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O pensamento de Roger Scruton, por João Pereira Coutinho

JOÃO PEREIRA COUTINHO – 30/10/2016

 

O filósofo britânico conservador Roger Scruton, que agora tem seus livros lançados no país, contrapõe-se a algumas das linhas mestras do pensamento progressista pós-Maio de 68. O pensador critica a “cultura do repúdio”, que nega as bases da modernidade, e o relativismo ocidental que tudo compreende e perdoa.

Anos atrás, recebi o telefonema de um amigo com uma pergunta inusitada: “Você vai assistir ao Scruton?”. Estranhei. Assistir? Scruton?

Ele explicou: Roger Scruton, um dos mais importantes filósofos conservadores vivos, estava em Portugal para uma palestra. A dita cuja seria na Universidade Nova de Lisboa, a dois passos do meu apartamento. Faltavam dez minutos para o início.

Saí de casa, caminhei até a universidade e encontrei uma sala pequena que me pareceu gigante: estavam seis pessoas e o próprio Scruton. Sentei-me, o autor começou a sua dissertação (sobre a “common law” inglesa, creio), e a estranheza instalou-se nos meus neurônios: como explicar a desolação do cenário?

Se Scruton fosse um perigoso revolucionário (ou reacionário) e se Portugal vivesse sob uma ditadura de direita (ou de esquerda), a deserção seria compreensível. Mas clandestinidade em democracia é uma contradição nos termos.

Acontece que Scruton é um perigo, sim, por dois motivos fundamentais. Em primeiro lugar, porque o pensador britânico é um brilhante escritor. As ciências humanas estão colonizadas por criaturas pedantes e vácuas que fizeram da opacidade uma ilusão de respeitabilidade.

Scruton, que se considera herdeiro estilístico de T.S. Eliot, escreve com uma elegância a que a filosofia acadêmica já não está habituada. Nesse quesito, convém recordar as palavras de Nassim Nicholas Taleb sobre a condenação à morte de Sócrates em Atenas: “Existe algo de terrivelmente desagradável, alienante e sobre-humano em pensar com demasiada clareza”.

Mas o verdadeiro perigo de Scruton estava no fato paradoxal de ele ser um conservador que defende princípios quase iluministas no meio do caos pós-iluminista. A afirmação pode soar herética para quem vê iluminismo e conservadorismo como inimigos genéticos.

Um erro. Se descontarmos a evidência de que muitos autores conservadores (Hume, Burke etc.) são tributários do iluminismo britânico, é importante lembrar que o conservadorismo é uma ideologia reativa (ou “situacional”, como diria Samuel P. Huntington) que defende valores ou princípios ameaçados em determinados momentos históricos.

Para Scruton, esses valores ou princípios se traduzem, hoje, na busca incessante da verdade (contra o relativismo epistemológico que deixou um rastro de destruição nas “humanidades”) ou na defesa da natureza humana e de valores morais objetivos, e não contingentes (contra o relativismo ético que tudo compreende e tudo perdoa). No século 18, a “cultura de repúdio” (expressão do autor) estava nos revolucionários que pretendiam destruir as tradições ou instituições que fizeram a grandeza da Europa. No nosso tempo, a “cultura de repúdio” está nos intelectuais que pretendem reverter o “adquirido civilizacional” da própria modernidade.

 

MAIO DE ROUSSEAU

Esse repúdio foi pessoalmente testemunhado por Roger Scruton em Paris, no famoso Maio de 1968, como ele relata em “As Vantagens do Pessimismo” [trad. Fabio Faria, É Realizações, 208 págs., R$ 44,90]. Os “événements de mai” apresentavam-se como uma rebelião dos filhos da burguesia contra as instituições burguesas dos pais, em nome de uma liberdade radical que, para além de equívoca, era sobretudo destrutiva.

Esse conceito de “liberdade como libertação” era uma herança perversa de Jean-Jacques Rousseau aos seus discípulos: se os homens nascem livres e se existem grilhetas em todo lado, a liberdade verdadeira (e primordial) só poderia emergir pelo repúdio da “civilização” e de todas as instituições, leis ou hierarquias que aprisionavam os seres humanos.

