Uma barata é só uma barata?

Literatura e psicanálise

 Por Eliana Cardoso – 03/06/2016

 

Fazia mais de 20 anos que, graças à dedetização, eu não via uma barata. Na semana passada, me deparei com uma. A praga oval e achatada, exibindo seus seis centímetros marrom ­escuro­ avermelhados, jazia imóvel, com as patinhas para cima, ali no chão de madeira clara da sala. Peguei um cartão para empurrá­la para dentro de um saco plástico e jogá­la no lixo. Ela mexeu as perninhas. Estava viva. Porque repousava de barriga para cima não recebera o alerta de perigo com minha aproximação. Deitando­se de costas, prejudicara o funcionamento dos pelinhos das asas, que funcionam como sensores, e a teriam informado de mudanças na corrente do ar à sua volta, marcando a hora de correr. Mas devia estar muito doente para não se virar e fugir, quando a toquei com o cartão. As perninhas se encolheram hesitantes. Deu­me  pena.

Não tendo em casa inseticida em aerossol nem a coragem de esmagá­la, joguei a coitada no saco plástico, dei um nó e meti o embrulho no lixo. Depois, passei o resto do dia agoniada. Via a imagem da barata indefesa e meu egoísmo. Por causa do meu nojo da gosma que escorreria da barata esmagada, preferi, em vez de abatê­la com morte súbita, condená­la ao sofrimento prolongado dentro do saco plástico. O Google informa que baratas podem viver muito tempo sem a cabeça, uma semana sem beber água, um mês sem comer. A pobrezinha pode estar viva se não foi incinerada em algum lixão.

Há quem tenha pavor desse inseto de 300 milhões de anos e se cure desse medo recorrendo à psicanálise. Cris Bassi, uma das autoras de “A paciente, a analista e o Dr. Green” (Editora Zagodoni), livrou­se do pânico causado por baratas e de outros sofrimentos e tornou­se uma grande matadora de baratas, uma verdadeira “especialista”, comenta sua analista e coautora, Sílvia  Lobo.

Bassi e Lobo contam a história de uma análise que durou 18 anos. Não se trata de ficção, mas de um relato sincero e comovente que nos permite confrontar a mesma experiência narrada por duas vozes diferentes: as palavras da paciente e a interpretação da analista. O livro é também a história de uma amizade, do “jogo amoroso no qual o afeto ora se mostra, ora se esconde, ora se revela”, e outras vezes chega perto e passa sem ser reconhecido. Valeu a leitura.

Valeu também porque me lembrou das palavras de Italo Svevo: “A palavra na noite é como um raio de luz. Ilumina um trecho da realidade em confronto com a qual se dissipam as edificações da fantasia”. E me despertou a vontade de reler o romance que, pela primeira vez na literatura, fez uso do trabalho de Freud de forma escancarada: “A Consciência de Zeno” de Italo Svevo (tradução de Ivo Barroso, Editora Nova Fronteira).

“Sem psicanálise não haveria literatura moderna”, escreveu Otto Maria Carpeaux. Freud empregou a psicanálise para interpretar o Hamlet e muitos críticos lhe copiaram a técnica. A literatura por sua vez empregou a psicanálise para interpretar a vida, embora a influência não seja nem direta nem admitida. Mas a presença  da psicanálise é evidente no surrealismo ou em Thomas Mann, em Joyce e em outros a quem Freud forneceu o pretexto para falar de sexo com franqueza rara até então.

Svevo escreveu “A Consciência de Zeno” fascinado, por um lado, pelo funcionamento da mente e pela vida interior que cultivamos apesar da aparente conformidade com a sociedade e, por outro, pela leitura de Freud, de quem obteve os nomes e mecanismos que descrevem nossas negociações com as experiências internas e externas.

Como Freud, Svevo se interessou pelo entrelaçamento dos processos psíquicos com as ações conscientes e, em particular, pelos comportamentos compulsivos. Mas seria um erro supor que Svevo oferece uma versão literária das teorias freudianas ou que as preocupações de autor se confundem com as do psicanalista. Svevo transforma o material freudiano para servir suas concepções sociais e  estéticas.

