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Arrancar o útero fora

Por que uma menina chegaria a conclusão que deve tirar o útero para ser ética?

Luiz Felipe Pondé – 21.mai.2018

 

“O que o título acima quer dizer?”, pergunta-me a leitora assustada, nesta segunda-feira. Imagino-a levando a mão ao ventre e sentido a dor que essa ideia traz consigo: “Arrancar o útero fora”.

Passamos todos por processos na vida, como indivíduos e como grupos. No caso específico das mulheres mais jovens, hoje em dia, intriga-me o fato que, ao lado de expressões em que “útero” ocupa o lugar do “saco” como exemplo de coragem (o que reconheço como verdade para as mulheres, uma vez que dar à luz sempre foi um indício da força do sexo feminino que me encanta), a tendência a recusar a função em si do útero (gerar filhos) seja crescente.

Mas, para além do fato evidente de que as pessoas podem fazer o que quiserem com seus corpos (vamos deixar isso claro antes que algum inteligentinho venha encher o nosso saco), um novo fenômeno me chamou atenção nos últimos tempos: o antinatalismo.

Você não sabe o que é? Não, nada tem a ver com algo contra o Natal cristão, apesar de, sim, ter a ver com a ideia de ser contra o nascimento de crianças.

Antinatalismo, aparentemente, surgido entre europeias entediadas (como quase todo europeu), é o seguinte: mulheres jovens tiram o útero logo cedo a fim de marcar sua recusa à maternidade como ato ético sublime. Sim: arrancar o útero como ética.

Há algum tempo tenho evitado a palavra ética, como também as palavras energia e cabala, porque, de tanto serem usadas, já não significam nada. Mas confesso que o uso da palavra “ética” ao lado de “arrancar o útero” me parece incomum. Por que uma menina chegaria à conclusão que deve tirar o útero para ser ética?

Claro que não ter filhos pode ser visto como algo bom de várias formas, algumas confessáveis, outras inconfessáveis.

As confessáveis, que me soam falsas, são do tipo: não vou ter filhos porque já tem criança demais no mundo, melhor adotar uma pobre, a espécie humana é excessivamente predadora, logo, melhor sumir da face da Terra, deixemos o planeta para golfinhos e baratas, são tão fofos!

As inconfessáveis (que acredito serem mais verdadeiras) são do tipo: não vou ter filhos porque criança custa caro, dura muito tempo, enche o saco, atrapalha a Netflix, me impede de viajar quando quero e, pior, faz eu me sentir responsável por ela, e isso é uma forma da opressão patriarcal, além de que, é claro, filhos dão rugas, derrubam o seio e atrapalham o mercado de trabalho.

Devo ir com calma, porque a sensibilidade excessiva de uma humanidade que optou pelo retardo mental como “ética” pode entrar em agonia diante dos meus argumentos inconfessáveis para não ter filhos.
O fato é que os argumentos confessáveis aparecem no discurso de algumas antinatalistas. Há um interessante cruzamento delas com uma forma de veganismo radical.

A ideia é que as mulheres que procriam colocariam (antieticamente) mais humanos na Terra, que seguiriam com seus modos de torturar os pobres dos animais. Muito comumente, antinatalistas são veganas, mas não necessariamente o contrário é fato.

Para ouvidos atentos, os argumentos inconfessáveis soam machadianos: o niilista Brás Cubas, criação de Machado de Assis (1839-1908), afirma no final do romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas” que pelo menos não teve filhos e, por isso, não passou adiante a herança da miséria humana.

Entretanto há no niilista uma certa dignidade que não há nas antinatalistas. O niilista acha a humanidade um lixo e se vê como um ser cruel e cínico. A antinatalista se leva muito a sério e se vê como um ser sublime que quer salvar o mundo através do que é, na verdade, pura preguiça, narcisismo, falta de amadurecimento, recusa de responsabilidade e por aí vai. A antinatalista é uma mimada que mente sobre o seu próprio ato. Mas há algo a mais por detrás do seu ato.