O problema, defende Scruton em “As Vantagens…”, é que a proclamação de Rousseau não passa de um equívoco: não nascemos livres. Mais: são precisamente as instituições, as leis, as hierarquias que pretendemos destruir que nos protegem de uma existência “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”, como escrevia Thomas Hobbes sobre o estado de natureza.

A liberdade implica “disciplina e sacrifício”, ela é um produto da ação humana e das instituições legais que permitiram aos homens sair de um estado primitivo, instintivo, animalesco, para passar a desfrutar dos direitos e deveres próprios de uma comunidade política organizada.

Negar essa premissa, transformando a liberdade em pura destruição, apenas conduz ao tipo de sociedades que o próprio Scruton conheceu no Leste da Europa antes da queda do Muro de Berlim (1989). Cidades como Praga, Budapeste ou Varsóvia, que se apresentavam “como caixões fechados na sepultura do tempo”.

Sabemos hoje que o Maio de 1968 foi um fracasso político. Mas seria um erro considerar que o espírito que o animou foi derrotado intelectualmente. “Au contraire”, escreve Scruton: o que não foi atingido nas ruas acabou por triunfar na mídia e na universidade.

O livro “Pensadores da Nova Esquerda” [trad. Felipe Garrafiel Pimentel, É Realizações, 336 págs., R$ 59,90] pretende ser um retrato dessa trágica vitória ao anatomizar (ou, melhor dizendo, autopsiar) um conjunto de “vacas sagradas” (Sartre, Foucault, Althusser etc.) que condicionam fortemente o debate intelectual até hoje.

Nas obras desses autores progressistas (para usar um eufemismo), encontra-se intacta essa mesma “cultura de repúdio” que nada mais tem a oferecer do que a subversão das condições presentes da sociedade –”lei, propriedade, costumes, hierarquia, família, negociação, governo, instituições”.

Esse impulso utópico, definido pela pura negação, não é mais do que uma crença cripto e pseudoreligiosa de que as ruínas serão o berço de um estado de perfeição. Para Scruton, a “cultura de repúdio” apenas produz o vazio moral e cultural em que o Ocidente se encontra: um vazio de ressentimento econômico, alienação social e empobrecimento espiritual.

Uma das reflexões mais perturbadoras de Scruton sobre esse vazio triunfante lida com a radicalização das comunidades islâmicas na Europa. Se a própria “intelligentsia” europeia apresenta o Ocidente como uma realidade decadente e opressora, como esperar respeito ou lealdade do Outro? O refúgio reacionário no islã radical não é mais do que uma busca de identidade quando o Ocidente já perdeu a sua identidade.

Eis a ironia do nosso tempo: a separação do Estado e da Igreja foi uma das maiores conquistas políticas da civilização ocidental. Mas essa separação está hoje em risco quando a “cultura de repúdio” permite, em nome de um multiculturalismo niilista, que a sociedade seja “ressacralizada” pelo extremismo corânico.

 

DEUS E CÉSAR

Assim se entende por que motivo Roger Scruton é também um pensador iluminista. Em “Como ser um Conservador” [trad. Bruno Graschagen, Record, 294 págs., R$ 44,90], o filósofo não se limita a criticar a “cultura de repúdio”. Porque não basta ser “um rebelde contra a rebelião”, como o próprio se define.

Tal como T.S. Eliot afirma em “Four Quartets”, a nossa cultura sitiada também é capaz de encontrar em si os recursos da sua renovação. Essa renovação consiste em relembrar (ou, melhor ainda, conservar) o que nos protege da negação destrutiva.

A liberdade e a dignidade individuais. A sociedade civil e as suas instituições “espontâneas”, que o poder totalitário sempre procurou degradar. A defesa da separação de poderes e de um império da lei que esteja acima de qualquer governante, partido ou vanguarda. A reafirmação de que devemos dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. E a defesa da “experiência de pertença” do cidadão ao seu território, à sua língua, à sua cultura, à sua história –contra as fantasias globalistas que, tragicamente, apenas servem para despertar a xenofobia e o populismo.

Naquela tarde em Lisboa, meia dúzia de infelizes recebia Scruton como se ele fosse uma peste chegada à cidade. Essa memória pessoal nada nos diz sobre o talento e a erudição do inglês. Mas diz muito sobre nossas cidades.

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