Bom texto do Coutinho

A política da decência

Antes de saber se é de esquerda ou de direita, pergunte: o que diria minha avó?

João Pereira Coutinho – 19.jun.2018

 

A Bíblia tem as costas largas. Em 1938, depois da infame Noite dos Cristais na Alemanha —uma sucessão de ataques antissemitas que serviram apenas de aperitivo para o Holocausto—, o Reino Unido decidiu agir: era preciso salvar as crianças da Alemanha e do Leste Europeu, permitindo que elas viajassem para Londres para serem acolhidas por famílias inglesas.

Assim foi —e quem assistiu ao documentário “Nos Braços de Estranhos” não esquece: 10 mil terão chegado a Londres entre 1938 e 1939, na esperança de que os pais viessem a seguir.

Não é preciso contar o resto da história. Mas é preciso contar por que motivo os Estados Unidos não abriram as portas com a mesma generosidade: o Congresso não permitiu. Segundo a filosofia triunfante de 1939, separar os filhos dos pais era um ato contrário à Bíblia e às leis de Deus.

Avancemos para 2018. Informa esta Folha que, só entre meados de abril e final de maio, cerca de 2.000 crianças foram separadas dos progenitores, imigrantes ilegais, na fronteira sul dos Estados Unidos.

Para o procurador-geral do país, Jeff Sessions, o procedimento é inteiramente bíblico. Aplicar a lei do Estado é respeitar a vontade de Deus.

Existem duas formas de olhar para o caso. A primeira é vestir a camiseta da pequena política e debater o assunto sob o chicote da ideologia.

Para Trump, a lei foi feita pelos democratas; se os democratas não gostam da lei, devem colaborar com a administração republicana para mudá-la.

Para os democratas, o problema não está na lei; está na “política de imigração” de Trump, que usa a separação forçada como uma dissuasão para imigrantes potenciais.

Não entro no debate. Embora seja inevitável acrescentar que a esmagadora maioria dos juristas norte-americanos nega que a lei, ou qualquer decisão judicial, determine a separação de pais e filhos.

O meu ponto é outro: às vezes, é preciso recuar um passo, abandonar a selvajaria do debate político, só para não perder um certo “sentido de decência”.

Esse “sentido de decência” não vem nos livros ou nos códigos. Não se aprende em universidades ou, Deus me livre, redes sociais.

“Decência” significa apenas termos a capacidade mínima de nos colocarmos no lugar dos outros. Para quê? Para imaginar, através de um exercício de substituição e simpatia, as provações de terceiros (obrigado, Adam Smith).

Esse “sentido de decência” não existiu em 1939 nem existe em 2018. Separar pais e filhos para salvar os filhos era o mal menor em 1939. A atitude correta, lógico, teria sido salvar ambos.

Em 2018, essa separação é o mal maior: se a imigração ilegal é um caso sério, encontrar uma forma legal de deter as famílias, sem as desmembrar, seria o gesto mais decente de acordo com as circunstâncias. Depois, a justiça que fizesse o seu caminho.

Mas não se pense que essa ausência de decência é um exclusivo de Trump. Na Europa, um navio com 629 refugiados, entre os quais mulheres grávidas e crianças, andou a vaguear durante dias pelo mar mediterrânico. Itália fechou as portas ao navio e Espanha, “in extremis”, aceitou o desembarque em Valência.

Longe de mim ignorar o problema do impacto da crise migratória na Europa: não é possível acomodar todo o Oriente Médio no continente e eu sei disso.

De igual forma, esperar que a Itália (e a Grécia, já agora) seja o único destino dos refugiados —Itália recebeu 700 mil desde 2013— é uma receita para o desastre. Ou, melhor dizendo, para a vitória: da extrema direita, obviamente.

Mas, uma vez mais, há um “sentido de decência” que é anterior a qualquer discussão política. Quando existem 629 seres humanos à deriva no Mediterrâneo, o primeiro dever é resgatá-los.

Saber o que fazer com eles; saber quantos podem ficar na Europa; saber quantos representam uma ameaça para a segurança interna; saber quantos devem ser deportados —tudo isso são questões necessárias depois da água, da comida e do abrigo.

Era um personagem de Oscar Wilde quem dizia: as boas maneiras são anteriores à moral.

