Bate bola

Neymar, Rawls e Nozick

08/08/2017 – hélio schwartsman

 

Fora os 222 milhões de euros que o Paris Saint-German gastou para comprar Neymar, o clube ainda vai pagar ao jogador 30 milhões de euros por temporada, o que dá 2,5 milhões de euros por mês. Em reais, isso dá 9,3 milhões. É justo?

Um dos mais estimulantes debates filosóficos das últimas décadas é o que opõe John Rawls a Robert Nozick na questão da justiça distributiva.

Não sei se Rawls era fã de futebol, mas ele provavelmente não aprovaria um salário dessa magnitude para o craque brasileiro. Sua tese é radical. O filósofo norte-americano põe em dúvida a própria noção de mérito. Para ele, talentos naturais, assim como a beleza ou a inteligência, constituem uma espécie de prêmio indevido, já que são o resultado de uma combinação da loteria genética com outras forças do acaso, e não de virtudes individuais.

Nesse contexto, nascer com aptidão para jogar bola e não estragá-la com noitadas e surtos de preguiça não é essencialmente “mais justo” do que os direitos de nascimento que a nobreza se autoatribuía. Para Rawls, desigualdades sociais e econômicas só se justificam à medida que sirvam para melhorar a situação de todos, incluindo necessariamente os mais desfavorecidos. Esse é o famoso princípio da diferença.

Nozick discordou, brandindo o princípio da justa titularidade. Para ele, cada um de nós tem autoridade soberana sobre si mesmo, seu corpo, habilidades e os frutos de seu trabalho, ainda que sejam inseparáveis da sorte. Segundo o filósofo, não devemos procurar a justiça nos resultados finais, mas em cada ação específica. Se as habilidades futebolísticas de Neymar não se originam numa fraude e se seu salário é fruto de transferências voluntárias de clubes e, em última análise, de torcedores, tentar privá-lo desses ganhos (e mesmo taxá-los) equivale a um roubo.

Nada sei das inclinações filosóficas de Neymar, mas desconfio que ele prefira Nozick a Rawls.

Texto interessante

O que é ser um humanista?

07/08/2017 – luiz felipe pondé

 

O humanismo moderno é idealismo, o antigo é realidade. Define assim Otto Maria Carpeaux (1900-1978), em seu monumental “História da Literatura Ocidental” (ed.LeYa/Livraria Cultura), a diferença entre o que seria o humanismo antigo e o moderno. E qual a importância disso, para além do “mero” repertório clássico?

Antes de tudo, o fato de que, em vez de a crítica literária ficar discutindo a relação entre literatura, banheiros e gênero, ou aquela entre literatura, classe e raça, ela deveria estudar mais gente como Otto Maria Carpeaux.

Sem nunca atuar de fato na academia e mantendo-se “fiel” à mídia impressa, ele já demonstrava que, muitas vezes, é o mundo “comum” que acolhe melhor o pensamento mais relevante.

A diferença que Carpeaux estabelece pode nos ajudar a entender o lugar que ocupam uma verdadeira empatia intelectual para com o sofrimento humano e suas produções culturais (entendido, grosso modo, como humanismo). O que é ser um humanista?

Do ponto de vista recente, parecem-me existir dois tipos básicos de humanismo. Por “recente”, quero dizer o “moderno” ao qual se refere Carpeaux. Seguindo a intuição do grande crítico, eu arriscaria dizer que há um primeiro, mais associado à vocação realizadora burguesa, e um segundo, mais ligado ao que costumamos classificar de “esquerda”.

Ambos idealistas, ainda que aparentemente opostos -só aparentemente, em parte.

A semelhança dos dois está exatamente na natureza idealista de ambos. “Idealista” aqui significa, em primeiro lugar, crer numa ideia de humano que não existe; em segundo lugar, imaginar que esse humano tem as rédeas do destino em suas mãos, seja pela gestão técnica dos processos que caracterizam a vida (engenharia, ciência), como no humanismo burguês, seja pela crença na capacidade política e social de criar “um novo humano”, como no humanismo típico da “esquerda progressista”.

