Um resgate necessário

Problema da vida moderna não é excesso de solidão, mas escassez

João Pereira Coutinho – 20.fev.2018

 

E que tal um ministro para a solidão? Não é ideia minha. Já existe. No Reino Unido, a premiê Theresa  May considerou a solidão “a mais triste realidade da vida moderna”. Para combater esse mal, indicou a ministra Tracey Crouch para “desenvolver” uma “estratégia” adequada.

Confesso que a ideia me parece absurda. Tão absurda como haver um ministro para a tristeza ou uma ministra para o fracasso. Razão óbvia: Theresa May está errada quando acredita que a solidão é uma “realidade” moderna. Não é.

A solidão, tal como a tristeza e o fracasso, faz parte da condição humana, provavelmente desde o momento em que os membros da espécie tiveram consciência de si próprios.

A solidão não tem “cura” porque, em rigor, não é uma doença. Exceto para a tradição racionalista —antiga e moderna— em que Theresa  May, ironicamente tida por “conservadora”, se inspira.

Sobre o racionalismo antigo, não é preciso um conhecimento íntimo de Aristóteles para lembrar o seu argumento político primeiro: o homem é um animal social. O que significa que o reverso desse desígnio só é admissível se estivermos na presença de deuses ou bestas.

Por outras palavras: viver é viver em sociedade, participando nos assuntos da cidade. Eis a célebre “liberdade dos antigos”, na definição posterior de Benjamin Constant (1767-1830): para os antigos, os homens só são livres pela submissão dos interesses individuais às necessidades da comunidade.

Claro que o cristianismo introduziu nesse conceito de liberdade uma mudança relevante, ao proteger a inviolável (e solitária) “liberdade interior” dos homens —e, no limite, o direito dos mesmos em repudiarem a cidade terrestre.

Mas o racionalismo floresceu e triunfou a partir de inícios do século 16: se todos os problemas humanos têm solução, o desafio passa por encontrar a “técnica” adequada para responder a tais problemas. “Ministério da Solidão” poderia perfeitamente ser o título de um livro de Francis Bacon (1561-1626).

Mas Theresa May também está errada por outro motivo: e se o grande problema da “vida moderna” não for o excesso de solidão, mas a sua escassez?

Essa é a tese de Michael Harris em “Solitude: In Pursuit of a Singular Life in a Crowded World”. O livro é mediano, confesso, mas existem duas ou três observações que merecem leitura e concórdia.

A primeira delas é que a “vida moderna” é uma gigantesca conspiração para abolir a solidão. Basta escutar os desejos utópicos de um qualquer Zuckerberg ensandecido: para os novos profetas do Vale do Silício, o ideal a atingir é um mundo de conversas contínuas, em que a privacidade não passa de uma relíquia —e todos podem espionar todos.

Alguns números: em 2006, 18% da população mundial estava ligada à internet; em 2009, 25%; em 2014, 41%. E, para ficarmos nas “redes sociais”, 8% dos americanos frequentavam esses espaços virtuais em 2005. Em 2013, o número andava nos 73%. Em breve, a “conectividade permanente” não será apenas total; será totalitária.

Infelizmente, essas quimeras de “conectividade permanente” nunca questionam qual o preço que pagamos pela perda de solidão. Para Michael Harris, o prejuízo é triplo.

Sem uma boa dose de solidão, perdemos o tempo de quietude no qual as melhores e mais inesperadas ideias acontecem.

Sem uma boa dose de solidão, somos incapazes de entender o que somos e não somos —no fundo, o ponto de partida para haver um ponto de chegada que seja significativo e real.

Sem uma boa dose de solidão, nem sequer ganhamos o que de mais importante podemos oferecer aos outros: uma disponibilidade genuína e limpa de ruído.

No Reino Unido, Theresa  May quer combater a solidão. Se o objetivo do governo for ajudar os abandonados, os doentes e os desprovidos, nada a opor. Para os restantes, talvez fosse mais útil ensinar que a solidão não é uma anormalidade; é parte do que somos. Mas não apenas do que somos; também do que precisamos.

De igual forma, mais importante do que abolir a solidão é aprender a viver com ela; a habitá-la com os instrumentos de uma cultura —a fruição da beleza, da memória, do pensamento; a tratá-la pela segunda pessoa do singular. Quem sabe?