Adaptando essa máxima à política contemporânea, dominada pelo sectarismo do esgoto virtual, antes de você saber se é de esquerda ou de direita faça uma pergunta mais básica perante qualquer dilema: o que diria a minha avó a respeito?

Isso, claro, se você conheceu sua avó. E se sua avó era uma mulher com maneiras.

 
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Atenção:

Como manter o padrão de vida após a aposentadoria?

Por Consultório financeiro – 18/06/2018

 

Estou com 70 anos e tenho R$ 2 milhões em aplicações. Gasto R$ 20 mil por mês e recebo R$ 1 mil do INSS. Como estou para aposentadoria?

 

Marco Harbich, CFP, responde:

Prezado leitor,

Pelo que entendi, existe uma preocupação acerca da manutenção do padrão de vida durante a aposentadoria. Certamente o valor que você acumulou não é pequeno e precisa ser analisado como pode ser melhor empregado. Afinal, após um longo período na ativa, você merece ter uma melhor qualidade de vida.

Conforme dados do IBGE de 2016, no nascimento, a expectativa de vida do brasileiro é 76 anos. Porém, aos 70 anos, o tempo médio de vida aumenta para 85 anos, pois o brasileiro está vivendo mais e de forma mais saudável.

Pelo exposto no questionamento, você precisa de 1% ao mês para pagar os custos de vida. O cenário atual é de taxa Selic a 6,50% ao ano. Conforme o IBGE, o IPCA está em uma média de 0,23% ao mês. O montante atual renderia mensalmente 0,30% em termos reais, ou seja, além da inflação. Em valores, este recurso teria uma rentabilidade real de R$ 6 mil, o que já faz pensar no planejamento para cortes de gastos.

Como seu objetivo é começar a desfrutar uma merecida aposentadoria, não acho interessante assumir riscos para tentar buscar uma maior rentabilidade. Para que pague os custos totais atuais, a carteira deveria render mensalmente 0,95% (após a inflação e Imposto de Renda), ou seja, 12,01% ao ano, o que seria impossível em um perfil conservador.

Com o montante de R$ 2 milhões, juros a 6,5% ao ano, inflação a 2,68% nos últimos 12 meses e com custo de vida mensal de R$ 20 mil, este recurso duraria 9,92 anos (considerando que recebe R$ 1 mil do INSS e descontando o Imposto de Renda da aplicação). Considerando que você viva até os cem anos, mantendo os parâmetros anteriores, você deverá ter R$ 4,670 milhões. No cenário de você viver até os cem anos e chegar nesta idade com o valor futuro igual a zero, sugiro ajustar o seu orçamento, pois só poderá gastar mensalmente R$ 8.011,95 (já descontada a inflação e Imposto de Renda dos investimentos).

No seu cenário de idade e com a expectativa de aposentadoria, a melhor sugestão é rever todos os seus custos e verificar quais pontos podem ser cortados para que os seus objetivos financeiros sejam atingidos com uma rentabilidade menor e seu dinheiro tenha uma maior longevidade.

Existem muitas maneiras de cortar custos sem perder o padrão de vida, por exemplo: transformar o celular pós pago para pré-pago para que possa limitar os custos; evitar desperdícios em restaurantes; em supermercados, ao invés de fazer a compra para um mês inteiro comprar semanalmente somente o necessário daquela semana; caso faça refeições em restaurantes constantemente, diminuir a frequência; verificar se existe um produto substituto mais barato ao que pretende comprar etc. Contudo, não poderá esquecer que os custos com saúde (farmácia, plano etc.) podem aumentar e isso deverá entrar no fluxo de caixa.

A escolha do ativo a investir é crucial na formação da carteira. Esta definição é oriunda das suas tolerâncias de risco e liquidez. Caso possa deixar uma parte dos recursos sem liquidez, a rentabilidade será maior. Para o seu perfil existem produtos de renda fixa, nos quais podem ser verificadas as melhores rentabilidades, considerando o risco de crédito do emissor. Contudo, não pode esquecer da reserva de emergência, em que aconselha-se deixar aplicado, com liquidez imediata e investimento conservador, o valor equivalente entre 3 e 6 vezes o seu custo de vida mensal para qualquer imprevisto. Neste cenário incerto, é recomendável aumentar a relação para entre 5 e 10 vezes.

Além da aposentadoria, se for o caso, sugiro verificar a sucessão patrimonial com o objetivo de preparar a família para custos com o inventário e impostos de transmissão de bens.