Como escritor cômico, Svevo alcançou empatia e visão comparáveis às que encontramos nas comédias de Shakespeare. Svevo inventou o anti­herói antes mesmo dessa figura tornar­se central na literatura: uma pessoa comum, absorvida em si mesma e autoanalítica, tentando lidar com os desafios da modernidade. Um trapalhão cativante, que sofre de ansiedade, angústia e ambiguidade, e aprende a aceitar a existência com humor e resignação.

Combinando a objetividade cômica, o humor lírico e a percepção do homem como um grão de poeira no grande reino da natureza, Svevo deixa que a consciência de Zeno se movimente entre o espaço das transações diárias guiadas pelos costumes e o espaço do desejo e da atividade mental. E mostra como o autoengano, a vaidade, a racionalização e o idealismo mal orientado podem impedir o homem de corrigir a incongruência entre seus objetivos e suas possibilidades reais.

O narrador em primeira pessoa, Zeno, declara que o livro consiste das anotações escritas a pedido de seu analista, para curar uma doença indeterminada. Começa com um longo relato sobre as tentativas fracassadas para se livrar do cigarro.

Continua, em ordem mais ou menos cronológica, a contar a morte do pai e o próprio casamento. Faz coisas boas por motivos ruins. Propõe casamento a Augusta pelo despeito que sofre quando Ada (a quem ama e que é irmã de Augusta) se envolve com Guido. No entanto, seu casamento com Augusta é ideal, enquanto com Ada teria sido desastroso.

Ao suprimir seus desejos e hostilidades, Zeno tropeça na felicidade e encontra uma maneira de viver confortavelmente. Tem um caso extraconjugal e comenta: “Tive um sonho curioso: não só beijava o pescoço de Carla, mas ainda o comia”.

Conserta o desastre financeiro dos negócios de Guido. Mantém as especulações financeiras que começara para recuperar a fortuna do cunhado. Compra toda e qualquer mercadoria para revendê­las com lucro quando a Guerra de 1914 cria uma escassez.

Svevo introduz ainda os temas de doenças psicossomáticas e a hipocondria, mapeando o corpo de Zeno pelas dores que ele desenvolve em momentos de crise moral e emocional. Mas Zeno procura não tanto a cura como um diagnóstico de sua doença.

A doença faz parte da imprevisibilidade da vida para a qual a morte é a única cura. O truque consiste em encarar a doença como aviso enviado pela realidade e vê­la da mesma forma como percebemos o adversário contra o qual  nos fortalecemos fazendo uso do humor, da imaginação e da sagacidade.

Sendo Zeno uma experiência da natureza, sua aptidão para a sobrevivência depende da capacidade de abrir mão do controle e de se adaptar: “A vida é bela, mas é preciso ter cuidado com o lugar em que senta”. E na visão cômica de Svevo, o homem moderno pode aproveitar a vida, se sentir sua originalidade. “A vida não é bela nem feia, mas original”.

A surpreendente previsão das armas nucleares que conclui o romance emite um alerta do que pode acontecer quando os seres humanos usam a tecnologia motivados por sua fraqueza agressiva. Contra essa possibilidade, a doutrina modesta de Svevo de originalidade continua atraente.

A possibilidade da destruição do mundo desconcerta o leitor ao mudar o tema e o tom do livro. Sublinha uma visão séria e pessimista por trás da ironia e da comédia. O homem que vai explodir a Terra é um ser fraco, que não aceita a sua fraqueza. “Quando os gases venenosos já não bastarem, um homem feito como todos os outros, no segredo de uma câmara qualquer neste mundo, inventará um explosivo incomparável, diante dos quais os explosivos de hoje serão considerados brincadeiras inócuas. E um outro homem, também feito da mesma forma que os outros, mas um pouco mais insano que os demais, roubará esse explosivo e penetrará até o centro da Terra para pô­lo no ponto em que seu efeito possa ser o máximo. Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus, livre dos parasitos e das enfermidades”. E livre das baratas.

 

Eliana Cardoso, economista e escritora, escreve neste espaço quinzenalmente E­mail:eliana.anastasia@gmail.com

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s