Juízes fora de controle

Entre a moralidade e o caos

hélio schwartsman – 12/01/2018

 

Perdoem-me por dizê-lo, mas, se juízes querem agir como revolucionários ou grandes reformadores, escolheram a profissão errada. Deveriam ter abraçado a guerrilha ou, ao menos, a política.

Gostemos ou não, o Judiciário foi concebido para ser o mais conservador dos Poderes da República. Sua missão institucional não é a de promover mudanças sociais, mas sim de dar segurança jurídica, isto é, um horizonte de previsibilidade aos diversos agentes sociais. Juízes mais do que quaisquer outros atores deveriam ter alergia a provocar grandes guinadas. Esse papel, que é importantíssimo, cabe a políticos e a movimentos da própria sociedade.

Até acho que existe espaço para o chamado ativismo judicial, mas ele deve limitar-se à ampliação de direitos individuais já contidos em princípios gerais enunciados na Carta que o Parlamento, por alguma razão, não consegue atualizar. Um bom teste prático é olhar para direitos que já tenham sido consolidados num bom número de democracias mais maduras, como a despenalização do consumo de drogas e do aborto. Em casos assim, creio que as cortes podem “inovar”, optando pela autocontenção nas demais situações.

Parece-me especialmente contraproducente quando tribunais “inovam” ao tomar decisões sobre o processo político, por mais nobres que pareçam seus motivos. Infelizmente, é o que vem acontecendo numa escala cada vez mais preocupante. Juízes já não hesitam em inventar e desinventar regras para prender políticos e afastá-los de seus cargos e começaram a palpitar até na nomeação de ministros, antigamente uma atribuição do Executivo.

É verdade que o artigo 37 da Constituição diz que todos os atos da administração pública devem ser pautados pela moralidade. Mas existem quase 20 mil juízes no país. Se cada um deles se sentir livre para impor a sua concepção de moralidade, teremos o caos e não a moralidade.

 

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A bancada da rúcula

Proibir carne em certos dias da semana só pode ser ideia de fascista

luiz felipe pondé – 15/01/2018

 

Muitas vezes você deve ter se perguntado para que serve um deputado estadual no Brasil. Uma resposta que deve vir à sua mente é: para nada. Mas, você pode, infelizmente, estar errado.

Para além da inutilidade estrutural de grande parte dos políticos no Brasil, a organização política do Brasil determina a quase inutilidade dos deputados estaduais porque tudo é decidido em Brasília.

Como disse um amigo meu, se você cometer um crime no Brasil e se esconder na Assembleia Legislativa estadual, provavelmente, o crime prescreverá, porque quase ninguém vai lá.

As coisas sempre podem piorar: alguns entre os muitos inúteis podem resolver “legislar” e aí, a emenda sai pior do que o soneto. Inúteis são menos perigosos quando ficam quietos.

Por incrível que pareça, alguém parece estar tentando proibir restaurantes e bares de vender produtos de carne às segundas-feiras no Estado de São Paulo, em nome da defesa animal.

Temos em Brasília as bancadas da bala, da Bíblia, do boi, e agora, em São Paulo, temos a bancada da rúcula. Para essa bancada, a humanidade de sete bilhões de Sapiens pode sim se alimentar de rúcula com alface, apesar de toda a história da seleção natural dizer o contrário.

Tudo bem, modas são modas, e vivemos uma era de modas ridículas, principalmente entre jovens riquinhos. Veganos de todos os tipos, seguindo o guru Peter Singer e seu “Animal Liberation” de 1975, afirmam que comer animais é “especismo”. O termo é cunhado como analogia a “racismo”. Bicho também é gente.

Partilho da sensibilidade de cuidado com os animais e desconfio de quem maltrata animais. Mas, como seres naturais que somos, precisamos nos alimentar.

Não existe a natureza que os veganos imaginam em suas vidinhas protegidas e cheias de pequenos luxos alimentares presentes em restaurantes descoladinhos. A natureza é uma besta fera que devora tudo.

