O Contexto e as Alternativas

A farinha do prefeito

17/10/2017

 

SÃO PAULO – Pegue comida quase estragada, moa-a até compor um farelo em que todos os elementos se tornem irreconhecíveis e dê para os pobres. Com essa descrição, acho que até a mulher do prefeito João Doria ficaria contra o composto alimentar que o alcaide pretende distribuir a famílias em dificuldades econômicas em São Paulo. Resta saber se essa é mesmo a melhor descrição.

Humanos gostamos de pensar as questões que nos são apresentadas em termos abstratos e recorrendo a tipologias essencialistas, nas quais expressões como “estragado”, “comida irreconhecível” e “para os pobres” tendem a se sobressair, praticamente definindo o juízo de valor que extrairemos. Muitas vezes, essa abordagem purista é válida, mas nem sempre.

Especialmente quando falamos de políticas públicas, é preciso considerar o contexto e as alternativas. Para que famílias a tal da farinha doriana se destinaria? Por quanto tempo seria utilizada? Como essa família está se alimentando hoje? A prefeitura tem estrutura e orçamento para adotar um programa que inclua alimentos “in natura”?

Sem ter pelo menos uma ideia das respostas a essas perguntas, parece-me precipitado condenar a farinha em termos absolutos como muitos vêm fazendo. É claro que Doria, que pode ser descrito como um mestre do improviso, obcecado pela Presidência e que se pauta apenas pelo marketing, não ajuda ao esconder os detalhes do programa.

Meu argumento é, no fundo, simples. Se a farinha do prefeito for segura e evitar que famílias recolham comida do lixo, pode ser uma boa alternativa. Se ela tiver um valor nutricional maior do que o dos alimentos que essa família consegue adquirir hoje por conta própria, idem.

E, antes que leitores de esquerda imprequem contra mim, lembro que esse é um conceito muito semelhante ao da redução de danos em drogas, que é aplaudido por nove entre dez progressistas.

 

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Atenção:

As novas regras para o PGBL e VGBL

Por Ivy Cassa – 17/10/2017

 

Recentemente foram publicadas duas normas que atualizaram o regramento de conhecidos produtos de previdência privada do mercado brasileiro: o PGBL e o VGBL. Além disso, trouxeram novidades para o investidor de longo prazo.

O primeiro, com quase 20 anos de criação, voltado para pessoas que declaram o Imposto de Renda no formulário simplificado e que são vinculadas a algum regime de previdência social, trouxe naquela época maior estabilidade para as seguradoras e entidades abertas que, até então, trabalhavam com produtos que garantiam rentabilidade.

Seus antecessores, que traziam consigo anexas promessas de pagamento de IGPM + 6% mesmo na fase de acumulação (viáveis em um período de características econômicas bem diferentes da revolução causada pelo Plano Real), foram substituídos pelo Plano Gerador de Benefício Livre, que dava ao investidor a rentabilidade obtida pelo Fundo – positiva ou negativa, mas diminuindo o risco de crédito da seguradora ou entidade.

O segundo, VGBL, que ainda não atingiu sua maioridade no mercado, pois foi criado em 2002, foi a tábua de salvação para atingir a grande maioria do público que hoje investe na previdência privada: pessoas que não necessariamente se encaixam no perfil do PGBL (grande parcela que declara Imposto de Renda no formulário simplificado), ou que excedem os limites legais estabelecidos para poderem gozar das vantagens fiscais que o seu par proporciona.

O VGBL, que veio travestido de “seguro”, acabou ganhando tanta expressividade que hoje representa mais de 90% do setor e acaba cumprindo outras funções, muitas das quais, não raro são controversos, tais como “blindagem” de patrimônio e planejamento sucessório.

Mas uma questão é inegável: tanto Ps quanto Vs, ou ainda os outros planos da família de um de outro (os tais PRGPS, PRSAs, PAGPs, PRIs, VRGPS, VRSAs, VAGPs, VRIs) cumprem relevantíssima função no momento atual: as gerações cuja expectativa de vida cresce em progressão constante necessitam de mecanismos de proteção financeira.

As normas recentemente publicadas, duas Resoluções do Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP), nº 348 e 349 incrementaram a sopa de letras já existente: agora, há também o PGBL Programado, que oferece a possibilidade de contratação, durante o período de diferimento, de pagamentos financeiros programados, e o PDR, que apresenta, na fase de acumulação, garantia mínima de desempenho, e a reversão, parcial ou total, de resultados financeiros. Para cada P, ainda, há um plano V espelho: VGBL Programado e VDR.