Pode ser que, um dia, o medo da solidão se transforme em gratidão sincera por termos encontrado a nossa companhia.

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Ótimo texto

Quanto mais raros os filhos, maior a precariedade psíquica deles

Luiz Felipe Pondé – 19.fev.2018

 

Se você anda pela cidade e presta atenção nas coisas, especialmente no movimento do mercado, e lê sobre isso, perceberá três fenômenos, aparentemente sem relação uns com os outros, mas que falam diretamente do futuro. Ao mesmo tempo que cresce o número de pet shops, cai o de maternidades, no mesmo passo que sobe o número de casas de repouso pra idosos. Qual a relação entre os três fenômenos?

O aumento de pet shops indica a opção de afeto que os mais jovens estão fazendo: melhor cachorros do que filhos, estes duram muito e custam muito mais caro. A falência das maternidades é fruto direto dessa racionalização por parte dos casais mais jovens: ter filhos é um mau negócio. Não ter filhos é índice de autonomia e emancipação, só mulher sem “opção” teria filhos. O terceiro, por sua vez, aponta para o envelhecimento da população, acompanhado pela solidão derivada da atomização das famílias. Os idosos viverão muito, mas abandonados em depósito para idosos.

O que fazer com esse efeito colateral da longevidade? O mercado, na sua “infinita sabedoria”, percebe que a tendência é a gradual substituição dos vínculos afetivos por serviços que esses vínculos garantiam no passado. Serviços que visam preencher o vácuo das famílias serão um grande negócio no futuro.

É interessante perceber que ao lado da decisão de reduzir a quase zero a reprodução humana, o grau de atenção neurótica sobre os poucos rebentos que caminham sobre o mundo cresce. Coitados desses jovens que viverão na condição de espécie em extinção. Pais que querem ganhar o prêmio de mais divertidos, participativos e atenciosos beiram o ridículo nos espaços de lazer para esses seres em extinção, as crianças. Os pais, então, competindo com as mães, buscando o direito de serem reconhecidos como portadores de um “útero social”, são patéticos.

A proporção entre você ser um pai neuras ou uma mãe neuras e ter “projetos” sobre a educação dos seus filhos é quase direta. Quanto mais você tiver “certeza” que a escola deve formar seu filho para ser uma pessoa melhor, pior será o grau de ansiedade dele ao virar adolescente. Filhos, hoje, quando existem, são projetos narcísicos dos pais, que, no fundo, prefeririam não tê-los.

De onde surgiu essa ideia idiota de que pais devem ser pais 24 horas por dia? Neuróticos que usam câmeras de vídeo pra vigiar a respiração dos rebentos a distância. Esse “excesso” de cuidado é sintoma do desejo de que os filhos não existissem.

Há uma relação direta entre melhorar de vida e recusar a maternidade. A vida sem filhos é mais segura, mais autônoma, mais barata. Quando você decide que para você é melhor não ter filhos, e isso atinge impacto estatístico, você não está consciente desse impacto. A relação entre riqueza e não ter filhos é direta.

Há aquelas pessoas que agem assim simplesmente porque acham que tem gente demais no mundo. Um argumento falsamente social, mas de teor radicalmente individualista. Arriscaria dizer que quanto mais você se vê como alguém que quer “salvar o mundo”, maior a chance dessa intenção estar assentada na mais pura natureza narcísica. A revolução moral moderna (o egoísmo) condena a condição de pai e mãe a obstáculo contra competitividade. O mundo corporativo diz que não, mas mente.

À medida que os filhos se tornarem mais raros, a condição de precariedade psíquica deles se radicalizará. Como toda espécie em extinção, o blábláblá sobre a importância deles crescerá à sombra da sua inexistência real. Se já sabemos que os jovens hoje são mais ansiosos, inseguros e incapazes de viverem vínculos afetivos consistentes, é porque os efeitos colaterais da extinção já estão em curso. A ampliação “oficial” da adolescência até os 24 anos de idade, determinada no Reino Unido, indica a incapacidade do amadurecimento, agora já na forma da lei.

Assim como especialistas em macacos em extinção, especialistas em jovens serão profissionais que estudarão, ainda que negando, esse processo inexorável. O futuro pertence a idosos solitários cheios de aplicativos para divertimento em seus dias vazios.

Bem legal!

