Desapego e Ócio

Seguem dois textos que tangenciam o mesmo assunto:

Desapego

14/12/2015 – luiz felipe pondé

Você se considera uma pessoa desapegada? Sim, você tem razão se devolver a questão assim: o que eu quero dizer com ser uma “pessoa desapegada”?

A palavra é polissêmica mesmo. As grandes tradições religiosas -já disse várias vezes, nunca fale mal das grandes tradições religiosas, porque será prova de falta de repertório, o que não significa que as religiões não tenham pisado na bola feio ao longo da história- são sábias em refletir sempre sobre esse tema. Nunca é pouco pensar no desapego, ainda mais numa sociedade como a nossa, que precisa de pessoas “apegadas ao consumo” se não ela quebra e nós todos vamos pro saco.

Foi uma pergunta de uma aluna, recentemente, que me trouxe de volta a um tema que me acompanhou muito tempo em minha pesquisa em filosofia da religião. Antes, algumas poucas palavras sobre o desapego num contexto mais comum.

A pergunta de minha aluna se referia a quão longe se pode ir no desapego sem que ele faça mal a própria vida. Pode-se responder de pronto a essa questão (coisa que não faço) dizendo aquela famosa palavra em moda que é “equilíbrio”. Ou seja, pode-se cultivar o desapego de modo “equilibrado”. Ponho entre aspas a palavra “equilíbrio” porque acredito pouco nesse papo espiritual light de que alguém saiba onde está o tal “caminho do meio”. Talvez porque tenha sempre sido uma pessoa meio desequilibrada em minhas paixões e manias, duvide de quem diz ter conseguido o tal “caminho do meio”.

Entretanto, concordo que o tema do desapego seja essencial na vida, para começar, como disse acima, porque vivemos numa sociedade do apego, em que, mesmo para “se desapegar”, existem pousadinhas charmosas caríssimas em lugares desertos de difícil acesso, para dificultar o acesso aos chatos pobres que não dispõem de tempo e dinheiro pra chegar lá.

O mercado de bens de significado (marketing existencial) cresce a cada dia, a medida que a sociedade se enriquece. Sim, sei que gente chata gosta de falar em “desigualdade social” em meio a eventos chiques, mas esse papo só existe porque o mundo fica a cada minuto mais rico, e nessa pegada, os consumidores de significado (bens invisíveis que agregam sentido para uma vida exageradamente pragmática, como a nossa) aumentam a cada hora.

O estoicismo, filosofia grega, também falava de desapego da vida e das paixões porque o mundo engana e é efêmero. O ridículo de nosso tempo pode ser medido pela paixão pela “celebridade”. O sucesso é “espuma”, e o cotidiano, feito de pedra.

Suspeito de pessoas “desapegadas” assim como suspeito de pessoas “bem resolvidas”, mas isso não me impede de perceber que o apego excessivo às promessas do mundo faz de você um bobo. O apego excessivo às promessas do mundo é um dos comportamentos mais bregas da atualidade.

Mas, e o apego místico? Dediquei alguns anos ao estudo do filósofo e místico medieval Meister Eckhart (1260-1327/28), dominicano condenado pela inquisição em março de 1329, quando já estava morto. Sua condenação como herege está intimamente ligada aos seus sermões místicos, mas não vou tratar do seu confronto com a inquisição aqui.

Meister cunhou um importante conceito de desapego ou desprendimento (“abegescheidenheit”, no alemão de seu tempo, “abgeschiedenheit” em alemão atual) ao longo de sua vida. E é o percurso deste desapego que julgo muito importante numa discussão sobre desapego para um mundo apegado ao “consumo de si mesmo” como o nosso.

Se lermos suas conversas com os frades dominicanos de Erfurt, onde foi prior quando jovem, o desapego ali aparece como desapego dos bens materiais, numa abordagem fiel a pobreza clássica em várias formas de espiritualidade.

Mas, ao chegarmos ao seu período de Estrasburgo, o desapego ali é um desapego, entre outras coisas, do que hoje chamaríamos de “eu” ou “si mesmo” e seus desejos.

Num mundo em que o “eu” é um dos maiores bens de consumo de significado, caberia a pergunta: não será o “amor ao eu” uma forma contemporânea de patologia? E como não ficar “doente de si mesmo” num mundo em que o usufruto de si mesmo é o valor maior?

