Assim como o “Fora Temer”:

Insultar Trump é uma forma de onanismo: satisfaz mas não convence

joão pereira coutinho – 19/09/2017

 

Comecei e não acabei o último livro de Hillary Clinton. Razões de saúde. Como aguentar as explicações de Hillary para a sua derrota contidas em “What Happened”?

Verdade que não tinha esperanças: honestidade é palavra que não combina com a senhora. Mas o livro só pode ser produto de uma mente enlouquecida.

Segundo Hillary, a derrota não é culpa sua. É culpa de Barack Obama, James Comey, Bernie Sanders, Vladimir Putin. E ainda dos “deploráveis” de Donald Trump, do machismo reinante, da mídia (palavra de honra: da mídia!). Será que a esquerda americana acredita nessa farsa?

Não acredita e Mark Lilla é a prova viva. Sei que tenho falado muito de Lilla. Inevitável. A grande distinção que existe não é entre esquerda ou direita, ao contrário do que pensam os débeis. É entre inteligência ou falta dela. Lilla é um dos mais brilhantes ensaístas da sua geração. Ser liberal de esquerda é um pormenor.

Mas não em “The Once and Future Liberal: After Identity Politics”. O ano ainda não acabou. Mas arrisco dizer que é o melhor texto político que li em 2017.

Lilla não tem a covardia e a mendacidade de Hillary. Sim, a “nova esquerda” está em crise e insultar Trump (e os “deploráveis”) é uma forma de onanismo: satisfaz, mas não convence. Os problemas da esquerda estão na própria esquerda.

Tese do autor: quando olhamos para o século 20, encontramos dois grandes momentos. O primeiro pertence a Franklin Roosevelt. O segundo a Ronald Reagan.

Roosevelt surgiu no meio do colapso econômico e da ascensão dos fascismos. Que fez ele? Deu um propósito comum aos americanos na luta por igualdade econômica, emancipação civil –e na derrota do totalitarismo.

O “New Deal”, sob diferentes máscaras, prolongou-se até a década de 1970. Quando mostrou os seus limites: despesa incontrolável, carga fiscal idem, burocracia e regulação sufocantes.

Reagan ofereceu a segunda grande narrativa: o governo não era a solução para os problemas do país; o governo era parte do problema. Solução? Libertar a economia americana e a iniciativa individual rumo a uma América rica e confiante.

Perante esse segundo momento, que fizeram os “liberais” de esquerda? Um pouco de história: até a década de 1960, a base do Partido Democrata estava no “proletariado” (para usar a expressão do tio Karl) e nos trabalhadores rurais. Mas a contracultura submergiu essa tradição com seu romantismo libertário.

A principal consequência desse movimento foi a emergência de uma “política de identidade” que derrotou, digamos, a “identidade dual” que sempre definiu os nativos. Por um lado, eles eram americanos; por outro, e em decorrência do primeiro axioma, eles podiam ser o que quisessem (a situação dos negros é um caso à parte, claro).

A “política de identidade” apagou essa dupla dimensão: o indivíduo não é parte do todo. Ele passou a ser separado do todo pelo “narcisismo das pequenas diferenças”. Ele é negro, gay, mulher, índio, anão – e não vai além do seu estreito horizonte. Isso significa que a política, para ele, é um assunto estritamente pessoal (e não republicano, no sentido cívico da palavra).

Essa cartilha foi promovida pelas universidades –e, em especial, pelos antigos alunos românticos da década de 1960, que, frustrados com a “realidade” da década de 1980, regressaram à base na qualidade de professores. E com duas mensagens letais: os partidos não são de confiança (melhor criar “movimentos”) e as únicas causas políticas que valem a pena são aquelas que realizam nossas aspirações identitárias.

Por outras palavras: os liberais “balcanizaram-se” em tribos que não contam para nada. E o Partido Democrata foi arrastado para essa armadilha. Azar. A política, lembra Lilla, não é uma sessão contínua de terapia; é uma luta para conquistar e exercer o poder. Aliás, sem poder, os “direitos das minorias” são conversa de Facebook.