O idealismo de ambos é traído pela vocação mútua à crença na perfectibilidade do homem.

O humanismo moderno, assim, revela-se antes mais como um “projeto de homem” do que propriamente como um olhar sobre o modo de a realidade humana se produzir.

O humanismo moderno é idealista, o antigo é realista. Eis a diferença contemplada por Carpeaux.

E onde Carpeaux encontra esse humanismo antigo, vocacionado a contemplar a realidade do humano? Entre outros lugares, na tragédia ática, conhecida como tragédia grega ateniense, que floresceu entre os séculos 6 a.C. e 5 a.C.. Entre os dramaturgos, Ésquilo (525 a.C. – 456 a.C.), Sófocles (496 a.C. – 406 a.C.) e Eurípedes (480 a.C. – 406 a.C.).

No “diálogo” entre esses três fundadores do teatro ocidental, Carpeaux encontra a rota desse humanismo, de certa forma, superior ao moderno, na medida em que olha para a realidade a partir do ser humano tal como ele é, e não tal como achamos que ele deveria ser um dia.

A Atenas dessa época é uma Atenas “democrática”, em transformação. Uma Atenas em agonia, imersa numa mudança de costumes, grosso modo, num conflito entre um mundo da tradição, dos deuses, e o mundo da pólis, ou da lei humana -agonia essa tão bem representada pela personagem Antígona de Sófocles.

Ésquilo coloca em ato o combate entre o destino esmagador traçado pelo deuses e o desejo humano de libertação desse destino (“Prometeu Acorrentado”).

Sófocles desenha a beleza moral de homens e mulheres que são esmagados por esse destino, mas que tombam com dignidade (“Édipo Rei” e “Antígona”).

Por fim, Eurípedes, “tragikotatos” (“o maior de todos os poetas”) segundo Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), encontra diante de si o indivíduo sozinho, que enfrenta deuses, polis, família, emoções e obrigações sociais e perece no combate contra todos eles (“Medeia”).

A luta contra o destino, mediante o avanço da técnica, e o desastre implícito nesse avanço, a derrota diante do que é sempre maior do que nós (a cidade, a religião, a lei, as obrigações e mentiras sociais), a infinita fúria presente na vida dos afetos, impermeáveis à razão.

Enfim, o que existe exatamente de novo embaixo do sol?

 

Boa reflexão

Quando foi que os nossos supermercados se transformaram em farmácias?

joão pereira coutinho – 08/08/2017

 

Começa a ser difícil comprar comida. Não falo da Venezuela. Falo de Portugal. Da minha cidade. Do meu bairro. Do supermercado do bairro. É uma tendência que se foi agravando: no início, havia uma prateleira modesta de alimentação orgânica. Depois, vieram mais duas. Hoje, há um corredor inteiro onde também existem biscoitos sem glúten, leite sem lactose e bolos sem açúcar.

Quando foi que os nossos supermercados se transformaram em farmácias? Questionei o dono sobre o assunto. Resposta dele? É a demanda, estúpido!

Admito que sim. E admito que existam razões de saúde que expliquem a medicalização da comida. Mas pergunto: será que a minha cidade foi tomada de assalto por uma população doente? Ou existe aqui um fenômeno social que suplanta as maleitas da carcaça?

Elizabeth Currid-Halkett responde à pergunta. Li o seu “The Sum of Small Things” (a soma das pequenas coisas), um tratado sobre a nova elite dominante. Essa elite tem nome: “classe aspiracional”.

Conta a autora que, nos Estados Unidos, essa elite já não perde tempo com a ostentação material do passado (o “consumo conspícuo” de que falava Veblen). Isso é coisa de classe média arrivista que ainda precisa de roupas de grife ou carros absurdamente caros (e vulgares) para fins de afirmação social.

A nova elite prefere o “consumo discreto”, ou seja, o consumo daquilo que não se vê.

A educação é o melhor exemplo: um curso em Princeton é tão caro como mil brinquedos de luxo; mas é mais exclusivo –cultural e até espiritualmente falando. O luxo se democratizou; Princeton ainda não.