Câncer é tão natural quanto uma praia maravilhosa e deserta. Entrega um vegano desses pra besta fera que é a natureza e você verá o que acontece: os vermes carnívoros comerão os veganos, assim como comerão os frequentadores de churrascarias. A riqueza material corre o risco de deixar todo mundo abestalhado.

Afora o fato evidente de que as pessoas podem gostar ou não de carne, sentir-se bem comendo carne ou não, ter nojo ou não (e ninguém deve se meter nessa questão de gosto pessoal), a ideia de transformar em lei algo assim (proibir as pessoas de comer carne em locais públicos num dia da semana) só pode passar pela cabeça de algum fascista verde radical. Ou de alguém financiado por algum grupo de interesse em “dinheiro verde”. Ou de um neoidiota contra a carne.

Se leis assim passarem um dia, teremos chegado ao fundo do poço de uma tendência contemporânea que é o fascismo de butique.

O que é fascismo de butique? É gente que transforma suas pequenas manias em pautas universais, do tipo: “A humanidade tem que viver como eu acho que ela deve viver”.

Jovens que vêm de boas famílias, normalmente, compõem o grosso desse fenômeno. Na Europa, como bem dizia o sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017), esse tipo de jovem é produto do Estado de bem-estar social, mas no Brasil e nos EUA são frutos de pais com razoável grana que pagam escolas caras que abraçam árvores.

Eduque seu filho para ser uma “pessoa com outra qualidade de consciência” e terá um idiota pra sempre a ser sustentado em suas manias narcísicas de comportamento “puro”. Nunca se prepararam tão mal os jovens para a vida real como nos últimos anos. Jovens assim não enfrentariam desafios, dos Neandertais a Hitler.

Faça um teste consigo mesmo: se você achar que sabe como as pessoas deviam viver para serem melhores, a chance de você ser um fascista de butique é enorme.

Enfim: alguém quer proibir você de comer um churrasquinho na segunda-feira. Quer ir jantar à noite? Estaria a fim de comer um steak com molho poivre e fritas? A Assembleia Legislativa de São Paulo, do alto da sua infinita utilidade, quer proibir.

A bancada da rúcula vai obrigar a você a comer o que ela quer que você coma.

 

Vidas secas

E se nos adaptamos a mesclar trabalho e sacanagem desde o paleolítico?

luiz felipe pondé – 08/01/2018

 

As pautas progressistas têm se revelado um pouco ridículas, não? Não que eu ache que as pautas conservadoras estejam muito melhores (tipo perseguir exposições irrelevantes com gente pelada se chupando).

Temo que a própria oposição “progressista x conservador” tenha chegado ao seu ocaso e, com isso, aqueles que a defendem de forma radical (refiro-me à oposição descrita acima) tendem a se tornar fundamentalistas.

Parafraseando a máxima “a virtude está no meio”, eu diria que a “virtude está na ambivalência”. E toda ambivalência é insuportável para fundamentalistas. O Sapiens é ambivalente e, quando “exagera no mal”, degenera, assim como também quando “exagera no bem”. E ambivalência e maturidade são primas irmãs.

A virtude mais rara no debate público contemporâneo é alguma dose mínima de maturidade. E as redes sociais só pioram: em termos de debates de ideias, as redes sociais só pioraram o mundo. O debate nas redes sociais é coisa de gente boba.

Exemplos abundam. Sei que tem gente por ai defendendo que a Terra é chapada (chapados devem ser esses defensores da Terra plana).

Mas as idiotices não param por aí. Adentram o terreno do “debate qualificado e acadêmico”. E isso é o pior: a universidade, além de irrelevante, vai se tornando, aos poucos, um celeiro que faria inveja ao fundamentalismo islâmico em termos de ódio e intolerância.

A única saída para a universidade é abandonar a intenção de salvar o mundo. As ciências humanas devem desistir de mudar o mundo. Conhecê-lo já é difícil o suficiente.

