Contra o fetiche da revolução:

O conservadorismo tenta preservar o válido com instrumentos tangíveis

joão pereira coutinho – 30/05/2017

 

“Era uma vez…” faz parte das histórias infantis. Mas o que acontece em política quando essa nostalgia de infância sequestra os melhores espíritos?

Esse é o tema do mais importante livro que li até ao momento neste ano. Foi escrito por Mark Lilla e o título é “The Shipwrecked Mind”, qualquer coisa como “a mente naufragada”.

Mark Lilla é, como dizem os portugueses, “muito lá de casa”. O seu “The Reckless Mind”, nunca editado no Brasil, é uma análise brilhante sobre o namoro grotesco dos intelectuais com o totalitarismo.

O seu “The Stillborn God”, igualmente por editar, é um dos melhores tratados recentes sobre “a grande separação”: a forma como política e religião disseram adeus nos alvores da modernidade, permitindo a emergência do Estado secular moderno (e democrático).

E os ensaios de Lilla no “The New York Review of Books” são provavelmente a principal razão por que continuo a ler o jornal.

Mas “The Shipwrecked Mind” é um livro superior, apesar de breve, porque oferece uma chave de leitura sofisticada para entender o pensamento reacionário.

Escreve Lilla que o pensamento revolucionário sempre teve os seus exegetas. Mas a “reação” sempre foi desprezada pelos eruditos.

Um erro. O apelo do “era uma vez…” é hoje mais forte do que nunca. Não apenas porque encontramos várias expressões reacionárias na política moderna -do islã à Europa, sem esquecer os Estados Unidos- mas porque existe uma superioridade teórica da reação sobre a revolução. O revolucionário pode desiludir as esperanças dos crentes. O reacionário, nunca. A nostalgia, escreve Lilla, é irrefutável.

Eis a essência do pensamento reacionário: a crença de que exista um passado -próximo ou distante, pouco importa- em que as misérias do presente (pobreza, insegurança, competição etc.) não existiam.

Isso é válido para políticos como Donald Trump ou Marine Le Pen; mas a grande originalidade de Lilla está em mostrar como a nostalgia do “era uma vez…” formou e deformou vários pensadores “conservadores”. Nomes grandes, como Leo Strauss, ou bem pequenos, como Éric Zemmour, sempre procuraram no passado o paraíso perdido -e, no presente, o paraíso reencontrado.

Todos eles comungam essa “mente naufragada”: a consciência aguda de que, algures na história, o reto caminho se perdeu. Radicalmente nostálgicos, eles são incapazes de pensar a modernidade, exceto para a condenar. Como Dom Quixote, eles lutam perpetuamente contra “a natureza do tempo”.

Citei Dom Quixote porque as melhores páginas do livro pertencem a ele. O Cavaleiro da Triste Figura é o reacionário “par excellence”: enlouquecido pelos romances de cavalaria, ele veste a armadura e empunha as armas porque não compreende que o passado é passado.

Dom Quixote é um homem sem ironia. Porque só a ironia -“a armadura dos lúcidos”, na feliz expressão de Lilla- permite aos homens acomodar o abismo entre o real e o ideal; entre o que existe e o que deveria existir.

Nos últimos meses, tenho recebido vários e-mails de indignação e repulsa. Motivo? Minhas condenações de Trump ou Le Pen. Como é possível, perguntam os meus ex-leitores, ser conservador e não tolerar essas duas tristes figuras?

Alguns, com ironia, exigem a devolução do dinheiro que pagaram pelo meu livro “As Ideias Conservadoras”. Curiosamente, nenhum deles leu o subtítulo: “Explicadas a Revolucionários e Reacionários”.

Não há nada de conservador em Trump ou Le Pen. Ambos são exemplos vivos da “mente naufragada”. Ambos defendem um passado -de proteção econômica, fechamento nacional e isolamento internacional- que nunca existiu como modelo de perfeição.

São reacionários porque incapazes de pensar os problemas do presente sem recorrer ao “era uma vez…” que é típico de crianças, não de adultos.

O conservadorismo é uma ideologia de imperfeição humana, não de arrogância epistemológica. É uma ideologia que procura preservar o que é válido no presente recorrendo aos instrumentos tangíveis desse presente -e não a fantasias sobre o passado.

Perdi leitores, mas é provável que alguns tenham ficado no barco. Bem-vindos. Até porque a “mente naufragada” está, ela própria, condenada ao naufrágio.

 

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