50 tons de povo

A periferia e o PT

Por José de Souza Martins – 20/04/2017

 

A Fundação Perseu Abramo, instituição de estudos do Partido dos Trabalhadores, acaba de divulgar os resultados de uma pesquisa qualitativa sobre as mudanças de mentalidade social e política na periferia de São Paulo que levaram à decadência da mítica do partido e à sua derrota nas últimas eleições.

A pesquisa reflete o binarismo ideológico do PT e, no geral, do impolítico partidarismo brasileiro. Basicamente, a análise propõe que, no apogeu do petismo, a população da periferia era orientada por horizontes “associativistas e comunitaristas”. Com a expansão e o avanço do ciclo econômico, “novos valores (…) foram gestados entre as camadas populares, que passaram a se identificar mais com a ideologia liberal que sobrevaloriza o mercado”.

Com “descenso e retração do ciclo econômico essa camada da população passou a reagir informada (…) mais por diretrizes marcadas pelo individualismo e pela lógica da competição, com uma tônica acentuada do mérito nos discursos”. Esse dualismo metodológico e seu materialismo pobre facilitaram a conclusão de que a periferia acabou se identificando com o neopentecostalismo.

A análise se baseia num retrocesso teórico à polarização comunidade e sociedade, que já passou pela crítica teórica e por densas reelaborações na sociologia brasileira.

O processo de desagregação da sociabilidade comunitária, entre nós, é antigo e lento de mais de meio século. A periferia tem sido a região urbana de assentamento de migrantes originários do campo e socializados no mundo dos valores vicinais e comunitários da roça. Com o desaparecimento das relações tradicionais de trabalho, como a do colonato das fazendas de café e a dos moradores das fazendas de cana-de-açúcar, a migração trouxe para a periferia da capital essas populações residuais de uma sociabilidade em declínio. Perderam as referências culturais que tinham sem que a cidade lhes tivesse oferecido novas referências societárias e propriamente urbanas. Isso começou muito antes da irresistível ascensão do PT ao poder e da implantação de sua política social limitada e limitante.

Nada houve de idílico e comunitário nos bairros da periferia. Ao contrário, esses bairros se caracterizam, desde há muito, pela criminalidade alta e por extrema violência. Há neles uma significativa ocorrência de linchamentos, sobretudo como modalidade de justiçamento da precária beira de cidade que os acolhe. É o mundo em que não obstante a subsistente cultura da vizinhança, os vizinhos já não se conhecem nem se ajudam. É em nome da mentalidade tradicional que a violência do justiçamento se instaura, expressão da marginalidade social urbana, o que indevidamente foi e vem sendo definido como exclusão social. Na verdade, inclusão excludente no peneiramento cruel da ascensão social de alguns e marginalização de outros.

O que a pesquisa do PT define como associativismo e comunitarismo está na concepção ideológica que as pastorais sociais da Igreja Católica aplicam ao mundo restrito das comunidades eclesiais de base, que tiveram grande importância na gestação das bases do PT. Mas essa era a realidade muito limitada da paróquia e das CEBs, cuja animação dependia daqueles padres que esperavam encontrar no Brasil uma realidade propícia à renovação da igreja. Essa base declinou a partir da ascensão de Karol Wojtyla ao trono de São Pedro. Sua oposição à Teologia da Libertação levou-o a nomear bispos não identificados com essa orientação ideológica e a redefinir a orientação geral do catolicismo no Brasil.

A igreja optou pelo reforço de sua orientação eclesial e tratou de banir os desvios político-partidários dos chamados leigos engajados. Em face dos abusos evidentes, os bispos passaram a recusar a promiscuidade da religião com a política. Com a crise do mensalão, que atingiu política e moralmente o governo Lula e o petismo, os agentes de ligação do governo com a igreja, responsáveis pela estruturação de programas como o Bolsa Família, abandonaram seus postos em 2004. Ruiu a estrutura do comunitarismo ideológico.

A pesquisa do PT reflete o derretimento desse véu de ocultação, o da mera racionalização que cegara os militantes. Por fatores outros, a influência cultural e ideológica das igrejas neopentecostais, que já vinha de longe, deu-se a ver. A evangélica teologia da prosperidade desafiou com êxito a bela e católica teologia da opção preferencial pelos pobres.

Não foi o mercado que venceu a comunidade, mas a comunidade que consumou sua adesão incondicional à sociedade de consumo, o que já vinha acontecendo desde muito antes dos governos petistas. O consumismo levou as camadas populares para a religiosidade de resultados, bem longe do PT.

 

José de Souza Martins é sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras e autor de A Sociologia como Aventura (Contexto), dentre outros. Escreve neste espaço semanalmente

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