Orígenes (184-253), grande padre da patrística grega, um dos primeiros grandes filósofos do cristianismo, ficou conhecido não só pela sua obra mas também pela autocastração como forma de combate a concupiscência da carne. Isso meio que queimou o filme dele na tradição e com os parceiros. Vejo alguma semelhança entre a autocastração de Orígenes e a automutilação das antinatalistas. Em ambos os casos há um horror ao sexo e ao que é humano. Contra o que os inteligentinhos pensam, engravidar uma mulher é um ato muito erótico.

E isso tudo acontece nas barbas dos psicanalistas que ficam brincando de cientistas políticos enquanto o horror ao sexo cresce.

 
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A guerra do sexo

Como esquecer as verdadeiras ‘minorias sexuais’ que sofrem na solidão dos lençóis?

João Pereira Coutinho – 15.mai.2018

 

Só agora conheci o movimento “incel”. A culpa é do psicopata canadense que matou 10 pessoas e feriu 15 em ataque terrorista.

O psicopata era membro do clube. E o clube, como o próprio nome indica (“incel”, ou seja, “involuntary celibates”), é constituído por legiões de infelizes que, incapazes de arranjarem mulheres, desatam a matar as mulheres dos outros (ou, então, os homens que conseguem conquistá-las).

Estranho mundo: antigamente, quem não conseguia mulheres, militava na extrema-esquerda ou na extrema-direita. Hoje, prefere dedicar-se ao terrorismo, seguindo o exemplo dos jihadistas tradicionais que descarregam o ressentimento e a abstinência na humanidade circundante. Que dizer?

Peço desculpa aos psiquiatras, mas a questão também é política. Sobretudo quando “acadêmicos” vários levam a sério o sofrimento dos “incels”.

Escreve Ross Douthat, no New York Times, que o debate rola com vigor no mundo anglo-saxônico (curioso: houve tempos em que a imbecilidade teórica era um exclusivo dos franceses; não mais). E a pergunta que domina os melhores espíritos é esta: se a função de uma sociedade civilizada é distribuir de forma justa a propriedade e o dinheiro, por que não o sexo?

Ou, para usar uma linguagem mais polida, se a justiça social implica que os “bens primários” sejam alocados de forma equitativa, não será o prazer sexual um desses bens? Como defender, com cara séria, que o acesso à alimentação e à habitação são necessidades básicas —mas não o sexo?

O caso se adensa quando falamos das pessoas mais afetadas pela ausência de trepidação. Obesos, deficientes, feios. Toda gente fala em nome das minorias. Mas como esquecer as verdadeiras “minorias sexuais” que sofrem na solidão dos lençóis?

A preocupação não é nova. É velha. São incontáveis os tratados utópicos que, nas suas propostas, contemplam igualmente a satisfação carnal dos seus habitantes. Mas pergunto, de espírito aberto, como instituir uma política sexual “inclusiva” no mundo real?

Primeiro, seria necessário estabelecer quem poderia aceder a essa Bolsa Folia (nome hipotético). Ser feio, só por si, nada significa. Será preciso lembrar que Serge Gainsbourg namorou, por ordem alfabética, Brigitte Bardot, Catherine Deneuve, France Gall, Jane Birkin ou Vanessa Paradis? Desperdiçar “recursos” com um Gainsbourg seria o mesmo que dar o Bolsa Família a Jorge Paulo Lemann.

Seria mais útil, e mais decente, medir a atividade neuronal do candidato quando confrontado com uma foto de corpo inteiro de Gisele Bündchen ou, sei lá, de um João Pereira Coutinho. A massa cinzenta nunca mente.

E os “recursos” propriamente ditos para saciar os famintos?

Sei: a resposta óbvia seria recorrer às profissionais do ofício. Mas a prostituição sempre me pareceu uma degradação das mulheres (e dos homens) que nenhuma sociedade igualitária pode tolerar.