As resoluções inovaram ainda em pelo menos dois pontos relevantes para os poupadores de longo prazo: houve a inclusão do conceito de participante qualificado, abrangendo investidores profissionais, ou seja, pessoas com investimentos superiores a um milhão de reais, ou aprovadas em exames de qualificação técnica, ou clubes de investimento, observados os requisites estabelecidos pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Era comum haver o pleito por um tratamento diferenciado de tais categorias, o que, com a inclusão feita, ficará mais atrativo para esse grupo.

Em segundo lugar, outro aspecto que pode aproximar os investidores dos planos de previdência privada é a possibilidade que se abriu de transformação de parte da reserva acumulada em renda ou pagamentos financeiros programados em função da expectativa de vida do participante. Antes, se o participante optasse pela conversão da sua reserva em renda e falecesse sem escolher pela reversão dessa renda a um beneficiário, nenhum valor seria devido aos seus herdeiros. Isso acabava fazendo com que as pessoas usassem os planos de previdência privada mais como poupanças do que “previdências”. Com essa novidade, o plano adquire um caráter “misto”, atendendo ambas as finalidades.

A Mãe Previdência Social brasileira dá sinais de doença. Às vezes, manca. Há quem diga que rasteja, não salta mais. A Mãe Canguru talvez não tenha condições de sustentar filhos que trabalham dos 20 até os 60 e, resistentes, podem viver até os 110, irrompendo a lógica dos números, até mesmo para os maiores especialistas em finanças.

Ainda há muito a ser feito: mais do que criação de produtos ou inclusão de novas letras nessa sopa. Há mais de década aguardamos a chegada de um tal de “VGBL saúde”. Sonhamos com uma tabela regressiva de Imposto de Renda que chegue até a alíquota zero. Pleiteamos a isenção do ITCMD em todos os Estados, sempre que o plano de previdência privada for utilizado com sua verdadeira finalidade social – sem distorção do sentido.

Mas se espera que a publicação das novas normas atraia investidores, atenda a alguns daqueles antigos anseios e sirva de estímulo para o fortalecimento do setor. Por meio de um mercado sólido e com produtos atraentes, alguns dos filhos supercentenários carentes poderão assinar sua declaração de independência, ao invés de continuarem carregados no marsúpio da Mãe Previdência Social doente.

 

Ivy Cassa é sócia na Petraroli Advogados Associados

 

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações

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Passando o bastão para a próxima geração

Por Roger Stutz17/10/2017

 

As próximas gerações, como a dos millenials, muitas vezes têm expectativas diferentes quando o assunto é a gestão de um negócio, e nem sempre compartilham a mesma visão do antecessor, geralmente os pais. Uma comunicação clara é, portanto, essencial.

Muitas vezes, há pressão sobre os dois lados para definir as expectativas corretas e uma transição de sucesso para uma nova fase da vida. Além disso, há inúmeras implicações de riqueza e planejamento tributário a serem consideradas antecipadamente, e é por isso que o planejamento com tempo é fundamental para assegurar uma troca de bastão harmoniosa.

Na minha experiência, existem seis questões que devem ser analisadas pelos envolvidos para se certificarem de que o “bastão comercial” será passado de forma rápida e eficaz:

 

Quais são as nossas expectativas? Se você é um sucessor potencial, pode se perguntar se este é o caminho certo para você ou se está pronto para o desafio. Talvez sua visão para o negócio seja diferente da de seu antecessor. Se você é o proprietário atual de uma empresa, pode querer continuar a desempenhar um papel no negócio, ou pode ter dúvidas sobre as mudanças que seu sucessor gostaria de implementar. Os sucessores do milênio, por exemplo, tendem a colocar maior ênfase na tecnologia e na profissionalização das operações comerciais.

Essa mudança de estilo de gerenciamento poderia ser motivo de preocupação para os outros no negócio. Para garantir que ambos os lados compreendam os problemas em questão, é fundamental se comunicar abertamente e honestamente, e continuar a fazê-lo por toda parte – e também depois – da transferência. Isso ajudará o negócio a ter sucesso no longo prazo.