A empresa que transforma o smartphone num ‘super GPS’

In Loco está na antessala da ‘computação ubíqua’

por Geraldo Samor

 

Uma empresa do Recife desenvolveu uma tecnologia de geolocalização de precisão inédita — com aplicações em marketing, CRM e prevenção de fraude — transformando o smartphone num ‘super GPS’ e aumentando o potencial de monetização para anunciantes.

 

Para ler na íntegra, clique aqui.

Artigo interessante:

Milionários buscam gestores para não ter dilapidado o patrimônio

DANIELLE BRANT –

O playboy Jorginho Guinle (1916-2004) achou que ia morrer aos 80 anos. Decidiu, então, aproveitar ao máximo a vida e torrou sua fortuna. Ele, porém, viveu até os 88, sem dinheiro e morando de favor no Copacabana Palace, hotel fundado por sua família -e seus herdeiros ficaram de mãos vazias.

A ruína de Jorginho não só abriu os olhos de muitas famílias -que viram a necessidade de ter uma gestão profissional para preservar seu patrimônio. Bancos, consultorias e butiques de investimento também notaram que havia um mercado e passaram a disputar esses milhões.

Afinal, são valores que estão longe de ser irrisórios: as casas especializadas costumam cobrar uma comissão ou taxa pelo trabalho que pode variar entre 0,25% e 1,5% do total sob gestão.

Outra alternativa adotada pelos muitos ricos é nomear alguém da família ou um executivo para administrar o “family office”, a estrutura criada para gerir o patrimônio. Montar uma empresa dessas requer (além de dinheiro) autorizações de reguladores.

“Um terço dessas famílias opta por montar o ‘family office’, mas dois terços delegam. Isso vai depender do perfil da família”, afirma Leonardo Bortoloto, sócio da Aditus, consultoria que tem R$ 30 bilhões sob gestão.

“Se tiver feito a fortuna no mercado financeiro, poderá puxar para si a decisão. Mas, se vier da indústria, por exemplo, poderá preferir transferir a gestão.”

Na prática, a decisão também pode ampliar ou limitar o espectro de produtos a investir. Se escolherem uma gestora, a oferta de aplicações vai ser a que estiver no portfólio dessa empresa.

Uma gestão independente, por outro lado, consegue enxergar o mercado de uma maneira mais abrangente, avaliando melhores opções em casas distintas, de acordo com o planejador financeiro Rodrigo Assumpção, da associação Planejar.

ALTO NÍVEL
Como funcionam os escritórios que deixam os ricos mais ricos

1 – O QUE SÃO
Empresas que ajudam famílias a manter ou ampliar seu patrimônio; às vezes a própria família cria uma estrutura para fazer essa gestão

2- PÚBLICO-ALVO
Famílias milionárias –ou bilionárias

3- COMO FUNCIONAM
Um administrador ou membro da família fica encarregado de tomar decisões envolvendo o patrimônio da família, seja no caso de um family office ou na escolha dos serviços de outra empresa ou de um banco

4- COMO COBRAM
Costuma ser um percentual dos ativos sob gestão

5- QUAIS SERVIÇOS OFERECEM
Além de assessoria financeira e de investimentos, podem gerenciar as contas, pagar impostos e empregados, fazer planejamento sucessorial, tributário e jurídico

6- INVESTIMENTOS
Têm acesso a produtos mais sofisticados (fundos exclusivos e com estratégias mais arriscadas); muitas famílias aplicam parte do dinheiro no exterior

ALÉM DA FORTUNA

A fortuna dessas famílias é uma porta de entrada para fundos que investem em ativos mais arriscados e que podem dar retorno maior que os conservadores, engordando ainda mais o montante -ou reduzindo-o, a depender, claro, do sucesso da aposta.

E uma decisão que muitas tomam -se não, todas- é colocar parte do dinheiro no exterior, para diminuir a exposição ao risco-Brasil.

Além de cuidar dos investimentos, essas consultorias têm como tarefa auxiliar as famílias em outros aspectos. Costumam cuidar do pagamento de empregados, gerenciar os imóveis, ajudar no planejamento tributário e até evitar brigas de herdeiros, segundo Bortoloto, da Aditus.

No caso da gestora independente de patrimônio Wright Capital, a intenção é convencer cada vez mais famílias a destinar uma parte do dinheiro a investimentos com impacto social.

Isso é feito por meio de um fundo que, por sua vez, aplica em fundos que captam recursos para projetos que buscam melhorar a educação infantil, levar saneamento a áreas pobres ou construir moradia para quem não tem onde morar.