Então, é importante procurar um planejador financeiro certificado para buscar mais instruções sobre qual instituição aplicar, riscos, custos com impostos e operações e realizar acompanhamentos periódicos da carteira para se certificar se os seus objetivos de rentabilidade serão atingidos.

 

Marco Harbich é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros E-mail: marco@marcoharbich.com.br

 

As respostas refletem as opiniões do autor e não do Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: consultóriofinanceiro@planejar.org.br

Vale a leitura:

Todos iguais, tão desiguais

Ideal de autenticidade abraçado por grupos minoritários é falho e excludente

Juliana de Albuquerque – 18.jun.2018

 

Em 1959, Hannah Arendt foi alvo de polêmica ao publicar um artigo sobre Elizabeth Eckford, a adolescente negra cuja foto, no seu primeiro dia de aula, tornou-se ícone do final da política de segregação nas escolas norte-americanas. Na foto, Elizabeth entra no colégio escoltada pela polícia e sob protestos de manifestantes brancos.

Comovida, Arendt escreveu que, independente de raça, nenhuma criança deveria ser obrigada a suportar o ônus de um problema que os adultos não foram capazes de resolver. Arendt ainda protestou que: “… de qualquer forma, a discriminação é um direito social, do mesmo modo que a igualdade é um direito político”.

Segundo Michelle Dean, autora de “Sharp: The Women Who Made an Art of Having an Opinion” (algo como “Sagazes: As Mulheres que Fizeram do Opinar uma Arte”, em tradução livre), Arendt demonstrou não ter conhecimento e vivência suficientes do problema racial norte-americano. No entanto, a autora também comenta que Arendt teria sido motivada a escrever sobre Elizabeth Eckford por motivos nobres; mesmo que se tenha revelado instrumento de uma bondade estrábica.

Assim como Arendt escreveu sobre Elizabeth Eckford, hoje escrevo sobre Fabiana Cozza; também por motivos nobres. Talvez eu seja igualmente acusada de miopia social, mas isto pouco importa. O que as políticas identitárias demonstram no Brasil é que, apesar da boa vontade, somos todos obtusos. A única diferença talvez seja a de que, enquanto uns impõem a miopia como cosmovisão, outros têm o bom senso de duvidar dos próprios sentidos.

Muito me comoveu a carta de renúncia da cantora escolhida para interpretar a sambista Ivone Lara no teatro, na qual se lê: “Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e, numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar ‘branca’ aos olhos de tantos irmãos.”

O protesto de Cozza lembrou-me uma série de outros a que tive acesso para produzir um relatório sobre cristãos novos e judeus retornados, encomendado por um instituto de pesquisa israelense. A acusação de que ela teria a pele muito clara para interpretar Ivone Lara lembrou-me o fato de uma imigrante acusada pelo companheiro de não ser judia o suficiente.

O que mais assusta nessas histórias é o descaso cada vez mais patente pelas narrativas de pessoas que poderiam optar por uma identidade convencional e livre de preconceitos, mas não veem para si outra opção senão abraçar o lado de suas origens que a sociedade enxerga como sendo o mais problemático. Se, ao identificarem-se como negras ou judias, são vítimas de iguais preconceitos, por que será que muitas vezes elas também se sentem vitimadas dentro das suas próprias comunidades?

Em sua carta, Fabiana Cozza escreve que não devemos trazer o racismo para dentro do nosso próprio terreiro. Há de se concordar com Fabiana, cujo comentário reverbera a crítica do poeta Heinrich Heine sobre o judaísmo: talvez os nossos maiores adversários estejam entre nós mesmos.

Hoje muito se comemora o fato de apenas as minorias terem autoridade para decretar quem faz ou deixa de fazer parte dos seus contingentes. O que não se percebe é como o ideal de autenticidade abraçado por grupos minoritários é falho e excludente, muitas vezes sintomático do próprio trauma: acarretando na perpetuação do ciclo de violência moral contra o indivíduo em seu processo de autoconhecimento.

 

Texto interessante:

Tortura de gênero

É isso que estamos a fazer com as crianças hoje: dizer que elas não têm sexo

Luiz Felipe Pondé – 18.jun.2018

 

A lista de torturas praticadas com as crianças ao longo dos séculos é longa. É evidente a vocação que temos para torturá-las, principalmente nas escolas e nas famílias.

