Há virtudes nas emendas

Dados mostram canalização virtuosa da verba de emendas

CARLOS PEREIRA – 23/01/2018

 

A imagem de que as relações entre o Executivo e o Legislativo no Brasil não são republicanas é difundida largamente na sociedade. Ideia sustentada na percepção de que os acordos partidários não seriam baseados em programas ou agendas políticas coerentes, mas em ganhos de troca que beneficiariam fundamentalmente os políticos às expensas da sociedade, que ao fim é quem paga um alto custo de governabilidade.

Essa imagem é ainda reforçada pela evidência da literatura especializada que demonstra uma clara conexão eleitoral entre apoio legislativo às iniciativas do Executivo e acesso a recursos monetários e de poder controlados e distribuídos de forma discricionária pelo presidente.

Esse jogo “sujo” de “toma lá, dá cá” seria coroado com o maior índice de reeleição dos parlamentares mais fiéis ao presidente. Esses teriam acesso a mais recursos orientados para alimentar as suas redes municipais de interesse e beneficiar suas bases eleitorais.

As chances de renovação da representação parlamentar, logo, seriam assim obstruídas por um “conluio” entre presidente, legislador e rede local de interesses.

Políticas locais que beneficiam bases eleitorais são conhecidas como “pork barrel” (barril de porco) e amplamente utilizadas na política americana. Essas supostamente teriam conotação extremamente negativa por serem associadas a ineficiências, patronagem, clientelismo, compra de votos, ou mesmo corrupção. Existem ainda argumentos de que pork barrel seria sinônimo de desigualdade e pobreza, perpetuando um ciclo vicioso de exclusão.

Em uma ampla pesquisa que acaba de ser publicada no periódico internacional “Governance”, artigo intitulado “Pork is policy: dissipative inclusion at local level”, em coautoria com Frederico Bertholini e Lúcio Rennó, contrariamos esse “senso comum”. Demonstramos que a execução das emendas dos parlamentares tem um impacto direto de melhora na qualidade de vida dos cidadãos brasileiros que vivem em localidades beneficiadas, assim como também apresentam maior desenvolvimento de suas economias locais.

A análise é baseada em um extenso banco de dados original que cobre a execução de emendas dos parlamentares em todos os municípios brasileiros por um período de dez anos (1999-2010). Utilizamos técnicas de pareamento dos municípios controlando por características demográficas, indicadores de desenvolvimento social e econômico local, dados de desigualdade, de competição política e as demais transferências intergovernamentais para os municípios.

A execução de emendas ao orçamento anual de autoria dos parlamentares foi tratada como um choque exógeno em nossa análise, ao gerar um novo fluxo de recursos estimulando a economia local. Mapeamos o impacto da chegada de pork barrel em indicadores sociais (como mortalidade infantil e performance escolar) e econômicos (emprego formal, renda etc.) nos anos subsequentes.

Consistente com as expectativas da teoria democrática, a pesquisa confirmou que municípios que apresentaram maior competição política tendem a receber mais recursos. Por outro lado, quanto maior a riqueza dos municípios, menor a probabilidade de receberem recursos provenientes dos parlamentares, sugerindo uma canalização virtuosa de recursos para municípios que mais precisam.

Como pode ser observado no infográfico, os municípios que receberam mais recursos por mais tempo reduziram mortalidade infantil, além de aumentarem a oferta de emprego formal e de renda. Resultados semelhantes foram também encontrados na área de educação, com redução de distorções entre série e idade, e melhoria geral das condições de saúde.

Esses resultados sugerem que a lógica descentralizada de alocação de recursos públicos, via emendas parlamentares, pode gerar maior inclusão e diminuição da desigualdade.

Entretanto, a depender da política pública analisada, os efeitos positivos de pork nos municípios brasileiros não se sustentam ao longo do tempo, sugerindo um perfil dissipativo de inclusão. Esse perfil fica evidente em relação à mortalidade infantil, pois os efeitos positivos de pork só são significantes até o quinto ano de recebimento dos recursos.

