Esse, sim, merece ser estudado! Mas no original, não nos manuais.

Segundo Keynes, coragem é a chave do bom investimento

Segunda-Feira, 17 de Outubro de 2016 00:06 EDT

 

No próximo colapso do mercado de ações, nós todos iremos nos adiantar e comprar ações corajosamente — pelo menos na imaginação.

Mas comprar ações quando o mercado despenca é muito mais difícil do que se imagina. Novas pesquisas analisam como o grande economista — e igualmente grande investidor — John Maynard Keynes agiu na Grande Depressão de 1929, quando as ações americanas caíram mais de 80% contando o declínio desde o auge até o fundo do poço. Sua experiência deveria ensinar a todos os investidores a importância da preparação, coragem e paciência.

Entre o início dos anos 20 e sua morte em 1946, Keynes escreveu vários livros, revolucionou a política econômica e ajudou a criar o sistema monetário global moderno. Em seu tempo livre, ele administrava o fundo de dotação que mantinha a faculdade King’s College, da Universidade de Cambridge. De 1922 até 1946, o portfólio de ações em que Keynes investia superou o mercado de ações britânico em uma média de quase seis pontos percentuais por ano — durante um período que atravessou a maior crise de mercado, a mais grave depressão econômica e a pior guerra mundial registrada na história moderna.

Keynes não parecia um grande investidor o tempo todo. Concentrado em comprar ações a preços baixíssimos, ele foi superado no mercado excessivamente altista dos anos 20. Keynes não previu a vinda da Grande Depressão; ele entrou no Crash de 1929 com cerca de 90% dos recursos da faculdade aplicados em ações, mesmo quando a maioria dos outros fundos desse tipo preferia aplicar em títulos de dívida.

No fim de 1929, Keynes registrava um desempenho cumulativo de 40 pontos percentuais abaixo do bolsa britânica nos cinco anos anteriores. Mas ele já estava promovendo uma reviravolta nesse desempenho.

Em uma nova pesquisa da publicação acadêmica “Business History Review”, o professor de finanças David Chambers, da Faculdade de Administração Jurídica de Cambridge, e o economista Ali Kabiri, da Universidade de Buckingham, analisaram como Keynes teve coragem de investir pesadamente em ações de um país devastado pela crise e pela depressão resultante.

Keynes praticamente ignorou totalmente as ações americanas no fundo de dotação da faculdade até setembro de 1930. Que hora para ficar interessado! O mercado de ações dos Estados Unidos havia recuado 38,4% ante os 12 meses anteriores. Mas Keynes estava tão animado pelas pechinchas que via nos EUA que trabalhou com uma pequena corretora de Nova York, a Case Pomeroy & Co., para pesquisar o mercado e suas próprias ideias de investimentos nas bolsas.

Em 1931, quando as ações americanas caíram assombrosos 47,1% e depois, em 1934, quando elas recuaram mais 5,9%, Keynes viajou para os EUA, passando grande parte do tempo em reuniões com gente de Wall Street, do governo e de empresas que poderiam ajudá-lo a pesquisar suas ideias de investimento.

Ele comprou ações americanas durante toda a depressão. Quando elas caíam mais 38,6% em 1937, Keynes, decididamente, comprou ainda mais. Em 1939, ele já havia colocado metade de seu portfólio principal da faculdade em empresas americanas, favorecendo ações preferenciais com pagamento de dividendos elevados, trustes de investimento (portfólios diversificados de ações similares aos fundos mútuos de hoje) e, mais tarde, em empresas de serviços públicos. Ele se concentrou em um pequeno número de ações que eram negociadas a um valor muitas vezes mais baixo que seu valor como empresas, frequentemente mantendo-as por oito anos ou mais até que os preços finalmente se recuperassem e refletissem o valor real dos ativos.

O capítulo 12 do livro “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda” (edição em português, Editora Saraiva, 2014), escrito há 80 anos, permanece uma das explosões de brilhantismo mais potentes sobre investimentos da história. Suas palavras ainda ressoam com a determinação que deve ter sido necessária para comprar ações quando sangue corria nas ruas:

“O espetáculo dos mercados modernos de investimento às vezes tem me levado à conclusão que tornar a compra de um investimento permanente e indissolúvel, como um casamento, exceto por motivo de morte ou outra causa grave, pode ser um remédio útil para nossos males contemporâneos. Porque isso forçaria o investidor a direcionar sua mente nas perspectivas de longo prazo e apenas nelas.”

Keynes entendeu, assim como seu contemporâneo, o caçador de pechinchas americano Benjamin Graham, que os mercados baixistas são tão imprevisíveis que evitá-los é praticamente impossível — e que a dor de perder dinheiro é quase insustentável.

Ainda assim, Keynes sabia que entrar nos mercados baixistas para comprar, em vez de tentar evitá-los, é a melhor forma de triunfar. Como, no longo prazo, as ações tendem a subir mais do que a cair, uma das grandes vantagens que um investidor pode ter é o bom senso de comprar ações agressivamente quando os mercados recuam.

Para isso, são necessários dinheiro e coragem.

Com as ações não muito distantes de seus picos recordes hoje, segurar o dinheiro é uma ótima ideia.

E — ao menos que você esteja aposentado ou perto de se aposentar, e já esteja reduzindo seu portfólio de ações — fortaleça sua coragem. Escreva uma obrigação contratual com você mesmo, com um amigo ou membro da família de testemunha, comprometendo-se a comprar mais ações quando elas caírem 25%, 50% ou mais.

Daqui a alguns anos, você ficará feliz de ter feito isso.

 

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