Durante muito tempo as torturamos com o inferno, o Diabo. Ajoelhar no milho, ficar de frente para a parede, escrever mil vezes “sou um menino desobediente”. Bullying racial, sexual, comportamental, muitas vezes praticado pelos próprios professores, também sempre fizeram parte dessa longa lista.

E as torturas científicas? A negação do estudo às meninas sob a “teoria científica” de que elas não poderiam se esforçar muito mentalmente porque sua energia era toda gasta no aparelho reprodutivo, me parece, é um exemplo máximo de tortura cientificamente fundamentada.

A maldição do sexo também serviu e serve para muitas torturas. E aí chegamos a um novo tipo de tortura científica. Voltaremos a isso logo, antes um pequeno reparo.

É uma tristeza perceber que as escolas sempre tiveram a tendência de abraçar torturas supostamente científicas. E nada mudou nos últimos tempos.

O que mudou foi o marketing da pedagogia com seu tom humanista, mas ainda assim simpático a muitas modinhas supostamente fundamentadas. Vale dizer que os pais, como sempre, não ficam de fora desse gosto por torturar crianças, principalmente a partir de modas científicas.

Voltemos à maldição do sexo. Talvez nossa época seja vista como a pior em termos de ódio, repressão e negação do sexo que a humanidade já viveu.

Historiadores no futuro chegarão à conclusão de que o período vitoriano foi uma “balada” em comparação aos novos modos de repressão ao sexo que inventamos a partir de supostas teorias que deveriam libertá-lo.

Ao fazer do sexo política, conseguimos o que séculos de cristianismo repressivo não conseguiram: dizer que ele não existe. É isso que estamos a fazer com as crianças: dizer que elas não têm sexo.

A nova teoria “científica” a torturar as crianças, coitadas, é a tal da “neutralidade de gênero”. Teoria tão científica quanto a filosofia de vida dos astros de Hollywood. Acho que deveriam chamá-la de “teoria Jolie”.

Veja bem (antes que inteligentinhos apareçam gritando): claro que as escolas e as famílias devem educar crianças a respeitar orientações sexuais diversas e defender que todos são iguais perante a lei, mas extinguir banheiros de meninos e meninas nas escolas é pura tara sexual reversa.

Nesse sentido, a pedagogia adere ao escândalo da “fluidez de gênero”, modinha a serviço da produção das psicopatologias mais variadas no futuro e de formas distintas de sofrimento para crianças e adolescentes.

Não há muito o que esperar dos pais. Da classe média para cima, todo mundo quer ser “cool” e avançadinho.

Pais obrigam filhos a vestir rosa e filhas, azul, para quebrar a opressão de gênero. Dar bonecas para as meninas é opressão de gênero.

Canais de TV fazem reportagens dizendo que fabricantes de brinquedos sem gênero estão ganhando mais dinheiro do que todo mundo. Os executivos dessas empresas falam como é lindo o trabalho de “conscientização” que estão fazendo.

Não há definitivamente nenhuma justificativa científica para essa parafernália que acomete a sociedade “cool” em que vivemos. Alguém começou a pregar que a neutralidade de gênero é legal, outros começaram a repetir, convidaram “especialistas” para justificar a suposta cientificidade disso e pronto.

Alguém pode perguntar: “Mas é possível que seja feito assim, de forma tão inconsistente?”. A resposta é “sim, é possível”.

Pais e avós se perguntam: “Por que tantos adolescentes estão perdidos sexualmente?”. Psicólogas relatam o número alto de pacientes jovens em crise de identidade sexual.

Às vezes, o simples fato de você ter um filho ou filha que sofre por não ser heterossexual (e devemos, sim, fazer tudo o que for possível para que esse sofrimento cesse, porque ninguém é “obrigado” a ser heterossexual) faz com que você abrace a causa da neutralidade de gênero.

Não se trata de proibir que se use a palavra “gênero” nas escolas. O conceito de gênero descreve a dimensão social das identidades sexuais. E isso é um fato.

Mas daí a torturar as crianças com um “intervencionismo de gênero” nesse processo é absurdo. Ninguém, absolutamente ninguém, tem a mínima ideia de como se “constrói” uma identidade sexual.

Deixe, pelo menos, as crianças em paz. Deixe, pelo menos, seu filho em paz. De onde virá esse gozo com a tortura de gênero?