BAIXANDO A RÉGUA

Algumas dessas casas já começam a olhar para quem não tem tanto dinheiro, mas se vê com uma soma vultosa nas mãos, decorrente, por exemplo, da venda de um apartamento. É o caso da Fiduc, que trouxe um modelo de atuação que prioriza quem tem pelo menos R$ 100 mil disponível para investir.

“Aqui, esse planejamento financeiro é restrito para milionários, e o impacto é muito pequeno, porque são poucas pessoas. A ideia é popularizar, como já acontece nos Estados Unidos, no Canadá, no Reino Unido e na Austrália”, diz Pedro Guimarães, presidente da Fiduc.

Os consultores cobram um percentual de 1,5% dos ativos sob gestão pelo trabalho.

“Temos objetivos alinhados com os do cliente. Quanto mais ele ganha, mais nós ganhamos. Nosso interesse não é vender produtos, como o de bancos. É ingenuidade pensar que o modelo de negócios dele não vai imperar”, afirma Guimarães.

Em outras consultorias ou mesmo nos bancos, o atendimento para esse público muda. “Ter um cliente com R$ 300 mil para investir não compensa financeiramente no nosso caso”, diz Bortoloto, da Aditus. “Esse perfil vale a pena para quem quer escala. Mas a estrutura oferecida é diferente.”

É a mesma avaliação do planejador Rodrigo Assumpção. “É um trabalho menos complexo, não envolve esse atendimento jurídico, tributário e sucessorial”, diz.

GRANDES BANCOS

Na última década, os principais bancos do país passaram a entrar com força no segmento dos mais ricos. Como parte da estratégia, lapidaram a área private, destinada aos mais endinheirados, e destacaram equipes para oferecer serviços parecidos com os dos “family offices” e atender com mais cuidado esse público.

Bradesco, Itaú e Santander enveredaram por esse caminho, aprimorando o atendimento personalizado que já ofereciam ao público private.

No Bradesco, esse foco teve início em 2009 e é direcionado para clientes com pelo menos R$ 300 milhões em recursos para investir.

O banco tem cerca de 70 “family offices”, únicos ou múltiplos -várias famílias debaixo de uma mesma estrutura de gestão. “Quando cuidamos bem do ‘family office’, ele atrai outros clientes”, diz João Albino Winkelmann, diretor da instituição.

Como parte desse relacionamento, a vantagem para o banco está em criar vínculos com os donos dessas fortunas e oferecer financiamentos, empréstimos, seguros de vida ou automóveis, emitir fianças ou criar produtos de investimento exclusivos.

O trabalho dos bancos com esses clientes passa pelo planejamento de investimento, sucessório e até fiscal, mas serviços complementares que “family office” realiza (pagamento de contas, por exemplo) ficam de fora do pacote.

Nos investimentos, os “family offices” têm perfil de conservador a moderado, afirma Winkelmann. “O dinheiro do banco é a poupança para a próxima geração. Ele não quer correr muito risco, porque já enfrenta isso no próprio negócio”, diz.

O diretor do Bradesco diz que essas famílias buscam alocar entre 40% e 60% do patrimônio no exterior, para diluir o risco-Brasil, que já está contemplado no negócio.

No Santander, a área é mais recente: cerca de três anos. A ideia é assessorar famílias com ao menos R$ 100 milhões de patrimônio.

“Temos uma equipe que entende da parte macroeconômica, de crédito, usamos a assessoria patrimonial para desenhar a melhor estrutura de produtos para os clientes”, diz Gustavo Schwartzmann, superintendente-executivo de private banking.

Segundo ele, a avaliação é feita com isenção. “A gente olha para o patrimônio do cliente de forma agregada, vamos ver o que cada um dos bancos oferece de melhor e manter o relacionamento com cada uma das casas com as quais ele já se relaciona.”

Para o planejador Rodrigo Assumpção, da associação Planejar, a independência é justamente a questão. “A questão é saber se os bancos vão conseguir trabalhar de forma isenta, se vão conseguir sugerir produtos de outros bancos. Os clientes buscam essa independência.”

e-puritanismo

Sexo no blockchain

luiz felipe pondé – 29/01/2018

 

O tema assédio está na moda. Entre os extremos, a vida segue seu curso, às vezes, dando a impressão de que poderá se tornar irrespirável em algum momento.