Os racistas progressistas (a moçada que defende o apartheid sexual como forma de combate ao racismo… Risadas?) repetem o caminho das feministas radicais no seu ódio ao sexo.

O que está por trás do mimimi sobre “miscigenação é genocídio” é o ódio ao sexo. É o ódio à ideia de que negros podem gozar dentro de brancas, e estas adorarem, ou a ideia de que negras podem ficar molhadinhas e com água na boca sonhando em dar para o colega branco. Ou vice-versa.

É o mesmo ódio que o feminismo radical dedica ao homem heterossexual. “Todo ato (hetero)sexual é uma forma de estupro” não quer dizer outra coisa. A obsessão por assédio sexual acabará com as relações entre homens e mulheres em poucos anos. E entre gays também. O ódio é o afeto hegemônico no mundo contemporâneo.

E essa gente se diz “progressista”. E se a espécie estiver adaptada a misturar sobrevivência, gozo, trabalho e sacanagem desde o Paleolítico?

Acho que Freud nunca foi tão atual em seu diagnóstico acerca do medo histérico do sexo. O Freud “insuportável” foi deixado de lado pela esquerda inteligentinha.

A esquerda deveria se manter naquilo que ela fez de melhor até hoje: ficar atenta aos danos que a sociedade de mercado causa nas pessoas. Diagnóstico este sintetizado nos conceitos de mercadoria e instrumentalização —e largar mão dessas taras sexuais.

E se o desejo sexual morrer quando se tornar “correto”? Não duvido que seja exatamente a intenção desses raivosos contra o gozo alheio. Querem mesmo é fazer de todos os humanos seres castrados no gozo. Não é muito diferente de quem acha que pessoas que gostam de gozar dentro de pessoas do mesmo sexo sejam doentes.

Mas o ridículo vai mais longe. E quem acha que parando de consumir qualquer “matéria animal” está salvando o mundo? Os jovens mais puritanos, fundamentalistas e intolerantes são os que pensam assim. O veganismo é uma forma de fundamentalismo que carrega rúculas ao invés de bombas.

O horror ao sangue é semelhante ao horror ao sêmen ou à mulher molhadinha de tesão querendo “dar”. Um dos piores danos aos jovens está sendo realizado nessas escolas que “educam para a paz”. O jovem que abraça árvore hoje é o mesmo que não conseguirá abraçar ninguém amanhã.

As taras sexuais da “esquerda de campus” —a esquerda inventada nos campi universitários americanos que tem horror a sangue, sêmen e mulheres molhadinhas de tesão— terá como grande “ganho” o fortalecimento das correntes reacionárias. O século 21 será um terreno baldio de bobos e raivosos regados a algoritmos.

“Uma batalha sem fim cujo sucesso não é garantido”

Quem ainda crê que ser ateu implica querer comer criancinhas?

luiz felipe pondé – 01/01/2018

 

O tema do ateísmo me interessa pouco. Tampouco me interessam as entediantes “provas” da existência de Deus. Grande parte dos ateus que conheço é chata e sofre de dois dos seguintes sintomas:

O primeiro é a raiva de Deus. Evidentemente, trata-se de “daddy issues” (problemas com papai). A fúria com a qual alguns ateus se movem trai seu ressentimento escondido.

O segundo é a tentativa, risível, de atestar que, apesar de ateus, são bons cidadãos. Se o primeiro sintoma revela um traço de insegurança, este aqui trai seu ridículo.

Quem ainda crê, pelo amor de Deus, que ser ateu implica querer comer criancinhas?

Sei. Você me dirá que existem pessoas que, sim, pensam que ateus “matam mais”. Você tem razão em dizer isso, mas quem pensa assim é tão risível quanto um ateu que quer provar seu compromisso com “um mundo melhor”.