Os robôs sexuais vão pelo mesmo caminho: não são a mesma coisa (dizem, dizem) e, como se viu em Paris neste ano, algumas feministas não toleram a existência de prostíbulos onde os adultos brincam com bonecas e até abusam delas.

Além disso, oferecer simulacros a “celibatários involuntários” seria uma forma trágica de criar novas desigualdades: corpos reais para os privilegiados, robôs sexuais para os excluídos? Pior a emenda que o soneto.

Se todos nós concordamos que a) o sexo é um bem primário e b) todas as pessoas devem ter igual acesso a esses bens, o melhor é não inventar. E seguir um modelo próximo da cobrança de impostos: não existe redistribuição da riqueza pelos mais necessitados sem privar os indivíduos e as famílias de uma parte da sua renda.

Pois bem: se as pessoas já pagam impostos (em dinheiro), talvez o caminho para diminuir a angústia dos “celibatários involuntários” seja pagar outro tipo de imposto (em gêneros). Estou certo que os igualitaristas radicais seriam os primeiros a oferecer os seus serviços.

E para os céticos que tentassem resistir, aconselharia uma primeira abordagem pedagógica (antes da cadeia). Pagamos impostos, não apenas por solidariedade —mas porque esperamos do Estado certas funções sociais de que podemos precisar um dia.

O mesmo vale para o sexo, camaradas: nesta vida, só podemos receber o que estamos dispostos a dar.

 

Interessante:

Uma resposta deslavada

Sacrificar 140 crianças, comer seus corações e sacrificar 200 baby llhamas tá OK?

Luiz Felipe Pondé – 14.mai.2018

 

Vou propor hoje uma questão para sua segunda-feira. Dedico-a aos inteligentinhos do Brasil. Sabe-se que a filosofia, desde a Grécia, indaga-se acerca do chamado “relativismo”. Os sofistas eram os filósofos gregos que o defendiam: “o homem é a medida de todas as coisas” é uma máxima atribuída a Protágoras (481 a.C.–411 a.C.).

Grosso modo, relativista é quem entende que não existe verdade absoluta, nem moral absoluta, nem crença absoluta. Tudo depende do ponto de vista, da cultura, do momento histórico, enfim, “cada um é cada um”, como dizem os mais jovens. Claro que você já percebeu que ser relativista é bem contemporâneo.

Uma das formas mais importantes de relativismo é aquele “científico”, abraçado pela antropologia moderna. Segundo esta, é o conjunto de crenças, práticas e hábitos que determina o universo do que é verdade e do que é mentira, do que é bem e do que é mal, do que é certo e do que é errado. Logo, não havendo um conjunto único de crenças, práticas e hábitos na história humana, podemos afirmar que não há uma compreensão única do que é verdade ou mentira, bem ou mal, certo ou errado.

Lamento, mas a moçada dos direitos humanos é etnocêntrica, eurocêntrica e, portanto, “opressora”. Seria uma espécie de cristãos sem Jesus. Mas, não precisamos ir tão longe e estragar de forma tão radical a semana dos inteligentinhos. Nem temos esse poder. Mas, podemos, pelo menos, colocar uma questão para a moçada que defende o relativismo antropológico assim como quem toma chá natural. E para quem não defende também vale a reflexão.

Será que o que eu vou relatar é fake news? Ou verdade? Vamos aos fatos. Arqueólogos descobriram na costa norte do Peru, a cerca de 300 km do oceano Pacífico, região outrora habitada por uma civilização “pré-colombiana” (termo etnocêntrico, claro), conhecida como Chimú, 140 restos de crianças que, pelos sinais que os corpos apresentam, foram oferecidas em sacrifício.

A tinta encontrada nas cabeças das 140 crianças mortas parece ser a mesma tinta conhecida como a utilizada em seus rituais religiosos. Aliás, 200 baby lhamas também foram mortas no mesmo “evento”. Coitadinhas das baby llhamas. Que diriam os veganos disso? Coitadinhas das crianças também, claro.

