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A clientela universal de Nise da Silveira

 Por Maria Cristina Fernandes – 03/06/2016

 

Nise da Silveira tinha 31 anos e morava havia três no Hospício Nacional de Alienados, na Praia Vermelha, zona sul do Rio, onde trabalhava como psiquiatra. O salário magro não dava para alugar um apartamento com o marido, médico sanitarista. No quarto que ocupava no hospital tinha seu café da manhã servido por uma esquizofrênica. A comunicação entre Nise e Luiza, desligada afetiva e cognitivamente pelo diagnóstico de plantão, se dava pelo sino que a interna tocava ao chegar ao quarto para acordar a médica e pôr a mesa.

Essa rotina foi interrompida no dia 20 de fevereiro de 1936. Uma enfermeira vira livros de autores comunistas em seu quarto e Nise acabou presa pela polícia de Getúlio Vargas. Foi fichada como integrante da Ala Médica Reivindicadora Feminina Brasileira. Libertada um ano e quatro meses depois por falta de indícios que motivassem um processo, Nise soube que Luiza surrara a enfermeira que a denunciara até vê­la estendida no chão.

Como perdurasse o Estado Novo, custaria a ser reincorporada ao serviço público, mas, ao fazê­lo oito anos depois, foi sob a inspiração de Luiza que deu início a uma solitária jornada pela humanização da psiquiatria, dominada à época por eletrochoques e lobotomia. É esse o ponto de partida de “Nise, o Coração da Loucura”. O primeiro longa de Roberto Berliner conta a história da alagoana que encantou Carl Jung e revolucionou, de uma só tacada, a psiquiatria e a arte nacionais.

A Nise de Berliner é uma mulher franzina, sempre de tailleur, que bate de frente com colegas e superiores, mas nunca com seus pacientes, a quem chama de “clientes”. “Nós é que temos que ser pacientes para servi­los”, explica Nise, numa interpretação sóbria de Gloria Pires. A atriz e o filme receberam a premiação máxima do Festival de Tóquio.

As filmagens no próprio hospital de Engenho de Dentro, atual Centro Psiquiátrico Pedro II, na zona norte do Rio, dão o tom documental do filme. Relegada ao abandonado setor de terapia ocupacional, busca pacientes confinados em solitárias por comportamento agressivo e neles desperta o interesse por resgatar as raízes da consciência perdida.

A primeira descoberta se deu com as estruturas simétricas das mandalas. A lógica dos esquizofrênicos, dizia­se, era espatifada. Surpreendia vê­los capazes de reconstituir uma linguagem para produzir as formas arredondadas que, desde a antiguidade, era usada para ordenar de aldeias a assentamentos  urbanos.

Nise fotografou as mandalas e as enviou para Jung, que anotou a singularidade daquele registro e atribuiu­o à afetividade com a qual seriam tratados. Foi o início de uma relação que prosseguiu com visitas de Nise ao mestre, retribuídas com a acolhida de discípulos do psiquiatra suíço que vinham ao Brasil conhecer os trabalhos  de Engenho de Dentro.

Nise se valia do reconhecimento externo e da aproximação com os familiares dos internos para os embates que continuava a travar com os preceptores dos choques elétricos. Numa passagem do filme, convence a mãe de um dos seus “clientes”, Fernando Diniz, a não autorizar a lobotomia de seu filho. Mostrou­lhe o assoalho de uma tela, o candelabro de outra, o piano de uma terceira, enfim reunidos numa sala, como o último trabalho antes de uma recaída. Ao conjunto de telas, Nise daria o nome de “Em Busca do Espaço Cotidiano”.

A mãe, costureira, olhou o quadro e constatou que aquela era a sala de uma das casas em que trabalhava, com o filho, ainda criança, a tiracolo. A paixão de Fernando pela filha da patroa o motivou a fazer o ensino médio e sonhar com uma faculdade. Seu primeiro surto psicótico se deu no dia em que a menina casou. “Ele está tentando nos contar sua história com essas telas. É isso que a senhora vai interromper”, disse Nise à mãe de Fernando, depois de bater de frente com o colega que defendia o procedimento: “Sua arma é um picador de gelo, a minha é o pincel”.

Os trabalhos de Fernando Diniz, que viveria até os 81 anos, completados em 1999, e se tornaria um dos artistas mais célebres do grupo, estão no Museu do Inconsciente, espaço de exposição que o crítico de arte Mário Pedrosa lhe ajudaria a montar e hoje soma 350 mil obras.

Em “Nise da Silveira, Caminhos de uma Psiquiatra Moderna” (Automática Edições, 2014), Luiz Carlos Mello, discípulo da psiquiatra e diretor do museu, resgata o psicanalista Hélio Pellegrino, em sua cruzada contra uma normalidade conformada e empobrecedora: “A esquizofrenia é um tremor de terra que abala e fende essa forma ­ ou masmorra ­ na qual o sistema social em que vivemos nos obriga a  viver”.

Nos imagens dos pacientes de Nise da Silveira estão as raízes do inconsciente coletivo, de que fala Jung, o conjunto de imagens que revela predisposição ancestral para medos comuns, encontrados desde os primeiros registros da pré­história.