 

Texto interessante:

O futebol não é para principiantes

Um gênio como Cristiano Ronaldo deve ser também uma madre Teresa de Calcutá?

João Pereira Coutinho – 12.jun.2018

 

1. Lisboa, final da tarde. Entro no táxi, a viagem começa, no rádio alguém fala sobre futebol. Ou sobre Cristiano Ronaldo, o que é a mesma coisa. Eu, para matar o tempo, meto conversa com o motorista (são o melhor dos táxis, as conversas): “Grande gol de bicicleta do Ronaldo ontem. O senhor viu?”

O motorista concede: “Sim, ele é bom”. Pausa. Cinco segundos de pausa. Finalmente, a sentença inevitável: “Mas um pouco de humildade não lhe ficava nada mal”.

É um clássico. Cristiano Ronaldo pode ser o melhor do mundo. Ou um dos melhores, tanto faz, com uma lista de prêmios e feitos só acessível aos extraterrestres.

Mas não existe motorista de táxi ou intelectual sofisticado que não lamente a falta de humildade do craque. Se ele fosse um gênio da bola e, ao mesmo tempo, a última encarnação do Dalai Lama, aí sim, a admiração seria limpa e incondicional.

Não é. É uma admiração magoada, contrariada, condicional: quando Ronaldo faz gol, ele nem deveria festejar. Deveria retirar-se do campo, enojado com seu próprio talento, esbofeteando seu rosto e pedindo desculpa à torcida adversária.

Ponto prévio: nunca perdi muito tempo avaliando a arrogância de Cristiano Ronaldo. Prefiro vê-lo jogar. Mas pergunto de onde vem essa ideia meio retardada de que um gênio deve ser também uma madre Teresa de Calcutá.

Não falo apenas de futebol. Falo de qualquer arte onde existe talento humano. Imagino a cena: alguém termina de ler Kafka. Confessa admiração pela prosa. Depois acrescenta, com cara torcida: “Não sei, não: esse Franz aí me parece pouco social”.

Infelizmente, essas cenas são cada vez mais verossímeis na era do patrulhamento. O assunto pode ser Picasso. Ou Woody Allen. Ou Philip Roth. O ressentido, ainda que admirando a obra dos três, tem a mesma inteligência que o motorista de táxi.

“Picasso era um gênio da pintura, mas ele tratava mal as amantes.” “Woody Allen tem grandes filmes, mas casou com a filha da ex-mulher.” “Philip Roth foi um dos maiores escritores da América, mas seus personagens eram misóginos.”

Existe sempre um “mas” para tornar o gênio menos perfeito. Ou, melhor dizendo, para tornar o gênio mais como nós. As razões são filosóficas: vivemos na “ditadura da igualdade”.

O Estado distribui renda, cotas, direitos e privilégios. Mas o Estado não é capaz de “democratizar” o talento, fazendo de cada cidadão um virtuoso em potência.

O ressentido sabe disso. Ele sabe que nunca jogará como Ronaldo. Nunca pintará como Picasso. Nunca fará filmes como Woody Allen.

Nunca escreverá um romance, um conto, um parágrafo, uma só linha como Philip Roth. O que lhe resta?

Manchar o objeto da sua inveja com defeitos que são exteriores ao essencial. Sim, Kant escreveu a “Crítica da Razão Pura”. Mas ele cheirava mal dos pés e roncava como um suíno.

Ironia: o ressentido, que critica os outros pela falta de humildade e humanidade, não tem a humildade e a humanidade suficientes para simplesmente admirar o que é admirável.

Pelo contrário: se ele pudesse, seria o primeiro a proibir qualquer manifestação de talento por ser ofensiva para gente sem talento.

2. Alguém dizia que o futebol são 11 contra 11 —e no final vence a Alemanha. Lamento. Dessa vez não será assim.

Olhando para o calendário da Copa; aplicando meus conhecimentos profundos sobre futebol; e confessando aqui um interesse especial pelas seleções do Brasil e de Portugal, sinto-me como um daqueles bichos aquáticos que conseguem facilmente traçar o destino das duas equipas antes dos jogos começarem. Sou uma lula profética, uma tartaruga sábia, um bacalhau erudito. Não acredita?

Então pode anotar: Portugal, campeão da Europa, vence o Grupo B e depois elimina a Rússia (oitavas), a Argentina (quartas), a Alemanha (semifinal) e chega na final. E o Brasil?