 

 

Os escravos somos nós

15/12/2015 – joão pereira coutinho
A TV está ligada. Um sábio fala sobre a ausência de “cultura” no nosso tempo. Explico melhor: o sábio pergunta por que motivo “as massas” não leem mais Tolstói, Dickens, até Joyce. “Vivemos um tempo de desinteresse total pela cultura”, diz ele, com repugnância. E conclui: “É o triunfo dos ignorantes!”

Assisto ao espetáculo e penso várias coisas. A primeira, óbvia, é a quantidade de charlatões que hoje falam na TV com ar sério e erudito. Mas a segunda, menos óbvia, resume-se no meu pasmo: “Em que mundo vive essa criatura?” Não, com certeza, no mundo que vejo em volta: um mundo de “escravidão voluntária” sob o chicote metafórico do trabalho. “Escravidão voluntária” não é expressão minha, aviso já. Pertence a Madeleine Bunting, escritora inglesa que editou um livro a respeito. O título é, precisamente, “Willing Slaves” (escravos voluntários) e o objetivo de Bunting é analisar como foi que o excesso de trabalho invadiu e dominou as nossas vidas.

Atenção: Bunting não escreve uma diatribe contra o trabalho, o que seria irracional e infantil. E, para sermos rigorosos, ela não se ocupa daqueles que precisam de trabalhar por motivos de sobrevivência.

O alvo é outro: as classes médias e médias altas que, nas sociedades ocidentais, fizeram do “excesso de trabalho” uma estranha forma de vida –e de estatuto.

Conta Bunting que, nas últimas duas décadas, o declínio histórico nas horas de labuta sofreram uma reversão. Trabalhamos mais do que nossos antepassados próximos. Mas também trabalhamos mais do que nossos antepassados remotos: sim, na Revolução Industrial era possível estar 14 ou 15 horas enfiado numa fábrica insalubre de Manchester ou Liverpool.

Mas essas 14 ou 15 horas são hoje mimetizadas pela incapacidade de separar o trabalho da vida pessoal –uma incapacidade que os mil brinquedos eletrônicos trouxeram às nossas vidas. Estamos sempre ligados, 24 horas sobre 24 horas. Em teoria, um certo nível de bem-estar deveria trazer mais lazer, não menos. Na prática, é o inverso.

E é o inverso porque existe uma segunda observação de Bunting que me parece a mais luminosa de todo o livro: se é verdade que todos os seres humanos precisam de um “sentido” para as suas vidas (obrigado, Viktor Frankl), então o trabalho assume-se hoje como a principal fonte de “sentido” e até de “identidade”.

Os nossos antepassados eram capazes de encontrar esse “sentido” na partilha comunitária, na família, na religião, até na política. O trabalho era apenas mais uma cesta onde colocar os ovos da existência.

Hoje, com a atomização crescente dos indivíduos; com a desagregação da família; com o recuo da religião; e com o crescente desinteresse pela política, só resta o trabalho como bússola da nossa patética travessia terrena. Somos o que fazemos. Não somos mais o que somos.

Quais as consequências disso?

Deixo de lado as consequências físicas e psicológicas, embora seja hilariante, tragicamente hilariante, saber que as doenças mentais cavalgam a galope porque, na maioria dos casos, nos estamos simplesmente a matar em prestações. Quando o trabalho é a última boia de salvação, nadamos como desesperados e tememos o naufrágio como nunca.

Também não vou elaborar sobre as consequências políticas que a nossa escravidão representa. Tocqueville já disse o essencial: o desinteresse pela “coisa pública” sempre foi o território preferido de populistas e autoritários.

Fico-me pelo sábio da TV e o seu desprezo pelos “ignorantes”. Por que motivo “as massas” não consomem cultura?

De Aristóteles a Josef Pieper, a resposta já foi dada: não existe cultura sem ócio. Isso é válido para os consumidores de cultura; mas é sobretudo válido para os produtores. Com um pedantismo ridículo, podemos perguntar por que motivo ninguém lê mais “Guerra e Paz”. Simples: pelo mesmo motivo que ninguém escreve mais “Guerra e Paz”.

No século 19, Paul Lafargue, no seu delicioso “O Direito à Preguiça”, escrevia que as sociedades antigas tinham ócio porque existiam escravos para todo o serviço. Mas, com intocável otimismo, Lafargue garantia que no futuro os escravos não seriam necessários. A evolução da técnica permitiria libertar os homens para o ócio.

Pobre Lafargue. Mal ele sabia que, nesse futuro, os escravos seriamos nós.

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