O peito aberto das crianças parece indicar que o coração delas foi retirado (não há traços dos corações) durante o processo. Talvez para rituais canibais religiosos. Esse fato parece ter ocorrido 550 anos atrás, antes de os terríveis espanhóis chegarem. Vale salientar que achados semelhantes foram encontrados na região da atual capital do México: 42 crianças mortas em rituais. Estas, fruto da civilização asteca, também destruída pelos terríveis espanhóis.

Agora voltemos ao tema do relativismo. A questão que proponho nesta segunda-feira é: o que dizer desses achados? Vou responder de modo relativista, tá? Não quero incorrer no pecado capital do etnocentrismo.

Sacrificar 140 crianças, comer seus corações e sacrificar 200 baby llhamas (não vamos ser humanocêntricos e esquecer dos baby llhamas mortos também!) não é errado. E por que não? Se levarmos em conta o conjunto de crenças, práticas e hábitos desses povos, sacrificar 140 crianças, comer seus corações e sacrificar 200 baby llhamas está justificado por esse mesmo conjunto de crenças, práticas e hábitos. Questão resolvida. Vamos trabalhar.

Mas, antes, peço um momento de reflexão. É fato evidente que, se não levarmos em conta esse conjunto de crenças, práticas e hábitos, nunca seremos capazes de entender esse mesmo conjunto de crenças, práticas e hábitos. E, por consequência, jamais entenderemos o “Outro”. Como esse problema é uma questão de método, não podemos fugir da posição relativista se quisermos compreender o mundo dos diferentes conjuntos de crenças, práticas e hábitos culturais.

Imagino como reagiria o “novo mundo dos comentários”, esse pequeno inferno de bolso criado pelas mídias sociais, a achados como esse. E também à minha “deslavada” resposta relativista. Como fica a tal ética do “Outro” nessa? Como alguém em sã consciência pode não se revoltar com tamanho ato de violência contra crianças e baby llhamas (não esqueçamos delas!)? Desafio a qualquer inteligentinho dar a mesma resposta “deslavada” que dei.

Difícil de engolir? Vou te ajudar. Entenda que sua absurda revolta é, apenas, um brutal ato de etnocentrismo, portanto cale-se e vá trabalhar.

Bom senso:

Em defesa de certa masculinidade

Seriam os homens um erro da natureza, a ser erradicado pelo bem da humanidade?

Vera Iaconelli – 15.mai.2018

 

Que mulher não ouviu dos pais: “minha filha, não dependa de homem!”? A maioria hoje carrega esse mantra, inverso do slogan das gerações anteriores, que seria: “arranje um bom homem que sustente sua família”. É claro que, além de não depender de ninguém, das mulheres ainda se espera que casem, tenham filhos, sejam magras e bem-sucedidas. A corda não afrouxou para o lado delas, só porque ganharam a incumbência de se sustentar. Pelo contrário, cuidar da casa e dos filhos, enquanto mantêm o físico atlético e uma carreira de sucesso, é o que se espera da “nova mulher”. O imperativo moderno do “tudo ao mesmo tempo agora” é tão tirânico e inalcançável para nós, pobres mortais, quanto passa de boca em boca sem titubeio. Quem ousar desafiá-lo vai recolher olhares de desprezo ou dó, seja porque não trabalha, seja porque não tem filhos, seja porque não faz ginástica… e assim vai.

Do outro lado da história, representando o gênero masculino, temos os imperativos que assombram os homens.(Pausa para lembrar que a palavra “gênero” está em vias de ser banida das escolas, e se banir palavras da escola não for fascista, por favor, me expliquem o que é.)Qual seria o mantra dos homens hoje? Arrisco: “não sejam mulherzinhas e” —​pasmem!—​ ​​ “sejam femininos”.