Num lado extremo dessa realidade das relações sexuais, homens violentos (ou mulheres violentas, em bastante menor número) que tornam a vida no trabalho ou nos espaços de lazer um inferno para suas vítimas. No outro extremo, o sentimento de risco (real) que muitos homens sentem de que a simples demonstração de desejo por uma mulher poderá ser tachada de assédio.

Ou, pior, de que, mesmo tendo tido seu consentimento, ela poderá, posteriormente, dizer que o “retirou”, ou que o cara mentiu sobre ela ter dado o consentimento, ou que a entendeu errado e que, portanto, o suposto “date” foi estupro.

É justamente na área privada do consentimento que residem algumas das paranoias contemporâneas que ameaçam transformar as relações cotidianas entre homens e mulheres num tédio contínuo preenchido por pessoas civilizadas, limpinhas e imóveis. Mas, como tudo mais no mundo contemporâneo, principalmente em se tratando de relações humanas e serviços, o espírito do Vale do Silício oferece uma solução.

Os holandeses criaram um aplicativo chamado Legal Fling, que visa garantir que pessoas (principalmente, homens) se defendam da acusação de assédio ou estupro quando houve consentimento prévio para o ato sexual ou a abordagem.

A expressão em inglês “fling” é ambivalente. Entre o substantivo, que nos remete à ideia de um momento de diversão, gostoso, e o verbo, que pode significar um arremesso violento de algo, ou seja, algum tipo de ato com risco de violência, reside a realidade ambivalente do tema.

“Legal fling” seria, portanto, essa ambivalência tornada “legítima”, levando essa arriscada ambivalência para o universo “garantido” pelo novo oráculo, a tecnologia blockchain (base de registro que funciona como prova de um acordo ou transação). Será verdade um aplicativo assim?

Nem todos concordam que o aplicativo ofereça de fato a segurança absoluta contra acusações de que consentimentos supostamente dados se transformem em acusações supostamente falsas. O “supostamente” aqui é essencial.

Voltamos ao caráter privado do tema. É difícil saber o que acontece entre quatro paredes. O combate à violência sexual tem razão em se preocupar com os abusos em geral. A crítica feita à tentativa de judicializar as relações entre homem e mulher também tem razão quando aponta a cultura da paranoia como fato dado no mundo presente.

É possível um “meio-termo” ou “bom senso” nesse assunto? Não creio. O mundo vai, pouco a pouco, sucumbindo à ambivalência criada pela modernização, na sua contínua tentativa de organizar e limpar tudo.

Zygmunt Bauman (1925-2017) acertou em cheio no seu “Modernidade e Ambivalência” ao apontar para esse caráter de “jardineiro” que o Estado moderno (e a sociedade como um todo) tem em querer fazer do mundo um “jardim do bem”.

O aplicativo funciona basicamente assim: você preenche um cadastro onde afirma aceitar ou não sair e fazer sexo com fulano, depois detalha o que gosta, tipo, sei lá, sexo anal, no carro, oral, se gosta ou não de apanhar, se gosta ou não de ser tratada ou tratado de forma humilhante, se gosta de ser chamado ou chamada por termos como “cachorra”, “vadia”, “filho da puta” e por aí vai.

Sei. Pensar numa lista assim parece ridículo. Mas, se você tiver como princípio de entendimento do mundo contemporâneo o fato de que caminhamos para um contrato social baseado no ridículo como forma de vínculo, não estranhará tanto assim um aplicativo como esse.

O aplicativo lançará então esse “contrato” numa plataforma blockchain e, portanto, você não terá como impedir que a “humanidade em cadeia” tenha ciência de que, sim, você gosta de apanhar no sexo ou que você, sim, aceitou ser amante do seu chefe, quem sabe, em troca de uma promoção no trabalho.

O que salvaguardará juridicamente a legitimidade do ato sexual em questão será de uma ordem análoga à de uma moeda virtual, como o bitcoin. Neste caso, a “moeda” é a exposição pública da intimidade, em nome da segurança de cada cidadão envolvido em atos sexuais.

 

Há virtudes nas emendas

Dados mostram canalização virtuosa da verba de emendas

CARLOS PEREIRA – 23/01/2018

 

A imagem de que as relações entre o Executivo e o Legislativo no Brasil não são republicanas é difundida largamente na sociedade. Ideia sustentada na percepção de que os acordos partidários não seriam baseados em programas ou agendas políticas coerentes, mas em ganhos de troca que beneficiariam fundamentalmente os políticos às expensas da sociedade, que ao fim é quem paga um alto custo de governabilidade.