Ateus assim, quando possuem mais repertório, além de sua referência “discovery”, buscam o filósofo alemão Immanuel Kant (1724 – 1804) como lastro: o bem é racional, não religioso. Logo, posso ser ateu e ser ético.
Verdade evidente, mas só quem tem uma percepção infantil do comportamento humano se esconde atrás de um enunciado filosófico como garantia de sua própria sanidade.

O ateísmo é a forma mais simples de filosofia. Ainda mais quando se afirma que “Deus é amor”. O mundo é mau, logo, se “Deus é amor”, ele não existe. Esse argumento em filosofia é conhecido como “argumento a partir do mal” contra a existência de Deus. A fé é infinitamente mais complexa do que a descrença. Dizer que religião é uma bengala é coisa de iniciantes em matéria de religião.

Mas é possível ser ateu e ter espiritualidade? Sei. Você dirá que evidentemente sim porque ateus podem ser pessoas “legais”. Pessoais “legais” não merecem confiança, direi eu em resposta a você. Isso se você supuser que pessoas “espiritualizadas” são pessoas legais. Eu não tenho tanta certeza, principalmente agora que você pode ser “espiritualizado” graças ao Face.

Independentemente dessas questões risíveis, creio, sim, ser possível um ateu ter vida espiritual, claro, se você não associar “vida espiritual” a vida religiosa institucional.

A questão que normalmente soa estranha é que a espiritualidade parece nos levar diretamente a Deus ou similares. Mas isso não é, necessariamente, uma verdade evidente.

O darwinista Edward O. Wilson, no seu livro “The Meaning of Human Existence” (o significado da existência humana), da editora W. W. Norton & Company, de 2014, defende que existe, sim, uma espiritualidade ateia e esta está intimamente associada à indagação acerca do significado último da existência humana.

A indagação está presente, principalmente, em momentos em que o significado parece desaparecer, como no momento de grandes perdas na vida. Não é à toa que a sociologia da religião mostra que conversões espirituais ocorrem, majoritariamente, em momentos de grandes perdas na vida.

O fato é que a espiritualidade, em geral, lida diretamente com indagações como essa. As religiões respondem a questões como essa, costumeiramente, oferecendo práticas (leituras, rituais, liturgias e narrativas cosmológicas) que respondem à indagação acerca do sentido da vida e do sofrimento. A espiritualidade estaria ligada a questões de sentido da existência, mas não, necessariamente, dependentes de crenças em divindades.

Para Wilson, quando um ateu se indaga acerca do sentido último da existência, ele está pensando em nossa condição humana num cenário de solidão cósmica (não é à toa que tanta gente busca em ETs um “resto” religioso qualquer) e contingência absoluta.

Não há um sentido último da existência humana a não ser enfrentar essa contingência absoluta a partir dos meios (frágeis, sim) de que dispomos para enfrentar um universo que nos devora a cada minuto. Esse sentido passa pela busca de compreender (cientificamente) este universo e lidar com ele.

O darwinismo nos ensina que a existência é uma batalha sem fim cujo sucesso não é garantido. O darwinismo carrega em si uma cosmologia trágica. Enfim, arrancamos o sentido das pedras.

Museu de grandes novidades

Feminismo de hoje é tão reacionário quanto o machismo neandertal

joão pereira coutinho – 02/01/2018

 

Passei as festividades natalinas lendo Camille Paglia. Não sei se é pecado. Talvez seja. Mas que alegria –e que prazer!– ler uma feminista com atividade cerebral completa, que não se limita a defender a dignidade das mulheres –mas a dos homens também.

O título da sua coletânea de ensaios –”Free Women, Free Men: Sex, Gender, Feminism” (libertem mulheres, libertem homens: sexo, gênero e feminismo)– diz tudo: queremos uma sociedade de mulheres e homens livres –ou uma farsa infantil onde as mulheres são tratadas como espécies protegidas e os homens como selvagens inimputáveis?

