Texto interessante, vale a leitura.

Control Freak

Luiz Felipe Pondé

 

A marca da modernidade é ser “control freak”. A medicina, a tecnologia da informação, a técnica, o agronegócio, os modernos métodos de gestão do comportamento, o estado de direito, que torna a sociedade previsível em grande medida, enfim, todos esses são exemplos do sucesso moderno no controle da vida.

Essa ideia está posta como embrião na obra do filósofo inglês Francis Bacon (1591-1626). O projeto baconiano de ciência era colocar a natureza sob controle experimental (“atar a natureza”), para que ela, assim, desse as respostas necessárias para tornar a vida melhor.

A tradição utilitarista dos séculos 18 e 19 aperfeiçoará esse projeto em termos de gestão de comportamento, ética, políticas públicas e leis. Muitas são as críticas a esse projeto de controle da vida. Aldous Huxley (1894-1963) fez uma das mais famosas no seu romance “Admirável Mundo Novo”.

Os ambientalistas costumam achar o projeto baconiano o fim do mundo, mas (a inconsistência é a marca das modas contemporâneas de comportamento), ao mesmo tempo, querem incluir os animais no “contrato utilitário” de condenação da dor e otimização do bem estar. O resultado é a tentativa de criminalizar a picanha.

A atávica ideia de controle da vida é profundamente neurótica e paranoica e piora quando é bem-sucedida. A paranoia é o efeito colateral necessário de uma cultura que busca a “prevenção de acidentes”. A fronteira entre a paranoia e a prevenção é mais tênue do que imagina nossa vã filosofia.

O filósofo romeno Émil Cioran (1911-1995), radicado na França, contou inúmeras vezes uma passagem de sua vida quando jovem, ainda na Romênia. Quem quiser ter acesso a essa passagem, procure no volume “Entretiens”, Gallimard, 1995. Este volume é uma coletânea de entrevistas que Cioran deu para a mídia europeia.

Quando jovem, Cioran era insone. Um dia, voltando de uma das suas caminhadas insones, se joga no sofá e diz: “Não aguento mais!”. Sua mãe, que, segundo ele, era uma mulher inteligente e pessimista, teria dito, como reação ao seu lamento: “Se eu soubesse que você ia ser desse jeito, teria abortado”.

Seguiu-se uma epifania. Cioran dizia que sua mãe o libertou da agonia com essa afirmação. Graças a sua mãe, ele percebeu que sua existência era mera contingência (acaso, sorte, azar). Caso sua mãe quisesse abortá-lo, seja por qual razão fosse, ele não existiria e pronto.

Logo, nenhum sentido maior na sua existência, logo, nenhum compromisso “cósmico”, logo, a contingência é a verdadeira senhora do ser (para dizer de modo chique que não existe nenhum roteiro a ser seguido). A realidade é, em si, sem controle algum.

A libertação pela contingência é muito chique e coisa rara. E nada mais distante do caráter moderno do que isso. O mundo moderno se caracteriza por uma paranoia de controle que gosta de fingir que é “cool”. E é difícil mesmo imaginar um mundo com 7 bilhões de pessoas querendo ser feliz sem controles de massa.

Essa libertação pela contingência, tal como Cioran a descreve, significa um certo relaxamento diante das contingências (fatos incontroláveis e indesejáveis) da vida (aqui, o duplo sentido da palavra “contingência” nos ajuda).

Em tese, essa libertação pela contingência significa que não há motivo pra se correr atrás das coisas querendo “pô-las no lugar” a todo custo ou buscar o sentido delas.

Alguém poderia dizer que tal tese se trata de um sofisticado modo de defender a velha máxima filosófica “relaxe e goze”. E não estaria de todo errado se, para superar a neurose de controle da vida, o animal humano não tivesse que atingir quase o grau de santidade ou de vida ascética (como o fez o próprio asceta urbano Cioran).

Para se abrir a libertação pela contingência, há que se enfrentar a causa máxima da neurose de controle: o desejo. E aqui fracassam todas as utopias “desejantes” de Foucault a Deleuze (ambos do século 20). Cioran, sim, está mais próximo da velha tradição grega: o desejo é um inferno e por isso mesmo triste, como diria o maior filósofo brasileiro, Nelson Rodrigues

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