A realidade prevalece:

Intelectuais de esquerda perdem influência

Por Michael Stothard – 20/04/2017

 

Tomando um café no Le Rouge Limé, no centro de Paris, Michaël Foessel, professor de filosofia da École Polytechnique, lembra o tempo quando intelectuais de esquerda realmente importavam.

Ficou no passado, disse, o tempo em que Pierre Bourdieu podia liderar greves dos ferroviários, em que Michel Foucault debatia a reforma das prisões ou Emile Zola fazia um apelo à Justiça durante o caso Dreyfus (escândalo político do fim do século XIX).

“Não somos mais os líderes intelectuais deste país”, disse o professor, de 42 anos. “Na mídia são as vozes conservadores que têm um grande impacto. Na política, são os tecnocratas.”

As eleições deste ano na França foram marcadas pela ascensão da líder populista de extrema direita Marine Le Pen, que, por meio de uma mistura de nativismo e nacionalismo econômico, deu voz a boa parte da classe trabalhadora marginalizada, antes representada pela esquerda.

Após cinco anos do impopular governo socialista do presidente François Hollande, Benoît Hamon, o candidato do partido, deve ficar em quinto lugar neste domingo, segundo as pesquisas. Durante a campanha, o debate se concentrou em questões conservadoras: identidade e segurança.

O exame de consciência dos intelectuais de esquerda, como o professor Foessel, espelha o mesmo processo das elites liberais no Ocidente, que tentam entender a onda populista que levou Donald Trump à vitória, na eleição presidencial nos EUA, e ao Brexit.

Mas essa reflexão é mais aguda na França, onde intelectuais progressistas, desde Jean-Jacques Rousseau no século XVIII, têm sido autoridades morais com influência sobre a sociedade e políticos.

Quando Jean-Paul Sartre foi preso por desobediência civil, durante os tumultos de maio de 1968, o presidente Charles de Gaulle o perdoou, dizendo: “Você não prende Voltaire.”

Mesmo no século XXI, os presidentes têm se aconselhado com os intelectuais. O filósofo Bernard Henri-Lévy esteve envolvido na decisão da França para enviar tropas à Líbia, em 2011. Ele fez lobby junto ao seu amigo, o então presidente Nicolas Sarkozy, para intervir.

“Há uma longa tradição de poder e influência da esquerda intelectual na França”, disse o escritor Sudhir Hazareesingh. “Mas a sua influência vem diminuindo nos últimos anos.”

A França se moveu para a direita, acrescentou, com os eleitores mais preocupados com a imigração e a identidade nacional.

São os intelectuais de direita, como Alain Finkielkraut, que dominam o cenário midiático, argumentando que a França está sendo esmagada pelos islamistas em nome da tolerância e do liberalismo.

Marc Crépon, diretor do curso de filosofia da Ecole Normale Supérieure, diz que a esquerda tem fracassado em responder as questões de identidade e imigração. Pensadores como Zola, Jacques Derrida, Albert Camus e Sartre eram líderes morais que defendiam os pobres e os fracos, disse. “A esquerda precisa reencontrar sua voz e seu poder”.

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