Como a alocação de pork segue a lógica de sobrevivência do parlamentar e não necessariamente da necessidade do município, ela tende a ser sub-ótima, pois locais em que o parlamentar não tem conexão eleitoral são praticamente “esquecidos”, enquanto as suas principais bases eleitorais são desproporcionalmente abastecidas.

CARLOS PEREIRA é professor titular da EBAPE/FGV

 

Anúncios

O macaco eterno

Esquerda e direita estão contaminadas pelo vírus do pensamento de grupo

joão pereira coutinho – 23/01/2018

 

Houve um tempo em que também eu debatia política em público. Relembro: um estúdio de TV, alguém de esquerda do outro lado da mesa. O pivô lançava o tema. A pessoa de esquerda corria atrás do osso como um mastim esfomeado.

Quando eu falava, havia um terrível anticlímax. De vez em quando, esforçava-me: dizia algo “de direita”, só para não ser despedido na hora. Mas grande parte do tempo ficava contemplando o outro, admirando a sua vitalidade ideológica e o interesse que ele tinha por, sei lá, a política de saneamento básico.

Várias vezes fitava o meu “adversário” (não ria, por favor) e tentava ver se tinha as pupilas dilatadas. “Talvez sejam drogas”, pensava, confrontado com aquelas cataratas (verbais). Não eram. Era entusiasmo.

Atenção, atenção: não falo de “entusiasmo” no sentido prosaico da palavra. Um ser humano sem entusiasmos é um cadáver ambulante. Não. Falo no sentido filosófico –aqui, como em quase tudo, David Hume (1711-1776) é o meu mestre.

Dizia ele que existem duas espécies de “falsa religião”: a superstição e o entusiasmo.

A primeira instala-se na alma amedrontada do crente perante “males infinitos e desconhecidos”, que exigem proteções igualmente fantasiosas.

A segunda revela um sentimento de exaltação (ou de “presunção”, para usar o termo de Hume) em que o “entusiasta” ignora a razão ou a moral –e se entrega nos braços do orgulho e da ignorância.

É isso que torna o “entusiasmo” tão perigoso: essa combinação de vaidade e ignorância.

O entusiasmo continua na religião, sem dúvida: não conheço nenhum terrorista islamita que não seja um entusiasta. Mas, sobretudo no século 20, esse “estado de espírito” foi cultivado pelas “religiões seculares” de que falava Raymond Aron.

O comunismo e o nazismo foram formas de “entusiasmo” político (que deram no que deram). As batalhas ideológicas de hoje são novas encarnações de entusiasmo.

Pensei em tudo isso quando assistia ao vídeo do momento: a entrevista de Cathy Newman, no Channel 4, ao filósofo “pop star” Jordan Peterson. Conhecia Peterson de outras andanças: o seu “Maps of Meaning”, um tratado sobre o lugar dos mitos na história humana, merece leitura.

No vídeo em questão, Peterson sublinha um pormenor importante das discussões contemporâneas: a “política de identidade” é intrinsecamente autoritária porque imita a mesma “estrutura de crença” dos regimes autoritários. Que crença é essa?

A ideia de que o grupo é mais importante do que o indivíduo. Antigamente, esse grupo podia ser “o proletariado”, em nome do qual se cometeram os maiores atropelos. Hoje, Peterson dá como exemplo os “ativistas trans” que policiam a linguagem e o comportamento de terceiros porque julgam falar em nome de todos os “trans”.

Não é preciso grande preparação filosófica para vislumbrar a falácia da retórica de grupo. Não existe “o proletariado”. Existem trabalhadores vários, com aspirações e limitações particulares. De igual forma, não existem “os trans”. Existem indivíduos concretos, que vivem a sua sexualidade de forma diversa.

Infelizmente, o prof. Peterson deixou-se contaminar pelo “entusiasmo” da jornalista e esqueceu-se do outro lado da história: a submissão ao pensamento de grupo não é um exclusivo de “esquerdistas radicais”.