O feminismo de Paglia, que provoca horrores mil nas “neofeministas”, pode parecer demasiado severo para a sensibilidade histérica dos nossos dias. Mas subscrevo esse feminismo, não apenas por razões intelectuais –mas pessoais.

Cresci entre mulheres. Vivo entre elas. E quando relembro as mulheres da minha vida todas elas parecem encarnar o ideal de Paglia. Independentes. Irônicas. Corajosas. Que, sem surpresas, sempre gostaram de partilhar o espaço com homens adultos, dignos, refinados.

Para Paglia, o novo feminismo abandonou esse imperativo de exigência para que as mulheres sejam “amazonas”, ou seja, senhoras da sua liberdade. Transformou as mulheres em seres débeis e vulneráveis, que devem ser constantemente protegidas de um mundo hostil e predatório.

Nota importante: Paglia não nega que o mundo é hostil e predatório. Sempre foi, sempre será. Ela apenas reafirma que as mulheres devem aprender a lidar com isso, não a retirar-se da arena como seres assustadiços.

Infelizmente, a voz de Camille Paglia foi abafada pela cultura da vitimização reinante. A Europa, nesse quesito, é terra devastada.

Leio na imprensa que a virada do ano em Berlim teve, pela primeira vez, uma “zona segura” para as mulheres. Em 2016, centenas foram abusadas por homens de “aparência árabe e norte-africana”. Em 2017, houve uma espécie de “resort” para as espécies femininas que se sintam ameaçadas –e com a presença permanente da Cruz Vermelha.

Pode parecer piada. Ou cenário de guerra. Não é. As autoridades do país entenderam que a melhor forma de proteger as senhoras é pela segregação social (como nos países islâmicos). Será preciso elaborar sobre a aberração?

O papel de uma sociedade política civilizada não passa pela separação dos sexos. Passa pela garantia de segurança e ordem para todos. E de punição exemplar para os criminosos, independentemente da etnia, religião ou tara privada.

Será que a única coisa que o feminismo do século 21 tem para oferecer às mulheres é uma jaula? E não será essa oferta um insulto e uma degradação das próprias mulheres?

Mas a Alemanha não é caso isolado. Na Suécia, há uma nova lei a caminho para punir a violação. O premiê Stefan Löfven fala em “reforma histórica” –e eu tremo: relações sexuais, só com “consentimento explícito”. Mas de que “consentimento” falamos? Verbal? Gestual? Só vejo uma forma de produzir uma prova de inocência irrefutável: um documento escrito.

Imagino: dois amantes, em momento de excitação. Subitamente, um deles para o andamento da dança e entrega um formulário para ser preenchido e assinado pela donzela arfante.

Dizer que isso é um dramático “turn-off” é um eufemismo. Mas não é um eufemismo declarar que uma lei dessas, mesmo na versão oral (“sim, declaro solenemente que tens a minha autorização para contatos fálico-vaginais”), é uma caricatura grotesca da intimidade entre adultos.

Será que a única coisa que o feminismo do século 21 tem para oferecer às mulheres é um papel e uma lapiseira?

Não tenho filhas. Se tivesse, Camille Paglia seria leitura obrigatória. Só para que elas aprendessem que as mulheres não são vítimas naturais de um mundo que existe para as amedrontar ou violar.

As mulheres devem ser mulheres: livres, independentes, conscientes do seu poder sexual, capazes de avaliar os riscos (e os homens) sem a mão paternalista de outras mulheres (ou de outros homens) que gostam de defender as suas “honras”.

“Defender a honra?” Precisamente. O feminismo contemporâneo é tão reacionário como o machismo neandertal: ambos tratam as mulheres com a mesma condescendência. Ambos olham para as mulheres como o “sexo fraco”.

É o eterno retorno.

Conselho não solicitado

Viver a vida sem sair do lugar

joão pereira coutinho – 05/01/2018

 

Passei a vida com gente dizendo para eu viver a vida. Esse conselho não solicitado era oferecido sempre que eu estava no meu canto, absorto e feliz, com um livro na mão. Na ideia simples dos simples, quem lê não “vive” realmente.

