Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto.

O Brasil não conhece o Brasil

15/05/2016 – vinicius torres freire

DESDE A VOTAÇÃO do impeachment na Câmara, elites ilustradas ou que assim se imaginam temos tido chiliques frequentes com as criaturas do Parlamento.

O tumulto da posse do ministério “homem, branco, conservador” de Michel Temer tampouco causou boa impressão, se não horror. Diz-se, de modo farisaico, que se redescobriu o Brasil profundo.

Depois de 22 anos, o Brasil “moderno” está fora do poder federal, embora o Brasil “profundo” tenha composto uns três quartos das coalizões que governaram com PT e PSDB. Uma diversão recente tem sido contar quantos integrantes do governo de direita de Temer foram sócios do tucanato e do petismo. Quase todos.

Essa oposição entre “moderno” e “profundo” (“atrasado”, como dizia FHC) sempre foi em parte falsa, embora se tenha tornado mentira quase integral nos anos em que PSDB e PT apodreceram ou revelaram algo de sua natureza profunda.

Mas é difícil negar que tucanos e petistas poliram brutalidades brasileiras, econômicas e sociais. O partido da elite econômica mais ilustrada, o partido de sindicatos e movimentos sociais e a economia industrial que os produziu, digamos, foram as simulações, as fantasias ou os ensaios mais próximos que tivemos de “sociedade capitalista avançada”.

O que será do futuro dessa ilusão? Quais seriam hoje as forças “modernas” que poderiam formar um ou dois partidos “mais autênticos”? Note-se quantas aspas. É sinal de que o articulista não sabe precisar o que diz. Talvez não seja só culpa dele.

Quem é o novo? Coletivos da periferia, movimentos horizontais de jovens, embriões de Podemos, o partido novo da esquerda espanhola, como devaneia a esquerda? O ainda desorganizado precariado, trabalhadores de direitos reduzidos, que ficará maior com a recessão?

A elite econômica se dispersou entre interesses diferentes, por vezes conflitantes. De qualquer modo, não se vê agregação de seus novos representantes ilustrados, quando há.

Outros frutos maduros da modernização que deu também em PT e PSDB, porém, assumem ainda mais relevância. Elites ditas ilustradas não sabem lidar com esse Brasil que não é eterno (“elite velha de 500 anos”, diz a tolice) nem moderno (“progressista”), mas majoritário. Na política, PT e PSDB em geral faziam apenas um quarto da Câmara.

Boa parte dos ruralistas do Centro-Sul, Oeste em particular, não existia até os 1980, se tanto.

Os oligarcas regionais do PMDB já fundam dinastias, mas são muita vez recentes, figuras de classe média que ascenderam socialmente com as vitórias do MDB logo depois do fim da ditadura.

A explosão do poder evangélico começou nesses tempos também, nas periferias de Rio e São Paulo, um precariado com quem pouca gente conversava, afora pastores, depois televangelistas. A Igreja Universal, big bang do evangelismo pop e politicamente forte, foi fundada em 1977.

Há o risco, digamos sarcasticamente, de que uma grande reforma econômica liberal, “moderna”, seja tocada pelo PMDB e pelas bancadas evangélica e ruralista, maiores partidos reais do Congresso, ao lado da bancada da bala. Isso que restou do PSDB será coadjuvante menor. Isso que restou do PT nem sabe o seu papel.

Esse Brasil complexo aparece mal na foto da política.

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