Não sejam “mulherzinhas”, leia-se, não sejam suscetíveis, afetados e medrosos. Ao mesmo tempo, sejam femininos, traduzível por: sejam sensíveis como as mulheres. O homem bacana hoje, que cuida dos filhos e da família em bases igualitárias com a mulher —​o famoso “marido Vila Madalena”—​ é aquele dotado de “alma feminina”.Se chamar uma mulher de masculina é xingá-la e chamar um homem de feminino é elogiá-lo, se “um bom pai é quase uma mãe”, talvez tenhamos que repensar o que pedimos ao outro sexo. Pois a mensagem faz supor que a masculinidade é um erro a ser corrigido com… a feminilidade!

Porque no “frigir dos ovos” o que sobra é a insinuação de que homens são um erro da natureza, que devemos erradicar para o bem da espécie humana.No divã escutamos jovens e adultos perplexos diante de um discurso que despreza sua forma de entender o mundo, sua sexualidade, sua vida afetiva, seu corpo, ao mesmo tempo em que continua a exigir-lhes o sucesso profissional e social. A confusão entre machismo e masculinidade é patente e nos faz perder grandes aliados na causa das mulheres e das minorias de gênero. Além disso, o alto índice de alcoolismo, de violência, de depressões, de suicídios e de prisões entre homens são sintomas que demonstram que estamos esquecendo de escutar algo.O destino das mulheres está traçado, o alcancemos ou não. Ainda que exista a circuncisão feminina e os estupros aumentem pelo mundo —​só para citar alguns dos exemplos estarrecedores aos quais somos submetidas—​, todo o movimento progressista é na direção da luta pela emancipação da mulher e das minorias de gênero.E qual seria o destino almejado para e por homens? O que eles têm a nos dizer sobre seu desejo, sua forma de sentir, de amar? Sobre seu desejo de deixar de bancar os durões sem ter que deixar de serem homens? Masculinidade e feminilidade, seja pelas tendências genéticas, seja pelas construções históricas e influências socioculturais, têm feito parte da construção das subjetividades de cada época. São formas a partir das quais os sujeitos se apresentam no mundo e com as quais, por motivos insondáveis, se identificam. Confundir a masculinidade com o machismo, exercício de um poder tirânico contra o qual devemos continuar lutando, é “jogar fora o bebê junto com a água do banho”. Para esquentar a conversa, sugiro assistir à comédia francesa “Não sou um homem fácil” (Netflix). Juntos.

 

Brilhante:

Profetas da desgraça

Nos 200 anos do nascimento de Marx, um homem livre não precisa de falsos profetas

João Pereira Coutinho – 8.mai.2018

 

Karl Marx nasceu 200 anos atrás e ainda não morreu. Eis, em resumo, a tese da efeméride. Lemos ensaios, de esquerda ou de direita, e todos parecem convergir nesse ponto: hoje, somos filhos de Marx e a sua análise do sistema capitalista não envelheceu uma ruga.

Respeito a sabedoria alheia. Mas desde já confesso a minha incapacidade para avaliar cientificamente Marx. Essa incapacidade não lida apenas com o fato óbvio de Marx ter servido de inspiração para regimes criminosos. Meu problema com Marx é outro: olho para ele como um profeta, não como um filósofo e muito menos como um cientista.

A culpa não é minha. É de Raymond Aron, que dinamitou a ponte marxista para sempre. Mas, antes de Aron, apareceu Adam Smith com uma observação que nunca entrou na cabeça estreita de Marx: a “sociedade comercial” (expressão de Smith), antes de ser o mais eficaz mecanismo de produção de riqueza que a humanidade já conheceu, começa por ser uma resposta à própria natureza humana.

Existe nos seres humanos uma propensão para “negociar, permutar ou trocar uma coisa por outra” de forma a “melhorarem a sua condição”.

Naturalmente que esse “sistema de liberdade natural” (outra expressão de Smith) pode ser subvertido e corrompido —basta olhar ao redor. Mas os abusos do sistema não provam a iniquidade desse sistema; provam, apenas, a iniquidade de vários agentes do sistema, para os quais devem existir leis gerais e punições exemplares.

