Mais uma do JPC

A tirania do videoclipe

joão pereira coutinho – 26/04/2016
Há uma certa decadência da crítica cinematográfica. Um exemplo: no dia em que passavam 400 anos sobre a morte de William Shakespeare, fui ao cinema para assistir à última adaptação de “Macbeth”, a minha tragédia favorita. Sei que o filme já estreou no Brasil (em 2015). Só agora chegou a Portugal.
Havia sinais –bons e maus. Bons: Michael Fassbender como Macbeth (mas não Marion Cotillard; desculpa, chérie, mas Lady Macbeth não é para qualquer uma). Maus sinais: o diretor Justin Kurzel. Estaria errado em minhas vibrações contraditórias?

As críticas diziam que sim (mas não as brasileiras: salve, Thales de Menezes!). O “New York Times” babava de admiração. A “New Yorker”, simpática, era mais comedida; e Anthony Lane, talvez o último moicano, deixou a melhor frase crítica que li sobre o filme (“Michael Fassbender tem menos medo da morte que da declamação”, cito de cor).

Mas eram os críticos ingleses que arrepiavam: do progressista “The Guardian” ao conservador “The Daily Telegraph”, eis o melhor “Macbeth” de todos os tempos. Sério?

A resposta é não. E volto ao início: há uma certa decadência da crítica cinematográfica porque a nova geração não bebeu o leite da ternura literária. Educada em imagens –dos videogames aos videoclipes– qualquer foguetório visual a deixa de joelhos.

Justin Kurzel agiu em conformidade: ofereceu sangue em quantidades generosas e deixou que o texto fosse uma espécie de “voz off” em “on”, com os atores a murmurarem o bardo. Se Kurzel e seus fãs tivessem realmente lido “Macbeth”, saberiam que a verdadeira violência da peça não é visual –é literária e filosófica.

“Macbeth” é o mais brilhante tratado sobre a natureza da tirania que conheço. E, se é verdade que a peça tem cinco atos, não é exagero dizer que existem cinco etapas na existência lúgubre de qualquer tirano.

Primeira etapa: a ambição. Enganam-se os que pensam que o tirano é um “monstro moral” vindo de outro planeta. Nunca foi. Macbeth não é: um dos mais bravos guerreiros do rei Duncan, é a tentação do poder que desperta naquele homem –”humano, demasiado humano”– ideias regicidas que ele ainda procura, em vão, reprimir.

Mesmo Lady Macbeth, apesar da sua pérfida determinação exterior, é dilacerada interiormente pelo temor dos seus atos. Ela tem de evocar os mais negros espíritos para que os remorsos não a visitem depois do crime consumado.

Segunda etapa: a dissimulação. Nenhum tirano revela seus reais intentos. Isso é óbvio. Menos óbvia é a visão de Shakespeare sobre a alma do tirano: para realizar os crimes, ele tem igualmente de falsificar a sua consciência. É preciso agir rápido para que a razão não arrefeça a vontade (o célebre “words to the heat of deeds too cold breath gives”, ou, em português, “palavras só fazem soprar um hálito gelado sobre o calor das ações”).

Terceira etapa: a violência como método. O crime é cometido. Mas, se o sangue só gera sangue, Shakespeare partilha com os filósofos clássicos a intranquilidade perpétua do tirano. Depois do rei, como deixar sobreviver os seus fiéis barões? Como deixar sobreviver Banquo ou Macduff? Aliás, como poupar qualquer sombra que possa fazer sombra a um poder que o tirano reconhece como imoral e ilegítimo?

Iniciam-se as “purgas” –um déjà-vu da história moderna, dos jacobinos franceses aos totalitarismos do século 20.

Quarta etapa: a solidão do tirano. Também aqui Shakespeare segue os pensadores clássicos. De que serve o poder quando somos rodeados por lacaios “constrangidos”, de “coração ausente”? O medo é incompatível com o respeito e o afeto. Honra, amor, amigos –tudo isso está interdito.

Quinta etapa: a fatuidade da existência. É o momento em que o tirano, contemplando as cinzas dos seus atos (o cadáver da mulher que amou; o ódio do reino pelo seu trono; os inimigos que se aproximam para o destruir), entende que “a vida não passa de uma sombra que caminha”. Tudo foi “som e fúria”. Tudo foi feito e desfeito em nome de nada.

O filme de Justin Kurzel, ao oferecer um texto monocórdico, mergulha cada uma das etapas numa sopa visual “kitsch”, a que nem sequer falta uma trilha sonora redundante e alguns “ralentis” insuportáveis.

Se o leitor se interessa por Shakespeare, melhor visionar o “Macbeth” de Orson Welles (e, já agora, a edição brasileira da Cosac Naify com tradução de Manuel Bandeira).

Nem a tirania de Macbeth merece a tirania de um diretor de videoclipes.

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