Basta escutar a “direita radical” e as suas proclamações contra “os estrangeiros” –e em defesa dos “nacionais”, claro– para compreender a grande ironia do debate político atual: esquerda e direita estão contaminadas pelo vírus do pensamento de grupo.

Pelo meio, perde-se a importância (e a primazia) do indivíduo –essa ficção pequeno-burguesa, como diziam nazistas ou comunistas, e que as mentes autoritárias sempre tentaram calar ou destruir.

E como se chegou até aqui?

Em artigo recente para o “The Millions”, Sarah LaBrie acusa a internet (e as “redes sociais”) de produzir as manadas que esmagam a “soberania do ser”. É um bom ponto de partida –mas não de chegada: a internet deu voz e potenciou as manadas; mas elas sempre existiram no longo cortejo da história.

Como dizia David Hume, onde existe vaidade e ignorância, existe entusiasmo. E a alma dos homens sempre foi fraca: entre a solidão do individualismo e a pertença aos entusiasmos da tribo, o macaco eterno não hesita.

 

Santos pós-modernos

Como Maria engravidou sem relações sexuais com seu marido, José?

luiz felipe pondé – 22/01/2018

 

Afinal, como Maria apareceu grávida se não tinha ainda tido relações sexuais com seu marido prometido José, o carpinteiro?

Essa resposta sempre foi simples: o anjo avisou a ela que Deus a havia escolhido para ficar grávida sem ter feito sexo porque seu filho seria o Messias, e sua concepção seria “sem pecado”, isto é, sem sexo com o marido.

Mas essa resposta está caindo de moda entre cristãos cultos. E esse processo é uma “constante cultural” desde o século 19.

Antes de tratarmos desse tema sério, uma pequena anedota: algum tempo atrás, tive a oportunidade de ouvir um sujeito que se dizia a reencarnação de Jesus. Vive no Brasil. Segundo o que ele explicou na “palestra” que ministrava, sua mãe Maria e seu pai José tinham de fato transado, mas Deus os havia posto em condição sonambúlica, por isso depois disseram que nunca tinham transado, e “inventaram” a história da concepção sem pecado, por intervenção direta de Deus sobre os óvulos de Maria.

Essa “explicação”, para ele, era “científica” e “racional”, e ele tentava, assim, agradar à sensibilidade cética da plateia. Mas nosso Jesus “fake”, com essa história trôpega, não estava tão distante assim de uma sensibilidade de raiz hegeliana de meados do século 19 até hoje.

Sim, devo minhas desculpas. Misturei crenças “new age” (Jesus reencarnado) com gente de peso como o filósofo alemão G. W. F. Hegel (1770-1831). Mas tenho um motivo pra isso.

Em 1835, David Strauss (1808-1874), um hegeliano da chamada “escola histórica de Tübingen”, na Alemanha, publicou um livro chamado “A Vida de Jesus”, que criou uma tendência “científica” nos estudos teológicos protestantes liberais, atingindo também os católicos e os judeus na sequência.

O momento era de enorme importância: para você ter uma ideia, figuras como Karl Marx estavam em formação nesse mesmo caldo cultural, mas esse não é nosso assunto aqui.

A propósito: a biografia “Karl Marx, Grandeza e Ilusão” de Gareth Stedman Jones (Cia. das Letras), é uma pérola, não só se você quiser conhecer melhor essa figura essencial que foi Karl Marx, mas também para entender o contexto social, cultural, religioso e político da época.

Não chega a tanto, mas se aproxima em densidade da descrição do painel cultural russo da época descrita na biografia em cinco volumes que Joseph Frank dedicou a Dostoiévski (1821-1881), no Brasil, publicada pela Edusp. Essa biografia de Marx é fundamental para quem quer entender o próprio, sua formação e sua época. Mas voltemos a Jesus.

O trabalho de Strauss visava “curar” o evangelho do “sobrenaturalismo” ignorante do passado. Para Hegel e seus discípulos, o cristianismo era a religião mais avançada porque encarnara Deus num homem e, com isso, indicara que Deus está na história, e nela deve ser encontrado, porque o “Espírito Absoluto”, Deus, “é” a história e nossa “autoconsciência”.