Só que a conquista e o exercício do poder implicam olhar para o mundo que existe “lá fora”: para o “proletariado” e os trabalhadores rurais que não desapareceram com o arco-íris. Como o autor afirma, em imagem brilhante, é um mundo onde o wi-fi não existe, o café é fraco e os jantares não rendem boas fotos no Instagram.

Hillary Clinton perdeu porque ignorou e insultou os problemas e as aspirações desse mundo. Trump venceu pela razão oposta.

Se a “nova esquerda” não aprende a lição com a “velha esquerda”, paz à sua alma.

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A nobreza togada

Com poder de decidir o que é justo, ‘noblesse de robe’ se sente intocável

Luiz Felipe Pondé – 18/09/2017

 

Você não lembra o que é “noblesse de robe”? As aulas sobre o Antigo Regime, anterior à Revolução Francesa de 1789 estão distantes na memória? É importante lembrarmos dessa “classe social” pra entendermos parte do problema da máquina estatal brasileira e de suas estrelas de grande ou pequeno porte.

Vamos traduzir esta expressão: “noblesse de robe” é nobreza togada em português. A diferença, no Antigo Regime francês, é que a “noblesse de robe” se diferenciava da “noblesse d’épée” (nobreza da espada) por ser esta a nobreza de fato, associada à condição guerreira da nobreza histórica, de ascendência sanguínea.

A nobreza togada eram aquelas pessoas de alta função burocrática no sistema, como funcionários jurídicos, administrativos, fiscais, enfim, toda a gama de funções que fazia a máquina do Estado absolutista funcionar. Eram “feitos” nobres por aqueles que de fato eram nobres.

Nobreza togada era uma nobreza “fake”, mas nem por isso menos poderosa, na medida em que detinha nas mãos todo o trânsito burocrático e efetivo do poder do Estado francês de então.

Sabemos o fim da nobreza “da espada” na Revolução Francesa, no primeiro momento. Mas a nobreza sobreviveu, principalmente, a togada -ainda que sem o caráter “nobre”. A máquina burocrática do poder permaneceu, em grande parte, na mão de uma classe togada. Em alguns casos, manteve-se o caráter vitalício do poder -ainda que não hereditário.

A nobreza togada é a alta burocracia do Estado e, principalmente, o Poder Judiciário -dentro deste, juízes e procuradores no topo da carreira. Na máquina cotidiana do poder, esses são os seres mais poderosos do país. Decidem seu futuro com um clique ou uma canetada.

Poder é uma coisa sedutora e, às vezes, invisível. O caráter vitalício de um cargo tende a dar bastante poder a quem o detém, porque essa pessoa fica protegida dos males da contingência da vida dos mortais comuns -conhecida como “mercado”.

A nobreza togada é muito poderosa no mundo contemporâneo. Ela é mais bem representada por grande parte do corpo do Poder Judiciário. O Poder Judiciário é o poder “mais poderoso” do país. E nem precisam ser reeleitos. Não me refiro aos advogados enquanto tal, mas aos cargos judiciários públicos. Advogados estão submetidos à “violência” do mercado. Os cargos judiciários públicos, na maioria da vezes, detêm a única forma legítima de violência no Estado moderno. Logo, seu poder é legítimo e quase inquestionável. O poder de processar alguém ou algo é, no limite do humano, no mundo contemporâneo, como assemelhar-se a Zeus.

Um poder vitalício facilmente produz certos desdobramentos cognitivos (podemos discutir os morais, mas não é o caso aqui).

Quando sua condição no mundo é protegida das vicissitudes e instabilidades do mercado, a tendência é que você acabe por se sentir, de fato, na condição de quem tem o poder absoluto, uma vez que representa a lei na sua força coercitiva, e o que você “pensar sobre aquilo” é lei.

