Boa leitura:

Ortega y Gasset segue o risco de Velázquez em estudo sobre o pintor

marcelo coelho – 27/07/2016

 

O pintor Diego Velázquez (1599-1660) produziu relativamente poucos quadros, não teve quase amigos, escreveu pouco, viajou pouco, falou pouco, viveu pouco.

Os contemporâneos concordam em descrevê-lo como apático, silencioso, e mesmo desinteressado de seu próprio ofício. Achavam que ele largava os quadros meio inacabados.

Trata-se de um caso interessante para quem procura entender a obra de um artista a partir dos episódios de sua biografia. A tarefa seria quase impossível, tão pobre de fatos foi a vida de Velázquez.

Para recorrer a um trocadilho duvidoso, o filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883-1955) pegou esse touro à unha. Seu “Velázquez”, editado agora pela Martins Fontes em formato de bolso, não chega a 200 páginas, e é uma obra-prima de análise biográfica e estética.

O autor se confessa desde o início pouco especializado em história da pintura. Basta ler algumas páginas para perceber que sua argúcia, sua versatilidade, seu virtuosismo de escritor e, sobretudo, a sua disposição para pensar (algo que é mais do que a pura inteligência) suprem a eventual falta de maiores conhecimentos técnicos.

Ortega y Gasset é um desses filósofos, raros no século 20, que não precisam de elaborado vocabulário técnico para começar a pensar. Seu livro (na verdade, uma reunião de ensaios) abre-se com uma pergunta difícil de responder. Como seria possível que uma vida tão desinteressante, como a desse grande pintor, tivesse algum significado para sua obra?

Em tese, teríamos o exemplo perfeito de um “artista sem biografia”, capaz de suscitar apenas comentários sobre a qualidade formal de seus quadros. Atentando menos para a narrativa biográfica e mais na pessoa de Velázquez, o filósofo põe o problema de cabeça para baixo.

Como se sabe, Ortega y Gasset é o autor da célebre frase “eu sou eu e a minha circunstância”. Mas não se trata simplesmente de inserir a pintura de Velázquez no rígido ambiente político e social da Espanha do século 17.

Bem ao modo existencialista, Ortega y Gasset pergunta qual o “projeto” de Velázquez. Uma biografia, diz o filósofo, é apenas o “exoesqueleto” de uma vida. “Mas uma vida é, por excelência, intimidade, é a realidade que só existe para si própria e que, por isso mesmo, só pode ser vista de seu interior.”

Ele continua: “A pessoa não é seu corpo, não é sua alma. Alma e corpo são apenas os mecanismos mais próximos que encontra junto a si e com os quais tem de viver, isto é, com os quais tem de realizar certa configuração individual de humanidade, certo programa de vida”.

Velázquez tornou-se pintor oficial da corte de Filipe 4º quando tinha 23 anos. Num meio formalizado ao extremo –e são extraordinárias as reflexões de Ortega y Gasset sobre o que há de espanhol no jogo entre a formalidade e a graça, entre a cerimônia e o “garbo”–, o jovem pintor tratou de cumprir sua segunda vocação, seu segundo projeto.

A saber, o de se tornar um grão-senhor, um aristocrata. Sem precisar atender a demandas de igrejas e pessoas importantes, tratou a pintura com certa altivez, com a “sprezzatura” que os italianos recomendavam aos grandes cortesãos.

“É o gênio da displicência”, arrisca-se a afirmar Ortega y Gasset. Por isso mesmo, fez uma pintura mais “artística” do que qualquer um que o antecedesse. Seus melhores quadros não serviam a nenhum propósito religioso ou político.

Assim seu “realismo” ganhou a característica de uma impalpabilidade, de uma distância “espectral”. Velázquez segue as regras da perspectiva, mas suas figuras não têm “massa” nem “relevo”.

Ele cria, diz o filósofo, uma terceira dimensão “para dentro do quadro”, como se a tela fosse côncava.

Em seu livro, Ortega faz coisa parecida: a exemplo da famosa pintura “As Meninas”, o filósofo vai “para dentro” da intimidade do retrato e, com o virtuosismo dos displicentes, delineia em rápidos traços uma obra-prima, talvez só comparável com o estudo de Sartre sobre Tintoretto.

Cada qual escolheu com maestria seu objeto. A inteligência agônica de Sartre viu o teatral, a iluminação, dos quadros de Tintoretto. Mais fleumático e castelhano, Ortega y Gasset segue o risco de Velázquez: risco de morte, mas também fluidez de luz, de fantasma e arabesco; lance de capa, de sangue e bandarilhas. É preciso controlar-se para não dizer olé.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s