Entendendo a nova família brasileira

Trabalho e evolução social limitam número de filhos por mulher

Por Tainara Machado – 07/12/2015

A terapeuta quiroprática Gisele Camba nunca teve “latente” a vontade de ser mãe e, diante das pressões do mercado de trabalho, dos horários comprometidos com sua atividade profissional e dos altos custos envolvidos  na educação de uma criança, optou por não ter filhos. Essa é uma decisão cada vez mais comum entre as brasileiras. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), o número de mulheres entre 15 e 49 anos que optam por não ter filhos sobe ano a ano. Em 2004, essa proporção era de 36,6%, fatia que subiu para 38,4% em 2013 e alcançou 38,6% no ano passado.

Essa tendência, em conjunto com a redução do número de filhos pelas famílias, está provocando uma forte transformação demográfica no Brasil. A taxa de fertilidade, que era de 5 crianças por mulher em 1970, caiu para 1,74 em 2014, segundo o dado mais recente, divulgado pelo IBGE na Síntese de Indicadores  Sociais.

A fecundidade, junto com a mortalidade e a migração, é um dos componentes que define a dinâmica demográfica e é seu comportamento que molda a estrutura etária da população. O Brasil, afirmam especialistas, está envelhecendo rapidamente. As crianças de 0 a 4 anos, que em 2004 representavam 8,2% da população, hoje são 6,6% dos habitantes do país. Já a parcela com mais de 60 anos aumentou 4 pontos percentuais, para 13,7% da população total.

Essa tendência deve se acentuar nas próximas décadas. O especialista em demografia econômica Vinícius Mendes comenta que hoje a taxa de fecundidade já é inferior à de reposição da população, de 2 filhos por mulher. “Imagine que temos 100 pessoas, que vão formar 50 casais. Se cada um tiver 5 filhos, em média 250 adultos vão sustentar   os idosos na próxima geração. Se eles tiverem 2 crianças, são apenas 100 filhos e a população para de crescer. E se   a média for de menos de 2 filhos por mulher, a população vai encolher e, mais importante,  envelhecer”.

É esse o futuro que se desenha para o Brasil. A pesquisadora Ana Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), calcula que a população brasileira pode ser de aproximadamente 206 milhões de habitantes em 2050. Segundo a Pnad, hoje a população é de 203,2  milhões.

A composição desse total, porém, deve mudar de forma significativa. Nos cálculos do especialista em previdência Paulo Tafner, em 2050 o número de pessoas em idade ativa (PIA), de 15 a 59 anos, deve ser de 128 milhões,  apenas o dobro da parcela de idosos (66,5 milhões). Em 1980, essa proporção era radicalmente diferente: os  idosos (7,2 milhões) correspondiam a pouco mais de 10% da PIA de 66 milhões de pessoas, mostrou ele em apresentação no Insper.

Para Vinícius Mendes, há uma série de fatores que influenciaram na queda da taxa de fecundidade, especialmente entre a parcela mais jovem. Há 20 anos, apenas 29,8% das mulheres entre 25 e 29 anos não tinha filhos. Em 2014, essa porcentagem subiu para 40,8%.

“Mudamos de um Brasil rural para um país urbano, no qual as mulheres aumentaram o tempo de estudo e dedicam­se a estabilidade no mercado de trabalho antes de terem o primeiro filho”, afirma. A consequência é que as brasileiras estão jogando as decisões familiares cada vez mais para frente.

Para Gisele Camba, ter filhos nunca foi uma prioridade e passou a ser possibilidade remota quando ela ingressou no mercado de trabalho. “Eu era publicitária e percebi que minha chance de alcançar um  cargo alto, de diretoria, era menor porque eu era mulher. Fui embutindo que para ser bem sucedida no mercado de trabalho não poderia ter amarras familiares”.

Há uma década, Gisele decidiu trocar não só de emprego, mas de carreira, o que a levou a começar de novo. “Aos 32 anos, me vi estudando para ser quiroprata. Por questões financeiras, não cabia uma criança na minha vida. Os custos com educação, fralda, material escolar são muito altos”.

A professora do ensino infantil da rede pública Zelia Dias de Andrade também não teve filhos, embora tenha chegado a tentar engravidar há alguns anos. Ela conta que desistiu e hoje pode dedicar mais tempo para pesquisa   e estudo. Para ela, que lida cotidianamente com crianças, outra mudança social também tem influenciado na decisão de ter filhos. As avós hoje estão no mercado de trabalho e dificilmente as mães conseguem contar com esse suporte, o que era comum há uma geração.

Como o número de aposentados dependentes de adultos em idade ativa só deve aumentar­ o fim do tão falado bônus demográfico ­, toda a política pública precisa ser repensada, avalia José Ronaldo Souza Júnior,    pesquisador do Ipea. O país terá que gastar mais com aposentadorias e saúde e menos com educação, diante do menor número de crianças. “Engessar a política pública como estamos fazendo é um tiro no pé”, afirma, referindo­ se a regras de despesa mínima com esses serviços.

A Previdência é o problema mais premente, avaliam os especialistas. Pelas regras atuais de aposentadoria, essa despesa, que era de 7,2% do PIB em 2010, pode alcançar 12,2% do PIB em 2050, segundo cálculos de Paulo Tafner. Estimativas do Credit Suisse indicam que o aumento da população com mais de 65 anos de idade pode levar o déficit da Previdência a 5,5% do PIB em uma década, alta de mais de três pontos do  PIB.

Vinícius Mendes lembra que o país ainda não sabe como vai lidar com questões como o custo elevado dos tratamentos médicos associados à velhice. Por outro lado, os gastos em educação vão mudar. “O gasto per capita em educação poderá subir sem elevar a despesa total. A grande questão é transformar esse bônus em  qualidade”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s