Marx nunca entendeu essa necessidade básica da nossa natureza comum. Mas entendeu outra necessidade, provavelmente mais forte: somos seres religiosos por definição. O que significa que o declínio da fé tradicional deve ser compensado por outra fé —ou, como diria Raymond Aron, por uma “religião secular”.

Lemos os textos de Marx e é impossível não vislumbrar na prosa uma espécie de mimetismo teológico da mensagem judaico-cristã.

Primeiro, a condenação de um mundo corrupto, onde o pecado original é substituído pela exploração capitalista sob a forma da mais-valia.

Depois, a certeza milenarista de que esse mundo alienante irá soçobrar sob o peso das suas próprias contradições.

Finalmente, a adoração do proletariado como rosto do messianismo redentor.

O apelo de Marx é religioso, não racional. Com uma vantagem sobre as religiões tradicionais: o paraíso será na Terra, não no distante reino dos céus. Como resistir a essa profecia?

Muitos não resistiram —e Lênin, a partir dos textos sacros, ergueu a primeira igreja. Outras se sucederam —com as suas liturgias, heresias e fogueiras.

Mas a derrota do marxismo não se explica apenas pelos trágicos resultados. Nos países realmente capitalistas, onde Marx antecipava o início da revolução, o proletariado preferiu um papel mais modesto no grande drama da humanidade. Para que destruir o sistema quando era possível se beneficiar dele?

A social-democracia respondeu à pergunta, chamando os trabalhadores para o jogo democrático; ampliando o papel do Estado nas áreas sociais; e redistribuindo a riqueza disponível.

O proletariado de Marx só existiu na imaginação dele. Na realidade, o que existiu foi uma classe de escravos nas “democracias populares” —e uma nova classe burguesa nas democracias liberais.

Aliás, se dúvidas houvesse, bastaria citar outra efeméride do ano corrente. Falo do Maio de 68. Ou, como defende Mitchell Abidor, dos vários maios de 68.

Em artigo para o jornal The New York Times, Abidor relata a sua experiência como autor de uma história oral sobre o período. Entrevistou todos os atores principais: trabalhadores, estudantes, agricultores. E concluiu que todos desejavam coisas diferentes.

Os estudantes, com o mesmo fervor religioso dos marxistas, desejavam a reinvenção do mundo em termos vagos, delirantes, violentos.

Os trabalhadores que Abidor escutou desejavam “o pão e a manteiga”: as coisas tangíveis que permitem a cada um “melhorar a sua condição”.

Como afirma uma das trabalhadoras fabris que o autor entrevistou, era doloroso ver os estudantes a incendiar carros quando o verdadeiro “proletariado” sabia que eram precisas muitas horas de sacrifícios para comprar um.

Nos 200 anos do nascimento de Marx e nos 50 anos do Maio de 68, talvez a conclusão seja a mesma: um homem livre não precisa de falsos profetas. Apenas de lucidez e coragem para enfrentar e reformar o mundo sem esperar o paraíso na Terra.

 

Atenção:

É possível repassar a herança do pai para o cônjuge?

Por Consultório financeiro – 07/05/2018

 

Sou casada com separação de bens e agora meu marido quer passar a parte que ele tem de herança dos pais falecidos para mim (não temos filhos). Porém, no inventário, os herdeiros são ele e mais dois irmãos. Como devemos fazer? Quais são os custos envolvidos?

 

Paulo Marostica, CFP, responde, com a colaboração de Arlindo Marostica:

Cara leitora,

O planejamento financeiro envolve múltiplas nuances, dentre todas, sucessão familiar tem contornos especiais pelos diversos dispositivos legais envolvidos, pelas atualizações jurisprudenciais dos tribunais e principalmente por inúmeras avaliações subjetivas que a cercam. O seu caso certamente não foge a esses contornos.