 

Um teste faria sentido? Transferir um negócio de uma geração para a próxima é uma grande mudança para todas as partes envolvidas. Antes de mergulhar de cabeça, trabalhar em uma série de curtos períodos no negócio pode ajudar o sucessor a descobrir se este é realmente o passo certo ou não. Com isso, terá a oportunidade de ver o que está em jogo e para onde o negócio está indo.

A experiência também pode ajudar o dono atual a decidir se o momento é bom para entregar o negócio. Sucessores em potencial também podem se beneficiar da experiência fora do negócio familiar, criando suas próprias visões profissionais objetivas e aprendendo como outras empresas são geridas.

 

Que estrutura de negócio funcionará para nós?

Quando ambos os lados já deixaram claras suas expectativas, é hora de pensar sobre a estrutura do negócio e estabelecer papéis e responsabilidades. Essa decisão geralmente é guiada pela visão, expectativas e capacidade dos envolvidos. Por exemplo, em que medida o dono atual deseja estar envolvido no futuro? Além disso, antes de passar o negócio, o proprietário atual pode querer limpar operações ou dispor de ativos e atividades comerciais não essenciais, e é importante definir claramente esses detalhes.

 

Qual é a situação fiscal do negócio? Quando uma empresa é transferida de uma geração para outra, o planejamento tributário de longo prazo é um componente importante. Consultores fiscais locais com conhecimento e experiência devem ser contratados para uma análise holística dos envolvidos (como empresário existente, sucessor, acionistas). Embora essenciais, as considerações fiscais não devem ofuscar os objetivos profissionais e pessoais dos envolvidos e sua visão para o negócio.

 

Como o antecessor será apoiado no futuro? Depois de dedicar um tempo e um esforço consideráveis para a construção de um negócio bem sucedido, o proprietário existente quer garantir uma aposentadoria bem merecida que atenda suas expectativas.

Ambas as partes devem pensar sobre os acordos que possam querer implementar para assegurar um rendimento contínuo  para a pessoa que entrega o negócio. Aumentos de retiradas pessoais do negócio ou dividendos podem ser opções, dependendo de onde você está. É importante trabalhar com especialistas que possam conceber a melhor solução possível para suas necessidades, apetite por risco e planos.

 

Quem mais poderia ser afetado por essa transferência? Há outros herdeiros a serem considerados? Talvez apenas um filho deseje manter o negócio familiar, mas irmãos ou um cônjuge podem ter direito a receber algum benefício. Por exemplo, um membro da família pode desejar sua parte em dinheiro.

Garantir esses direitos com antecedência é essencial para manter a viabilidade do negócio. Várias opções são viáveis, dependendo da sua localização e das obrigações legais locais.

Certifique-se de trabalhar com um consultor confiável que pode guiá-lo através do processo, como a família ou o advogado da empresa.

A criação de um acordo de acionistas pode ser outra maneira de gerenciar os interesses das partes envolvidas. Esse tipo de acordo estabelece regras de jogo claras, ajuda a evitar conflitos e protege os interesses de todas as partes envolvidas.

Saber como e quando passar o bastão nunca é fácil. Ao considerar cuidadosamente estas seis perguntas, e tomando o conselho de especialistas em sucessão, líderes empresariais atuais e futuros podem pensar nessa passagem com maior confiança.

 

Roger Stutz é chefe de planejamento de fortunas do Julius Baer

 

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

Inovando:

A epidemia da inovação

O mundo corporativo é a distopia perfeita. De um lado, um modo inequívoco de produção de riqueza que elevou a condição material de vida dos seres humanos a um nível jamais imaginável, do outro lado, um sistema que esmaga o sujeito obrigando-o a competir cotidianamente, sem descansar nunca. Se a perfeição da vida material é uma utopia contínua no mundo contemporâneo, essa mesma perfeição produz níveis elevadíssimos de mal estar, provavelmente garantindo um futuro de mais riqueza regada a desespero a cada dia. Ninguém aguenta mais, mas ninguém pode parar.

Dentro desse quadro, chama atenção a obsessão pela ideia de “inovação”. Ela aparece em todos os níveis da vida, do corporativo as pressões psicológicas sobre os mais velhos e mais jovens, num nível epidêmico.

