olhando mais para toda a cadeia, depois de focar mais em transporte [uma área menos afetada pela queda dos preços]”, comenta Eminente. “O retorno dos projetos é maior e mais garantido, então eles buscam entrar, embolsar esse retorno e depois sair do negócio.”

O Brasil deve se beneficiar dessa maior disponibilidade de capital e da percepção de estabilidade no setor, opina o diretor da A.T. Kearney. Mesmo a crise política ainda dando sinais de ida e volta, ele acredita que os investidores já entenderam que não haverá uma ruptura grande na economia de uma hora para a outra. O grande teste da atratividade – e de quão estável se vê o país – serão a segunda e terceira rodadas do pré-sal, marcadas para sexta-feira.

Mas se empresas estão olhando mais atentamente o mercado para voltar às compras, o especialista aposta que não há como deixar de lado a grande preocupação dos últimos anos: o enxugamento das operações, para serem mais eficientes. “Petróleo é um investimento de tiro muito longo. Se quiser intensificar ganho de receita ou corte de custo, a companhia tem de arrumar a casa”, diz Eminente.