Depois do café da manhã, você decide o destino de pessoas, empresas, famílias, futuros, passados, enfim. Após o almoço, você cria mundos ordenados ou desordenados, “simplesmente” a partir do modo como você lê e aplica a lei. Cria vidas ou as destrói. Faz as pessoas sentirem que a vida delas está, literalmente, nas mãos de alguém.

Diferentemente do policial, a nobreza togada é protegida da gritaria do mundo. Ela decide o que é “justo” e o que é “injusto” e, com isso, num mundo que tende à judicialização de tudo como o nosso, ela faz “o destino do seres”, como as Moiras na tragédia grega.

O poder de decidir vidas entre as refeições dá a você a sensação de ser quase intocável.

Uma certa tranquilidade que quase o eleva acima dos mortais comuns. Quem pode dizer para onde o dinheiro de X deve ir? Quem pode decidir que sua casa não é mais sua? Ou que não verá seu filho? Ou que o que você disse é passível de punição e, quem sabe, criar uma dívida enorme como fruto de uma frase que você colocou numa música ou num livro? Ou arruinar sua reputação num clique?

Ferramenta interessante:

Tesouro Direto terá simulador de investimento e 8 mil vagas em curso

Por Valor – 18/09/2017

 

BRASÍLIA – O Tesouro Nacional começa nesta segunda-feira uma nova campanha de educação financeira do Tesouro Direto, programa que permite a compra e venda de títulos da dívida pela internet, que terá como ferramenta um simulador que vai ajudar o investidor a escolher o ativo mais adequado ao seu perfil.

Em nota, o Tesouro explica que o simulador vai indicar o melhor papel com base em poucas perguntas. Escolhido o título, o investidor poderá fazer dois tipos de simulação. Fixando os aportes mensais para descobrir quanto receberá no fim de um certo período. Ou traçando a meta de quanto gostaria de resgatar em um determinado momento do futuro para saber o valor que precisa aplicar mês a mês até chegar lá.

Além de realizar simulações com depósitos mensais, a ferramenta também permite fazer o cálculo com aporte único ou com uma combinação de aporte inicial e parcelas mensais regulares. A ferramenta estará disponível no site do Tesouro Direto a partir de quinta-feira (21).

O investidor também poderá comparar a projeção de desempenho do título que escolheu com as principais alternativas de aplicação em renda fixa disponíveis no mercado, como poupança, CDB, LCI/LCA e Fundo DI. A simulação traz a rentabilidade bruta e líquida do investimento, já descontados impostos e taxas. O investidor terá a liberdade de personalizar o cenário, alterando os parâmetros e refazendo os cálculos.

Além do simulador, a campanha, batizada de “Transformação pelo Conhecimento”, ofertará 8 mil vagas no curso do Tesouro Direto. Serão 4 mil delas em setembro, com inscrições abertas a partir desta segunda.

Oferecido pela Escola de Administração Fazendária (Esaf), o curso é gratuito, online e é constituído de três módulos – básico, intermediário e avançado. Outras 2 mil vagas em outubro e mais 2 mil em novembro já estão confirmadas.

O estoque do Tesouro Direto saltou de R$ 15,9 bilhões em fevereiro de 2015 para R$ 47,3 bilhões em julho deste ano, enquanto o número de investidores cadastrados mais do que triplicou e hoje supera 1,5 milhão de pessoas.

Pré-desempregados:

Para pré-adolescentes e pré-universitários, só existe a pós-verdade

joão pereira coutinho – 12/09/2017

 

Um amigo contava-me há tempos que tivera uma conversa séria com o filho pré-adolescente. Sobre a internet. Sobre os perigos da internet.

Não, o problema não estava em sites pouco frequentáveis. Estava na informação “inofensiva” de sites igualmente “inofensivos”. O filho acreditava em tudo que lia na tela. Se estava na rede e se alguém tivera o poder de entrar nessa rede, os fatos só podiam ser verdadeiros.