Essa imagem é ainda reforçada pela evidência da literatura especializada que demonstra uma clara conexão eleitoral entre apoio legislativo às iniciativas do Executivo e acesso a recursos monetários e de poder controlados e distribuídos de forma discricionária pelo presidente.

Esse jogo “sujo” de “toma lá, dá cá” seria coroado com o maior índice de reeleição dos parlamentares mais fiéis ao presidente. Esses teriam acesso a mais recursos orientados para alimentar as suas redes municipais de interesse e beneficiar suas bases eleitorais.

As chances de renovação da representação parlamentar, logo, seriam assim obstruídas por um “conluio” entre presidente, legislador e rede local de interesses.

Políticas locais que beneficiam bases eleitorais são conhecidas como “pork barrel” (barril de porco) e amplamente utilizadas na política americana. Essas supostamente teriam conotação extremamente negativa por serem associadas a ineficiências, patronagem, clientelismo, compra de votos, ou mesmo corrupção. Existem ainda argumentos de que pork barrel seria sinônimo de desigualdade e pobreza, perpetuando um ciclo vicioso de exclusão.

Em uma ampla pesquisa que acaba de ser publicada no periódico internacional “Governance”, artigo intitulado “Pork is policy: dissipative inclusion at local level”, em coautoria com Frederico Bertholini e Lúcio Rennó, contrariamos esse “senso comum”. Demonstramos que a execução das emendas dos parlamentares tem um impacto direto de melhora na qualidade de vida dos cidadãos brasileiros que vivem em localidades beneficiadas, assim como também apresentam maior desenvolvimento de suas economias locais.

A análise é baseada em um extenso banco de dados original que cobre a execução de emendas dos parlamentares em todos os municípios brasileiros por um período de dez anos (1999-2010). Utilizamos técnicas de pareamento dos municípios controlando por características demográficas, indicadores de desenvolvimento social e econômico local, dados de desigualdade, de competição política e as demais transferências intergovernamentais para os municípios.

A execução de emendas ao orçamento anual de autoria dos parlamentares foi tratada como um choque exógeno em nossa análise, ao gerar um novo fluxo de recursos estimulando a economia local. Mapeamos o impacto da chegada de pork barrel em indicadores sociais (como mortalidade infantil e performance escolar) e econômicos (emprego formal, renda etc.) nos anos subsequentes.

Consistente com as expectativas da teoria democrática, a pesquisa confirmou que municípios que apresentaram maior competição política tendem a receber mais recursos. Por outro lado, quanto maior a riqueza dos municípios, menor a probabilidade de receberem recursos provenientes dos parlamentares, sugerindo uma canalização virtuosa de recursos para municípios que mais precisam.

Como pode ser observado no infográfico, os municípios que receberam mais recursos por mais tempo reduziram mortalidade infantil, além de aumentarem a oferta de emprego formal e de renda. Resultados semelhantes foram também encontrados na área de educação, com redução de distorções entre série e idade, e melhoria geral das condições de saúde.

Esses resultados sugerem que a lógica descentralizada de alocação de recursos públicos, via emendas parlamentares, pode gerar maior inclusão e diminuição da desigualdade.

Entretanto, a depender da política pública analisada, os efeitos positivos de pork nos municípios brasileiros não se sustentam ao longo do tempo, sugerindo um perfil dissipativo de inclusão. Esse perfil fica evidente em relação à mortalidade infantil, pois os efeitos positivos de pork só são significantes até o quinto ano de recebimento dos recursos.

Como a alocação de pork segue a lógica de sobrevivência do parlamentar e não necessariamente da necessidade do município, ela tende a ser sub-ótima, pois locais em que o parlamentar não tem conexão eleitoral são praticamente “esquecidos”, enquanto as suas principais bases eleitorais são desproporcionalmente abastecidas.

CARLOS PEREIRA é professor titular da EBAPE/FGV

 

O macaco eterno

Esquerda e direita estão contaminadas pelo vírus do pensamento de grupo

joão pereira coutinho – 23/01/2018

 

Houve um tempo em que também eu debatia política em público. Relembro: um estúdio de TV, alguém de esquerda do outro lado da mesa. O pivô lançava o tema. A pessoa de esquerda corria atrás do osso como um mastim esfomeado.

