O olho da cobra…

Demônio de olhos verdes 

LEANDRO KARNAL – O ESTADO DE S.PAULO – 09 Janeiro 2016
Um pouco de Shakespeare, Jesus Cristo e Lei Maria da Penha para refletir sobre a cena de ciúmes de lvete Sangalo que viralizou na internet

Muitas cenas viralizam na internet. O verbo é curioso porque traz a imagem da multiplicação de um agente danoso, o vírus. Mostram um momento bizarro ou sério de famosos ou anônimos. Fotos e vídeos, frases e dados voam pelo hiperespaço. Duram pouco na memória, mas sua potência é medida pelas visualizações. Havia toneladas de navios no passado ou quilotons de bombas atômicas. Hoje há milhões de visualizações como a medida suprema de valor.

Ivete Sangalo patrocinou um episódio que inflamou o oxigênio etéreo do mundo virtual. Do palco, sem perder o ritmo, questionou seu marido, que parecia estar tendo a atenção tomada por outra mulher. A frase “Quem é essa, papai?” foi forte: virou marchinha de carnaval. A fama de Ivete ajuda, mas a difusão da imagem mostra um problema maior.

O primeiro passo do “demônio de olhos verdes” (expressão shakespeariana para ciúmes) é a identificação. Quem é essa? Quem ameaça meu domínio? Eu a conheço? É uma desconhecida ou – medo maior – uma pessoa do meu círculo? Ela é mais bonita do que eu? Mais magra? Mais jovem? Lady Di enfrentou um problema pouco comum: sua rival era mais velha e menos bonita.

Reconhecer a identidade do inimigo remete aos evangelhos. Para expulsar o demônio, Jesus indaga o nome. “Somos Legião.” O nome é o primeiro passo para o ataque ou a defesa. Conhecer o adversário é estratégia teológica de exorcismo, mas é também artimanha bélica n’Arte da Guerra, de Sun Tzu. Nas crises de ciúmes, é o primeiro passo: quem é essa?

Há um dado sutil na pergunta: os pronomes esta/essa/este/esse são mais do que demonstrativos. São mais genéricos do que “ela” ou “mulher”. “Essa” é um degrau menos polido. As palavras traduzem uma vontade de reduzir um “eu” a um “isto” ou uma “ela” a uma “essa”. Após o “quem”, “essa” carrega uma vontade de degradar.

Por fim, a questão simpática do “papai” para o marido Daniel. Essa é ampla e psicanalítica. Pode ser um apelido carinhoso entre Ivete o marido. Mas traz, claro, um mundo novo. Eu te chamo de papai porque somos íntimos e “essa” não é. Somos casados e temos uma história; “essa” é uma arrivista. Mas você também está sendo chamado à responsabilidade de ser pai, de ter uma vida, uma biografia que proíbe esse tipo de atenção. Eu anuncio: ele é meu marido, e pode ser pai dos meus filhos. Interponho moral e função para que a concorrente se afaste. Aqui se esgota a retórica. O passo seguinte seria a agressão física ou a ação judicial.

Todos temos medo de perder quem amamos ou possuímos. Não demonstrar nenhum medo disso ou nenhuma cena de ciúme é lido, em geral, como sinal de fim da relação. O ciúme, em grau plausível, é visto com simpatia pelos lados envolvidos. Ter a pessoa que amo desejada por outros ou outras é uma valorização que o mercado erótico me oferece e que pode ser incorporada como uma espécie de “tempero da relação”. O problema sempre foi determinar o grau desse plausível ou do tolerável. Ciúmes pode apimentar e pode matar. Ele cria sonetos de amor e povoa cenas de violência doméstica. A necessidade de tempero traz a constatação estranha de que o casamento oficial seja insosso.

Volto à fonte icônica da literatura ocidental para isso: o Otelo, de Shakespeare. Ele, um mouro, com ascensão obtida pelo talento militar e carisma de comando. Ela, Desdêmona, uma moça loira e rica. Ele é fruto do esforço que precisava sobrepujar a origem; ela fruto da genética e do berço social. A paixão foi fulminante e o amor proibido superou a efemeridade de Romeu e Julieta.

A tragédia shakespeariana, tal como a grega, precisava terminar com morte. A maldade de Iago, a desconfiança patológica do general e a própria questão do poder político em Veneza/Chipre embaralham­se no jogo. Otelo mata a inocente Desdêmona, numa cena com consciência tão forte quanto Macbeth matando o rei da Escócia ou Hamlet pensando se mata Cláudio enquanto este reza. Mas há um dado pouco lembrado: o texto reflete que Desdêmona traiu o pai ao casar com Otelo e fugiu com seu amor proibido. Quem trai o pai parece ter o potencial de trair o marido. Seria o simbolismo do casamento ocidental, no qual o pai entrega a noiva ao seu novo dono na visão patriarcal, o marido?

Ivete não matou o marido, mas a figura do pai voltou à frase. Nossa linda cantora continuou com o show. Não quebrou o tom ou interrompeu o ritmo. Nada de comparar a vela que se apaga com a vida da infeliz Desdêmona. Nada de estrangulamento lento e consciente, acompanhado de culpa com a revelação da inocência da esposa. Os ingleses/venezianos de Shakespeare tinham a dimensão trágica da existência. Nós temos a felicidade de ler Shakespeare e escutar e ver Ivete Sangalo.

Além da diferença cultural da ficção elisabetana e da nossa baiana está uma questão de gênero. Homens e mulheres são violentos e capazes de maldades, mas as mortes por ciúmes de homens contra mulheres são imensamente superiores. O trânsito mostra o mesmo. A reação de Ivete chega a ser simpática, quase divertida, ainda que traga a dor e o questionamento da desconfiança. Ao lado da nova e arlequinesca marchinha, existe a sombra trágica trazida à tona pelos dados oficiais da Lei Maria da Penha. Entre o humor e a violência, resta o medo de todos nós. Sempre me pareceu que ser traído é como a propaganda dos primeiros carros a álcool: você ainda vai ter um…

 

LEANDRO KARNAL É HISTORIADOR E PROFESSOR DE HISTÓRIA CULTURAL DA UNICAMP.

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