Um inovador em tudo

Músico abriu o mercado de bônus exóticos em Wall Street.

 Por Alastair Marsh – 12/01/2016

 

 

O homem por trás de “The Man Who Sold the World” foi o primeiro músico a ir a Wall Street para poder aproveitar os lucros futuros de sua música, o que abriu caminho para um próspero mercado de títulos exóticos, lastreados   em quase tudo desde direitos a cavalos de corrida até máquinas de lavar  industriais.

Em 1997, David Bowie, que morreu de câncer aos 69 anos no domingo, vendeu US$ 55 milhões em títulos  atrelados ao dinheiro que receberia futuramente pelos direitos autorais de sucessos como “Ziggy Stardust”, “Space Oddity” e “Changes”.

Seu exemplo foi seguido por cantores como James Brown e Rod Stewart e pela banda de “heavy metal” Iron Maiden. Papéis lastreados em direitos autorais permitem aos artistas levantar dinheiro sem vender os direitos sobre seu trabalho nem ter de esperar anos para ver o dinheiro gotejar em suas contas.

“Os bônus Bowie foram tão revolucionários quanto sua música”, disse Rob Ford, gestor de recursos que trabalha em Londres, na TwentyFour Asset Management, firma que administra 5,3 bilhões de libras esterlinas (US$ 7,7 bilhões). “Não apenas foram seguidos por vários outros artistas, mas também definiram o modelo para emissões lastreadas por toda uma gama de  ativos”.

Os bônus Bowie foram vendidos de forma privada para a Prudential Insurance Co. of America. De início, os papéis foram classificados como “A3” pela Moody’s Investors Service, sétima maior nota dentro do “grau de   investimento”. Nos anos 2000, a pirataria na internet levou a uma queda nas vendas e a Moody’s cortou a nota em 2004 para “Baa3”, um degrau acima do rating dos papéis considerados de alto risco. A queda na receita mundial das gravadoras desacelerou­se em 2014, depois que mais pessoas começaram a assinar serviços de transmissão de músicas digitais.

Os bônus Bowie foram pagos depois de dez anos e os ratings retirados, segundo Thomas Lemmon, porta­voz da Moody’s. A empresa nova­iorquina também classificou uma transação de direitos autorais de músicas da dupla compositora Ashford e Simpson, assim como um título garantido por um conjunto de filmes da Miramax, incluindo “Gênio Indomável” e “O Diário de Bridget Jones”, de acordo com Lemmon.

John Chartier, porta­voz da Prudential, em Newark, Nova Jersey, não quis comentar sobre o desempenho dos títulos.

“O catálogo de David Bowie é um dos catálogos mais emblemáticos da história da música”, disse David Pullman, executivo de banco de investimento em Los Angeles que administrou a securitização dos bônus Bowie, à Bloomberg TV, em 2013. “Bilhões de dólares em royalties por ano são arrecadados por músicas como ‘Heroes’ e ‘Fame’.”

Pullman não retornou os contatos feitos ontem por e­mail e telefone para comentar o  assunto.

Subscritores dos bônus nos Estados Unidos, encabeçados pela Guggenheim Partners, ajudaram a expandir o mercado para financiamentos via lançamentos de títulos incomuns, que podem dar aos emissores recursos a um baixo custo e obter classificações de crédito altas se comparadas às de bônus similares de empresas.

O mercado para lançar títulos com base em propriedade intelectual, iniciado por Bowie, agora inclui direitos sobre filmes, patentes farmacêuticas, franquias de restaurantes e até sobre a tira de quadrinhos  “Minduim”.

Nem sempre saiu tudo bem. “O Padrinho do Soul”, cuja vida e carreira foram retratadas no filme de 2014 que no Brasil recebeu o nome de “James Brown”, abriu um processo para sair de seu acordo de securitização em 2006, um ano antes de sua morte.

As vendas de papéis exóticos representaram 21% de todas as emissões lastreadas por ativos em 2015 e o setor cresceu mais do que o de colocações tradicionais, segundo dados do Barclays. O volume de transações exóticas nos EUA subiu 16%, para cerca de US$ 40 bilhões até novembro, em comparação ao mesmo período de 2014, segundo perspectiva divulgada por analistas do Barclays, que também projetou vendas de pelo menos US$ 45 bilhões em 2016.

Embora essas emissões tenham crescido, continuam sendo uma parte pequena do mercado de títulos lastreados por ativos. E títulos como os de Bowie continuam estando limitados ao número de artistas capazes de atingir o grau de sucesso do cantor e compositor londrino.

“David Bowie está listado como um dos cinco artistas mais influentes da segunda metade do século XX, então  você não vai ver um artista contemporâneo com um ou dois álbuns conseguir fazer isso”, disse Pullman, em 2013. “Você vai ter de esperar décadas”. (Tradução de Sabino Ahumada)

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