Quando eu falava, havia um terrível anticlímax. De vez em quando, esforçava-me: dizia algo “de direita”, só para não ser despedido na hora. Mas grande parte do tempo ficava contemplando o outro, admirando a sua vitalidade ideológica e o interesse que ele tinha por, sei lá, a política de saneamento básico.

Várias vezes fitava o meu “adversário” (não ria, por favor) e tentava ver se tinha as pupilas dilatadas. “Talvez sejam drogas”, pensava, confrontado com aquelas cataratas (verbais). Não eram. Era entusiasmo.

Atenção, atenção: não falo de “entusiasmo” no sentido prosaico da palavra. Um ser humano sem entusiasmos é um cadáver ambulante. Não. Falo no sentido filosófico –aqui, como em quase tudo, David Hume (1711-1776) é o meu mestre.

Dizia ele que existem duas espécies de “falsa religião”: a superstição e o entusiasmo.

A primeira instala-se na alma amedrontada do crente perante “males infinitos e desconhecidos”, que exigem proteções igualmente fantasiosas.

A segunda revela um sentimento de exaltação (ou de “presunção”, para usar o termo de Hume) em que o “entusiasta” ignora a razão ou a moral –e se entrega nos braços do orgulho e da ignorância.

É isso que torna o “entusiasmo” tão perigoso: essa combinação de vaidade e ignorância.

O entusiasmo continua na religião, sem dúvida: não conheço nenhum terrorista islamita que não seja um entusiasta. Mas, sobretudo no século 20, esse “estado de espírito” foi cultivado pelas “religiões seculares” de que falava Raymond Aron.

O comunismo e o nazismo foram formas de “entusiasmo” político (que deram no que deram). As batalhas ideológicas de hoje são novas encarnações de entusiasmo.

Pensei em tudo isso quando assistia ao vídeo do momento: a entrevista de Cathy Newman, no Channel 4, ao filósofo “pop star” Jordan Peterson. Conhecia Peterson de outras andanças: o seu “Maps of Meaning”, um tratado sobre o lugar dos mitos na história humana, merece leitura.

No vídeo em questão, Peterson sublinha um pormenor importante das discussões contemporâneas: a “política de identidade” é intrinsecamente autoritária porque imita a mesma “estrutura de crença” dos regimes autoritários. Que crença é essa?

A ideia de que o grupo é mais importante do que o indivíduo. Antigamente, esse grupo podia ser “o proletariado”, em nome do qual se cometeram os maiores atropelos. Hoje, Peterson dá como exemplo os “ativistas trans” que policiam a linguagem e o comportamento de terceiros porque julgam falar em nome de todos os “trans”.

Não é preciso grande preparação filosófica para vislumbrar a falácia da retórica de grupo. Não existe “o proletariado”. Existem trabalhadores vários, com aspirações e limitações particulares. De igual forma, não existem “os trans”. Existem indivíduos concretos, que vivem a sua sexualidade de forma diversa.

Infelizmente, o prof. Peterson deixou-se contaminar pelo “entusiasmo” da jornalista e esqueceu-se do outro lado da história: a submissão ao pensamento de grupo não é um exclusivo de “esquerdistas radicais”.

Basta escutar a “direita radical” e as suas proclamações contra “os estrangeiros” –e em defesa dos “nacionais”, claro– para compreender a grande ironia do debate político atual: esquerda e direita estão contaminadas pelo vírus do pensamento de grupo.

Pelo meio, perde-se a importância (e a primazia) do indivíduo –essa ficção pequeno-burguesa, como diziam nazistas ou comunistas, e que as mentes autoritárias sempre tentaram calar ou destruir.

E como se chegou até aqui?

Em artigo recente para o “The Millions”, Sarah LaBrie acusa a internet (e as “redes sociais”) de produzir as manadas que esmagam a “soberania do ser”. É um bom ponto de partida –mas não de chegada: a internet deu voz e potenciou as manadas; mas elas sempre existiram no longo cortejo da história.

Como dizia David Hume, onde existe vaidade e ignorância, existe entusiasmo. E a alma dos homens sempre foi fraca: entre a solidão do individualismo e a pertença aos entusiasmos da tribo, o macaco eterno não hesita.