A ideia, profundamente inscrita no “DNA” (como gosta de dizer o mundo corporativo quando “reflete sobre identidades”) da modernidade, tem raízes filosóficas claras em obras como a do inglês Francis Bacon (1561-1626), entre outros. Seu projeto de “atar a natureza” a fim de conseguir as respostas necessárias para a melhoria das condições materiais de vida “na natureza” numa futura “Nova Atlântida”, associado aos avanços do saneamento básico de Londres ao longo do século 19, são fundamentos básicos dos ganhos técnicos e de gestão de problemas na modernidade. Da natureza ao esgoto, o projeto é o mesmo.

Na vida pessoal, essa epidemia da inovação aparece no modo nefasto como as pessoas buscam “se reinventar” a todo momento. Ela obriga as pessoas a se vem como start ups contínuas num mercado infinito de demandas que vão da saúde física permanente, a beleza sustentável as custas de obsessões, a espiritualidade a serviço da commoditização da alma, enfim, a uma insatisfação existencial contínua como “motivação” para o imperativo da inovação.

É evidente que a proposta é patológica no nível humano, inclusive porque, apesar dos reais avanços tecnológicos na engenharia médica, marchamos para o envelhecimento e a morte, e isso tem impactos definitivos, mesmo que a indústria da inovação, regada a moda da Singularity University, a bola da vez, venda a ideia de que seremos imortais.

A epidemia da inovação no plano psicológico corrói a capacidade, principalmente dos mais jovens, de lidar com o tédio, o fracasso e a as frustrações “normais” da vida, impondo-nos o imperativo do sucesso crescente, que nos assola das nossas camas, a vida profissional, a lida com filhos até o esgotamento de nossas capacidades intelectuais e afetivas.

Um fato evidente nesse processo é o que muitos chamariam de “pressão do capital”. Essa pressão nos obriga a pensar em nós mesmos como uma commodity buscando “investimento” no mercado de um mundo em “movimento”, em direção a multiplicação do próprio capital que se expande a medida em que habita a inovação como condição sine qua non de adaptação a ele.

No mundo corporativo, que gasta dinheiro com palestras circenses, a fim de fazer seus “colaboradores riem”, assim como uma sessão de meditação em meio ao massacre cotidiano, a epidemia da inovação é um mercado em si mesma.

Neste mundo, o futuro é uma commodity em si mesmo, vendido pelas consultorias de futuro. Citando casos conhecidos como a implantação de fake memories (diante destas, fake news é conversa de crianças), esse mercado da inovação vende a ideia de que num mundo próximo, a indústria de implantação no cérebro de memórias falsas, mas “felizes”, eliminará a depressão e toda uma série de quadros clínicos indesejáveis.

Para além do absurdo da ideia, de um ponto de vista meramente médico, a própria noção de uma humanidade vivendo continuamente num parque temático “cognitivo” assusta não pelo suposto avanço médico em si, mas pelo modo como as consultorias do futuro vendem a ideia como o máximo da felicidade e da saúde. É a condição definitiva de idiotas cognitivos, sonâmbulos que caminham pela vida como um pós-humano em processo de extinção. Os neandertais, do alto de sua sabedoria de espécie já extinta, chorariam de pena de nós.

Vale a leitura:

Nobel é lembrete de que há limites para a vontade política

SÃO PAULO – Charles Darwin torna-se cada vez mais atual no conhecimento da aventura humana. Esqueça os postulados reducionistas e racistas que, já na virada do século 19 para o 20, tentaram adaptar achados do naturalista britânico.

É o mecanismo da aleatoriedade, da diversidade e da exposição múltipla aos riscos de um ambiente indômito, imprevisível e mutante que vai se encaixando nas melhores produções das ciências humanas nas últimas décadas. O Nobel ao economista Richard Thaler é um lembrete disso.

Escorre ironia na louvação, da parte da esquerda, aos poderosos disparos de Thaler contra pressupostos ultra-racionalistas de modelos prediletos da economia. A saraivada a que ele se soma atinge também, e no coração, as doutrinas de engenharia social, como o marxismo, que tantos cadáveres e destroços produziram.

Não há “vontade política” capaz de dobrar certas regularidades humanas que nos ajudaram a chegar até aqui. O acaso —não a luta de classes, a genialidade de uns poucos ou qualquer outra engrenagem escondida— é o que movimenta a história.

O sucesso e o fracasso dos agrupamentos humanos são efêmeros, a pensar-se no longo curso do tempo, e reversíveis. Se há algo próximo de uma receita para o progresso, ela está distante dos planos cerebrais que procuram domesticar a complexidade das interações individuais e ambientais a fim de conduzir ao futuro.

