Vale a leitura

Coração da teologia semita é relação entre mal, perdão e misericórdia

luiz felipe pondé – 19/06/2017

 

Basta de política, pelo menos por um breve momento.

Busco refúgio em algo superior, talvez mesmo improvável, busco refúgio hoje na teologia, essa minha paixão secreta. Pobre teologia, traída pelos seus.

Já chegamos ao dia em que Deus será sustentado por ateus, já que a maioria dos teólogos se entregaram à política, tentando justificar sua pobre louca da casa (a teologia) na ética e na justiça, esquecendo-se de que o coração da teologia semita é a misteriosa relação entre mal e misericórdia.

A teologia semita é aquela do patriarca Abraão, que reúne judaísmo, cristianismo e islamismo, três religiões irmãs.

A teologia mais barata é a pastoral, cada vez mais uma subdisciplina do marketing, mesmo quando aplicada aos “menos favorecidos”. Nesse caso, torna-se irmã caçula do populismo.

Minha paixão secreta é pela teologia que fala ao fundo de nosso coração, ali onde batem todos os erros que cometemos ao longo da vida, como na confissão de medo de Fiódor Karamázov, o pai terrível dos irmãos Karamázov, de Dostoiévski.

Erros que muitas vezes destroem nossa vida e que, ao mesmo tempo, revelam o sofisticado encanto do perdão e da misericórdia, que brotam em nós da mesma raiz de nossa agonia, o mal. Encanto este que nos une às outras pessoas. Testemunhas, algozes e vítimas de nosso próprio enredo.

O fundo do coração, ali onde o “acaso é feito à nossa semelhança”. Onde conhecemos nossa “paixão desinteressada pela mentira”.

Essas são frases de Georges Bernanos (1888-1948), escritor francês conhecido como “le Dostoiévski français”. Autores como ele, Dostoiévski e Lev Tolstói fazem melhor teologia do que muitos teólogos profissionais.

Frases como essas descrevem um dos núcleos da obra de Bernanos: a ideia de que existe em nós uma “mística inversa” (termo usado por Guillaume Louet e Sarah Lacoste no prefácio da edição conjunta de dois romances do escritor, “Un Crime” e “Un Mauvais Rêve”, pela editora Le Castor Astral de 2016). Este último, “Um Sonho Ruim”, foi traduzido no Brasil pela editora É Realizações.

Essa “mística inversa”, presente em personagens como a famosa Mouchette (a “Mosquinha”), representa a hipótese de Bernanos segundo a qual existe em nós uma dolorida perversão profunda que no fundo do nosso coração nos abre a fonte da mais profunda mística da misericórdia.

Sob efeito do “sol de Satã” que derrete suas almas, essa “mística inversa” só nos é acessível se rompemos com o pietismo barato segundo o qual não há mal em nós, mas apenas nas estruturas do mundo que nos fazem ser mal.

Em Bernanos,”sofremos” o mal assim como “sofremos” a misericórdia. Somos seres visitados, e, nisso, nosso francês soa mesmo russo.

Na teologia russa, o homem é um ser visitado pelo sobrenatural, nas suas dimensões doce e sombria.

Em Bernanos, o sobrenatural caminha entre as pedras, como galinhas, cães e gatos. Escutamos seus passos à noite. Arquétipos de bem e mal que se relevam inseparáveis. Não há como amar alguém sem ver nele o mal. O mal nos leva às lágrimas.

Essa aparente contradição está presente no coração de livros bíblicos como os “Salmos” do rei Davi, onde vemos como o coração justo aquele mesmo torturado pelo mal.

A teologia semita nunca foi uma teologia do bem. Equívoco clássico da vaidade dos especialistas.

Ela sempre foi uma teologia em que a rota para a relação com Deus passa pelo reconhecimento do vazio em nós. Só o grito do miserável é ouvido por Deus. O hebraísmo antigo é uma teologia da santidade e todo santo é um especialista no mal.

Essa fina antropologia teológica também pode ser vista nas figuras bíblicas pintadas por El Greco (1541-1614): personagens que parecem surgir do fogo, arder nele e serem consumidos por ele.

Não há como separar miséria e amor na teologia semita.

Se nos é possível traçar uma “causa” do amor de Deus pela humanidade, ela é, justamente, essa nossa “paixão desinteressada pela mentira”, essa nossa vocação à desordem que tanto encanta a Deus.

Fôssemos nós amantes da verdade, Deus seria um indiferente.

 

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