O mesmo vale para seguros de saúde (exorbitantes) ou planos de aposentadoria (idem): investimentos “invisíveis” que podem não trazer a “gratificação instantânea” de outros padrões de consumo; mas que garantem melhor saúde e melhor velhice.

E quando é preciso comprar realmente “coisas” (o horror! o horror!), a “classe aspiracional” segue o mesmo padrão. Só arrivistas compram Ferrari. A verdadeira elite compra “com consciência” (um eufemismo para carros elétricos, por exemplo). Só arrivistas compram mansões com piscina e “court de ténis”. A verdadeira elite prefere o apartamento na cidade, de preferência perto do trabalho, porque a cidade é o espaço insubstituível para cultivar e expandir o “capital cultural”.

E, na hora do jantar, a abundância perde para a distinção: comer bem é mais importante do que comer muito. Moral da história?

A professora Currid-Halkett está alarmada. Segundo ela, a desigualdade criada pela “classe aspiracional” é muito mais difícil de suplantar do que as tradicionais desigualdades materiais. Entendo o alarmismo. Mas uma forma de não ceder a ele seria ler um autor que, sintomaticamente, está ausente da obra. Falo de Norbert Elias e do clássico “O Processo Civilizatório”.

Conta Elias que o nosso mundo não nasceu em 1789. Nasceu nos alvores do século 16, com o colapso da sociedade feudal e a quebra da unidade cristã. A emancipação do “indivíduo” foi, essencialmente, a entrada do indivíduo na “sociedade civilizada”.

No século 16, tal como no nosso século 21, havia guias para tudo: como falar; como olhar; como vestir; como comer; como viajar –verdadeiros manuais de autoajuda para que a aristocracia da província se aproximasse do requinte da corte. Esse mimetismo continuou no século 17, sobretudo entre uma burguesia que tinha excesso de dinheiro e deficit de maneiras.

O processo civilizatório, explica Elias, nunca mais parou na sua dinâmica ascensional: as classes médias imitam as classes altas; e as classes altas, sempre em busca de comportamentos ou símbolos distintivos, lançam novas modas –”ad infinitum”.

Hoje, a “classe aspiracional” pode simbolizar o pináculo da sociedade. E os seus requintes podem parecer tão inatingíveis como os códigos da nobreza cortesã no século 16.

Mas o processo civilizatório não para: a massificação do ensino universitário vai continuar; o medo da doença vai pesar cada vez mais nos orçamentos das famílias; e, em matéria gastronômica, o modesto supermercado aqui do bairro já caminha rumo ao futuro.

Minha secreta esperança é que a elite, novamente copiada pelas massas, altere seus hábitos e retorne ao passado transgressivo. Uma vida sem glúten, sem lactose e sem açúcar não dá.

P.S. O colunista sairá em férias e regressa em 5 de setembro.

A Importância da Psicoterapia II

Falar sobre terapia é tabu nas empresas

Por Jacílio Saraiva – 31/07/2017

 

Falar que faz terapia ainda é um tabu no meio corporativo. Pelo menos quatro executivos de alta gerência adeptos da prática e procurados pelo Valor preferiram não comentar o assunto. “Há uma certa idealização do mundo das grandes empresas, em que prevalece uma imagem de suposta fortaleza, como um universo habitado somente por seres à toda prova”, explica o psicanalista Francisco de Holanda Marques Jr. “Portanto, qualquer sinal de vulnerabilidade não parece ser bem visto.”

O executivo Maurício De Lázzari Barbosa, CEO da Bionexo, que investe na psicanálise há mais de dez anos, afirma que os que não conhecem a atividade acham que é destinada para quem sofre de alguma psicopatia- e por isso, o silêncio da maioria sobre o tema. “Na verdade, o analista vai apenas ‘dar um espelho’ para você se conhecer melhor”, assegura.

Sócrates Melo, gerente da companhia de recursos humanos Randstad Professionals, afirma que há situações em que os gestores não conseguem conversar com superiores, subordinados ou mesmo com a família sobre as inseguranças que estão vivendo no escritório. “Para eles, se expor pode causar problemas ainda maiores”, afirma. “Em função disso, uma terapia funciona como um suporte para se manterem firmes e seguirem comprometidos com as suas responsabilidades. O simples fato de poder falar, sem medo de julgamentos, já ajuda.”