O capitalismo, que não foi planejado por ninguém, talvez seja o formato adaptativo mais bem sucedido porque, exercido com razoável grau de liberdade, favorece a diversidade das iniciativas e a exposição a grande espectro de “escolhas” do acaso.

Parte da humanidade, bem sucedida nessa franca abertura ao risco, foi capaz de erigir gigantescos mecanismos de seguro contra os efeitos colaterais da sua opção. Aventurar-se aqui, afinal, é aceitar uma alta cifra de fracassos para um pequeno mas valioso número de sucessos.

Projeção de Potência:

Che Guevara é venerado porque tem sangue verdadeiro para mostrar

joão pereira coutinho – 10/10/2017

 

Che Guevara morreu há 50 anos e ainda há quem lhe conceda o benefício da dúvida. Na semana passada, recebi um convite para um “debate” sobre Guevara e o seu legado. Pensei que era piada. Ainda perguntei: “Vocês querem saber se ele matou muito ou pouco?”.

Ninguém riu. A ideia era mesmo “debater”. Eu estaria entre os “críticos” (muito obrigado) e, do outro lado da mesa, estariam os apologistas. Recusei.

Aliás, quando o assunto são psicopatas, eu recuso sempre —uma questão de respeito pela minha própria sanidade. Nunca me passaria pela cabeça debater seriamente o Holocausto com um negacionista. Por que motivo o comunismo seria diferente? Escutar alguém a defender a União Soviética é tão grotesco como estar na presença de um neonazi a defender Hitler e o Terceiro Reich.

De igual forma, também nunca me passaria pela cabeça convencer terceiros sobre a monstruosidade do nazismo —ou a do comunismo. Como se ainda houvesse dúvidas.

Não há -e, no caso de Guevara, o próprio deixou amplos testemunhos a comprovar a sua excelência. O culto do ódio; a excitação do cheiro a sangue; a necessidade de um revolucionário ser uma “máquina de matar” -o Che não enganava.

E os fuzilamentos, que ele executou ou mandou executar, são ostentados pelo nosso Ernesto como se fossem medalhas na farda de um general. A criminalidade de Che Guevara não é questão de opinião. Isso seria um insulto ao próprio.

Mas há um ponto que me interessa sobre o Che: a sua sobrevivência como símbolo. Atenção: não falo de adolescentes retardados que desconhecem o verdadeiro Che e ostentam na camiseta o retrato que Alberto Korda lhe tirou. A adolescência é uma fase inimputável que, nos piores casos, pode durar uma vida inteira.

Não. Falo dos intelectuais que, conhecendo Che Guevara e o seu “curriculum vitae”, o canonizam sem hesitar. O que leva pessoas inteligentes a aplaudir um criminoso?

O sociólogo Paul Hollander dá uma ajuda no seu “From Benito Mussolini to Hugo Chávez – Intellectuals and a Century of Political Hero Worship”. O título, apesar de longo, é importante.

Em primeiro lugar, porque Hollander não discrimina entre “direita” ou “esquerda”. O totalitarismo só tem um sentido —a sepultura.

Em segundo lugar, porque não é a natureza dos regimes que interessa ao sociólogo; é a devoção dos intelectuais pelos “heróis” revolucionários do século.

No caso de Che, existem explicações históricas —e psicológicas.

As históricas lidam com a Revolução Cubana de 1959, ou seja, três anos depois de Nikita Khrushchev ter denunciado os crimes do camarada Stálin.

A desilusão foi profunda —e, para a “nova esquerda”, a União Soviética deixava de ser o farol da humanidade. Era apenas mais um estado opressor (como os Estados Unidos, claro) que atraiçoara a beleza do ideal marxista.

A partir da década de 1960, os “peregrinos políticos” (expressão de outro livro famoso de Hollander) passaram a ver o Terceiro Mundo —Cuba, China, Vietnã, Nicarágua— como o paladino virginal da libertação do homem. Fidel Castro e o seu ajudante Che Guevara ocuparam os papéis principais como “bons selvagens”.

Mas existe um motivo suplementar para Che palpitar no peito dos intelectuais, escreve Hollander: o fato de ele não ser um intelectual “defeituoso”.