Um dos artistas mais cobiçados do grupo era Emygdio de Barros, que estava internado havia 23 anos quando Nise o conheceu. Como era cordato, os enfermeiros do hospício lhe empurravam os trabalhos mais pesados. Foi no  ateliê que revelou a criança habilidosa e tímida que se tornaria torneiro mecânico da Marinha. Enviado à França para um curso de aperfeiçoamento, Emygdio encontrou a namorada casada com o irmão caçula e mais extrovertido. Zanzou desnorteado pelas ruas até parar em Engenho de  Dentro.

No filme, Emygdio é o interno que mostra no canto do olho a vontade de se unir ao grupo que vai passear na Floresta da Tijuca para a pintura ao ar livre. Consultado por Nise, que manifestou o desejo de incorporá­lo ao ateliê, o psiquiatra de Emygdio, desenganou­a: “Ele está numa decadência psicológica muito profunda e não vai fazer nada que preste”.

A noite estrelada de Emygdio eram os jardins do hospital, que apareciam em pinceladas fervilhantes, comparadas por Mario Pedrosa às de Van Gogh, o mais famoso esquizofrênico da arte. Ferreira Gullar o considera um dos raros gênios da pintura brasileira: “A ruptura com o mundo objetivo precipitou­o numa aventura abismal, em que o espírito parece quase perder­se na matéria do corpo, afundar­se no seu magma. E é daí, desse caos primordial,   que ele regressa, trazendo à superfície onde habitamos, com suas imagens fosforecentes, os ecos de uma história outra, que é também do homem, mas que só a uns poucos é dado viver”.

O encanto dos críticos de arte pelo trabalho dos pacientes encheu as vistas dos marchands, mas Nise rechaçava todos. Encerrou uma insistente oferta de Cicilo Matarazzo pela “Capela Mayrink”, desenho em naquim de Emygdio, com o argumento de que a obra pretendida servia à  ciência.

Construiu a mola propulsora do tratamento de seus pacientes a partir da certeza de que eles evoluíram para estados de esquizofrenia a partir de perdas afetivas. Foi o início da campanha antimanicomial no país, em favor de tratamentos em centros abertos que não apartassem os doentes de suas famílias. O Congresso aprovou uma lei em 2001 para regulamentar os procedimentos, mas desde a volta do PMDB ao comando do Ministério da Saúde, ainda no governo Dilma Rousseff, tem ameaçado retrocessos.

Filha de um professor de matemática e jornalista e de uma pianista, Nise cresceu numa casa boêmia cuja frequência de artistas e intelectuais era reprovada pelo resto da família na provinciana Maceió do início do  século XX. Os pais a queriam pianista como a mãe, mas Nise engraçou­se do grupo de alunos do pai que se preparavam para o vestibular de medicina e, aos 15 anos, deixaria a cidade para prestar exame em Salvador. Teria que falsificar   a idade para se tornar a única aluna da Faculdade de Medicina da Bahia, entre 157 rapazes. Um deles era Mário Magalhães, seu primo, com quem passaria a viver durante o curso. Voltaria ao se formar, mas a morte do pai a levaria a deixar Maceió novamente. Desta vez, rumo ao Rio.

Não podia ver sangue, mas ouviu de uma jovem de família pobre que a hospedara a melhor definição do seu ofício. Estava, à época, ameaçada de uma segunda prisão e viveu foragida na Bahia com identidade falsa. Um dia, ao  girar lentamente os ponteiros dos minutos e segundos para ensinar à menina como ler as horas de um relógio, ouviu dela que tinha mãos de médica. Achou que tivesse sido descoberta, mas a jovem apenas decifrara a essência de uma atividade que começava a se perder com o avanço da tecnologia: a solidariedade, o respeito e a compaixão com os que sofrem.

Nenhuma experiência foi mais definitiva para o rumo de sua carreira que a prisão. A mesma detenção que deu à literatura “Memórias do Cárcere”, de seu conterrâneo Graciliano Ramos, produziu Nise da Silveira. Lá assistiu à tortura e à extradição de suas companheiras Olga Benário e Elisa Berger. Na cadeia, recebeu o apelido de Caralâmpia, nome que, anos mais tarde, deu à primeira cadela adotada no hospital para tirar os pacientes da clausura esquizofrênica.

Sentia­se mais livre na prisão conversando com arrombadores célebres que se deslumbravam com as formigas operárias ou com assaltantes que adotavam crianças do que diante do mundo que encontraria do lado de fora. Os psiquiatras adeptos das terapias de choque que encontraria em Engenho de Dentro eram apenas a ponta de lança de uma sociedade que se urbanizava, produzia um número cada vez maior de desajustados e não sabia o que fazer com eles.

Num depoimento colhido por Luiz Carlos Mello, definiu a lição dos hospícios: “Aprendi muito com os loucos e isto vem a atrapalhar um pouco o conceito de razão. Fala­se na fonte da sabedoria e na fonte da loucura. Mas elas não são duas. Não há fontes separadas, está tudo muito próximo. De vez em quando uma pessoa ajuizadíssima  comete um ato de loucura que, felizmente, diz muito a ela própria sobre sua forma de viver”.

 

Maria Cristina Fernandes, jornalista do Valor, escreve neste espaço quinzenalmente E­mail: mcristina.fernandes@valor.com.br

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