Há um preconceito sobre o tema pelo receio de se prejudicar na empresa por estar buscando ajuda, diz a psicóloga Maria Tereza Giordan Goés. “Os executivos temem o rótulo de ‘fracos’ ou ‘despreparados'”, afirma. “Ao mesmo tempo, não percebem que o trabalho é um dos aspectos da vida assim como o cuidado com a saúde, a família e o lazer.”

“Evito falar, no meio profissional, há quanto tempo faço análise”, diz uma executiva, que prefere não se identificar. Ela já liderou equipes com mais de 40 funcionários, ocupa cargos de direção há 15 anos e recorre ao terapeuta há mais de dez. “Muitos não entendem que se trata de um projeto de longo prazo e tacham você de ‘mal-resolvida'”, justifica. “Para mim, a análise é como fazer um MBA da alma.” Hoje, por conta de uma nova colocação profissional, ela dedica 70% do tempo da sessão a assuntos corporativos.

Para o psicanalista Bernardo Tanis, presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), é comum perguntar no consultório se o indivíduo consegue diferenciar a “pessoa física” da “jurídica”. “Não é fácil discriminar os diferentes papéis que temos”, diz. “É inegável que, em tempos de vacas magras, as pressões são maiores. Fusões, redução de custos e cortes de pessoal são palavras de ordem nesse cenário.” Muitas vezes, o que a direção da companhia considera necessário em termos de resultados não é compatível com as nossas convicções pessoais, explica.

Para quem planeja experimentar algum tipo de terapia, a orientação é fazer um teste, aconselha Marcos Scalabrin, head de inteligência analítica da Tereos e fã de análise há anos. “Procure um profissional sério e vá aberto a novas experiências”, diz ele, que adotou o recurso em uma situação limite, quando estava preocupado com o trabalho e não dormia bem. “A sensação de alívio depois de uma boa sessão é libertadora e nos ajuda a aproveitar melhor a vida.”

A Importância da Psicoterapia I

Executivos no divã buscam equilíbrio para lidar com a crise

Por Jacílio Saraiva – 31/07/2017

 

As manhãs de sexta-feira são sagradas para Marcos Scalabrin, head de inteligência analítica da Tereos, multinacional do setor de agronegócio. O executivo chega ao escritório mais cedo e liga o Skype. Nos próximos 60 minutos, vai se dedicar à uma sessão de análise, feita via computador desde que se mudou de São Paulo para o interior do Estado, por conta do trabalho. Adepto da terapia há dez anos, com alguns períodos de interrupção devido à rotina dos negócios, ele retomou a atividade com mais ênfase há cinco. “Passei por uma fase de conflitos com um antigo chefe, em outro emprego, e resolvi buscar ajuda”, diz.

A falta de sintonia com a direção era tão grande que Scalabrin precisou trocar de unidade. Com o acompanhamento, se sentiu mais aliviado e recebeu até prêmios de produtividade na nova posição. “O que parecia ser um problema acabou me ajudando a ganhar mais autoestima e lidar melhor com a hierarquia no trabalho”, diz o executivo, há quase um ano na Tereos. “Aprendi a ser mais assertivo e a expressar, com rapidez, o que estou sentindo.” Há seis meses, foi convidado para dirigir uma nova área da companhia, criada no início do ano.

Scalabrin faz parte do número crescente de executivos de alto escalão que procura a terapia para reduzir o estresse, aumentar a eficiência ou simplesmente contar com um apoio extra no dia a dia do escritório. A crise econômica, a reorganização dos quadros em grandes grupos e o aumento da pressão por resultados também são motivos apontados por quem busca apoio nos consultórios. Profissionais de psicanálise ouvidos pelo Valor identificam uma alta de até 30% ao ano desde 2014 no volume de consultas, somente entre gestores corporativos.

