Todo cuidado é pouco II

Fundador da Datasul processa gestoras

‘Rei do software’ acusa HSBC e empresa de Kandir de negligência milionária
Josette Goulart, 07 Agosto 2016 – O Estado de S.Paulo

O empresário Miguel Abuhab é um homem rico. Ele mesmo disse isso em entrevista à revista ‘Época Negócios’ quando perguntado sobre como foi o dia em que bateu o sino da Bovespa ao lançar as ações da Datasul, do ramo de informática. O “rei do software”, como é conhecido, vendeu sua empresa duas vezes: uma na bolsa, a outra para a Totvs, arrecadando mais de R$ 1 bilhão entre os anos de 2006 e 2008. Com dinheiro no bolso, aplicou no mercado financeiro. Mas perder não estava no script. Tanto não estava que Abuhab partiu recentemente para a briga com a Governança & Gestão Investimentos, do ex-ministro Antonio Kandir, e o HSBC. Pede uma indenização milionária às duas instituições, acusando-as de terem negligenciado a gestão de seus recursos.

A acusação que paira sobre a gestora de recursos de Kandir e a distribuidora do banco, que agora pertence ao Bradesco, é de que eles não obedeceram e observaram os limites das regras de aplicação em dois fundos exclusivos de Abuhab: o MAP e o Babel. A gestora teria aplicado dezenas de milhões de reais em opções de ações, uma forma de apostar alto na bolsa de valores, extrapolando os limites permitidos nos regulamentos dos fundos. Já o HSBC, como administrador do fundo, não teria fiscalizado a gestão como determina sua função. As perdas estimadas teriam chegado, durante o ano de 2012, a R$ 50 milhões.

O caso corre na Justiça de São Paulo e está em fase de perícia, para analisar o valor do prejuízo, eventuais descumprimentos das regras dos fundos e se de fato houve perdas. O escritório Pinheiro Neto, um dos mais renomados do País, faz a defesa da G&G. No processo, os advogados dizem que, assim como em alguns períodos o empresário perdeu dinheiro, em outros ganhou com as mesmas operações. Se reclama do prejuízo, também teria, da mesma forma, de devolver os ganhos.

Esse não é o primeiro processo contra a G&G. A família do empresário chinês Shan Ban Chun também acusa a gestora de ter realizado operações alavancadas no mercado de opções de ações que não estariam previstas no regulamento do fundo da família, o Bird. As perdas chegaram a R$ 460 milhões. Além da G&G, a acusação também recaiu sobre o BTG Pactual, administrador do fundo. O banco não teria fiscalizado corretamente a gestora e também é acusado de ter potencializado as perdas, com cálculos equivocados, fazendo com que as margens solicitadas fossem punitivas e obrigando o encerramento das operações de derivativos no pior momento. O banco alega que a família tinha pleno conhecimento do que se fazia no fundo e que Chun era conhecido por ter feito fortuna no mercado de derivativos de soja. O caso foi revelado pelo Estado há dois anos e meio.

Bilionário chinês, naturalizado brasileiro, Chun criou a empresa Eleva, que era dona dos leites Elegê e da Avipal, do ramo de frangos. Mais tarde, a companhia foi vendida para a Perdigão – que se uniu à Sadia, dando origem à BRF. O empresário faleceu no ano passado, antes de ter visto qualquer andamento mais concreto do processo judicial, aberto em 2013. No caso da família Chun, nem a perícia foi iniciada. Os advogados da família, do escritório Dinamarco Rossi Beraldo & Beraque Advogados, não quiseram falar sobre o caso.

Mercado acionário. Os empresários Chun e Abuhab fizeram fortuna vendendo suas empresas, criadas a partir do zero, e eram os únicos clientes relevantes da G&G. A gestora foi fundada pelo ex-ministro Antonio Kandir e também pelo executivo Rami Goldjfan, ex-presidente da empresa fundada por Chun. Com as perdas nas operações de derivativos, e na tentativa de evitar a saída de seus únicos dois clientes, Kandir chegou a prestar, de graça, o serviço de gestão para os empresários nos meses seguintes.

Uma das explicações dadas pelo G&G para as perdas é de que a crise da Grécia naquele ano de 2012 fez o mercado acionário tombar, transformando em pó as opções de ações que estavam nos fundos. Uma opção de ação serve para fazer apostas em determinado papel. Caso o papel suba, os ganhos são multiplicados exponencialmente. O mesmo acontece caso os papéis percam valor.

Os dados dos fundos de Abuhab, registrados na Comissão de Valores Mobiliários, dão conta de que em alguns períodos a conta de compensação, que retrata o pior dos cenários possíveis, refletia potenciais perdas ou ganhos de até R$ 4 bilhões com as operações que estavam em carteira, enquanto os fundos não tinham mais que R$ 100 milhões em patrimônio.

O caso de Abuhab também está sendo analisado na CVM. Em inquérito, a superintendência de fiscalização constatou que há indícios de que tanto HBSC quanto G&G de fato não observaram os regulamentos dos fundos em determinados períodos e fizeram aplicações mais arriscadas que as permitidas. O processo administrativo está nas mãos de um diretor-relator, já com a defesa de ambos.

Um dos argumentos usados na Justiça é de que Abuhab é investidor qualificado, conhecedor do mercado acionário, e que tinha sido informado do risco das operações. De qualquer forma, o advogado de Abuhab, Alfredo Sérgio Lazzareschi Neto, do escritório SKLaw Advogados, diz que isso não justifica o desenquadramento. Os advogados da G&G, o BTG Pactual e o HSBC não quiseram comentar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s