Boas notícias: o Brasil vence o Grupo E e depois elimina o México (oitavas), a Bélgica (quartas), a Espanha (semifinal) e também chega na final.

Nesse memorável Brasil x Portugal, é evidente que o vencedor será…

[por problemas técnicos não foi possível imprimir o final da coluna; as nossas desculpas ao leitor]

 

Contando com ele:

Deus não é mais brasileiro

Para que alguns continuem ganhando, pessoas de carne e osso terão que pagar

Joel Pinheiro da Fonseca – 12.jun.2018

 

A nossa democracia é laica, mas nossas decisões políticas são tomadas sob a premissa de que Deus é —e sempre será— brasileiro. Queremos benefícios sem custos (e quem em sã consciência não quereria?).

Exigimos que seja assim. Os custos hão de ser empurrados para algum momento indeterminado do futuro e cair sobre as costas de alguma entidade benévola não especificada, sem machucar ninguém. Algum dia alguém dá algum jeito e fica tudo certo. Deus resolve.

A maioria dos brasileiros concorda com o controle de preço do diesel, e quer ainda o controle de preço da gasolina e do gás natural. Só não aceita ter que pagar a conta. A Petrobras que tenha um prejuízo. E quem vai cobri-lo? O Tesouro, essa entidade superior e fonte de riquezas, que não por acaso também recebe letras maiúsculas.

Não é um caso isolado. Da direita à esquerda, todos pedem por mais gasto para suas causas e setores de preferência, sem nunca especificar quem vai ficar com a conta; essa fica para uma figura oculta, alguém com um bolso vasto e generoso. Há quem diga, inclusive, que o aumento de gastos vai aumentar a arrecadação; multiplicação milagrosa dos pães.

Os liberais sabem muito bem que tudo isso se traduz em mais impostos. E por isso a principal bandeira liberal no Brasil, o corte de impostos, ressoa cada vez mais.

Só que um corte de impostos também precisa ser pago, na forma de corte de gastos; e quem vai sofrer esse corte? Isso a gente vê depois, o Estado dá “um jeito” de se tornar mais eficiente. Há quem diga, inclusive, que o corte de impostos vai aumentar a arrecadação; multiplicação milagrosa dos peixes.

Até mesmo nosso controle fiscal opera na lógica do milagre. A Presidência e o Congresso suaram para passar a PEC do Teto em 2016, que impôs limites severos ao gasto público. No agregado. E sobre que área específica cairá o ajuste? Em ninguém; fica nas mãos do alguém difuso que vive num futuro abstrato. É promessa que vale para todos coletivamente e para ninguém em particular.

Essa é a lógica que governa o Brasil desde 1500, consagrada na Constituição de 1988, tão pródiga em direitos para todo mundo. O direito é a manifestação do “fiat” divino entre os homens: uma obrigação incondicional que a realidade —alguém— terá de dar algum jeito de cumprir.

O problema é que acabou o “milagre econômico” —um crescimento acelerado e sem causas conhecidas, que ocorre apesar de todas as deficiências e entraves, esses sim muito bem conhecidos. O Deus parece ter conseguido o green card e nos abandonou.

Na falta de um novo milagre, o juízo final se aproxima. O Estado brasileiro tem mais de 90% de seus gastos engessados. Pelas leis vigentes, não tem espaço para cortar. A população deixou claro que não tolera mais impostos, o que ademais iria sufocar a economia. E seria talvez até mais desastroso acabar com a estabilidade monetária e cobrir o rombo fiscal com a volta da inflação.

O que fazer? Uma alternativa é seguir confiando na intervenção divina até o fim, deixando que o ajuste a deus-dará. A corda estoura para o lado mais fraco e voltamos ao caos primordial. A outra é ser impiedoso e olhar para a realidade com olhos de ateu.

Para que alguns continuem ganhando, pessoas de carne e osso terão que pagar. E aí sim poderemos responder à pergunta que o Brasil é mestre em evitar: quem? O funcionário público ou o desempregado? O estudante ou o aposentado? O pobre ou o rico?

O problema é que para as escamas caírem de nossos olhos também será necessário um milagre…

 

“Quem plantar violência colherá violência”

Fetichizando o povo

O povo é confiável? Não. Se olharmos pra história, a resposta é ambivalente

Luiz Felipe Pondé – 11.jun.2018

 

O que é fetichizar o povo? É assumir que cada passo, cada escarro, cada suspiro, cada berro, cada loja quebrada, cada refrão cantado em jogral, cada polarização das mídias sociais significa algo de sublime.