Com isso, para Strauss, a tarefa era encontrar o Jesus histórico e não o Jesus mítico, “fantástico”, muito ao sabor dos conservadores evangélicos, que adoram mágicas e mulheres grávidas por milagre.

É verdade que gente de peso, tanto entre cristãos como judeus (não vou citar mais ninguém para não encher sua paciência no início do ano, ok?), se levantará contra essa tendência “naturalizante” ou “historicizante” de Jesus e da Bíblia como um todo.

Mas, o fato é que tanto o cristianismo quanto o judaísmo pós-Hegel, quando se querem “cultos” ou “progressistas”, pensam seu ícones em chave histórica desmitologizada.

E aí chegamos ao debate “culto” sobre como afinal uma menina (Maria) ficou grávida sem ter transado com o marido. Para a tradição “fundada” por Hegel e Strauss, as explicações sempre devem buscar o “racional”.

Hoje se fala, por exemplo, que ela foi violentada por soldados romanos, e que seu marido, José, sem nenhuma gota de machismo em seu sangue, a tomou como esposa e assumiu como seu filho o fruto da violência sexual.

Outros, mais radicais, que ela simplesmente traiu seu marido, e que ele, “#superantimachista”, a aceitou grávida. Eis os santos pós-modernos.

Juízes fora de controle

Entre a moralidade e o caos

hélio schwartsman – 12/01/2018

 

Perdoem-me por dizê-lo, mas, se juízes querem agir como revolucionários ou grandes reformadores, escolheram a profissão errada. Deveriam ter abraçado a guerrilha ou, ao menos, a política.

Gostemos ou não, o Judiciário foi concebido para ser o mais conservador dos Poderes da República. Sua missão institucional não é a de promover mudanças sociais, mas sim de dar segurança jurídica, isto é, um horizonte de previsibilidade aos diversos agentes sociais. Juízes mais do que quaisquer outros atores deveriam ter alergia a provocar grandes guinadas. Esse papel, que é importantíssimo, cabe a políticos e a movimentos da própria sociedade.

Até acho que existe espaço para o chamado ativismo judicial, mas ele deve limitar-se à ampliação de direitos individuais já contidos em princípios gerais enunciados na Carta que o Parlamento, por alguma razão, não consegue atualizar. Um bom teste prático é olhar para direitos que já tenham sido consolidados num bom número de democracias mais maduras, como a despenalização do consumo de drogas e do aborto. Em casos assim, creio que as cortes podem “inovar”, optando pela autocontenção nas demais situações.

Parece-me especialmente contraproducente quando tribunais “inovam” ao tomar decisões sobre o processo político, por mais nobres que pareçam seus motivos. Infelizmente, é o que vem acontecendo numa escala cada vez mais preocupante. Juízes já não hesitam em inventar e desinventar regras para prender políticos e afastá-los de seus cargos e começaram a palpitar até na nomeação de ministros, antigamente uma atribuição do Executivo.

É verdade que o artigo 37 da Constituição diz que todos os atos da administração pública devem ser pautados pela moralidade. Mas existem quase 20 mil juízes no país. Se cada um deles se sentir livre para impor a sua concepção de moralidade, teremos o caos e não a moralidade.

 

A bancada da rúcula

Proibir carne em certos dias da semana só pode ser ideia de fascista

luiz felipe pondé – 15/01/2018

 

Muitas vezes você deve ter se perguntado para que serve um deputado estadual no Brasil. Uma resposta que deve vir à sua mente é: para nada. Mas, você pode, infelizmente, estar errado.

Para além da inutilidade estrutural de grande parte dos políticos no Brasil, a organização política do Brasil determina a quase inutilidade dos deputados estaduais porque tudo é decidido em Brasília.

Como disse um amigo meu, se você cometer um crime no Brasil e se esconder na Assembleia Legislativa estadual, provavelmente, o crime prescreverá, porque quase ninguém vai lá.

