É verdade.

“As cidades não estão preparadas para os idosos”

Por Marcus Lopes – 18/12/2015

As cidades brasileiras devem estar preparadas para duas tendências mundiais no século XXI: urbanização e envelhecimento da população. Segundo o médico e gerontologista Alexandre Kalache, de 70 anos, é preciso atacar problemas como violência urbana e desenvolver políticas de atendimento a idosos. Ex­diretor do Departamento   de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial da Saúde, ele foi idealizador do Guia Global: Cidade Amiga  do Idoso, lançado pela OMS em 2008. “Ser amigo do idoso é ser amigo de todos”, diz. Leia a seguir a entrevista.

 

Valor: As cidades brasileiras estão preparadas para os   idosos?

Alexandre Kalache: Não. Primeiro porque a sociedade é muito voltada para o jovem. Além disso, as cidades não têm estrutura física adequada e os políticos não estão muito interessados nisso. O Brasil, que hoje tem 12,5% de idosos em relação ao total da população, vai ter mais de 30% em 2050. As cidades não estão preparadas, do ponto de vista de segurança, das políticas de habitação e dos cuidados com os idosos. Algumas, como Belo Horizonte, apresentam dificuldades de topografia. Isso complica a vida do idoso, que vai ter de pegar um ônibus para se deslocar até em curtas distâncias, que em lugares planos é possível andar a  pé.

 

Valor: Por que é importante conciliar as tendências do processo de urbanização e do envelhecimento da população?

Kalache: É questão de lógica: se cada vez mais teremos idosos e cada vez mais eles irão viver em zonas urbanas, temos de procurar políticas e intervenções que facilitem a vida dessa população.

 

Valor: O que fazer para tornar as cidades mais adequadas à terceira  idade?

Kalache: Você tem de ouvir o idoso. O protagonismo é dele. Os problemas do Rio podem ser diferentes dos de  São Paulo. O modelo urbanístico do Rio até a década de 60 era mais cordial. Permitia que você fizesse tudo perto da sua casa, criava laços. É disso que o idoso gosta, de andar, passear nas lojas. À medida que começa o estilo de vida em que o carro comanda, de grandes centros comerciais, acaba o comércio local, que é onde o idoso vai. Não é só para fazer compras. É para ele andar, se exercitar e para conversar com a dona do mercadinho. É uma comunidade.

 

Valor: O que pode ser feito quando o processo de urbanização se torna mais impessoal, como verificamos agora?

Kalache: Em uma sociedade que envelhece e se urbaniza ao mesmo tempo, é preciso planejar para ela ser mais humanizada e observar questões relacionadas às políticas de moradia, transporte, educação, acesso a trabalho, inclusão social, comunicação e informação, acesso a serviços sociais, de saúde e qualidade dos espaços públicos. É preciso estar atento para a população que vai usar e se ela está sendo favorecida nesse processo.

 

Valor: Quais são os principais problemas enfrentados pelos idosos nas grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro?

 

Kalache: A primeira é a questão da segurança. O idoso é um alvo fácil. O Brasil está muito violento. A segunda é  o transporte, que é muito ruim. Também não há uma política de moradia para os  idosos.

 

Valor: Muitos imaginam que as pequenas e médias cidades são melhores para os idosos viverem, em comparação às grandes cidades. Isso é  verdade?

Kalache: Os índices de violência em muitas cidades menores estão piores do que no Rio ou em São Paulo. A ideia de buscar uma cidade menor tem a ver com a idealização de uma família que não existe mais. É preciso tomar cuidado.

 

Valor: O que é fundamental para que uma cidade seja amiga do  idoso?

Kalache: Não existe apenas um fator. O que é fundamental para Santos é diferente do que é para São Paulo. Talvez para Santos seja cuidar do calçadão, pois é o ponto de encontro e sociabilização. Em São Paulo talvez seja questão de ordenar o sistema de transporte público. É o idoso que vai dizer o que é importante. Não sou eu.

 

Valor: Qual é o papel do poder público nesse processo?

Kalache: É fundamental. Cabe a ele ordenar, regular, incentivar e criar o serviço. Tem certas coisas que o setor privado, a sociedade civil e o setor acadêmico podem fazer. A responsabilidade no final é do poder   público. Infelizmente o compromisso, no que toca às cidades amigas dos idosos, é muito baixo. É mais difícil você conseguir um compromisso no Brasil do que em qualquer país que eu conheço. É uma cultura de  imediatismo.

 

Valor: Países da Europa já apresentam fortes índices de envelhecimento da população. As cidades europeias estão preparadas para os  idosos?

Kalache: Sem dúvida. Mas os países desenvolvidos primeiro enriqueceram para depois envelhecer. Países como     o Brasil estão envelhecendo mais rápido. A França levou 125 anos para dobrar a proporção de idosos de 10% para 20% da população. O Brasil vai levar apenas 20 anos. Estamos envelhecendo mais rapidamente e em um contexto de pobreza. A França, quando envelheceu, tinha educação em ordem, infraestrutura, esgoto, água potável   etc. Porém, é uma sociedade mais fechada. Lembra em 2003 quando houve uma onda de calor na Europa? Cerca de 16 mil idosos morreram de calor em plena França. A sociedade lá é individualista. Era mês de férias e ninguém   estava prestando atenção nos idosos. É preciso buscar os agentes da comunidade que possam atuar. A sociedade civil pode fazer isso. A igreja faz isso nas comunidades menores, de forma espontânea. Ou então o governo tem de cumprir esse papel.

 

Valor: A tecnologia pode ser uma aliada no  futuro?

Kalache: A urbanização vai trazer grandes avanços tecnológicos para ajudar as pessoas idosas a viverem onde elas querem viver, que em geral é onde elas sempre viveram. Não precisa ser tecnologia sofisticada. Pode ser até um interfone, que não existia há 50 anos. Um andador é revolucionário. Uma cadeira de rodas elétrica é fantástica.

 

Valor: E a questão do lazer?

Kalache: As cidades te favorecem para isso. O Sesc no Estado de São Paulo tem 240 mil idosos inscritos. Eles estão tendo acesso a recreação a um preço acessível. Estão aprendendo informática, fazendo hidroginástica e programas culturais. Mas é necessário densidade populacional para oferecer esses serviços. Se você tiver uma população espalhada, não será  possível.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s