A crise influenciou esse crescimento, afirma o psicanalista Bernardo Tanis, presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). “Vivemos em um mundo regulado por metas e performance. Os altos bônus e as remunerações estão vinculados a isso”, diz. “O contexto de crise torna evidente a vulnerabilidade de todos. E quem criou para si mesmo uma ‘blindagem’, de que não seria afetado pela recessão, surpreendeu-se com uma nova realidade para a qual não estava preparado.”

Há, ainda, um maior interesse por ajuda antes de realizar ajustes financeiros na vida pessoal e no trabalho, segundo o psicoterapeuta Luiz Fernando Garcia, autor do livro “Empresários no divã: como Freud, Jung e Lacan podem ajudar sua empresa a deslanchar” (Editora Gente). Do total de pacientes que Garcia atende, 60% são executivos de alta liderança. Em 2014, essa participação variava de 30% a 40%. “Com os juros altos e a escassez de fomento, o dinheiro não circula e leva o indivíduo a atuar em um novo contexto””, diz o especialista, que trabalha com psicoterapia voltada para resultados.

No consultório de Garcia, os temas que mais preocupam os líderes são o enxugamento de posições para reduzir custos e as adaptações a cargos multifunção. “Eles são exigidos a desempenhar mais e a acumular responsabilidades.” Também reclamam que precisam entregar produtividade com menos pessoal, como nunca fizeram antes.

Para Maurício De Lázzari Barbosa, CEO da Bionexo, do setor de compras eletrônicas hospitalares, a terapia o auxilia em questões pessoais que, por consequência, refletem na rotina corporativa. “É um recurso valioso para se enxergar como pessoa e exercer melhor a sua vida”, afirma o executivo, adepto da psicanálise há 14 anos. “Com o tempo, os bons resultados também vão aparecer no trabalho.”

Segundo ele, apenas de 5% a 10% de suas sessões são reservados para assuntos ligados ao escritório. “Não recomendaria a terapia para quem só deseja discutir aspectos profissionais.” Presente na Argentina, Colômbia, México e Espanha, a Bionexo é considerada uma pioneira do e-health (uso de tecnologias de informação no setor de saúde) no Brasil.

Recentemente, recebeu um novo sócio, o executivo Marcelo Halleck, ex-BTG Pactual. “Até para resolver assuntos ligados às questões sucessórias é importante estar equilibrado emocionalmente”, diz Barbosa.

Para a psicóloga Maria Tereza Giordan Goés, que atende pelo Zenklub, plataforma on-line que oferece sessões de terapia, ao cuidar do “mundo interno” e aprender a enxergar as necessidades cotidianas, o profissional estará pronto também para lidar melhor com a urgência por resultados no trabalho. “Ele estará mais fortalecido diante do que será exigido”, explica. “A terapia é uma oportunidade para mudanças, sem culpa e com mais coragem para enfrentar os riscos.”

De acordo com o médico Rui Brandão, idealizador e CEO do Zenklub, depois de sete meses de atividade, o site atende mais de 300 pessoas ao mês. Com um cadastro de cem psicólogos de 20 especialidades, o serviço já identificou uma maior demanda por questões relativas ao ambiente corporativo.

Pesquisa realizada em maio, com mil pacientes e 80 psicólogos do portal, indica que 80% do público procuram a terapia por necessidades relacionadas ao trabalho e 20% dos profissionais afirmam só ter casos ligados ao tema. A maioria dos atendimentos, que crescem em volume a uma taxa de 30% ao mês, é para pessoas entre 25 e 45 anos de idade. Sessenta por cento das consultas são solicitadas por mulheres.

“É natural que, em momentos de incertezas, como os que o Brasil passa agora, as pessoas procurem ajuda”, analisa Brandão. “Muitas tiveram de reordenar orçamentos, trabalhar por menos ou manter-se em empregos que nem sempre gostam. Isso mexe com qualquer um.”

