Monopólio da feiura

A guerra das paredes

Por José de Souza Martins – 03/03/2017

 

A guerra do prefeito contra os grafiteiros da cidade de São Paulo esconde neles um erro de compreensão do que é a metrópole e a pluralidade que lhe é própria e necessária, de mentalidade, de modo de vê-la, de amá-la e de querer ser parte dela. O grafite é expressão dessa diversidade, mas também de uma busca. Os grafiteiros não são inimigos da cidade. Nossos grafiteiros são inspiradores de arte em outros países. Se há pinturas sofríveis, de principiantes, há obras de pintores talentosos, de grande expressão. A cidade ganha com elas. O grafite abriu galerias de arte em ruas não contempladas pela cultura oficial e pela arte de museus.

Há fatores sociais e de criatividade na arte de rua. Em São Paulo, onde estão os mais ativos grafiteiros do país, a grafitagem foi claramente reação de embelezamento de uma cidade de paredes e muros sujos e abandonados pelos especuladores imobiliários e pela administração pública. Nas paredes e pilares de sustentação do pavoroso Minhocão, que violentou a avenida São João, quando era uma das mais belas ruas da cidade, grafiteiros têm pintado obras de arte que subverteram aquela feiura toda. Em outras grandes cidades o fenômeno se repete. É uma pena que as prefeituras não cuidem de resgatar essas obras, fotografando-as com cuidado para publicá-las e preservá-las. São Paulo comporta e pede um museu do grafite e um prêmio oficial para grafiteiros.

O prefeito de São Paulo não inova na barbárie de mutilar a arte de rua. Teve um antecessor. Em 2006, o artista plástico Alexandre Orion, grafiteiro criativo, autor de livros em que reproduz sua arte de rua, descobriu que as paredes do túnel da rua Augusta estavam cobertas de espessa fuligem do escapamento dos carros. Em várias madrugadas descascou a camada oleosa e negra, compondo imensas caveiras com a película sobrante na parede. Era uma obra lindíssima. Queria mostrar não só o belo da metamorfose da feiura, mas o que gruda no pulmão de cada um. Era um chamado artístico à consciência dos problemas criados pela poluição ambiental.

Um dos melhores artistas gráficos do país, mestre do grafitismo em preto e branco, teve sua obra destruída: um grupo de guardas civis metropolitanos, policiais militares e empregados da limpeza pública, durante a noite, com jatos de água, borrou toda a obra do artista. Pura repressão para mostrar quem manda. A arte de rua das cidades deveria ficar sujeita às Secretarias de Cultura e não à polícia e aos Serviços de Limpeza Pública. A faxina tem que ser feita na ignorância e não no saber e na criatividade.

Há outro campo, porém, que não deve ser confundido com o da arte de rua. É o das pichações, intencionalmente enigmáticas. Rabiscos para significar o não dito. O garrancho meramente soluçado. Há nelas um desafio aos educadores, pois contêm a linguagem oculta de um duplo dizer que nas salas de aula mina o ensino e a palavra de quem ensina. É um dizer de quem não sabe ouvir. É evidente que pichação de obras de arte e obras públicas, monumentos e edifícios, emporcalha a cidade, aquilo que é visualmente de todos, marcos da memória e da nossa identidade coletiva.

As pichações são o oposto do grafite. São escritos de ameaça. Há nelas a palavra do que não importa, dos que querem falar, mas não sabem o que dizer, frases de poderio e não de partilha. Há competição pelas paredes mais altas, mais perigosas.

Disputas quiméricas, não disputas reais, construtivas. Coisa de gente que não quer compartilhar a cidade, quer conquistá-la sem ganhá-la.

São os silenciados por uma sociedade que não os educou para a competência da expressão, para a função comunicativa e civilizadora da fala com sentido. E continua não educando. O sociólogo e filósofo francês Henri Lefebvre, um dos maiores estudiosos das cidades, distingue os que usam a cidade dos que a consomem. Os grafiteiros fazem parte do primeiro grupo porque usam as paredes abandonadas, cinzentas, pobres e lhes dão a vida das cores e das imagens. Muitas dessas obras poderiam estar em museus. Constroem a cara da cidade da modernidade.

Os pichadores fazem parte do segundo grupo porque, aparentemente, quase sempre nada expressam, falam para si mesmos, competem com seus iguais na afirmação do poder de degradação urbana, usurpam o que é de todos, empobrecem o que é próprio da civilização para afirmar o que é próprio da barbárie. A pichação de cor cinza é expressão da mesma barbárie que empobrece a cidade. O que se pede aí é a ação da Secretaria da Educação. Educação não é só na sala de aula. No mundo de hoje, a escola está também na rua, na parede. Pichadores, no fundo, querem aprender. Disputam exclusivamente para si o que é de todos, deles também.

 

José de Souza Martins é sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras e autor de A Sociologia como Aventura (Contexto), dentre outros. Escreve neste espaço semanalmente

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