As coisas sempre podem piorar: alguns entre os muitos inúteis podem resolver “legislar” e aí, a emenda sai pior do que o soneto. Inúteis são menos perigosos quando ficam quietos.

Por incrível que pareça, alguém parece estar tentando proibir restaurantes e bares de vender produtos de carne às segundas-feiras no Estado de São Paulo, em nome da defesa animal.

Temos em Brasília as bancadas da bala, da Bíblia, do boi, e agora, em São Paulo, temos a bancada da rúcula. Para essa bancada, a humanidade de sete bilhões de Sapiens pode sim se alimentar de rúcula com alface, apesar de toda a história da seleção natural dizer o contrário.

Tudo bem, modas são modas, e vivemos uma era de modas ridículas, principalmente entre jovens riquinhos. Veganos de todos os tipos, seguindo o guru Peter Singer e seu “Animal Liberation” de 1975, afirmam que comer animais é “especismo”. O termo é cunhado como analogia a “racismo”. Bicho também é gente.

Partilho da sensibilidade de cuidado com os animais e desconfio de quem maltrata animais. Mas, como seres naturais que somos, precisamos nos alimentar.

Não existe a natureza que os veganos imaginam em suas vidinhas protegidas e cheias de pequenos luxos alimentares presentes em restaurantes descoladinhos. A natureza é uma besta fera que devora tudo.

Câncer é tão natural quanto uma praia maravilhosa e deserta. Entrega um vegano desses pra besta fera que é a natureza e você verá o que acontece: os vermes carnívoros comerão os veganos, assim como comerão os frequentadores de churrascarias. A riqueza material corre o risco de deixar todo mundo abestalhado.

Afora o fato evidente de que as pessoas podem gostar ou não de carne, sentir-se bem comendo carne ou não, ter nojo ou não (e ninguém deve se meter nessa questão de gosto pessoal), a ideia de transformar em lei algo assim (proibir as pessoas de comer carne em locais públicos num dia da semana) só pode passar pela cabeça de algum fascista verde radical. Ou de alguém financiado por algum grupo de interesse em “dinheiro verde”. Ou de um neoidiota contra a carne.

Se leis assim passarem um dia, teremos chegado ao fundo do poço de uma tendência contemporânea que é o fascismo de butique.

O que é fascismo de butique? É gente que transforma suas pequenas manias em pautas universais, do tipo: “A humanidade tem que viver como eu acho que ela deve viver”.

Jovens que vêm de boas famílias, normalmente, compõem o grosso desse fenômeno. Na Europa, como bem dizia o sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017), esse tipo de jovem é produto do Estado de bem-estar social, mas no Brasil e nos EUA são frutos de pais com razoável grana que pagam escolas caras que abraçam árvores.

Eduque seu filho para ser uma “pessoa com outra qualidade de consciência” e terá um idiota pra sempre a ser sustentado em suas manias narcísicas de comportamento “puro”. Nunca se prepararam tão mal os jovens para a vida real como nos últimos anos. Jovens assim não enfrentariam desafios, dos Neandertais a Hitler.

Faça um teste consigo mesmo: se você achar que sabe como as pessoas deviam viver para serem melhores, a chance de você ser um fascista de butique é enorme.

Enfim: alguém quer proibir você de comer um churrasquinho na segunda-feira. Quer ir jantar à noite? Estaria a fim de comer um steak com molho poivre e fritas? A Assembleia Legislativa de São Paulo, do alto da sua infinita utilidade, quer proibir.

A bancada da rúcula vai obrigar a você a comer o que ela quer que você coma.

 

Vidas secas

E se nos adaptamos a mesclar trabalho e sacanagem desde o paleolítico?

luiz felipe pondé – 08/01/2018

 

As pautas progressistas têm se revelado um pouco ridículas, não? Não que eu ache que as pautas conservadoras estejam muito melhores (tipo perseguir exposições irrelevantes com gente pelada se chupando).

Temo que a própria oposição “progressista x conservador” tenha chegado ao seu ocaso e, com isso, aqueles que a defendem de forma radical (refiro-me à oposição descrita acima) tendem a se tornar fundamentalistas.