Para o psiquiatra Marcello Finardi Peixoto, além das terapias, é importante também orientar como ter uma melhor qualidade de vida. O especialista, cuja carteira de pacientes tem 60% de executivos, observa um aumento de 30% do interesse desse público, ao ano, desde 2014. “Deve-se reaprender a dormir, comer e se exercitar. São funções vitais que acabam negligenciadas pela dedicação ao trabalho”, diz. “Os gestores acreditam que perdem tempo cuidando de si próprios quando, na verdade, estão ganhando, ao se tornarem mais saudáveis e produtivos.”

Pode isso Arnaldo?

Mãe reclama de indisciplina e abandona filhos adotivos em escola de Maringá

Publicado: 3, agosto 2017 – Narley Resende

 

Uma mulher, que trabalha como cuidadora de idosos, abandonou os dois filhos adotivos, na manhã de quarta-feira (2), em uma escola pública de Maringá, no Noroeste do Paraná. Ela teria alegado que as crianças eram “indisciplinadas” e que não queria mais cuidar delas, por não conseguir controlá-las.

O Conselho Tutelar da Zona Norte de Maringá acolheu as crianças após ser acionado pela escola. A menina de 9 anos e o menino de 8 foram encaminhados a um abrigo.

“A escola evidenciou maus tratos e fez o contato e dizendo que tinham crianças muito sujas. A orientadora disse que as crianças tinham faltado uma semana de aula e quando voltaram cheias de piolhos e marcas de maus tratos”, conta a conselheira tutelar Ivanete Tramarin Ittarelli.

De acordo com a Secretaria Municipal da Educação, o caso já havia sido notificado ao Conselho Tutelar quando professores perceberam comportamentos “estranhos” da mãe das crianças.

“Pode levar, elas já são adotadas mesmo”

A mãe disse à conselheira tutelar que não tinha condições de cuidar das crianças e que não queria mais buscá-las na escola. “A orientadora primeiro entrou em contato com a mãe e ela disse que não queria mais pegar as crianças, que não tinha condições de pegar elas. Entrei em contato também e ela disse que realmente não tinha condições. Ela disse ‘pode levar, eles já são adotados mesmo’”, relata a conselheira.

“Questionei o que eram aquelas marcas. Ela disse ‘bato mesmo’. E a menina me mostrou uma marca e me disse ‘foi a mãe que me deu uma paulada’”, conta.

As crianças são filhas biológicas da irmã da mulher. “Ela tem uma irmã que é usuária de drogas e moradora de rua. Elas foram adotadas legalmente. A certidão de nascimento já traz o nome da mãe adotiva”, afirma Ivanete.

Um boletim de ocorrência foi registrado na Delegacia de Maringá por abandono de incapaz e maus-tratos.

Segundo o conselho, as crianças tinham marcas de agressões e teriam confirmado que apanhavam. O menino tinha uma marca de paulada nas costas. A assessoria da Polícia Civil informou que não vai se manifestar sobre o caso.

A Prefeitura de Maringá informou que o Conselho Tutelar já havia pedido a transferência das crianças para o ensino integral, após a mãe demonstrar que não tinha condições de morar sozinha com elas. Também foi solicitado apoio psicológico à família, no Centro Municipal de Apoio Especializado Interdisciplinar (Cemae). “A instrução da Secretaria é que os professores e diretores fiquem atentos”, diz a assessoria da prefeitura.

Em menos de 24 horas após o abandono das crianças na escola, algumas famílias procuraram o Conselho para manifestar interesse na adoção dos irmãos. Apesar disso, um novo processo de adoção deve ser aberto na Justiça e os interessados devem se cadastrar na Vara da Infância e Juventude de Maringá.

Como a mulher trabalha como cuidadora de idosos, a Secretaria de Assistência Social pode ser notificada. As crianças devem passar por exames no Instituto Médico Legal (IML) para registrar as agressões.

Outro caso

Em maio deste ano, uma mulher de 31 anos deixou a filha de seis anos na Escola Municipal Zuleide Portes, no Jardim Alvorada, em Maringá. Na ocasião, ela disse para a diretora que não buscaria mais a criança. O caso foi repassado ao Conselho Tutelar, que encaminhou a menina, com sinais de que havia sido agredida, para um abrigo.

