Artigo interessante

Uma revirada no depósito de abobrinhas corporativas

Por Lucy Kellaway – 21/12/2015

Quando chega essa época do ano, minha mente fica naturalmente apatetada. Todo mês de dezembro, eu abro o armário onde guardo os piores jargões proferidos durante o ano e começo a procurar os vendedores do meu prêmio anual Abobrinha de Ouro.

Este ano, como sempre, o armário está cheio de palavras e frases horrorosas, escritas ou faladas. Citando uma aleatoriamente, temos “passionpreneur” (mistura em inglês das palavras “paixão” e “empreendedor”). Também temos “delta”, no sentido de  vácuo, lacuna, e “solutionize” (algo como “solucionalizar”). Todas são novas e todas alcançam a   degradação linguística.

Há duas tragédias aqui. A primeira é que as pessoas realmente gostam disso. A outra é que a única pessoa que possui a chave desse armário de abobrinhas, e pode desfrutar delas, sou eu. A primeira dessas tragédias não tem remédio. Pessoas que falam esse tipo de coisa jamais deixarão de fazer isso. A lei do besteirol tem como preceito o fato de que esse mercado só tem uma fase ­ a fase de crescimento.

Quanto à segunda tragédia, há uma solução. Este ano, o “Financial Times” decidiu permitir aos leitores revirar meu armário e se divertir com a pilha de palavras e frases ignóbeis que há dentro dele. Para isso, criamos a Guffipedia (www.ft.com/guff), um repositório dos termos que acumulei ao longo dos   anos.

Nele, você vai encontrar os vencedores do Abobrinha de Ouro dos anos anteriores, com informações detalhadas minhas sobre os motivos de eles serem tão medonhos (caso você esteja tão impregnado deles ao ponto de não perceber isso sozinho). Todos os meus favoritos estão creditados, incluindo Angela Ahrendts, Dick Costolo e Tim Armstrong, assim como algumas figuras mais obscuras que vêm demonstrando uma dedicação invejável à conversa fiada.

O objetivo da Guffipedia não é apenas permitir a você admirar o tamanho de minha coleção de asneiras, e sim me ajudar a fazer uma “curadoria para o futuro”, como eles dizem no idioma do papo­furado. Estou conclamando  você a me enviar novas palavras e frases horríveis, a se esforçar para traduzi­las para um inglês aproveitável e informar onde você as encontrou.

Não é preciso identificar o perpetrador (mas se você fizer isso, melhor). E se você enviar suas contribuições antes do fim do ano, elas poderão acabar ganhando o prêmio Abobrinha de Ouro de 2015, que será anunciado na primeira semana de janeiro.

Para manter o nível elevado da Guffipedia, serei durona quanto ao que será permitido. Também não quero  acumular exemplos que as pessoas preguiçosas usam sempre que um jargão é mencionado. Não haverá “open the kimono” (frase que significa compartilhar informações) na Guffipedia, uma vez que nunca ouvi ninguém dizer   isso a sério. Comenta­se que certa vez Jamie Dimon usou a frase, mas as únicas vezes que a ouvi foram de pessoas que protestavam o quanto odeiam  jargões.

A Guffipedia não só será uma valiosa obra de referência, como também servirá a um propósito mais elevado. O intuito não é fazer as pessoas se tocarem e começarem a falar com clareza, simplicidade e elegância, uma vez que isso não vai acontecer. Há muitas e boas razões para as pessoas continuarem falando besteiras. Elas fazem você parecer mais esperto; elas mostram que você pertence a um clube; são uma alternativa ao pensamento e, o mais importante, significam que você pode dizer coisas que parecem decentes, mas no fundo não têm significado nenhum ­ algo bem útil.

Em vez disso, a Guffipedia foi concebida como um clube de apoio aos “bullshitees”. Essa última palavra representa um mundo novo que tirei de meu armário, e somente por isso gosto dela. Sua forma gramatical se refere sobre como é estar na ponta recebedora de uma bobagem.

Eu a encontrei em uma incomum e fascinante pesquisa feita por acadêmicos do Canadá, que apresentaram aos participantes palavras tiradas do Twitter de Deepak Chopra e que foram rearranjadas em aforismos sem o menor significado. Mesmo assim, ao ler frases como “a integridade silencia o fenômeno infinito”, muitos dos “bullshittees” alegaram encontrar um significado. Quanto mais elas acreditavam na paranormalidade ou fãs de Chopra, mais profundidade atribuiam à  besteira.

Estender essas constatações para o ambiente administrativo significa que quanto mais aceitarmos a cultura empresarial prevalecente e mais valorizarmos as pessoas que a lideram, maior será a probabilidade de engolirmos tudo o que eles nos dizem ­ mesmo as coisas mais  estapafúrdias.

A Guffipedia é um convite para pararmos de engolir. Da próxima vez que você ouvir alguém dizer: “Sentimos que esse negócio é o negócio certo para seguir em frente. No cenário futuro, planejamos seguir com o negócio”, que foi exatamente a asneira que Tim Armstrong da AOL disse quando foi trazido da Verizon este ano, não engula. Seja um bullshitee proativo, desembuche e mande para  nós.

 

Lucy Kellaway é colunista do “Financial Times”. Sua coluna é publicada às segundas­feiras na editoria de Carreira

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