O fetiche começa com a revolução francesa de 1789 (um “massacre sublime”) e passa pelos movimentos operários do século 19, que Marx (1818-1883) viu de perto.

Esses movimentos garantiram o estado de bem-estar social europeu, às custas, é claro, do resto do mundo, que os europeus exploram até hoje e que não se constitui, “ainda bem”, no mesmo parque temático de direitos que é a Europa ocidental —alguém já viu a Europa querer exportar seu modelo de parque temático para o mundo?

O mais ridículo é que os idiotas da política daqui olham para esse parque temático como algo possível sem homogeneidade étnica (olha só o pau que está rolando por conta dos imigrantes), sem riqueza sobrando (se a Europa ficar pobre vira África), sem imobilidade ascendente na estrutura social (ninguém ganha dinheiro, só os mesmos de sempre), sem portas fechadas aos desgraçados que queriam entrar.

Fetichizar o povo é uma forma de mentalidade hegeliano-marxista diluída. Uma espécie de gozo primitivo narcísico. Um tipo de sentimento oceânico, como diria o velho Freud (1856-1839).

Nesta forma degradada de concepção hegeliano-marxista, existem “forças democráticas” latentes no povo ou forças “isso” e “aquilo” prontas a agir a partir de intenções que tendem a uma organização cada vez mais imanente ao objetivo de justiça cósmico-política.

Nesse delírio, essas forças “querem x”, para isso se “organizam de forma y”. Quando, na verdade, o povo, ou “as massas”, age de modo confuso, impulsivo e, quando articulado, o faz a partir de grupos de comando com agendas próprias, movidas pelos interesses de grupos específicos que pretendem tomar o poder e pronto. E para isso usam da linguagem “o povo quer x”, as “forças democráticas amadurecem no combate” e por aí vai. Os canalhas da política adoram esse tipo de linguagem.

O povo, sim, é capaz de muito. De ficar puto e quebrar tudo a se manifestar de forma (des)organizada a partir das redes ou de grupos de liderança. As pessoas (unidades reais do povo) se movem pelos mais variados interesses, inclusive pela inércia diante dos conflitos que rasgam a sociedade.

O tempo desgasta todas as formas de organização. Era o povo na Bastilha, era o povo gozando com a guilhotina, era o povo nos comícios nazistas, fascistas e comunistas, era o povo na “noite dos cristais” esmagando judeus, era o povo esmagando gente na Guerra Civil americana, era o povo na Guerra Civil russa pós-Revolução Bolchevique, era o povo gozando nos autos de fé na Inquisição, era o povo nos linchamentos, era o povo pedindo intervenção militar na greve dos caminhoneiros.

O povo é um substantivo abstrato na violência qualitativa das teorias políticas e, ao mesmo tempo, um substantivo concreto na violência quantitativa nas ruas.

O povo é confiável? Não. Se olharmos pra história, a resposta é ambivalente. É confiável se você quiser gerar violência social. O sinal positivo ou negativo dessa violência é decidido por quem narrar essa violência.

Alguns setores mais à esquerda reclamaram que faltou ao Brasil a coragem política de usar a crise dos caminhoneiros para derrubar o governo e, quem sabe, instalar um regime de secessão que preparasse formas mais “democráticas” de participação popular, levando à frente o embrião de um regime mais civilizado, sustentado numa vontade popular (ou soberania popular, tratarei aqui como sinônimos).

Esses setores à esquerda são claramente defensores do que se chama “destruição criadora”. “Vontade popular” é outro fetiche nas teorias políticas que veem no povo uma entidade que carrega sobre o si o sinal da graça hegeliano-marxista de evolução política e social.

No meu entendimento primário dessa posição, não a vejo muito distante de meninos esquisitos brincando de Jedis com uma realidade potencialmente violenta, quando o mundo vai às vias do fato. O pecado maior é que são intelectuais públicos irresponsáveis.

Esses Jedis da política projetam sobre a sociedade sua vaidade intelectual.

No primeiro berro, correm para Paris com medo. Dizem que as rupturas políticas podem “ser levadas para o lado do bem”. O sentido verdadeiro dessa frase é “matar as pessoas certas”. Quem plantar violência colherá violência.