Precioso

Preconceito incolor

Por José de Souza Martins – 28/07/2017

 

Preconceito não é apenas, nem principalmente, o de raça, o de orientação sexual ou o de classe social. O elenco dos preconceitos é extenso. Temos preconceito contra gordos, contra carecas, contra feios, contra gagos, contra intelectuais, contra os que cheiram diferente do que requer o nariz social e politicamente dominante. Tem-se difundido até o preconceito ideológico e partidário, uma variante do fascismo. Coisa de marxistas que não leram Marx. Com mais clareza sobre o irracional do preconceito, poderíamos educar nossos filhos e alunos para o belo da pluralidade da condição humana. A perspectiva da vítima é educativa.

Sou especialista: já fui vítima de preconceito de aparência, de preconceito de origem e também de preconceito de identidade. Tão deploráveis quanto os vividos ou denunciados pelos geralmente incorretos defensores do politicamente correto.

Lá pelos fins do ano de 1990, eu estava num shopping quando um jovem de seus 20 e poucos anos começou a gritar “Olha o PC Farias!”. Apontava o dedo para mim e ria, debochado. Rapidamente se formou ao meu redor um grupo de pessoas carrancudas. Percebi que corria risco. Com a tranquilidade possível, fui chegando perto do sujeito e, sorrindo, segurei-lhe firme o braço.

  • Como foi que você me reconheceu?
  • Tô brincando, cara – defendeu-se.
  • Não está, não. Sou eu mesmo! Você me achou! Você sabe que eu morri, não sabe? E que fui para o inferno? Nesta manhã, Satanás foi até o caldeirão de azeite fervente em que pago minhas penas e fez-me uma proposta. Eu voltaria para o Brasil e levaria de volta pra ele, lá nas profundezas, a primeira pessoa que me reconhecesse. É você o tal. A propina para que eu reduza meu sofrimento. Está pronto para ir?
  • Ah, cara! Deixa pra lá. É só uma brincadeira.
  • Não, não é uma brincadeira. Você pôs minha vida em perigo e pôs em perigo sua própria vida. Você não sabe quem eu sou. Eu poderia ser um desses que andam por aí armados. Nesta altura, você poderia estar caído aí no chão, acidentado.

Sem desculpar-se, o sujeito se foi, com o rabo entre as pernas.

Noutra ocasião, no aeroporto de Fiumicino, em Roma, sofri uma das várias discriminações pelas quais passei em aeroportos internacionais. Minha bagagem é sempre uma pequena valisa e uma bolsa em que levo livros, um caderno de anotações, lápis e caneta e alguns itens de urgência, como os remédios de uso diário. Ao passar pelo sinal verde do “Nada a declarar”, um dos funcionários pôs os olhos em mim e quando cheguei perto dele, mandou-me parar:

  • Turkish? Turkish? – perguntava em voz bem alta. E mandou-me colocar a valisa e a bolsa sobre a bancada. Expliquei-lhe em italiano fluente que eu não era “turkish”; era “brasilianish”. E mostrei-lhe o passaporte. Ele, então me dispensou.
  • Dispensa que recusei. Ele insistiu na dispensa. Eu insisti na recusa e continuei, abrindo as malas:

Respeito as leis de seu país, como quero que respeitem as do meu. Essa é sua função. Por favor, reviste a mala e a bolsa. Quero sair daqui com a consciência tranquila de que tranquilizei a sua.

Pela mãe, descendente de espanhóis de Andaluzia, da rica cultura moçárabe do antigo emirado afroibérico de Al-Andalus, descobri nas muitas vezes em que fui barrado na Europa, e mesmo na Espanha, que tenho cara de árabe. Árabes já me tomaram por árabe, até em avião… Lamento não conhecer-lhes a língua e a bela cultura que em tempos idos formou nosso modo brasileiro de ser. Ainda falamos palavras de sua língua: álgebra, almotolia, algarismo, algibeira, a gibêra dos caipiras de São Paulo, Minas, Goiás.

Por uma forma inversa de preconceito passei no Rio de Janeiro no fim dos anos 1980. Fazia uma pesquisa sobre a Revolução de 1924, em São Paulo. Após ler milhares de páginas do Inquérito Policial Militar, estendi a pesquisa ao Arquivo Histórico do Exército. Escrevi para lá e recebi resposta de um coronel. Dizia-me ser o arquivo aberto à consulta. Tomei um avião no dia seguinte e no meio da manhã já estava no imenso prédio do antigo Ministério da Guerra, perto da Central do Brasil.

Identificado, mandaram-me tomar o elevador para o sexto andar. Havia uma dezena de elevadores. O primeiro era para generais, depois para coronéis e assim escala abaixo até cabos e soldados. Dispensado do serviço militar, vi que ali não havia elevador para um civil como eu. Vendo-me indeciso, um oficial todo engalanado, veio até mim e perguntou-me o que eu queria. Expliquei-lhe.

  • O que você faz?
  • Sou professor na Universidade de São Paulo.

Ah, professor! Seu elevador é este aqui. – E embarcou-me no elevador dos generais. Compreendi, assim, que quem vê a cara não vê o galardão. Em minutos, fora promovido a general de elevador.

José de Souza Martins é sociólogo. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de Linchamentos A Justiça Popular no Brasil (Contexto). Escreve neste espaço semanalmente

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