O pai explicou-lhe que não. As falsidades abundam. Era preciso confirmar –uma vez, duas, três– aquilo que lemos. Os livros são mais fiáveis do que a internet, disse ele. E, mesmo na internet, há sites “oficiais” (de organizações, mídia etc.) que não podem ser confundidos com blogs. A maioria, pelo menos.

O filho escutou e não queria acreditar. Nem a Wikipédia era de confiança?

Falamos de um pré-adolescente, repito. Nos pré-universitários, a questão é outra: leio no “Washington Post” que um dos esforços do Newseum de Washington –instituto que defende a liberdade de expressão– tem sido ensinar que nem tudo são “fake news”.

Os pré-universitários cresceram com essa perversa expressão. Moral da história? Se tudo é “fake”, não há nada em que acreditar. Ou, pior, é possível acreditar em qualquer coisa, consoante o gosto e o momento: a verdade não passa de uma quimera.

O filho do meu amigo tinha excesso de credulidade. Os americanos pré-universitários têm excesso de incredulidade. Mas os extremos, como sempre, tocam-se: para pré-adolescentes e pré-universitários, só existe a pós-verdade.

Confesso que o paradoxo não me espanta. Digo mais: a história do conhecimento humano sempre se fez contra o dogma, por um lado, e a falsidade, por outro.

O melhor dos exemplos está em Sócrates, o filósofo da Atenas gloriosa do século 5 a.C.. Acabei de ler uma breve biografia do bicho escrita por Paul Johnson. Sempre gostei de ler Johnson: não tanto pela originalidade do que diz mas, antes, pela originalidade de como diz. Recomendo o seu “Modern Times”, por exemplo, ou “Art: A New History”, que tenho como companhia permanente.

O seu “Socrates” (Viking, 208 págs.) não tem o fôlego das grandes obras. E, sobre a questão arcana de separar o verdadeiro Sócrates da versão que nos chegou via Platão, os estudos de Gregory Vlastos são inultrapassáveis –e Johnson sabe disso.

Mas o historiador ilumina, com a elegância de estilo habitual, que os inimigos de Sócrates são os mesmos que hoje enfrentamos.

De um lado, a opinião estabelecida, o fato inquestionado, o rumor doutoral –sombras de conhecimento que encontramos disseminadas pela internet e que conferem às multidões uma intolerância que não teria espantado o filósofo.

Do outro, o relativismo cognitivo, a descrença na verdade, a conduta amoral de quem pensa que tudo é “construção” e “manipulação” –em suma, a cartilha dos sofistas que enxameavam Atenas, ensinando a retórica e a arte da persuasão a jovens ricos e politicamente ambiciosos.

Perante esses dois inimigos, Sócrates era, nas palavras de Johnson, um “conservador radical” –e não um “radical conservador”, como Platão. Segundo Johnson, uma das formas de distinguir ambos reside precisamente aqui: Platão diz-nos sempre o que pensar; Sócrates indica-nos como pensar.

E, nesse processo dialético, a certeza dogmática ou o niilismo epistemológico são demolidos com ceticismo e ironia. Sócrates acreditava no conhecimento, sim, mas não na arrogância dos presumidos conhecedores.

E hoje? Onde mora a verdade para pré-adolescentes e pré-universitários?

A pergunta deve ser respondida pelas universidades (aquelas que não são centros de doutrinação), pela mídia (aquela que não trocou a independência pela cartilha ideológica) e por qualquer pensador livre (desde que seja realmente livre). Mas o exemplo de Sócrates é uma boa herança.

Difícil? Fato. E Sócrates, convém lembrar, não teve um final feliz: foi condenado à morte por corromper a juventude de Atenas e desrespeitar os deuses da cidade –duas acusações que são a medida da sua grandeza perante o fanatismo dos seus carrascos.

Mas, se ainda hoje lemos o filósofo, é porque a defesa das causas perdidas, no fim de contas, é a defesa das causas vencedoras.