Uma história ajuda a compreender o adjetivo: em 1960, Sartre visitou Cuba e comoveu-se com as confissões de Fidel. “Nunca suportei a injustiça”, disse o Comandante. Sartre concluiu que Fidel entendeu como ninguém “a inanidade das palavras”.

Tradução: não basta falar contra o imperialismo/capitalismo/colonialismo; é preciso agir. Che Guevara, que Sartre batizou como “o mais completo ser humano do nosso tempo”, simboliza essa totalidade. Alguém que não se fica pelas palavras —e passa aos atos. Che Guevara é venerado porque tem sangue verdadeiro para mostrar.

É um erro afirmar que os “intelectuais revolucionários” que admiram Che Guevara continuam a prestar-lhe homenagem apesar da violência e do crime. Pelo contrário: a violência e o crime estão no centro dessa homenagem.
Che sobrevive porque foi capaz de ser o “anjo exterminador” que todos eles sonharam e não conseguiram.

 

Realidade:

O que você perde quando ganha um bebê lindo e maravilhoso

Vera Iaconelli –

Seu bebê nasceu. Ele é lindo e maravilhoso! Então, do que você poderia estar se queixando, afinal? Seguem algumas pistas.

Primeiro, este bebê não é, e nem poderia ser, o bebê que você estava esperando. Porque o bebê que você estava esperando sempre esteve e continuará apenas na sua cabeça. Esqueça o ultrassom 3D mega hiper blaster, imagem não é gente.

Você sonhou com um bebê e nasceu um estranho. Colocar este impostor no lugar do tão sonhado bebê requer um trabalho de luto. Se você acha que luto e nascimento não combinam, não se preocupe, toda nossa cultura insiste em negar os lutos, não é só você. Mas, sim, o luto faz parte do encontro com o recém-nascido. Não há nada de errado aí, só criamos falsas expectativas e quanto antes assumirmos isso, mais fácil será essa inevitável passagem.

Estranhamos o bebê, como nossos pais nos estranharam até, com sorte, se apaixonarem por nós. Não tem mágica. É no cuidado diário, na troca de fralda, na alimentação (por mamadeira ou peito), no olho no olho que o enlace amoroso pode acontecer.

Se você é a mãe biológica e é brasileira, tem quase 60% de chance de estar se recuperando de uma cirurgia (chegando a 80% nas grandes cidades), o que obviamente não combina com a tarefa extenuante de aleitar e passar noites em claro cuidando de um bebê. Esse detalhe tem passado desapercebido quando se discute os escandalosos índices de cesarianas no Brasil. A maioria das mães de bebês brasileiras, no momento mais frágil da maternidade, estão no pós-operatório. Combina?

Em menos de 24 horas você já deve ter desconfiado que para o ser humano, diferentemente dos demais mamíferos, o instinto não é suficiente. Isso quer dizer que, a menos que você tenha tido experiência anterior cuidando de irmãos menores ou filhos anteriores, não há como saber como cuidar de um bebê. E ainda que tenha tido irmãos e filhos, o bebê que nasceu é singular e vai demandar adaptações inéditas.

Mas é claro que você vai procurar ajuda e isso não falta. No entanto, o melhor manual de puericultura está sempre para sair, junto com o próximo iPhone. Então, pegue dicas com quem já fez, faça as adaptações necessárias para você e seu bebê, apele por uma ajuda que respeite suas escolhas. Ensaio e erro aqui são inevitáveis e o bebê dá dicas de que a coisa vai bem ou não, dentro do possível.

Agora você e seu companheiro(a) têm como tarefa comum responsabilizarem-se inteiramente pelo bebê. Se havia uma desigualdade de incumbências entre vocês, esta será a hora da verdade, na qual as diferenças podem incomodar. Prova de fogo que tem levado muitos ao divã e, por vezes, ao divórcio.

Vale lembrar que, se em nossa cultura os meninos são criados sem poder brincar de boneca ou casinha, é fácil constatar o quão desvirilizante pode soar para um homem adulto cuidar de um bebê.

Por outro lado, ainda que se queixem da falta de apoio do companheiro, as mulheres costumam se sentir ameaçadas como mães quando não dão conta sozinhas dos filhos. A ambiguidade é o tom.

A lista é grande e não termina por aqui.

Então o que se perde quando se ganha um bebê? As ilusões, que só atrapalham uma escolha que pode ser maravilhosa, mas nunca fácil.