No seu caso, seu cônjuge poderia dispor de duas formas para transferir a herança dos pais dele para você.

Uma delas, antes da abertura do inventário ou antes da conclusão da partilha. O cônjuge cederia a totalidade dos direitos hereditários, mediante Escritura Pública de Cessão de Direitos Hereditários em favor da leitora. Com a cessão, ainda que seu marido morra, os direitos por ele cedidos estariam assegurados.

Para a plena validade da cessão de direitos hereditários, devemos observar alguns requisitos.

O art. 1.793 do Código Civil relata que, iniciado o processo de inventário, a cessão de direitos hereditários deverá contar com autorização do juiz. Já o art. 1.794 informa que os co-herdeiros detêm o direito de preferência. Isto é, se seu marido pretender doar seus direitos hereditários para a leitora, os dois cunhados, deverão renunciar ao direito de preferência.

Efetuada a cessão, a leitora ficará sub-rogada nos direitos que lhe foram transferidos pelo herdeiro, seu marido, e poderá habilitar-se no processo de inventário, substituindo-o. Estará investida das mesmas prerrogativas até então detidas pelo cedente, seu marido.

A outra opção seria após o encerramento do inventário, sem que ocorra a cessão de direitos hereditários. Nesse caso, os bens herdados passarão a integrar o patrimônio do seu cônjuge.

Se além de não ter filhos o seu marido não possuir ascendentes (pais, avós, bisavós) vivos, ele poderá te doar a totalidade da herança recebida, visto que neste caso a única herdeira necessária é a própria esposa.

Relativo aos tributos, visto tratar-se de transações não onerosas, incidirá o ITCMD, cuja alíquota poderá chegar a até 8%, sobre o valor de cada operação. Em qualquer opção, haverá a dupla incidência de tributos (ITCMD), pois em qualquer delas será verificada uma dupla transferência dos bens.

O valor das custas, a alíquota e as hipóteses de não incidência e isenção do ITCMD deverão ser obtidas junto aos órgãos competentes de cada Estado de situação (localização), no caso de bem imóvel.

Como exemplo, ressalvadas as hipóteses de isenção e não incidência, o estado de Pernambuco adota a alíquota, mínima de 2% para valores de até R$ 200 mil e a alíquota máxima de 8% para valores acima de R$ 400 mil.

Caso concretize qualquer uma das hipóteses acima (cessão de direitos hereditários ou doação), valendo- se da via judicial ou extrajudicial, visto que cada Estado possui tabela própria de custas e alíquota própria de ITCMD, sem informação precisa a respeito da localização de eventuais bens imóveis, quantidade, natureza, espécie e valor dos bens envolvidos, ficamos impossibilitados de estimar o valor dos custos.

Diante das inúmeras possíveis configurações patrimoniais e dos aspectos subjetivos do tema, recomenda-se que a leitora seja assessorada por um profissional de sua confiança.

 

Paulo Marostica é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros E-mail: paulo@paulomarostica.com

As respostas refletem as opiniões do autor, e não do Jornal Valor Econômico ou da Planejar. O Jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para:

consultório financeiro@planejar.org.br

Vale a leitura!

7 dias em Entebbe

A Operação Thunderbolt mostrou que Israel tem capacidade operacional global

Luiz Felipe Pondé – 7.mai.2018

 

Lembro-me bem de que na época em que se falava em primavera árabe, na virada de 2010 pra 2011, um “especialista” escreveu nalgum lugar que Tel Aviv era um resto da Guerra Fria e que, portanto, estava condenada à extinção na era Obama e da primavera árabe.

Afora o fato de que todos os intelectuais que tiveram orgasmos com a falsa primavera árabe deveriam agora escrever artigos dizendo o quão risíveis foram ao escrever à época aqueles textos equivocados, a realidade é que a tal primavera árabe deu no Estado Islâmico, na guerra da Síria, numa ditadura ainda pior no Egito e na destruição da Líbia.