 

Perdendo a noção:

É mais fácil adotar uma ratazana do que um defensor de ratazanas

joão pereira coutinho – 08/09/2017

 

Os defensores dos “direitos” dos animais sempre tiveram um problema: como sentir empatia por criaturas que não fazem parte da nossa paisagem humana?

Vários autores sublinham esse ponto: a empatia que sentimos por um cão, um gato, um porco ou uma galinha não surge por acaso. Empatizamos porque humanizamos. Reconhecemos que o bicho faz parte da família e, para imaginações mais febris, esperamos que ele comece a falar e a dançar sapateado.

Mas como humanizar uma pulga? Um percevejo? Uma mosca? Bem sei que os filmes da Disney têm dado um contributo inestimável para o processo. Mas, aqui entre nós, quem estaria disposto a defender publicamente os direitos das ratazanas -sim, ratazanas infectas e repulsivas?

A essa eu respondo: os parisienses, claro. Leio no “Daily Telegraph” que Paris vive uma das piores crises de rataria das últimas décadas. As ratazanas vieram para a rua. Passeiam impunemente pelas calçadas. Vão tomar café ao “Les Deux Magots” e até discutem filosofia existencialista ao sabor de Gitanes.

Perante essa invasão, as autoridades resolveram agir. Começaram por interditar parques e outros recintos para evitarem a propagação de doenças. E preparam um plano maciço (e caríssimo) de desratização.

Azar. Se as ratazanas são “seres sencientes”, ou seja, capazes de sentir prazer e dor, então nada justifica o “genocídio” em curso. Uso a palavra “genocídio” porque já existe uma petição, com dezenas de milhares de assinaturas, que tenta evitá-lo.

Mais: políticos da cidade juntaram-se ao coro dos indignados e um deles, Jacques Boutault, prefeito do segundo distrito de Paris, formulou a questão que se impunha: “Mas por que motivo temos de matar as ratazanas?”.

Meu querido Jacques, não temos. Para evitar o “genocídio”, basta que os subscritores da petição se ofereçam voluntariamente para adotar duas ou três ratazanas. É só confirmar os nomes, encontrar os endereços -e entregar os roedores para que possam fazer parte da dinâmica familiar. Não é fácil?

Talvez não seja. Mas, acredite, é mais fácil adotar uma ratazana do que um defensor de ratazanas.

 

Interessante:

O digital não é barato

nizan guanaes – 12/09/2017

 

Um amigo inglês levou a filha às compras numa famosa loja de “fast fashion” em Londres. Depois de vasculhar a loja inteira, ela entrou no provador com uma pilha imensa de roupas.

Saiu de lá toda satisfeita, mas disse que não ia comprar nada. O pai só foi entender o que aconteceu mais tarde.

A adolescente tinha tirado selfies vestindo todas as roupas de que gostou e publicado as imagens nas suas redes sociais.

Esperou os comentários das amigas para só então decidir a compra. Aí voltou ao pai para pedir o cartão de crédito.

Entrou no site da marca, que tem música e design como os da loja física que estiveram, e comprou as roupas que queria. A mercadoria chegou num embrulho caprichado que tinha a cara e até o cheiro da loja.

Esse é o mundo em que vivemos. As barreiras entre o on e o off-line foram derrubadas faz tempo do nosso dia a dia.

O planeta já tem 5 bilhões de usuários de celular conectados à internet, dos quais cerca de 2 bilhões compram on-line. Até 2025, todos os habitantes da Terra terão acesso à web.

No Brasil, o número de pessoas que compram on-line cresce cerca de 40% ao ano. Dos conectados à web, 80% pesquisam on-line e compram nas lojas físicas, enquanto 62% experimentam os produtos nas lojas e compram on-line.

Para a pessoa física, portanto, não existe divisão entre mundo digital e mundo off-line, existe apenas o mundo em que elas vivem.

