Profetas da era digital

Manifesto de Mark Zuckerberg é um documento megalômano e autoritário

joão pereira coutinho – 21/02/2017

 

Acabei de ler o manifesto que Mark Zuckerberg escreveu sobre o futuro da humanidade. Ri muito. Mas depois, quando cheguei ao fim, uma pergunta severa instalou-se no meu crânio: Zuckerberg é um humorista ou ele acredita mesmo em cada palavra?

Se estamos na presença de um humorista, podemos incluir Zuckerberg na grande tradição dos utopistas satíricos. Você sabe: gente profundamente descontente com a realidade em volta e que usa a literatura para divertir ou moralizar.

O problema é que eu desconfio que Zuckerberg fala a sério porque “sentido de humor” é algo que não casa com o personagem.

Resumidamente, o manifesto deseja construir um futuro perfeito. E que futuro é esse? Fácil: um futuro sem pobreza, sem guerra, sem angústia, sem solidão. E como atingir esse futuro? Fácil também: mobilizando os bilhões de seres humanos que usam o Facebook.

As minhas gargalhadas começaram logo no princípio: “Estamos a construir o mundo que todos queremos?”, pergunta o profeta Mark. Não, meu filho, não estamos. Cada um constrói o mundo que entende porque a ideia de um propósito comum só existe na cabeça de um fanático. Pior: de um fanático que acredita falar em nome de “todos”.

Em teoria, um mundo sem pobreza, sem guerra, sem angústia e sem solidão pode ter os seus encantos. De preferência, se for proposto por uma candidata a Miss Universo com biquíni a condizer.

Mas imaginar o sr. Zuckerberg em tais preparos, para além de esteticamente arrepiante, é politicamente aberrante: aquilo que define a espécie humana é a diversidade de interpretações e soluções sobre qualquer assunto social.

Sim, a pobreza é um infortúnio. Mas saber como combatê-la –redistribuindo a renda? Criando livremente? E de que forma?– é matéria de discussão pluralista e secular. O mesmo vale para a guerra (há guerras criminosas? Há guerras necessárias?), para a angústia (o que seria da grande arte sem esse demônio interior?) ou para a solidão (há momentos em que o inferno podem ser os outros, parafraseando o filósofo).

Mas os delírios de Zuckerberg continuam. Escreve ele que o futuro pertence aos “grupos significativos” (grupos de gente que partilham as mesmas felicidades ou infelicidades).

Um exemplo: se eu tenho uma doença específica, posso encontrar a minha turma específica. O futuro de Zuckerberg é feito de centenas, milhares de guetos virtuais. Como as leprosarias da antiguidade ou os sanatórios para tuberculosos.

De resto, Zuckerberg acredita que a inteligência artificial poderá um dia salvar os seres humanos deles próprios. Se eu consumo fotos ou vídeos onde o suicídio tem papel principal, será possível “identificar” os meus comportamentos “desviantes” e impedir o ato funesto. Impedir como?

Zuckerberg não diz. Imagino que haverá intervenção do exército: o jovem estudante de sociologia, que faz tese de doutorado sobre “O Suicídio” de Durkheim, terá a porta arrombada pelos militares e será caridosamente enfiado numa camisa de força.

Para muitos pensadores, o suicídio é o último ato de liberdade –ou, como dizia Cioran, é precisamente pela certeza de que existe sempre uma saída para a existência terrena que nos podemos comprometer com a vida. No mundo de Zuckerberg, nem a mais íntima das escolhas humanas estará a salvo.

Finalmente, o óbvio: com o Facebook, eleitores e eleitos estarão mais próximos do que nunca, escutando-se mutuamente. Tradução: se “a tirania da maioria” aprovar atos de barbaridade, o político, para ser eleito, defenderá atos de barbaridade.

Os mecanismos de mediação que as democracias liberais sempre defenderam (tribunais, parlamentos etc.) devem ser derrotados em nome da “vontade geral”, essa categoria sinistra que Rousseau legou aos seus discípulos.

Para sermos justos, nada do que escreve Zuckerberg é novidade. Ele apenas repete as falácias típicas do pensamento globalista: os problemas globais só podem ser enfrentados por uma espécie de “comunidade global” –um eufemismo para “governo global”.

Fatalmente, não passa pela cabeça de Zuckerberg que é precisamente esse globalismo supranacional e transnacional que produz a reação populista (e nacionalista) atualmente em cartaz.

O manifesto de Mark Zuckerberg é um documento megalômano e autoritário escrito com a tinta ilusória das boas intenções. Se adolescentes assim não têm noção do ridículo, o mundo já será um pouco melhor se os adultos não perderem o deles.

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