O que implica saber que tipo de “vida” pode ser qualificado de “vida”. Respirar o ar puro das montanhas? Passear no shopping? Conversar ininterruptamente ao celular? Ir para as redes sociais e rir alto com imagens de gatinhos que sabem como usar o controlo remoto?

Mistério. Quando escutava esses conselhos, o prazer da leitura era suspenso por uns tempos. E uma culpa absurda descia sobre a minha cabeça egoísta. Que fazia eu com um livro quando havia uma “vida” para viver?

Foram precisos anos e anos de luta contra a estupidez para perceber que o problema não estava em mim. Estava nos outros. Eles falavam da vida que não viviam —e inquietavam-se com alguém que parecia vivê-la mais intensamente, embora sem sair do lugar.

Hoje, tenho os meus compromissos profissionais. Adoro a conversa com os amigos, as viagens com a família e os momentos de absurda preguiça —na cama, no mar, até na famosa montanha.

Mas há sempre a sensação desconfortável de que não estou a viver realmente sem um livro na mão. Mesmo os sentimentos mais nobres —o amor, a compaixão, a justiça— me parecem mais reais e fortes nos romances que li do que nas experiências que vivi.

E se existe alguma consciência pesada não é pelos livros que li. É pelos livros que não li.

“Quando morrer, voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar”, escreveu Sophia de Mello Breyner. Quase subscrevo essa frase. Quando morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto dos livros. Assim soa melhor.

E quem fala em livros, fala no resto da criação humana. Rebecca Nicholson escreve no “The Guardian” um ensaio primoroso sobre as horas que desperdiçamos com séries televisivas. O verbo, claro, está errado: para Rebecca, o que uns chamam “desperdício” é na verdade uma benção dos céus.

De acordo com uma calculadora da companhia de telecomunicações AT&T, testada pela jornalista, precisamos de 9,1 dias de trabalho (com um horário de 8 horas) para assistir a todo “Mad Men”. O mesmo período é exigido por “Game of Thrones”. “Dexter”, que para mim morreu na 4ª temporada, exige 10,6 dias.

Fui espreitar. Tentei a matemática com as minhas três séries favoritas, mas confesso que não as encontrei. De lapiseira na mão, fiz então os meus cálculos.

“Seinfeld”, a mais brilhante comédia da história da televisão, exige 11 dias de trabalho. “The Wire”, o mais próximo que a ficção televisiva esteve da grande literatura, consome 7,5 dias. “The Sopranos” vê-se em 10,75 dias.

Por outras palavras: no espaço de um mês, ao ritmo de 8 horas diárias, é possível assistir a três obras-primas que nos acompanham para a vida. E ainda sobram mais 11 meses para respirar o ar puro das montanhas e rir alto com imagens de gatinhos que sabem como usar o controlo remoto.

Passei a vida com gente dizendo para eu viver a vida. O tempo que perdi escutando e matutando esses conselhos foram o verdadeiro e imperdoável desperdício.

O pato donald!

Perder para um débil mental diz mais sobre os rivais do que sobre o débil

 joão pereira coutinho – 09/01/2018 02h00

 

Pois é: sou um fraco. Li “Fire and Fury: Inside the Trump White House” (fogo e fúria: por dentro da Casa Branca de Trump), o livro-escândalo de Michael Wolff sobre o primeiro ano do nosso Donald aos comandos do mundo. E gostei.

Sejamos sinceros: não sei –alguém sabe?– se os fatos que Wolff relata estão certos ou errados. Talvez sim, talvez não. Isso interessa? Para mim, nem um pouco. Como escreveu Mick Brown para o “Daily Telegraph”, se aquilo não é verdade, parece verdade.

Essa, aliás, é a melhor definição de ficção que conheço –e, se Wolff não é um jornalista íntegro, pelo menos é um romancista talentoso: ele cria um mundo verosímil e nos transporta lá para dentro.