Para muitas pessoas jurídicas, porém, existe mundo digital sim, mas só que é um outro mundo —com exceção daquelas empresas que já nasceram digitais, como Mercado Livre, Dafiti, Spotify, Amazon, Uber…

No Brasil da crise, tendo que trocar turbina com o avião voando, o digital muitas vezes aparece como projeto experimental. Ele se torna uma vontade, quando deve ser uma necessidade da empresa.

O digital é uma cultura que a organização tem que abraçar, mas muitas vezes vira um departamento.

É como dizer que no corpo tem um departamento de oxigênio.

Confinado num departamento, o digital tem dono, orçamento, meta e marketing próprios. E o cara que cuida dele geralmente não gosta dos outros chefes e vice-versa. Isso acaba incitando mais competição do que cooperação.

Com a crise impondo foco mais no tático e no curto prazo, esse dilema fica pior, pois implementar cultura nova e mudar hábitos exigem muito investimento.

O digital é complexo. Ele requer disciplina, integração e recursos. São muitas variáveis e decisões em tempo real. E, se já não há dúvida de que o digital funciona, isso não quer dizer que ele seja barato. É aquela área em que nunca se falou tanto do futuro e se praticou tanto o passado.

Investir no digital não deve ser guiado por corte de custo, pela vontade de baratear.

Se o futuro é digital, ele deve ser investimento ou despesa na empresa? Se o futuro é digital, quanto do seu tempo é gasto nele? Se o futuro é digital, quem está pensando nisso na organização?

A teoria todo o mundo já sabe, é só dar um Google. Mas a prática é diferente. Não há formula universal, tipo “one size fits all”.

A teoria está aí para todos estudarem. É como na saúde: precisamos cuidar do sono e da alimentação; fazer esporte; moderar o álcool; não fumar; usar protetor solar; largar o celular… Não é o segredo de Fátima. Mas poucos assimilam, praticam e saem à frente.

Vamos cuidar do digital com mais dedicação e dar a ele o seu devido valor. Ele não só já está presente como é também a chave para o futuro.

Leitura imprescindível:

Existe uma cultura do estupro?

hélio schwartsman – 05/09/2017

 

É indiscutível que impera no Brasil uma cultura ainda bastante machista, mas daí a falar numa cultura do estupro, como vem fazendo muita gente que respeito intelectualmente, me parece um passo indevido. Ao contrário, acho que o estupro é um dos crimes que as pessoas mais repudiam e se comprazem em punir.

O melhor exemplo disso foi dado pelo grande Drauzio Varella em sua coluna de sábado (2): nas cadeias, estupradores precisam ser mantidos isolados da população carcerária geral, caso contrário são trucidados com requintes de crueldade. Ora, se até nos presídios, onde vige uma moral permissiva em relação a um amplo rol de delitos, o estupro é visto como algo imperdoável, a situação não pode ser muito diferente nos segmentos sociais que abraçam éticas mais kantianas.

A ampla repercussão que casos como o da ejaculação no ônibus ganham na mídia e nas redes sociais e a viva indignação que geram são mais um indício de que a condenação moral do estupro e de outros delitos de cunho sexual é robusta e só aumenta.

Já as pesquisas de opinião que revelariam a tal da cultura do estupro costumam abusar de frases ambíguas como “a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada”, que podem ser interpretadas tanto em termos probabilísticos —mulher que usa trajes sumários tem mais chance de sofrer violência sexual— como em termos morais —vestindo-se desse jeito, bem feito se ela foi estuprada. É preciso cautela na hora de avaliar os resultados dessas sondagens.

A história de como diferentes sociedades trataram mulheres e minorias ao longo dos séculos não é algo que enalteça o gênero humano. Mesmo assim, é preciso reconhecer que, da segunda metade do século 20 para cá, ao menos no Ocidente houve genuíno progresso moral. Abusos contra esses grupos são cada vez menos tolerados.