Parafraseando a máxima “a virtude está no meio”, eu diria que a “virtude está na ambivalência”. E toda ambivalência é insuportável para fundamentalistas. O Sapiens é ambivalente e, quando “exagera no mal”, degenera, assim como também quando “exagera no bem”. E ambivalência e maturidade são primas irmãs.

A virtude mais rara no debate público contemporâneo é alguma dose mínima de maturidade. E as redes sociais só pioram: em termos de debates de ideias, as redes sociais só pioraram o mundo. O debate nas redes sociais é coisa de gente boba.

Exemplos abundam. Sei que tem gente por ai defendendo que a Terra é chapada (chapados devem ser esses defensores da Terra plana).

Mas as idiotices não param por aí. Adentram o terreno do “debate qualificado e acadêmico”. E isso é o pior: a universidade, além de irrelevante, vai se tornando, aos poucos, um celeiro que faria inveja ao fundamentalismo islâmico em termos de ódio e intolerância.

A única saída para a universidade é abandonar a intenção de salvar o mundo. As ciências humanas devem desistir de mudar o mundo. Conhecê-lo já é difícil o suficiente.

Os racistas progressistas (a moçada que defende o apartheid sexual como forma de combate ao racismo… Risadas?) repetem o caminho das feministas radicais no seu ódio ao sexo.

O que está por trás do mimimi sobre “miscigenação é genocídio” é o ódio ao sexo. É o ódio à ideia de que negros podem gozar dentro de brancas, e estas adorarem, ou a ideia de que negras podem ficar molhadinhas e com água na boca sonhando em dar para o colega branco. Ou vice-versa.

É o mesmo ódio que o feminismo radical dedica ao homem heterossexual. “Todo ato (hetero)sexual é uma forma de estupro” não quer dizer outra coisa. A obsessão por assédio sexual acabará com as relações entre homens e mulheres em poucos anos. E entre gays também. O ódio é o afeto hegemônico no mundo contemporâneo.

E essa gente se diz “progressista”. E se a espécie estiver adaptada a misturar sobrevivência, gozo, trabalho e sacanagem desde o Paleolítico?

Acho que Freud nunca foi tão atual em seu diagnóstico acerca do medo histérico do sexo. O Freud “insuportável” foi deixado de lado pela esquerda inteligentinha.

A esquerda deveria se manter naquilo que ela fez de melhor até hoje: ficar atenta aos danos que a sociedade de mercado causa nas pessoas. Diagnóstico este sintetizado nos conceitos de mercadoria e instrumentalização —e largar mão dessas taras sexuais.

E se o desejo sexual morrer quando se tornar “correto”? Não duvido que seja exatamente a intenção desses raivosos contra o gozo alheio. Querem mesmo é fazer de todos os humanos seres castrados no gozo. Não é muito diferente de quem acha que pessoas que gostam de gozar dentro de pessoas do mesmo sexo sejam doentes.

Mas o ridículo vai mais longe. E quem acha que parando de consumir qualquer “matéria animal” está salvando o mundo? Os jovens mais puritanos, fundamentalistas e intolerantes são os que pensam assim. O veganismo é uma forma de fundamentalismo que carrega rúculas ao invés de bombas.

O horror ao sangue é semelhante ao horror ao sêmen ou à mulher molhadinha de tesão querendo “dar”. Um dos piores danos aos jovens está sendo realizado nessas escolas que “educam para a paz”. O jovem que abraça árvore hoje é o mesmo que não conseguirá abraçar ninguém amanhã.

As taras sexuais da “esquerda de campus” —a esquerda inventada nos campi universitários americanos que tem horror a sangue, sêmen e mulheres molhadinhas de tesão— terá como grande “ganho” o fortalecimento das correntes reacionárias. O século 21 será um terreno baldio de bobos e raivosos regados a algoritmos.