Erraram feio. Não só a primavera árabe foi uma revolução fake como Tel Aviv está mais forte do que nunca, mais rica (um dos maiores lugares para start-ups no mundo), mais bonita, mais viva culturalmente, mais militarmente preparada.

Quanto à Guerra Fria, ela acaba de recomeçar. Rússia, China e EUA estão em claro processo de tensão geopolítica com a escalada agressiva da relação entre indústria militar, inteligência artificial (algoritmos), mídias sociais e espionagem.

Esquecem muitos desses especialistas que “Guerra Fria” foi o nome específico para um fenômeno clássico em geopolítica que é a “paz armada” entre estados em competição por poder político e econômico.

Por que muitos intelectuais erram tanto em entender o mundo? Afora vaidades, muitos de nós sofrem da síndrome hegeliano-marxista de achar que o mundo segue uma ordem. Não. O mundo não está indo pra lugar nenhum.

Falta a muitos de nós a humildade diante da contingência, a imaginação da contingência. E, por isso mesmo, não percebemos que o mundo não tem nenhum sentido em especial em seus processos.

Pensássemos em termos de longas narrativas permeadas por contingências, um pouco como pensava Tolstói (1828-1910) em sua teoria da história, erraríamos menos, talvez.

O filme “7 Dias em Entebbe”, de José Padilha, é muito melhor do que todos esses artigos primaveris sobre o Oriente Médio. Captura como poucos no mundo das artes (quase sempre infantil) o que é um estado de guerra contínuo, entre israelenses e palestinos, permeado por episódios de violência específicos.

Seu foco é o sequestro de um voo da Air France em julho de 1976 por terroristas —ou “guerrilheiros da liberdade”, como se autodenominavam os alemães do Baader-Meinhof, aliados dos terroristas/guerrilheiros palestinos—, e a estratégia de resgate dos reféns pelo exército israelense (Operação Thunderbolt) no aeroporto de Entebbe, em Uganda.

A Operação Thunderbolt foi um divisor de águas. Com ela, Israel mostrou que sua capacidade operacional é global.

O Baader-Meinhof, fundado em 1970, era um resquício dos movimentos terroristas violentos do século 19 europeu, que se arrastaram até os anos 1980. Como todo grupo de esquerda à época, se alimentou dos soviéticos e dos maoístas.

Como bem diz um dos guerrilheiros/terroristas palestinos a Wilfred Böse, colega alemão do Baader-Meinhof e líder do sequestro do avião, ele era um europeu rico perdido numa guerra que faz sentido apenas para judeus e palestinos.

Böse é um protótipo, ainda que mais verdadeiro, dos revolucionários queijos e vinhos de hoje em dia. Era um editor brincando de guerreiro.

Entre as várias qualidades estéticas e narrativas do filme, a apresentação das tensões decorrentes do fato de que os dois lados (israelenses e palestinos) “têm razão” é enriquecida com uma psicologia dos terroristas mais profunda do que se vê comumente. Isso é o que alguns equivocados entendem como defesa dos terroristas.

Israel é um estado moderno dentro de um espaço de relações pré-modernas, tanto econômicas quanto políticas e sociais (os estados árabes). O atraso desse espaço, com o tempo, se despedaçou contra a capacidade ocidental de organização típica do estado israelense.

Israel é um pedaço da Europa no meio do Oriente Médio. Seus governantes não esmagam a sua população, não a bombardeiam e não a matam de fome. É um caso particular de prova de força da democracia e da sociedade de mercado contra regimes autoritários e de economia monotemática.

A cada vez que palestinos fizerem manifestação na fronteira de Gaza com Israel, os israelenses vão atirar para matar. Com mimimi ou sem mimimi.

Guerra não é um debate sobre cinema e intolerância, realizado num espaço de lazer para ocidentais entediados. Israel só sobrevive porque é mais forte. Todo israelense sabe disso.