Questão de família

Briga de família abala perspectivas da trading de commodities Louis Dreyfus

Sarah McFarlane, Katherine Dunn e Maarten van Tartwijk

Uma batalha entre a família que controla a Louis Dreyfus, uma das maiores comercializadoras de commodities agrícolas do mundo, e a presidente do conselho, Margarita Louis-Dreyfus, foi parar nos tribunais.

Insatisfeito com a administração da viúva de Robert Louis-Dreyfus, principal acionista da empresa que morreu em 2009, vários membros da família querem reduzir sua participação na firma, de 20% para cerca de 3%, segundo pessoas a par do assunto e documentos de um fundo fiduciário que supervisiona a fatia familiar.

A saída dos Dreyfus da gigante de commodities foi interrompida por um desacordo técnico sobre a forma de avaliar a empresa, segundo documentos apresentados em um tribunal holandês relativos a uma audiência realizada em 21 de junho.

A disputa ocorre num momento crucial para a Louis Dreyfus, que negocia até 10% da produção agrícola mundial, segundo a Harvard Business School. As commodities estão em queda desde 2011, e anos de brigas de família e troca de executivos afetaram a empresa, que agora tenta encontrar um rumo, segundo pessoas a par do assunto. Em resposta a perguntas enviadas por e-mail, a empresa afirmou que seus sócios estão “totalmente confortáveis com as relações entre os acionistas e nossos negócios não foram afetados”. A viúva não quis comentar as relações com a família.

Fundada na França em 1851, as operações da empresa hoje abrangem mais de 100 países e vão de laranjais a navios de carga, refinarias de açúcar e terminais portuários no Brasil.

Em 2006, Robert Louis-Dreyfus assumiu o comando como herdeiro de família, acionista majoritário e presidente do conselho. Antes de morrer, em 2009, de complicações relativas ao câncer, estabeleceu um fundo sediado em Lichtenstein chamado Akira, onde depositou sua participação controladora da holding familiar que controla uma participação majoritária na Louis Dreyfus. O Akira, por sua vez, era supervisionado por uma fundação familiar com três “protetores”, como eram chamados, que podiam decidir se haveria distribuição dos lucros. Louis-Dreyfus nomeou sua esposa como um desses protetores.

Em 2010, os outros dois protetores do Akira se demitiram depois que Margarita os acusou de conflito de interesses. Ela nomeou seus substitutos.

Em setembro passado, alguns membros da família decidiram vender 16,6% da sua participação na holding, segundo documentos do Akira.

Entre esses familiares estavam Philippe Louis-Dreyfus, executivo de empresas marítimas, Marie-Jeanne Meyer, presidente do conselho da firma de private equity Florac, sediada em Paris, e Monique Roosmale Nepveu, que presta consultoria a outra empresa de investimentos de Paris, e a americana Laure Sudreau.

O Akira e os acionistas minoritários não quiseram comentar sobre o processo judicial.

O processo aberto em junho não é a primeira vez que a família e Margarita se enfrentam em um tribunal.

Em março de 2011, ela foi nomeada presidente do conselho de supervisão da holding. Pouco depois, membros da família processaram o Akira, dizendo que estavam sendo excluídos e com acesso negado a informações essenciais, segundo documentos apresentados em outubro de 2011. A empresa, por sua vez, disse que os membros do conselho tinham recebido “uma quantidade robusta” de informações. O tribunal criticou o Akira por não levar em conta os interesses dos investidores minoritários, mas disse que não havia fundamento legal para decidir em favor do processo movido pela família.

Robert Louis-Dreyfus e sua família mais ampla nunca previram que a esposa, que vendia peças de computador quando ele a conheceu, seria capaz de comandar os negócios, segundo pessoas a par do assunto.

Após o nascimento dos filhos, o casal vivia cada vez mais separado. No fim dos anos 90, Robert Louis-Dreyfus havia iniciado um relacionamento com a alemã Nicole Junkermann, empresária de esportes e mídia, três décadas mais jovem que ele, disseram pessoas a par do assunto.

A empresa informou que Robert Louis-Dreyfus havia desejado que a esposa tivesse “autoridade e influência muito significativas” na holding.

À medida que assumia um papel mais ativo nos negócios, Margarita também entrou em conflito com executivos, disseram pessoas a par do assunto. A empresa já teve quatro diretores-presidentes desde 2011.

A companhia informou que apenas um dos diretores-presidentes que ali trabalharam durante esse período foi substituído e dois foram nomeados em caráter provisório, e que é normal mudar a gestão ao final de um ciclo de commodities.

Com vários membros da família vendendo suas participações, o Akira ficou com as contas a pagar. Para manter a empresa nas mãos da família, Robert Louis-Dreyfus definiu que o fundo era obrigado a comprar as ações de qualquer acionista minoritário que desejasse vender. O Akira tem quase US$ 600 milhões em dívidas, segundo suas contas mais recentes. Margarita Louis-Dreyfus está agora à procura de um investidor para financiar a mais recente aquisição, disseram pessoas a par do assunto. Mas ela está fazendo isso em um momento em que o valor da empresa diminuiu.

Em 2011, uma alta de dez anos de duração nos preços de muitas commodities agrícolas terminou devido ao excesso de oferta. O algodão e o açúcar, por exemplo, caíram 68% e 35%, respectivamente, em relação a seus picos de 2011, o que afetou os lucros da empresa.

Em março, a Louis Dreyfus informou que seu lucro líquido em 2015 foi de US$ 211 milhões, 67% inferior ao do ano anterior.

No final de 2009, a Temasek Holdings Private Ltd., firma estatal de investimentos de Cingapura, considerou comprar uma participação na Louis Dreyfus, que avaliou em cerca de US$ 8 bilhões, segundo uma pessoa a par do assunto. No fim de 2015, a Temasek voltou a considerar a compra, mas sua avaliação da Louis Dreyfus caiu para US $ 4,5 bilhões, segundo essa pessoa.

A Temasek não quis comentar. A Louis Dreyfus não quis comentar as avaliações.

Enquanto isso, a família espera com impaciência pelo pagamento, que foi interrompido pela disputa contínua sobre a avaliação da empresa, segundo documentos do processo judicial de junho em Amsterdã e pessoas a par do assunto.

“O Akira está trabalhando com diversas alternativas de financiamento e tem a certeza de que conseguirá comprar as ações postas à venda, conforme necessário”, disse a viúva em resposta a perguntas enviadas por e-mail.

(Colaborou P.R. Venkat.)

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