Os diálogos, por exemplo, conseguem a proeza de definir personagens em poucas palavras –cada uma com sua voz própria, gramática própria, ritmo próprio. Quando Trump fala, nós conseguimos escutá-lo nas páginas da obra. O mesmo acontece com Steve Bannon, a filha Ivanka e o genro Kushner.

Mas não é apenas a linguagem que é plausível. É a “atmosfera” criada. No “Telegraph”, o mesmo Mick Brown fala de uma mistura de “Sopranos” com Kafka. Assino em baixo. Embora eu talvez acrescentasse um pouco de Luis Buñuel (na sua fase mexicana).

Vejamos a noite da vitória. Quando saem os resultados, a reação primeira de Trump é choque e pavor. Como o príncipe da Dinamarca, ele parece ter visto “um fantasma”.

Mas é terror que dura pouco: depois da pergunta inevitável (como foi que isso aconteceu?), a certeza inevitável (isso só podia acontecer a um gênio como eu). Existe alguém que não consiga imaginar essa sucessão de estados de espírito no personagem em causa?

Aliás, o melhor do livro está nesses pormenores cotidianos que constroem (e destroem) o presidente. Como o medo de ser envenenado –um clássico de qualquer imperador romano, embora em Roma não existisse McDonald’s para salvar o dia. Ou a solidão da besta, encerrada no seu quarto, comendo cheesebúrgueres e tendo o celular como única companhia.

E fora do quarto?

O caos. Um caos infantil, paranoico, surreal. Lá encontramos o defunto Steve Bannon tentando afastar qualquer conselheiro que diminua a sua autoridade sobre o Donald. Lá encontramos Ivanka, a pérfida, sonhando com uma candidatura presidencial futura –e revelando aos amigos, entre risos, a mecânica do cabelo do pai (demasiado complexa para explicar aqui).

E também temos o genro, Jared Kushner, desprezado por Trump como um “suck-up” (um reles bajulador, exatamente como eu o imagino pelo seu ar lânguido e timorato).

Uma vez mais, Wolff escolhe as palavras com mestria, mexendo com os preconceitos do público e cobrindo a prosa com um verniz de autenticidade que não está ao nível de qualquer um.

Para Trump, Bannon é “desleal” (e sempre com “um ar de bosta”; difícil discordar). Reince Priebus, ex-chefe de gabinete, é um “fraco” (e demasiado baixo, quase “um anão”). Sean Spicer, ex-porta-voz da Casa Branca, é “estúpido” (e igualmente foleiro). Etc. etc.

Não é preciso uma grande “suspensão da descrença” para imaginar Trump com esses comportamentos. Moral da história?

Para Wolff, o presidente não é apenas “impreparado” (a descrição de Trump aprendendo a Constituição americana é um primor de comédia: pelos vistos, o Donald perdeu o interesse a partir da Quarta Emenda –um “gag” digno de Woody Allen).

Trump, no retrato de Wolff, é um débil mental –e a Casa Branca é uma espécie de asilo psiquiátrico tomado de assalto pelos próprios doentes.

Claro que uma tese dessas, apesar do talento literário, choca frontalmente com duas perguntas óbvias a que Wolff é incapaz de responder.

A primeira é tentar explicar como foi possível a um débil mental vencer as eleições presidenciais. Não existe aqui uma terrível contradição?

A segunda pergunta, que procede da primeira, é ainda mais desconfortável para a “intelligentsia” progressista: se Trump é um débil mental, que dizer dos que perderam para ele?

É por isso que, depois de ler o livro, a minha última gargalhada não foi para Trump. Foi para os adversários de Trump, que gostam de exibir um estranho complexo de superioridade.

Perder para um “gênio”, como Trump se considera, seria compreensível e até perdoável. Perder para um débil mental diz mais sobre a qualidade dos adversários do que sobre o débil propriamente dito.