“Uma batalha sem fim cujo sucesso não é garantido”

Quem ainda crê que ser ateu implica querer comer criancinhas?

luiz felipe pondé – 01/01/2018

 

O tema do ateísmo me interessa pouco. Tampouco me interessam as entediantes “provas” da existência de Deus. Grande parte dos ateus que conheço é chata e sofre de dois dos seguintes sintomas:

O primeiro é a raiva de Deus. Evidentemente, trata-se de “daddy issues” (problemas com papai). A fúria com a qual alguns ateus se movem trai seu ressentimento escondido.

O segundo é a tentativa, risível, de atestar que, apesar de ateus, são bons cidadãos. Se o primeiro sintoma revela um traço de insegurança, este aqui trai seu ridículo.

Quem ainda crê, pelo amor de Deus, que ser ateu implica querer comer criancinhas?

Sei. Você me dirá que existem pessoas que, sim, pensam que ateus “matam mais”. Você tem razão em dizer isso, mas quem pensa assim é tão risível quanto um ateu que quer provar seu compromisso com “um mundo melhor”.

Ateus assim, quando possuem mais repertório, além de sua referência “discovery”, buscam o filósofo alemão Immanuel Kant (1724 – 1804) como lastro: o bem é racional, não religioso. Logo, posso ser ateu e ser ético.
Verdade evidente, mas só quem tem uma percepção infantil do comportamento humano se esconde atrás de um enunciado filosófico como garantia de sua própria sanidade.

O ateísmo é a forma mais simples de filosofia. Ainda mais quando se afirma que “Deus é amor”. O mundo é mau, logo, se “Deus é amor”, ele não existe. Esse argumento em filosofia é conhecido como “argumento a partir do mal” contra a existência de Deus. A fé é infinitamente mais complexa do que a descrença. Dizer que religião é uma bengala é coisa de iniciantes em matéria de religião.

Mas é possível ser ateu e ter espiritualidade? Sei. Você dirá que evidentemente sim porque ateus podem ser pessoas “legais”. Pessoais “legais” não merecem confiança, direi eu em resposta a você. Isso se você supuser que pessoas “espiritualizadas” são pessoas legais. Eu não tenho tanta certeza, principalmente agora que você pode ser “espiritualizado” graças ao Face.

Independentemente dessas questões risíveis, creio, sim, ser possível um ateu ter vida espiritual, claro, se você não associar “vida espiritual” a vida religiosa institucional.

A questão que normalmente soa estranha é que a espiritualidade parece nos levar diretamente a Deus ou similares. Mas isso não é, necessariamente, uma verdade evidente.

O darwinista Edward O. Wilson, no seu livro “The Meaning of Human Existence” (o significado da existência humana), da editora W. W. Norton & Company, de 2014, defende que existe, sim, uma espiritualidade ateia e esta está intimamente associada à indagação acerca do significado último da existência humana.

A indagação está presente, principalmente, em momentos em que o significado parece desaparecer, como no momento de grandes perdas na vida. Não é à toa que a sociologia da religião mostra que conversões espirituais ocorrem, majoritariamente, em momentos de grandes perdas na vida.

O fato é que a espiritualidade, em geral, lida diretamente com indagações como essa. As religiões respondem a questões como essa, costumeiramente, oferecendo práticas (leituras, rituais, liturgias e narrativas cosmológicas) que respondem à indagação acerca do sentido da vida e do sofrimento. A espiritualidade estaria ligada a questões de sentido da existência, mas não, necessariamente, dependentes de crenças em divindades.

Para Wilson, quando um ateu se indaga acerca do sentido último da existência, ele está pensando em nossa condição humana num cenário de solidão cósmica (não é à toa que tanta gente busca em ETs um “resto” religioso qualquer) e contingência absoluta.

Não há um sentido último da existência humana a não ser enfrentar essa contingência absoluta a partir dos meios (frágeis, sim) de que dispomos para enfrentar um universo que nos devora a cada minuto. Esse sentido passa pela busca de compreender (cientificamente) este universo e lidar com ele.

O darwinismo nos ensina que a existência é uma batalha sem fim cujo sucesso não é garantido. O darwinismo carrega em si uma cosmologia trágica. Enfim, arrancamos o sentido das pedras.