Conforme o Conselho Tutelar, a mulher estava frequentando o Cemae, onde recebia apoio psicológico e já havia verbalizado rejeição a lha. “Como a família por parte de mãe também não quer car com a criança, posteriormente ela deve ser encaminhada para adoção”, explicou o conselheiro Carlos Bonm ao site O Diário de Maringá.

 

Vale a leitura

Gestão personalizada reforça governança

Por Soraia Duarte – 31/07/2017

 

O patrimônio líquido dos fundos exclusivos – fundos de investimento que contam com apenas um cotista – somava R$ 590,4 bilhões em junho, representando cerca de 16% da indústria de fundos do país, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Comparado ao mesmo mês do ano anterior, o crescimento foi de 11,3%, enquanto o total da indústria variou 18,9%.

Fundos exclusivos abrangem todas as classes de fundos, desde renda fixa até previdência. “Todos os tipos de fundos podem ser exclusivos”, explica Marina Procknor, sócia do Mattos Filho.

Embora remeta à ideia de muitos cotistas, Marina reforça que toda a regulamentação sempre aceitou que os fundos fossem montados para atender um único investidor. “É um veículo muito utilizado por family offices e estrangeiros que querem fazer investimentos no Brasil.”

Dentre as diferentes classes de fundos, a que apresentou maior crescimento nos últimos doze meses foram os fundos de previdência, seguidos dos multimercados. “A poupança de longo prazo começou a migrar de ativos mais líquidos para esses fundos”, avalia Vitor Suzaki – analista da Lerosa Investimentos.

Os fundos de previdência, explica Marc Forster, CEO da Western Asset, possuem como cotistas as próprias seguradoras. “É uma característica da previdência aberta no Brasil”, comenta. “Ainda que o investidor tenha solicitado ser o único cliente, a fase de acumulação é sempre feita por intermédio de uma seguradora”.

Já em relação aos multimercados, o crescimento é explicado pela busca de maiores retornos. “Com o cenário de queda de juros, o investidor opta por buscar rentabilidade, expondo-se a ativos de maior risco”, diz. “Como os fundos multimercados permitem diversificar as carteiras, acabam atraindo mais investidores em momentos como o atual.”

O que faz um investidor optar por um fundo exclusivo? Suzaki, da Lerosa Investimentos, destaca a gestão personalizada. “O investidor designa o gestor, limites operacionais, classe de ativos e perfil que quer que a carteira siga”, explica. Marina, do Mattos Filho, reforça que delegar os recursos a uma gestão profissionalizada “é uma forma de organizar investimentos com governança e transparência”.

Contudo, é um tipo de investimento para altos volumes de patrimônio, em virtude dos custos a que está sujeito. Por se tratar de um fundo de investimento como os demais, as despesas que recaem sobre os outros também são aplicadas nos exclusivos. A principal delas é a taxa de administração, que pode ser negociada de acordo com o volume do patrimônio. Forster, da Western Asset, cita como exemplo um fundo DI Varejo. Uma taxa de 1% sobre o patrimônio de mil reais é cara. Porém, se o volume chegar a R$ 300 milhões, o cotista provavelmente terá acesso a uma taxa menor que 1%. O cuidado a ser tomado, alerta, são os custos que independem do patrimônio. Como não há outros cotistas para que as despesas sejam compartilhadas, a exemplo dos custos fixos como os de fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Anbima. Se o fundo operar com títulos privados, terá de arcar com as taxas da Cetip. Com ações ou derivativos, com as taxas da B3. “Quanto maior o patrimônio, menos os custos irão penalizar a rentabilidade”, diz. “Mas é preciso avaliar se o custo fixo não irá onerar demais a estrutura”.

Os fundos exclusivos, conta Forster, surgiram na década de 90, impulsionados pela CPMF. “Dentro das carteiras de fundos não havia incidência do imposto sobre movimentações financeiras”, explica. Suzaki, da Lerosa Investimentos, observa que no fundo exclusivo não se paga imposto de renda pelas movimentações realizadas dentro da carteira. Assim, é possível migrar de um ativo para outro sem que haja incidência de impostos ou custos adicionais.